II Domingo do Advento – Ano B

Por Mons. Inácio José Schuster

Neste segundo domingo do Advento, eu me aterei à segunda leitura tirada da Segunda Carta atribuída a Pedro. Trata-se do último texto do Novo Testamento a ser escrito: foi redigida, provavelmente, nos primeiros anos do segundo século de nossa era. “Caríssimos – diz-nos ele – deveis saber que mil anos diante do Senhor são como um dia, e um dia como mil anos.” O autor deveria, naquela época, combater o erro daqueles cristãos que, cansados de esperar, imaginavam que a Parusia não viria mais, que O Senhor Jesus não mais se manifestaria e que o Cristianismo, conseqüentemente, dissolver-se-ia na História. Bem, devemos dizer, desde já, que nenhum desses autores imaginou que a História pudesse ainda caminhar dois mil anos; e nenhum de nós espera o fim do mundo para seus próprios dias, ou para muito em breve, antes mesmo de consumar a vida neste mundo. É possível, embora não tenhamos nenhuma certeza, que este fim do mundo ainda demore centenas ou milhares de anos. Mas isto não importa. Importa o seguinte: nós só vivemos uma vida; não existe reencarnação para quem tem fé cristã. Jamais repetiremos esta vida. Existe uma única encarnação, e esta se deu quando fomos concebidos no seio materno. A nossa existência limita-se a setenta, oitenta ou noventa anos, mas, cedo ou tarde, ela termina. Se o final do mundo se prolonga – e nenhum de nós saberá dizer como e quando, se com o fogo ou com o frio – nós podemos dizer que, no dia em que deixarmos de viver para este mundo aqui, encontraremos o nosso fim. Aquele será o meu fim do mundo, aquele será o seu fim do mundo. Nós não nos encaminhamos, no entanto, para o nada ou para o vazio. Nós nos encaminhamos para uma grande plenitude. Deus manifesta-Se e revela-Se a nós, como Aquele que será o nosso futuro, para sempre, e este mundo, embora possa passar por uma grande metamorfose e transformação, pelo fogo ou pelo calor – como diz o texto – ou pelo frio gélido, como falam os cientistas, não interessa muito, isto não modificaria substancialmente a situação; Deus não nos criou para aniquilação. Novos céus e novas terras existirão, qualitativamente diversas deste que nós conhecemos agora e onde reinará a Justiça. E por isso mesmo, acalentados com essa esperança, nós caminhamos apressados em direção a esse fim, iluminados, porém, pela Palavra de Deus.

 

NASCEMOS PORQUE DEUS NÃO PERDEU A ESPERANÇA NA HUMANIDADE
Padre Bantu Mendonça

São Marcos nos apresenta uma novidade como ponto central na história da humanidade e na vida individual de todos os homens: a proclamação de Jesus de Nazaré como o Ungido e Messias por ser Ele o Filho do Deus único e verdadeiro. Essa proclamação é necessária nos dias de hoje até para muitos batizados que vivem de costas a essa realidade. O Antigo Testamento está ligado ao Novo Testamento porque o primeiro é a palavra da esperança e o segundo é o cumprimento dela. Ambos escritos – sob a inspiração divina – se complementam como uma história única em que Deus Todo-Poderoso intervém de modo pessoal. Deus não é somente o providente e diretor, mas Ele também intervém com Sua presença para impedir que tudo acabe em tragédia pelo triunfo do mal. João, no deserto, é uma figura que representa a atualização dos desejos da humanidade: a proximidade de Deus na vida de todos os que não conseguem sair da miséria vivida, quer seja na ordem material, quer na ordem espiritual. O Deus de João Batista é um Deus próximo, amigo e protetor. É o Deus que os profetas anunciaram e que João Batista recorda como eterno aliado para quem optou pelo bem. São Marcos inicia seu Evangelho com as narrativas sobre João Batista e o batismo de Jesus, e o encerra com a narrativa do encontro do túmulo vazio pelas mulheres (o que vem a seguir, em Mc 16,9-20 é consensualmente um acréscimo posterior ao texto original). Marcos segue a trajetória delineada por Pedro, registrada por Lucas em Atos dos Apóstolos, segunda a qual o testemunho de Jesus abrange o período que vai “desde o batismo de Jesus até o dia em que foi arrancado dentre nós” (cf. At 1,22). Posteriormente, Mateus e Lucas elaborarão as narrativas da infância de Cristo, que serão inseridas antes das narrativas sobre João Batista e sobre o batismo do Senhor. Por último, João escreverá seu Evangelho iniciando-o com o Prólogo do Verbo encarnado para, em seguida, narrar os fatos relativos a João Batista. João Batista e Jesus têm íntima relação em seus ministérios. Lucas, de modo especial, destaca essa relação no seu Evangelho, fazendo um expressivo paralelismo nas suas narrativas de infância de João Batista e de Jesus. João Batista era filho de sacerdote, porém, rompe com a tradição sacerdotal e com o Templo de Jerusalém, indo para a periferia (“deserto”) às margens do rio Jordão, pregando a conversão à prática da justiça, por meio da qual os pecados são perdoados. Para o sistema religioso-sacerdotal da época, os pecados só poderiam ser perdoados diante dos sacerdotes no Templo de Jerusalém e diante de ofertas e sacrifícios. João descarta essa doutrina, anunciando que é pela prática da justiça que se supera o pecado. Com a sua pregação ele é visto como o cumprimento da profecia de Isaías, por preparar o caminho de Jesus Cristo. A Igreja toma como modelo de sua pregação neste Advento a mudança de mentalidade, como a que se dá naquele que se arrepende de um desígnio ou plano anterior como também de uma determinação errada ou ainda de uma atuação desastrosa. E as palavras dos antigos profetas indicam o novo caminho a empreender: “Deixai de praticar o mal e aprendei a fazer o bem”. Somente com este propósito poderemos entender no seu verdadeiro significado a visita de Jesus e Seu modelo como homem. Convido-lhe a ser como um menino que, diante do presépio, teve um colóquio com Jesus: – Que gostaria Jesus que eu te desse como presente de aniversário? – Três coisas – disse-lhe Jesus: Dá-me o desenho que fizeste hoje de manhã. – Mas ninguém gostou dele… – Por isso mesmo! Quero que sempre me dês aquilo que os outros não gostam de ti ou que tu mesmo olhas como frustração. Como segundo presente dá-me teu prato. – Mas eu quebrei o prato… – Por isso mesmo! Eu quero tudo que na tua vida está roto e fragmentado. Eu te ajudarei a recompô-lo. E a terceira coisa? Quero, pois, a resposta que deste aos teus pais quando te perguntaram pela quebra do prato. – Mas foi uma mentira! – Por isso mesmo! Eu te mostrarei como a verdade é mais proveitosa do que qualquer mentira, mesmo que nesta última encontres a desculpa que te parece necessária, para evitar que o fizeste por raiva, por pirraça. Gostaria de lembrá-lo de que para Deus nada é impossível. O que o Todo-Poderoso não é capaz de fazer é deixar de amá-lo. A sua vida para Ele tem conserto. Cada criatura, ao nascer, traz a mensagem de que Deus Pai ainda não perdeu a esperança no homem.

 

ESTEJA PREPARADO PARA A VINDA DO SENHOR
Homilia do Cardeal Dom Odilo Scherer no Hosana Brasil 2011

Estamos celebrando o Advento do Senhor, tempo que, na liturgia, é muito breve, mas muito intenso. Ele tem duas dimensões, uma que recordamos com facilidade, pois o Advento nos prepara para o Natal. De fato, neste tempo, nos preparamos para celebrar a solenidade do Natal do Senhor, recordando as promessas de salvação e do envio do Salvador ao mundo. Recordamos a fidelidade de Deus às suas promessas. O Senhor promete e cumpre; Ele já cumpriu a promessa de nos enviar o Salvador e, em cada momento da história a humanidade, somos chamados a acolher novamente o Salvador que veio e vem. Jesus veio para toda a humanidade e nós somos chamados a acolhê-Lo, a “abrir as portas ao Redentor” para que Ele entre em nossa vida. Que Seu Evangelho possa ser a luz que direciona toda a humanidade a viver bem. Assim como ouvimos o convite de Isaías: “Casa de Jacó, vinde todos caminhemos à luz do nosso Deus ”. Casa de Jacó significa o povo de Deus, toda a Igreja. Deixemo-nos guiar por Ele se quisermos que a salvação se realize. A outra dimensão do Advento é a próxima vinda do Salvador. Nós professamos no ‘Creio em Deus Pai’ a vinda gloriosa de Jesus crucificado que vem para julgar os vivos e mortos.  O tempo do Advento nos faz olhar para frente, para que o vai acontecer e nos lembra que vivemos em contínuo advento, ou seja, um tempo constante à espera do Deus que vem. De fato, Deus vem sempre, todos os dias, ao nosso encontro, mas nós precisamos também ir ao encontro d’Ele até o dia de Sua volta. Que nossa vida toda seja uma preparação de caminho ao encontro com o Senhor. Não percamos tempo com comilanças nem bebedeira, que são as ocupações do dia a dia, como se isso fosse o nosso tudo. Neste segundo domingo do Advento, a Palavra de Deus é muito bonita. Na segunda leitura da Carta de São Pedro, o autor responde ao questionamento: “Mas quando Ele virá?”. Já os apóstolos tinham essa preocupação, pois quando sabemos quando será, tudo se arranja. E Jesus respondeu a eles: “Só o Pai do Céu sabe quando vai ser”. Jesus diz que o importante é estarmos sempre preparados. E se alguém pergunta por que Deus não vem logo, Ele nos diz que “não vem logo porque quer que todos se salvem”. Deus tem paciência com todos os pecadores, dando tempo ao tempo. O Senhor dá tempo para que todos nós tenhamos a oportunidade de nos convertermos. É preciso estarmos sempre preparados, sempre no caminho certo. Nós vivemos no tempo do provisório. Tudo passa, porém do Senhor esperamos céus novos e nova terra onde reinará a justiça. No novo céu e na nova terra, onde realmente reina a justiça, é para lá que nós vamos. O Evangelho mostra a pregação de João Batista, que batiza o povo no Rio Jordão.  Uma voz que clama no deserto “Preparai o caminho do Senhor”. O deserto é lugar de prova, de acolher ou não a voz de Deus. João Batista fala ao deserto, onde muitos não querem ouvir. A Igreja, muitas vezes, fala ao deserto, mas fala com fé, sabendo que a Palavra de Deus tem sua força. A palavra do Senhor é consolo tão importante para nós! O Evangelho é uma palavra da misericórdia de Deus. “Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a Vida Eterna” (João 3,16). Como é importante dizer, repetir isso para que ninguém se desespere, mesmo quando estão no fundo do poço, caídos e prostrados, a fim de que tenham coragem de estender sua mão, pois a mão de Deus já está estendida! O Advento é um tempo de reavivar a esperança em Deus, mas também momento de conversão, de voltar-se para o Pai; tempo de nos convertermos, de confirmarmos nossa fé no Senhor. A segunda leitura nos adverte: “ninguém se distraia, que estejamos sempre prontos”. Que este tempo nos faça olhar para a vida toda com muita esperança e confiança em Deus. Nunca percamos de vista a meta de irmos ao encontro do Senhor quando Ele vier. Nossa vida é estarmos sempre prontos, com nossa fé acesa para irmos ao encontro do Senhor quando Ele vier.

 

Neste domingo aparece em grande destaque à figura de São João Batista, apelando à conversão e anunciando a vinda do Senhor: “Arrependei-vos, porque está perto o reino dos Céus”. Quem é João Batista? É um homem de Deus, ou seja, é um homem escolhido por Deus e consagrado a Deus e, como todos os profetas, não fala de si próprio, mas anuncia a mensagem divina: na sua vida, o seu trabalho pessoal dá credibilidade à sua missão. São Mateus diz-nos que João pregava no deserto. As primeiras comunidades cristãs consideravam que o deserto era o local onde vivia o diabo. Viver no deserto era sinal de desejar enfrentar o mal e vencê-lo. Jesus Cristo foi tentado no deserto. A descrição do vestuário de João deixa bem claro que é alguém que vive na miséria e que se alimenta somente daquilo que vai encontrando (gafanhotos e mel silvestre). João é um homem despojado de tudo aquilo que possa dar à vida certo conforto. A sua pregação dirige-se a todos. “Acorria a ele gente de Jerusalém, de toda a Judeia e de toda a região do Jordão”. Duas classes sociais são destacadas no evangelho: os fariseus e os saduceus. Os fariseus representam aquelas pessoas espiritualmente rígidas e conservadoras que impedem qualquer mudança; os saduceus representam aquelas pessoas que vivem preocupadas em preservar a sua condição social, os seus interesses e o seu prestígio. Também os fariseus e os saduceus “vinham ao seu (João) batismo”, mas João sabe bem que tudo é hipocrisia: “Raças de víboras… o machado já está posto à raiz das árvores. Por isso toda a árvore que não dá fruto será cortada e lançada ao fogo”. Neste domingo, o termo e o tema que aparecem nas leituras bíblicas é a conversão. Muitas vezes, considera-se conversão uma mudança de conduta moral individual com a finalidade de serenar a consciência pessoal, minimizando a transcendência social dos comportamentos. A conversão que João Batista prega é uma insistência na proximidade do Reino de Deus: trata-se de abrir um caminho para o Senhor. Converter-se é tornar possível que Deus seja o centro da minha vida. Mais ainda: João Batista fala da conversão da comunidade: é a comunidade que deve “abrir-se” à vontade de Deus, a encontrar-se em Deus: aqui, a responsabilidade é de todos. Trata-se de recuperar os sentimentos que tinha o povo de Israel: “a fé é uma religião histórica que privilegia o acontecimento da aliança como o lugar de encontro entre Deus e os homens”. Para o povo de Israel, conversão é deixar-se conduzir por Deus. Para ele e para nós, conversão é também saber viver comunitariamente, conscientes de que é Deus quem dá o verdadeiro sentido à nossa vida. João Batista anuncia o encontro definitivo de Deus com os homens. Hoje, a grande questão sobre a conversão é esta: como é que sentimos, aumentamos e vivemos o desejo de nos encontrar com Deus? Mas, que devemos esperar do encontro com Deus? O texto de Isaías ajuda-nos a purificar o significado do encontro com Deus. O profeta diz que o Espírito do Senhor é sabedoria, inteligência, conselho, fortaleza, conhecimento e temor de Deus, ou seja, tudo aquilo que nos faz compreender a realidade a partir da verdade de Deus. Cada um destes carismas ajuda o homem a ver a verdade como o Espírito de Deus a vê. É importante deixar claro que somente a experiência espiritual do homem (adorar, rezar, contemplar o mistério de Deus), lhe dá alegria e uma capacidade mística. O Espírito do Senhor dá uma nova dimensão ao conceito de justiça, porque esta se converte em instrumento de defesa do mais fraco e de extermínio dos ímpios. O Espírito do Senhor torna possível o impossível: a harmonia entre o lobo e o cordeiro, a pantera e o cabrito, o bezerro e o leãozinho. Cada conjunto de animais apresentados na primeira leitura representa comportamentos e interesses que aparentemente são incompatíveis: o mais forte e o poderoso renuncia ao seu domínio sobre o mais fraco e coloca-se num plano de igualdade.

 

2º Domingo do Advento Mc 1, 1-8: “Apareceu João no deserto, batizando e pregando um batismo de conversão”
1Princípio da boa nova de Jesus Cristo, Filho de Deus. Conforme está escrito no profeta Isaías: 2Eis que envio o meu anjo diante de ti: ele preparará o teu caminho. 3Uma voz clama no deserto: Traçai o caminho do Senhor, aplanai as suas veredas (Mal 3,1; Is 40,3). 4João Batista apareceu no deserto e pregava um batismo de conversão para a remissão dos pecados. 5E saíam para ir ter com ele toda a Judéia, toda Jerusalém, e eram batizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados. 6João andava vestido de pêlo de camelo e trazia um cinto de couro em volta dos rins, e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre. 7Ele pôs-se a proclamar: “Depois de mim vem outro mais poderoso do que eu, ante o qual não sou digno de me prostrar para desatar-lhe a correia do calçado. 8Eu vos batizei com água; ele, porém, vos batizará no Espírito Santo.”

O Evangelista Marcos põe em relevo que Jesus é o Messias anunciado pelos Profetas e o Filho único do Pai por natureza. Em resumo, podemos dizer que o conteúdo do Evangelho de Marcos será anunciar que Jesus Cristo, é Deus e Homem verdadeiro. A palavra “Evangelho” significa boa nova, que Deus comunica aos homens por meio do Seu Filho. O conteúdo dessa boa nova é em primeiro lugar o próprio Jesus Cristo, as Suas palavras e as Suas obras. Os Apóstolos, escolhidos pelo Senhor para serem fundamento da Sua Igreja, cumpriram o mandato de apresentar a judeus e gentios, por meio da pregação oral, o testemunho do que tinham visto e ouvido: o cumprimento em Jesus Cristo das profecias do Antigo Testamento, a remissão dos pecados, a filiação adotiva e a herança do Céu oferecidas a todos os homens. Por isto, também a pregação apostólica pode chamar-se “evangelho”. Finalmente os evangelistas, movidos pelo Espírito Santo, puseram por escrito parte desta pregação oral. Deste modo, pela Sagrada Escritura e pela Tradição Apostólica, a voz de Cristo perpetua-se por todos os séculos e faz-se ouvir em todas as gerações e em todos os povos. A Igreja, continuadora da missão apostólica, tem a tarefa de dar a conhecer o “evangelho”, e faz muito bem através da Catequese: “O objeto essencial e primordial da catequese é, ‘o Mistério de Cristo’ (…). Trata-se, portanto de descobrir na Pessoa de Cristo o desígnio eterno de Deus que se realiza n’Ele. Trata-se de procurar compreender o significado dos gestos e das palavras de Cristo, os sinais realizados por Ele próprio, pois eles encerram e manifestam ao mesmo tempo o Seu Mistério. Neste sentido, o fim último da catequese é por cada um não só em contato mas em comunhão, em intimidade com Jesus Cristo: só Ele pode conduzir-nos ao amor do Pai no Espírito e tornar-nos participantes da vida da Santíssima Trindade” (Catechesi Tradendae, 5). O Evangelho de São Marcos destaca Isaías, por ser o profeta mais importante no anúncio dos tempos messiânicos. Por esta causa São Jerônimo (†420) chamou a Isaías o Evangelista do Antigo Testamento. Após falarmos da propagação da boa nova, chegamos a figura de São João Batista, que se apresenta diante do povo depois de vários anos passados no deserto. Convida os israelitas a prepararem-se com a penitência para a vinda do Messias. A figura de João assinala a continuidade entre o Antigo e o Novo Testamento: é o último dos Profetas e a primeira das testemunhas de Jesus. A sua dignidade particular consiste em que, enquanto os outros profetas tinham anunciado Cristo desde longe, João Batista indica-O já com o dedo (cf. Jo 1, 29: “No dia seguinte, João viu Jesus que vinha a ele e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”). O batismo do Precursor não era ainda o Batismo cristão, mas um rito de penitência; prefigurava, porém, as disposições para receber o Batismo cristão: fé em Cristo, o Messias, fonte de toda a graça, e afastamento voluntário do pecado. E, todos iam ao encontro de João e “Confessavam os seus pecados”: As pessoas daquela época ao aproximarem-se de João, para serem batizadas, supunham reconhecer a própria condição de pecador, visto que tal rito significava o que o Batista anunciava: o perdão dos pecados pela conversão do coração, e facilitava a remoção dos obstáculos de cada um diante do advento do Reino (Lc 3, 10-14). Esta confissão dos pecados que faziam a João Batista, é diferente do sacramento cristão da Penitência. Não obstante, era agradável a Deus como sinal do arrependimento interior, acompanhado de frutos dignos de penitência (Mt 3,7-10; Lc 3,7-9). No sacramento da penitência, a confissão oral dos pecados será um requisito essencial para receber o perdão de Deus. E concluía o Batista: “Eu vos batizei com água; ele, porém, vos batizará no Espírito Santo”. Refere-se ao Batismo que Cristo vai instituir, e marca a sua diferença com o de João. No Batismo de João só era significada a graça, como nos outros ritos do Antigo Testamento. “Pelo Batismo da Nova Lei os homens são batizados interiormente pelo Espírito Santo, coisa que só Deus faz. Pelo contrário, pelo Batismo de João só era lavado com água o corpo” (Suma Teológica,III, q.38,a.2 ad 1). No Batismo cristão, instituído por Nosso Senhor, o rito batismal não só significa a graça, mas causa-a eficazmente, isto é, confere-a. “O Sacramento do Batismo confere a primeira graça santificante, pela qual é perdoado o pecado original, e também os atuais, se os há; apaga toda a pena por eles devida; imprime o caráter de cristãos; faz-nos filhos de Deus, membros da Igreja e herdeiros da glória, e habilita-nos para receber os outros sacramentos” (Catecismo da Igreja Católica, 1263). Como todas as realidades pertencentes à santificação das almas, os efeitos do Batismo cristão são atribuídos ao Espírito Santo, o “Santificador”. Mas, a Santíssima Trindade dá ao batizado a graça santificante, a graça da justificação, a qual: a) Torna-o capaz de crer em Deus, de esperar nele e de amá-lo através das virtudes teologais; b) Concede-lhe o poder de viver e agir sob a moção do Espírito Santo pelos seus dons; c) Permite-lhe crescer no bem pelas virtudes morais. Assim, todo o organismo da vida sobrenatural do cristão tem a sua raiz no santo batismo (Catecismo da Igreja Católica, 1266).

 

2º DOMINGO DO ADVENTO – ANO B
Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Diocese da Campanha – MG

“Povo de Sião, o Senhor vem para salvar as nações! E, na alegria do vosso coração, soará majestosa a sua voz!” (Is 30,19.30)

Irmãos e irmãs, Caminhamos, na meditação da Sagrada Liturgia, em busca da contemplação, na esperança da salvação. A partir deste segundo domingo do Advento, a perspectiva escatológica de nossa existência é iluminada desde a sua “fonte”, ou seja, a primeira vinda de Cristo. Enquanto no primeiro domingo meditávamos acerca da segunda vinda de Cristo, após um esboço apresentado pelo escritor sagrado de uma visão escatológica do dia de hoje à luz da segunda vinda, nas demais semanas do Advento recordamos e contemplamos o acontecimento definitivo da primeira vinda. Na primeira vinda do Cristo está arraigado o sentido definitivo de nosso existir: é o momento fundador. Jesus Cristo é o início e o fim de toda a existência humana. Jesus Cristo é o alfa e o ômega (Ap 22,13). A chegada deste momento fundador é a grande notícia da História, a boa-nova por excelência. O Evangelho Marcos, cognominado o querigmático, vê como início desta boa-nova o apelo à conversão, lançado por João no Evangelho, realizando plenamente o que Isaías prefigurou quando, pelo fim do exílio babilônico (ano de 535 a.C.), conclamou o povo para preparar um caminho para Deus, que reconduziria os cativos. Era, pois, um apelo à conversão, pois deviam preparar a volta, “voltando” (= convertendo-se) para Deus, quando determinara o fim do castigo (Is 40,2), como ouvimos na primeira leitura. Deus reconduz os cativos. Ele mesmo vai com eles. Como um imperador na entrada gloriosa (parusia), ele se faz preceder pelos frutos de suas conquista: o povo resgatado (40,10). Como um pastor, reúne suas ovelhas. E, com que ternura, Leva os cordeirinhos nos braços e conduz devagarzinho as ovelhas que amamentam! (40,11) Meus irmãos, São Marcos inicia o seu Evangelho(Mc 1,1-8) com a figura da pregação de João Batista, o precursor. Marcos é o único Evangelista que começa a sua pregação já com o tema que se tornará central na pregação de Jesus e dos Apóstolos: a conversão. E uma conversão que está ligada a “Jesus Cristo, Filho de Deus” (Mc 1,1). Tudo se inicia, se desenvolve e tem um fim em Jesus Cristo, o Alfa e o Ômega, o início e o fim de toda a humanidade. São Marcos, em duas palavras, anuncia a origem do Messias: é da terra e tem um nome, Jesus; e é o enviado, o escolhido do Senhor (Cristo) e é mais do que alguém que fala em nome de Deus (=profeta): é o próprio Filho de Deus. Pouco mais à frente, ainda no primeiro capítulo (Mc 1,15), São Marcos diz o porquê devemos nos converter. Devemos nos converter porque é chegado o Reino de Deus, o novo modo de viver, que abrange a criatura humana em toda a sua plenitude e Deus na pessoa de Jesus de Nazaré. Lembramos que Marcos é o primeiro evangelista, é de sua autoria o texto mais antigo acerca da vida, da obra e do mandato de Cristo. O seu Evangelho foi escrito, provavelmente, entre os anos de 65 a 70 da era cristã. Portanto, as mais remotas aspirações do cristianismo nele podemos absorver: a conversão, a caridade, a confiança na Palavra de Deus. Queridos irmãos, A mesma palavra que abre o Evangelho de João é a mesma palavra que abre o Livro de Gênesis: o princípio, o alfa, ou seja, a criação. Nos primeiros versículos do Gênesis, o escritor inspirado relata a criação do mundo; nos primeiros versículos do Evangelho de São Marcos, Jesus Cristo, aquele que veio resgatar a humanidade decaída, desde o Gênesis, é apresentado como a fonte da criação. E ao longo do livro, o querigmático anuncia que Jesus não só está no princípio, mas é também o centro da nova Família de Deus e permanecerá para sempre com ela. Mesmo depois da Ascensão, ele se conservará no meio da comunidade, vivo e atuante. Três vezes o Apocalipse põe na boca de Jesus: “Eu sou o primeiro e o último, sou o princípio e o fim” (cf. 1, 8; 21,6; 22,13). São Marcos nos dá a finalidade da obra de Jesus: Evangelho – palavra que significa a boa-nova, a boa notícia. Jesus – nome hebraico que significa “Deus salva”. Cristo – outra palavra grega, que significa “ungido para ser rei”. Portanto, Filho de Deus é a verdade central do Evangelho, que é, assim digamos, a boa-nova que Jesus trouxe à humanidade e as boas-novas sobre a pessoa e os ensinamentos do Filho de Deus, Salvador e Rei. São Marcos nos ensina que é Deus quem toma a iniciativa da salvação. É Deus quem manda o seu filho Jesus a este mundo. Deus quem manda o mensageiro para anunciar a chegada do Messias. Isso, Deus quer nos mandar um recado especial neste advento: devemos voltar o nosso coração e a nossa mente para Ele, isto é, converter-nos, fazer coincidir os caminhos de Deus com os nossos caminhos; fazer coincidir o coração de Deus com o nosso coração. Que nós tenhamos os nossos sentimentos voltados aos sentimentos da Trindade Santíssima. Caríssimos irmãos, João Batista nos é apresentado hoje como deve ser cada um dos batizados. João Batista está atento aos acontecimentos, abrindo caminhos, endireitando estradas, falando de penitência e conversão, purificando o povo. João Batista é o Símbolo do homem vigilante, é o exemplo de pessoa pronta para receber a boa-nova do Messias. No último profeta encontramos as qualidades de quem está preparado para abraçar os novos tempos, a nova realidade dentro da história da salvação. Antes de tudo, o desprendimento, manifestado na sobriedade do comer e do vestir (Mc 1,6). Em segundo lugar, a humildade diante da pessoa e do mistério de Jesus, manifestada na afirmação de não ser digno de ser seu escravo (Mc 1,7). Desprendimento que é transformado em oferta humilde de entusiasmo pela causa de Jesus (Mt 1,4-5). Assim, o verdadeiro profeta é alguém cheio de Deus e que fala de Deus. João Batista é o último profeta do Antigo Testamento, o primeiro a anunciar a plenitude dos tempos (Gl 4,4) com a chegada do Messias. Ora, João Batista se vestia com pele de camelo, como Elias se vestira (2Rs 1,7). João Batista andava com um cinto de couro à cintura, para demonstrar a sua sobriedade, pureza, sempre aberto à voz do Senhor, pronto para aonde Deus quisesse (Lc 12,35). João comia gafanhotos e mel do campo para significar que se alimentava de alimentos fortes, obtendo saúde necessária para ser o arauto do Salvador. João anunciou: “Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas estradas” (Mc 1,3).  Revestido de autoridade, ou seja, agindo em nome de Deus, o Batista anuncia a derrota do mal e do pecado. O mel, encontrável em abundância no deserto, é o símbolo reluzente da palavra de Deus (Sl 19,11). Ao alimentar-se, portanto, da palavra de Deus, com a força deste alimento, transmite-se ao povo a chegada daquele que é a Palavra de Deus encarnada, a Palavra Eterna, o Cristo. Queridos irmãos, Para aderir, para seguir, para ser discípulo, para ser arauto de Cristo é preciso, primeiro, a confissão dos pecados, a conversão do coração e da vida (Mc 1,4).  Conversão significa mudar por inteiro de direção, mudar o modo de pensar, voltar-se para Deus. A criatura humana saiu pura do sopro de Deus e somente pura pode voltar a ele. Precisamos, com grande entusiasmo, ter coragem e ardor para mudar o comportamento, mudar o modo de pensar e de agir, para dar testemunho do modo de pensar, de comportar-se e de agir de Jesus. Devemos dar uma guinada em nossa vida para que a sua meta seja Jesus Cristo. O batismo para João foi de água, mas ele anunciava que “um batizará com o Espírito Santo” (Mc 1,8). Ele acenava para Jesus, para quem o Espírito Santo, descido em forma visível e perene no dia de Pentecostes, anunciou sua divindade. É o Espírito Santo quem dá a vida sobrenatural a seus fiéis. O batismo, conforme nos ensina o Direito da Igreja, “porta dos sacramentos, em realidade ou ao menos em desejo necessário para a salvação, pelo qual os homens se libertam dos pecados, são de novo gerados como filhos de Deus e incorporados à Igreja, configurados com Cristo por caráter indelével, só se administra validamente pela ablução com água verdadeira, juntamente com a devida forma verbal” (Cânon 849 do Codex Iuris Canonici). Caros irmãos, A Primeira Leitura deste domingo(Is 40,1-5.9-11) aduz que aplainar o caminho para Deus, que reconduzirá o seu povo. Este trecho, chamado de livro da Consolação, simultaneamente com vigor e ternura, o profeta anuncia o perdão do povo – deportado por causa do pecado – e a sua volta do Exílio. A segunda leitura de hoje(2Pd 3,8-14) nos anuncia que os cristãos da primeira geração esperavam uma segunda vinda de cristo para breve. Entretanto, o atraso tornava-se sempre mais notável e o escárnio do mundo sempre mais agressivo. Diante da impaciência e, quem sabe, do desespero e da desistência, que isso gerava, Pedro responde: “Deus tem tempo – ele quer que todos se convertam, para que todos possam participar”. Mas, mesmo assim, ele não desiste de seu projeto, pois ele deseja que tudo esteja em harmonia consigo. Só que ele não quer expurgar os “elementos nocivos” da criação, antes que todos tenham a oportunidade de se converter, isto é, de se tornar participantes da vida em Deus. Mas ele realizará, sem que saibamos o dia e a hora, seu “novo céu e nova terra” (2Pd 3,13) e, então, será bom estarmos de acordo com a nova realidade, pois Deus se volta para nós. Por conseguinte, na esperança da salvação, contribuindo com o projeto de evangelização neste mundo, salvando almas para Nosso Senhor, voltemos para Ele!

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