Solenidade da Imaculada Conceição – 08 de Dezembro

Por Mons. Inácio José Schuster

Evangelho segundo São Lucas 1, 26-38
Ao sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem chamado José, da casa de David; e o nome da virgem era Maria. Ao entrar em casa dela, o anjo disse-lhe: «Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo.» Ao ouvir estas palavras, ela perturbou-se e inquiria de si própria o que significava tal saudação. Disse-lhe o anjo: «Maria, não temas, pois achaste graça diante de Deus. Hás-de conceber no teu seio e dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. Será grande e vai chamar-se Filho do Altíssimo. O Senhor Deus vai dar-lhe o trono de seu pai David, reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim.» Maria disse ao anjo: «Como será isso, se eu não conheço homem?» O anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra. Por isso, aquele que vai nascer é Santo e será chamado Filho de Deus. Também a tua parente Isabel concebeu um filho na sua velhice e já está no sexto mês, ela, a quem chamavam estéril, porque nada é impossível a Deus.» Maria disse, então: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.» E o anjo retirou-se de junto dela.

Hoje, no coração do Advento aos 8 dias de dezembro, celebramos a solenidade da Imaculada Conceição. Na segunda leitura da Liturgia, o autor da carta aos Efésios afirma-nos que Deus nos predestinou, desde toda a eternidade, a sermos santos e imaculados em Sua presença. E quando o livro do Genesis nos diz que criou Adão e de sua costela a companheira Eva, Deus os colocou no Jardim do Éden. Os padres da Igreja interpretaram muito bem este Jardim do Éden; colocou-os no Paraíso, isto é, em Cristo. Adão e Eva foram já pensados por Deus em vista de Cristo para que se realizassem plenamente como homem e mulher em Jesus Cristo e, dessa forma, todos nós somos pensados por Deus em Cristo a sermos santos e imaculados em Sua presença. Mas o que aconteceu com Adão e com Eva, melhor, o que continua a acontecer com todos os seres humanos? Degradaram-se através da tentação e da queda, buscaram outra realização à margem de Cristo. Ocorre que, contudo, não existe tal realização. Ou bem nós nos realizamos em Cristo, isto é, ou nós encetamos o caminho da vida, que é o caminho de Cristo, ou bem nós entramos para desvio e começamos a marchar na direção da morte, isto é, da morte eterna. Eis o drama de toda a humanidade. Hoje, aos 8 dias de dezembro, nós celebramos Aquela que, por graça especial de Deus e em previsão dos méritos de Cristo, pensada ela também desde toda eternidade em Cristo e em vista de Cristo, jamais se separou do Cristo, do qual seria mãe biológica neste mundo. Todos nós, em Adão e Eva, tivemos o pecado aninhado fundo em nossos corações. E temos ambos que fugir, envergonhados um do outro, da presença de Deus. Maria, na sua Imaculada Conceição, não teve jamais que fugir de Deus. Mas o que se contempla hoje em Nossa Senhora?  Sua pureza ilibada, Sua Conceição Imaculada, é o projeto. E Deus continua a tê-lo para com os degradados filhos de Eva, que somos todos nós. Deus não abandonou o Seu projeto e, ainda que nos veja desfigurados pelo pecado, Maria, em sua Imaculada Conceição, é hoje o espelho e ao mesmo tempo o futuro que nos espera, se nós deixarmos Deus trabalhar em nosso coração durante o longo tempo do Advento, que é o tempo de nossa vida que nos separa do encontro definitivo e transformante com Ele.

 

«Salve, ó cheia de graça»
Santo Epifânio de Salamina (? – 403), bispo
Homilia n°5; PG 43, 491.494.502 (a partir da trad. cf Solesmes, Lectionnaire, t. 1, p. 1003)

Que dizer? Que elogio se há-de fazer à Virgem gloriosa e santa? Ela ultrapassa todos os seres, à excepção apenas de Deus; por natureza, é mais bela que os querubins, os serafins e todo o exército dos anjos. Nem as línguas do céu nem as da terra, nem as línguas dos anjos bastam para louvá-la. Virgem bendita, pomba pura, esposa celeste […], templo e trono da divindade! Cristo, sol esplendoroso do céu e da terra, pertence-te. Tu és a nuvem luminosa que fez descer Cristo, Ele o brilho resplandecente que ilumina o mundo. Rejubila, ó cheia de graça, porta do céu; é de ti que fala o autor do Cântico dos Cânticos […] quando exclama: «És horto cerrado, minha irmã, minha esposa, horto cerrado, fonte selada» (4, 12). […] Santa Mãe de Deus, ovelha imaculada, tu trouxeste ao mundo o Cordeiro, Cristo, o Verbo encarnado em ti. […] Que maravilha espantosa nos céus: uma mulher vestida de sol (Ap 12, 1), trazendo nos braços a luz! […] Que maravilha espantosa nos céus: o Senhor dos anjos que Se torna filho da Virgem. Os anjos acusavam Eva; agora, cumulam Maria de glória, porque Ela levantou Eva da queda e abriu as portas do céu a Adão, outrora expulso do Paraíso. […] Imensa é a graça concedida a esta Virgem santa. É por isso que Gabriel a cumprimenta dizendo-lhe: «Rejubila, cheia de graça», resplandecente como o céu. «Rejubila, cheia de graça», Virgem ornada de virtudes sem número. […] «Rejubila, cheia de graça», tu que sacias os sedentos com as doçuras da fonte eterna. Rejubila, Santa Mãe Imaculada, tu que geraste Cristo, que te precede. Rejubila, púrpura real, tu que revestiste o Rei do céu e da terra. Rejubila, livro selado, tu que deste a ler ao mundo o Verbo, o Filho do Pai.

 

A Imaculada Conceição
Padre Pacheco

Hoje, dia de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, queremos lembrar a sua assunção. Sim, pois depois de assunta aos Céus, a Virgem Maria é esta que está junto do Filho, na glória do Pai, intercedendo por cada um de nós. O Papa Pio XII, em 1950, proclama o ‘Dogma da Assunção da Santíssima Virgem Maria’, que consiste no seguinte: “Cumprido o curso de sua vida terrena, Maria foi assunta ao Céu em corpo e alma”. Para dizer que:
1º) Maria tem especial participação na ressurreição do Filho – Ela está unida à glória do Filho;
2º) Ela é a antecipação da sorte dos eleitos – primícias e exemplo da Igreja.
Segundo a Tradição da Igreja, logo após a morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, João a teria levado para morar com ele, assumindo-a como mãe, numa cidade chamada Éfeso. Todavia, antes de Maria vir a morrer – entenda-se esta morte não como consequência do pecado, pois Maria não pecou, o termo “dormição” é para dizer de uma morte diferenciada, não como qualquer morte fruto de pecado; a verdade é esta: Maria morreu – João a teria trazido para Jerusalém. Maria morre e é assunta em Jerusalém; pode-se dizer que ela tenha sido velada no Monte Sião, em Jerusalém, e levada para ser sepultada ao lado do Monte das Oliveiras, túmulo este que se encontra vazio – obviamente – e que pode ser visitado e visto até hoje. A Santíssima Virgem Maria participa da Glória do Filho e é a antecipação da sorte dos eleitos; isso significa que já existe uma criatura ressuscitada no Céu em corpo e alma: Maria. Mas tudo isso devido ao fato de Deus tê-La preparado para esta missão tão linda e particular: ser a Mãe do Filho d’Ele. Todavia, houve uma colaboração e uma correspondência da parte de Nossa Senhora. Para dizer que ela é modelo de como ser Igreja. Queremos, hoje, nos ater à festa que estamos celebrando: a Imaculada Conceição da Santíssima Virgem Maria. O dogma da Imaculada Conceição foi instituído pelo Papa Pio IX no dia 8 de dezembro de 1854, que declara: “Desde a sua concepção, Maria foi preservada do pecado original e de suas conseqüências pelos méritos de Cristo, que se chama redenção preventiva”. O devoto da Virgem Maria é aquele que toma a decisão de viver as virtudes dela. A saber:
Mulher do silêncio: Precisamos aprender com Nossa Senhora a silenciar o nosso coração de todas as agitações do mundo e de todo barulho, fruto das realidades que são contrárias à vontade de Deus na nossa vida. Silenciar é muito mais que não fazer barulho, é ter a coragem de retirar-se constantemente para encontrar-se com o Senhor, e aí escutar o Seu Coração.
Mulher da Palavra: A Santíssima Virgem rezava os salmos; era íntima da Palavra de Deus; prova disso é ela repetir o Cântico de Ana ao se encontrar com Isabel, cântico este lá do Antigo Testamento. Muito mais que o fato de narrar esse cântico, a prova de que a Virgem Maria é a mulher da Palavra é a sua total confiança na misericórdia e na providência de Deus, que regia toda a sua vida e a vida do mundo.
Mulher do serviço: Maria sobe a montanha para visitar a sua parenta Isabel; ela vai à casa da prima não tendo como prioridade tratar de serviços domésticos, mas para levar o mistério até a vida daquela que, com certeza, muitos traumas trazia pelo fato de ter sido estéril por muitos anos – fato tido como sinal de maldição para o povo daquela época e lugar. O mistério em Maria, que é o próprio Deus, a leva até a prima, para que esta possa ser curada. Isso nos diz que devemos ser, efetivamente, portadores e condutores do mistério, que é Deus, para as pessoas, pois Ele se encontra em nós, dentro de nós, desde o momento do nosso batismo.
Mulher da obediência: Maria só tinha olhos para a vontade de Deus, para obedecer ao Todo-Poderoso nas circunstâncias ordinárias da vida; é ela quem diz a cada um de nós – única frase de Maria na Sagrada Escritura, de forma direta: “Fazei tudo o que Ele vos disser.” A Santíssima Virgem Maria é aquela que pode, verdadeiramente, nos ajudar a encher as talhas da nossa vida. Esta água viva é o Espírito Santo, o Esposo de Nossa Senhora. Quando o Espírito Santo percebe uma alma tomada de amor e da presença de Maria – a Sua esposa – o Ele vem e realiza maravilhas nessa alma, pois Ele não pode ficar separado da Sua esposa. As maravilhas que o Espírito realiza em nós nada mais são do que encher as talhas da nossa vida para que Cristo nos transforme neste vinho novo. Viver esta festa de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, ser devoto de Maria por excelência,  é obedecer a Deus e fazer com que Ele seja o Senhor, verdadeiramente, da nossa vida.

 

Lucas, capítulo 1, versículos de 26 a 38.
No coração do Advento, hoje 8 de dezembro, celebramos a Solenidade da Imaculada Conceição. No Brasil é festa de preceito. Esta celebração se solenizou após a proclamação do dogma da Imaculada Conceição, pelo Papa Pio IX, no dia 08 de dezembro de 1854. Na verdade o texto da definição dogmática nos diz que Maria foi concebida sem a mancha do pecado de natureza, o pecado hereditário, o pecado de Adão. Mas nós celebramos muito mais do que uma simples Imaculada Conceição. Nós celebramos hoje toda a pureza de coração da Virgem Maria, que desde a sua mais tenra idade soube agradar a Deus. E agradou a Deus durante toda a sua vida. Nós desconhecemos a vida de Nossa Senhora. Nós desconhecemos sua infância, adolescência, juventude, seu casamento e vida de casada e até sua viuvez. Desconhecemos tudo. Mas uma coisa nos diz hoje a igreja: do primeiro ao último instante Maria outra coisa não fez a não ser agradar imensamente a Deus, seu Criador. Ao celebrarmos a Imaculada Conceição, a Solenidade da pureza de coração, da Virgem Maria, nós hoje, olhamos para aquela que deseja ser nosso modelo e nossa advogada. Sim, porque como ela, nós também, embora manchados pelo pecado, mas, porém lavados e purificados, gostaríamos de viver o resto da nossa existência, numa vida de agrado a Deus. Vida de busca incessante de Sua face, numa vida de ausência do pecado que Lhe ofende a vista. Nós fomos pecadores e podemos ser atualmente pecadores, mas não é esta uma necessidade ontológica do nosso ser; não necessitamos ser pecadores até o final de nossas existências. O sangue de Jesus nos diz o evangelista João, purifica-nos de todo pecado, e uma vida nova nos é proposta. Deus simplesmente fez com que se dissolvessem no Sangue do Cristo os nossos pecados. Doravante nos é restituída a inocência, e nós podemos caminhar e progredir na santidade.  Podemos nos tornar impecáveis. Sim, a Sagrada Escritura fala de cristãos que, com o tempo, tornaram-se praticamente impecáveis. De qualquer modo a impecabilidade é uma graça que já se pode obter ao menos parcialmente neste mundo. Eis o nosso sonho, neste advento: deixar de lado, abandonar definitivamente o pecado, e já viver na terra como os bem-aventurados de Céu.

 

O anjo Gabriel foi enviado não ao santuário de Jerusalém ou Ain-Karem, situados nos impressionantes montes da Judéia, onde nasceu João Batista, mas à simples cidade de Nazaré. Aí ele fala à Virgem Maria, comprometida com José, o que é destacado por Santo Ambrósio (397), ao dizer que “a Escritura tem razão de especificar estas duas coisas: que Maria era comprometida e virgem: Virgem, para que se saiba que não teve relações com um homem; comprometida, a fim de que ela não fosse censurada por ter perdido a sua virgindade… O Senhor preferiu que se duvidasse de seu nascimento, antes que da honra de sua Mãe (…). Ela é o tipo da Igreja, que é imaculada, e, no entanto esposa”. O anjo Gabriel foi enviado por Deus, mostrando pela forma do verbo: foi enviado que a iniciativa vem do mais alto, do Deus altíssimo. Por Ele foi enviado para anunciar a concepção virginal daquele que ama se dizer “enviado do Pai”. O anjo a saúda: Ave, fórmula corrente de saudação, que em seu sentido original expressa um desejo de alegria. E acrescenta: “cheia de graça”, por benevolência divina, pois o sujeito desta ação é Deus e a sua ternura suprema para com a humilde Virgem.  É a eficácia do amor de Deus, do poder transformante do olhar divino, do seu gesto criador. Daí reconhecermos na saudação a verdade: “Tu que eras e permaneces objeto da graça de Deus”.   Maria, concebida sem pecado, a Imaculada Conceição é glorificada junto a seu Filho, Rei e Senhor de todo o Universo. “Convinha que a Mãe virgem, escreve São Amadeus de Lausana (1159), pela honra devida a seu Filho, reinasse primeira na terra e, assim, penetrasse logo gloriosa no céu; convinha que fosse engrandecida aqui, para penetrar logo, cheia de santidade, nas mansões celestiais, indo de virtude em virtude e de glória em glória por obra do Espírito Santo”. Ela é a cheia de graça, em quem não há pecado, toda acolhida do dom de Deus. “Senhor, deixai vossa luz brilhar em meu coração para que eu conheça a alegria e a liberdade de vosso Reino. Enchei-me com vosso Santo Espírito e fortalecei-me para testemunhar a verdade de vosso Evangelho de Jesus Cristo”.

 

Não raro somos ao mesmo tempo “sim” e “não”. Somos “não” quando deixamos o mal dominar nossa existência e somos “sim” quando nos transformamos em instrumentos do bem e do amor! Que possamos sempre repetir com Maria: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38). Meditar e viver este compromisso nos ajudaria a crescer em muito na fidelidade a Palavra de Deus e aos valores do Evangelho. Mesmo que nos custe sacrifícios devemos nos esforçar em viver este compromisso de entrega total a Vontade de Deus. É claro que para saber qual é concretamente a vontade divina precisamos de muito discernimento, e para isto nos ajudará a oração, a meditação e o conselho do irmão mais experiente no caminho do Senhor. Que a Imaculada no ajude a dar nosso “sim” nos momentos mais desafiantes da vida. Quando sentimos desânimo, ou somos oprimidos pela doença, injustiça e perseguição, nos momentos de desencanto, nas horas de incerteza. Na dor da traição ou do abandono dos amigos! Que nossa mãe nos ajude nestas difíceis situações da existência a reafirmarmos na fé, que vale mais seguir a Palavra de Deus. E nos livre da tentação de responder o mal com o mal! Que a Imaculada nos auxilie a cada dia no esforço de sermos uma verdadeira imagem e semelhança de Deus! Homens e mulheres novos, amigos de Deus, fraternos entre nós e construtores de um mundo melhor. Que a Imaculada nos ajude a viver na graça divina, a buscarmos sempre o bem, ela que é a plena da graça, e nos acompanhe na nossa luta contra o pecado em todas as suas formas. Repitamos, pois com Maria muitíssimas vezes: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”. E revalorizemos a importância da atitude de serviço. Ela foi Serva de Deus e dos irmãos, e nós também devemos ser. Aliás, o próprio Jesus disse que veio para servir e dar sua vida, e nos convidou a seguir o seu exemplo. Que nesta semana nos esforcemos por ser o que Deus deseja de nós, buscando sinceramente em nossa vida uma maior comunhão com Ele, abrindo-nos cada vez mais solidariamente aos irmãos e fugindo do pecado que desfigura em nós a imagem de Deus, e que causa tantos transtornos a nossa vivência comunitária. Seria bom que pudéssemos manifestar alguma atitude concreta de serviço aos irmãos”.

Ó Maria Concebida sem Pecado, rogai por nós que recorremos a vós!

 

IMACULADA CONCEIÇÃO DE NOSSA SENHORA
São João Paulo II
Alocução de 27.11.1983
“Rejubila, cheia de graça!”

A alegria é uma componente fundamental do tempo sagrado que começa. O Advento é um tempo de vigilância, de oração, de conversão, para além de uma espera fervorosa e alegre. O motivo é claro: «O Senhor está próximo» (Fl 4, 5).
A primeira palavra dirigida a Maria no Novo Testamento é um convite jubiloso: «Exulta, rejubila!» (Lc 1,28 grego). Tal saudação está ligada à vinda do Salvador. Maria é a primeira a quem é anunciada uma alegria que, em seguida, será proclamada a todo o povo; Maria participa nela de uma forma e numa medida extraordinária. Em Maria, a alegria do antigo Israel concentra-se e encontra a sua plenitude; nela, a felicidade dos tempos messiânicos manifesta-se irrevogavelmente. A alegria da Virgem Maria é, de modo particular, a do «pequeno resto» de Israel (Is 10, 20 sg), dos pobres que esperam a salvação de Deus e que experimentam a sua fidelidade.
Para participarmos também nesta festa, é necessário esperarmos com humildade e acolhermos o Salvador com confiança. «Todos os fiéis que, pela liturgia, vivem o espírito do Advento, considerando o amor inefável com que a Virgem Maria esperava o Filho, serão levados a tomá-la como modelo e a preparar-se para ir ao encontro do Senhor que vem, ‘vigilantes na oração e cheios de alegria’» (Paulo VI, Marialis cultus,4; Missal Romano).

 

SOLENIDADE DA IMACULADA CONCEIÇÃO –  Ano A
Pe. Antonio Luiz Heggendorn, CP.

No primeiro domingo do advento fomos convidados a reviver a experiência do Povo de Israel em sua longa espera pela vinda do Messias. A palavra de ordem era, vigilância! Assim, procurando crescer numa esperança verdadeiramente ativa, e estando atentos as vindas constantes do Senhor, trabalhar pelo progresso do Reino de Deus. No segundo domingo do advento éramos convidados à conversão de nossa mente e de nossas atitudes. Hoje, ainda neste tempo de espera e preparação ao Natal, celebramos a festa da Imaculada Conceição de Nossa Senhora.  Trata-se de olhar para o papel único e insubstituível de Maria na História da salvação. Ela que nasceu sem a mancha do pecado original e que colaborou plenamente com o projeto de Deus. As leituras de hoje nos ajudam a entender o significado do que estamos a comemorar. A primeira leitura (Gn 3, 9-15.20) está situada logo após o pecado da origem. O livro do Gênesis não é um livro de ciência, mas da revelação de Deus e sua mensagem é, portanto religiosa. Logo na primeira narrativa da criação encontramos a igualdade fundamental entre o homem e a mulher quando se diz que Deus criou o homem a sua imagem e semelhança (Gn 1, 27). Na segunda narrativa da criação é destacada a complementaridade entre o homem e a mulher, existem diferenças, mas não para dividir se não para unir (Gn 2, 21 ss). Assim o homem foi criado em comunhão com Deus, em abertura aos demais e como senhor das coisas materiais. Este era o projeto divino. Portanto o ser humano foi criado “imaculado”, isto é sem pecado! Mas o homem preferiu declarar independência diante de Deus, na sua arrogância quis ser igual a Deus. Numa palavra não aceitou a soberania divina e quis ser ele mesmo o senhor de sua vida. Desobedecendo a Deus, acabou rompendo a amizade com Ele. Poeticamente diz o texto que Deus passeava com o homem no Éden, e mesmo depois da ruptura realizada pelo pecado voltou a procurar o homem. Mas agora Adão estava escondido e com medo. Aqui já percebemos algo bem claro, quando pecamos não é Deus que se afasta de nós, mas somos nós que nos escondemos de Deus! E o medo diante de Deus nunca é bom sinal, pois não podemos ter medo de um amigo e muito menos daquele que nos ama como o melhor dos pais. Ao ser interrogado sobre seu ato Adão empurra a culpa para Eva, e de modo indireto para Deus: “A mulher que tu me deste” (Gn 3, 12), pois seria como se quisesse dizer: a culpa foi de Deus por ter lhe dado Eva. Ainda hoje esta atitude de Adão repete se em todos aqueles que colocam em Deus a culpa pelos males que existem no mundo. Quantos culpam Deus pelo nascimento de uma criança defeituosa, pelas doenças, pela violência, etc. Por sua vez a mulher empurra a culpa para a serpente! Isto nos leva a perceber que o pecado não é só uma ruptura com Deus, mas atinge também o relacionamento com os irmãos. O não assumir a responsabilidade do próprio erro, o jogar nos outros a culpa dos próprios defeitos leva freqüentemente a divisões, ódios e agressões. O ser humano ficaria para sempre neste estado de inimizade com Deus e de divisão com os demais? Aí nosso texto apresenta a grande promessa, a boa notícia o que se chama de “Proto-Evangelho” – Deus providenciará a salvação! (Gn 3, 15) A descendência da mulher, isto é seu Filho, vencerá o mal e esmagará a serpente! Como vemos Deus promete que como por um homem e uma mulher, Adão e Eva, entrou no mundo o pecado, no futuro por um novo homem e uma nova mulher (Jesus e Maria) virá a vitória definitiva do bem e a restauração de seu projeto original. Na segunda leitura (Ef 1, 3-6.11-12) o Apóstolo aponta que fomos criados para participar da família de Deus. Diz que somos escolhidos desde a fundação do mundo para sermos santos e irrepreensíveis. Assim devemos nos alegrar porque desde antes da criação do mundo Deus já havia pensado em nós. E o ser humano não é destinado a ruína, mas a vida plena! No fundo Paulo agradece ao Pai, pois por Jesus tivemos a possibilidade de sermos filhos de Deus. A redenção realizada pelo Senhor foi a vitória sobre o mal e a restauração do plano divino sobre o homem.  O ser humano agora pode viver como “imagem e semelhança de Deus” e mais ainda, pode ser seu filho e deve relacionar-se com os demais como irmãos. Bendito seja Deus por esta maravilha proclama Paulo neste texto. É verdade que ainda vemos em nosso mundo muita maldade, fatos tristes e até trágicos, mas somos chamados a “bendizer a Deus” a todo o momento, pois cremos que mesmo do mal produzido pelo homem, e não querido pela vontade de Deus, o Senhor é capaz de tirar um bem!  Mais uma vez somos convidados, a crescer na virtude da esperança colocando nossa confiança nas mãos amorosas de Deus nosso Pai. O Evangelho (Lc 1, 26- 38) de hoje é um texto muito conhecido por todos nós e nos apresenta o convite do Senhor a Virgem Maria. O relato segue um esquema parecido com os anúncios do Velho Testamento do nascimento de grandes líderes que nasceram de mães velhas, ou de pais que não tinham mais fertilidade. Mas existe agora uma enorme diferença, não é uma casada estéril que dá a luz, como a mãe de João Batista, mas uma Virgem. Isto é algo totalmente novo na Escritura Sagrada e não encontramos nada semelhante!   Os caminhos de Deus são mesmo diferentes dos nossos notemos alguns detalhes: O anjo é enviado a Nazaré na Galiléia, um lugar que era mal visto pelos judeus. Naquela época os galileus eram considerados ignorantes e impuros, pois estavam numa proximidade maior com os pagãos. Pode vir algo bom de Nazaré, perguntavam (Jo 1, 46). Ainda hoje encontramos estes preconceitos regionais e muito fortes por vezes. Não é o que acontece quando alguns falam de nosso bom povo nordestino? Quem é chamado? Um homem forte e valente? Não, uma virgem. Naquela época tinha mais valor a mulher casada e mãe de muitos filhos. Era uma vergonha a mulher que não conseguisse casar, e era desprezava a casada estéril.  Na Escritura Jerusalém é chamada de Virgem justamente nos momentos mais terríveis de sua história, quando estava derrotada, destruída ou sem esperança (Jr 31, 4). Pois bem é nesta lógica diferente que Deus inicia o cumprimento daquela promessa feita após a queda original, que meditávamos na primeira leitura de hoje. Ele através do anjo vai convidar Maria para uma missão especialíssima, ser a mãe do Redentor. Ela não é para Deus apenas um instrumento para que o Verbo possa encarnar-se, ela não é como uma mãe de aluguel, mas é uma eleita de Deus! Por isto o anjo a saúda como “cheia de graça”. A Virgem de Nazaré é convocada a uma colaboração consciente e ativa na obra da salvação. É certo que quem traz a salvação é Jesus, mas também é certo que quem nos dá Jesus é Maria! A mensagem central deste texto é sem dúvida a apresentação de Jesus como Filho do Pai, como aquele prometido que veio para nos salvar. Ele reinará para sempre e terá o trono de Davi! Podemos perceber a diferente lógica de Deus, pois naquela época a família de Davi não era nem grande, nem poderosa, mas totalmente decadente! Maria dialoga com o anjo procurando discernir as coisas, pois sabe muito bem que não pode dar a luz um filho se nunca teve relações com algum homem, como aponta a expressão “não conheço homem algum” (Lc 1, 34). O anjo explica a Maria que tudo ocorrerá pelo poder divino. A “sombra” de que fala o texto recorda-nos a “nuvem” que acompanhava o povo de Israel no deserto, e que posteriormente estava sobre a Arca da Aliança. Esta nuvem indica a presença de Deus. Assim Maria é a Nova Arca da Aliança, a antiga continha as tábuas da Lei, a nova traz em si o próprio Filho de Deus. Termina nosso texto apontando que para Deus tudo é possível, é esta sem dúvida para nós mais uma Boa Notícia! Pois mesmo apesar da nudez de nosso ser criatural, de nossas fraquezas e pecados, Deus pode fazer maravilhas se nos abrirmos ao seu amor. Maria então aceita o chamado e se colocada a disposição como a serva do Senhor!  Ofereceu sua pobreza a Deus e sua virgindade tornou-se fecunda.  Na vida de Maria tudo decorre da escolha divina para que ela fosse a mãe do salvador. Esta vocação é só dela e de ninguém mais. Assim o que celebramos hoje é uma conseqüência lógica da chamada “Maternidade Divina”. Ela foi concebida sem o pecado original, é a plena de graça desde o seu nascimento em vista dos méritos da Redenção de Jesus. Ela nasce Imaculada, sem a mancha do pecado da mesma forma que Adão e Eva foram criados imaculados. Mas existe uma enorme diferença: enquanto nossos primeiros pais pecaram e perderam a inocência, Maria não pecou e sempre foi em sua vida um pleno “sim” aos apelos e a vontade de Deus. O “SIM” dado por Maria na anunciação repetiu-se muitas vezes, e consumou-se aos pés da Cruz na entrega de seu Filho pela salvação da humanidade. Maria é desde a sua concepção o que Deus queria que todos os seres humanos fossem: “santos e irrepreensíveis”. Numa palavra, Maria não é deusa, mas a perfeita “imagem e semelhança de Deus”. Pois bem ao contemplarmos Maria, na festa de hoje, primeiramente busquemos em nossa vida viver como ela viveu. Oferecer nossa pobreza a Deus para que dela brote uma grande riqueza. Precisamos ser capazes de assumir nossos compromissos, e responder aos convites que o Senhor nos faz, como verdadeiros servos Dele como nossa mãe o foi. E que possamos dizer sempre “sim” à vontade de Deus em nossa vida. Não raro somos ao mesmo tempo “sim” e “não”. Somos “não” quando deixamos o mal dominar nossa existência e somos “sim” quando nos transformamos em instrumentos do bem e do amor! Que possamos sempre repetir com Maria: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38). Meditar e viver este compromisso nos ajudaria a crescer em muito na fidelidade a Palavra de Deus e aos valores do Evangelho. Mesmo que nos custe sacrifícios devemos nos esforçar em viver este compromisso de entrega total a Vontade de Deus. É claro que para saber qual é concretamente a vontade divina precisamos de muito discernimento, e para isto nos ajudará a oração, a meditação e o conselho do irmão mais experiente no caminho do Senhor. Que a Imaculada no ajude a dar nosso “sim” nos momentos mais desafiantes da vida. Quando sentimos desânimo, ou somos oprimidos pela doença, injustiça e perseguição, nos momentos de desencanto, nas horas de incerteza. Na dor da traição ou do abandono dos amigos! Que nossa mãe nos ajude nestas difíceis situações da existência a reafirmarmos na fé, que vale mais seguir a Palavra de Deus. E nos livre da tentação de responder o mal com o mal! Que a Imaculada nos auxilie a cada dia no esforço de sermos uma verdadeira imagem e semelhança de Deus! Homens e mulheres novos, amigos de Deus, fraternos entre nós e construtores de um mundo melhor. Que a Imaculada nos ajude a viver na graça divina, a buscarmos sempre o bem, ela que é a plena da graça, e nos acompanhe na nossa luta contra o pecado em todas as suas formas. Que nesta semana nos esforcemos por ser o que Deus deseja de nós, buscando sinceramente em nossa vida uma maior comunhão com Ele, abrindo-nos cada vez mais solidariamente aos irmãos e fugindo do pecado que desfigura em nós a imagem de Deus, e que causa tantos transtornos a nossa vivência comunitária. Repitamos, pois com Maria muitíssimas vezes: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”. E revalorizemos a importância da atitude de serviço. Ela foi Serva de Deus e dos irmãos, e nós também devemos ser. Aliás, o próprio Jesus disse que veio para servir e dar sua vida, e nos convidou a seguir o seu exemplo. Seria bom que nesta semana pudéssemos manifestar alguma atitude concreta de serviço aos irmãos. Não nos esqueçamos de que “quem não vive para servir não serve para viver”.

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