Pregações de Advento

São Francisco de Assis “nunca pensou ser chamado para reformar a Igreja”, disse o pregador da casa Pontifícia
Na primeira pregação do Advento, Pe. Raniero Cantalamessa explicou de que forma o patrono da Itália contribuiu para a reforma da Igreja
Por Thácio Lincon Soares de Siqueira

“O propósito destas três meditações do Advento é preparar-nos para o Natal na companhia de Francisco de Assis”, disse Pe. Raniero Cantalamessa, pregador da Casa Pontifícia, na sua primeira pregação de Advento dirigida ao Santo Padre e aos prelados da Cúria na manhã desta sexta-feira. Seguindo o Poverello de Assis Pe. Raniero se aventurou em compreender qual o caminho de santidade de São Francisco, caminho este que foi causa de reforma para a Igreja, e, portanto, saber como nós, hoje, poderíamos fazer o mesmo. Em primeiro lugar o pregador da casa pontifícia destacou que a conversão de Giovanni de Pietro de Bernardone não foi propriamente uma obra pessoal, uma obra fruto do esforço pessoal, mas de Deus. “Francisco não escolheu a pobreza e muito menos o pauperismo; escolheu os pobres!” Porém, a escolha verdadeira não se tratou de “escolher entre riqueza e pobreza, nem entre ricos e pobres”, mas “de escolher entre si mesmo e Deus”. Em definitiva, Francisco não “apaixona-se por uma virtude, nem mesmo pela pobreza; apaixona-se por uma pessoa”, Cristo. E no fundo no fundo, não foi ele que o procurou, mas foi o próprio Cristo que “tinha preparado o seu coração para que a sua liberdade, no momento certo, respondesse à graça”. Na época do santo de Assis – destaca Pe. Raniero – “Todos brandiam contra a Igreja o ideal da pobreza e simplicidade evangélica fazendo disso uma arma polêmica, mais do que um ideal espiritual a ser vivido com humildade, chegando a questionar também o ministério da Igreja, o sacerdócio e o papado”. Francisco, porém, nunca teve a intenção de reformar a Igreja, disse Pe. Raniero. “Ele nunca pensou ser chamado para reformar a Igreja”. E relembrando as famosas palavras do crucifixo da Igreja de São Damião “vai, Francisco, e repara a minha Igreja”, o pregador da casa pontifícia exortou a não tirar conclusões erradas e precipitadas de tais palavras. Porque Francisco mesmo “compreendeu aquelas palavras no sentido bastante modesto de ter que reparar materialmente a igrejinha de São Damião”. Portanto, perguntou-se Pe. Raniero, “Se não quis ser um reformador, o que foi que quis ser e fazer Francisco?”. E respondeu dizendo: “Ele realizou em si a reforma e assim indicou tacitamente à Igreja o único caminho para sair da crise: reaproximar-se do evangelho, reaproximar-se dos homens e especialmente dos humildes e dos pobres.” “Francisco não exortava a fazer “penitências”, mas fazer “penitência” (no singular”!) que, veremos, é totalmente outra coisa.” Portanto, reaproximar a Igreja do povo, sem necessariamente distanciar-se da cultura. “Francisco fez no seu tempo aquilo que no tempo do Concílio Vaticano II tentou-se fazer com o lema: “quebrar as muralhas”: quebrar o isolamento da Igreja, trazê-la de novo para o contato com o povo.” Também “Escolhe ser um iletrado mas não condena a ciência.” A verdadeira reforma da Igreja, destacou o Pe. Raniero citando Yves Congar, é a “que permanece tal e não se transforma em cisma: isto é, a capacidade de não absolutizar a própria intuição, mas permanecer solidário com o todo que é a Igreja”. Imitar Francisco hoje, trazer a sua experiência para nossa época, implica começar como o próprio santo começou, convertendo-se, negando-se, porém não esquecendo-se que “a coisa mais importante é aquela positiva: Se queres seguir-me;” Ou seja, “É o seguir Cristo, possuir Cristo. Dizer não a si mesmo é o meio; dizer sim a Cristo é o fim”. O pregador da casa pontifícia terminou a sua primeira meditação de advento reconhecendo que tudo isso é “Uma meta difícil (eu não falo certamente como quem já a alcançou!), mas a história de Francisco, nos mostra o que pode nascer de uma negação de si feita em resposta à graça.”

 

Pe. Raniero Cantalamessa, OFM Cap.
Primeira pregação de Advento
FRANCISCO DE ASSIS E A REFORMA DA IGREJA POR MEIO DA SANTIDADE

O propósito destas três meditações do Advento é preparar-nos para o Natal na companhia de Francisco de Assis. Dele, nesta primeira meditação, gostaria de destacar a natureza do seu retorno ao Evangelho. O teólogo Yves Congar, em seu estudo sobre “Verdadeira e falsa reforma na Igreja” vê em Francisco o exemplo mais claro de reforma da Igreja pelo caminho da santidade[1]. Gostaríamos de procurar compreender em que consistiu a sua reforma pelo caminho da santidade e o que o seu exemplo implica para cada época da Igreja, inclusive a nossa.

1. A conversão de Francisco
Para entender um pouco da aventura de Francisco é preciso partir da sua conversão. Desse evento existem, nas fontes, diferentes descrições com notáveis diferenças entre si. Felizmente temos uma fonte absolutamente confiável que nos dispensa de escolher entre as várias versões. Temos o mesmo testemunho de Francisco no seu Testamento, a sua ipsissima vox, como se diz das palavras certamente ditas por Cristo no Evangelho. Diz: «O Senhor concedeu a mim, irmão Francisco, que começasse a fazer penitência assim: quando eu estava nos pecados parecia-me muito amargo ver os leprosos: e o próprio Senhor conduziu-me entre eles e fui misericordioso para com eles. E ao afastar-me deles, o que me parecia amargo foi-me trocado por doçura de alma e corpo. E, depois, demorei só um pouco e saí do mundo” » (FF 110). É sobre esse texto que justamente se baseiam os historiadores, mas com um limite intransponível para eles. Os historiadores, mesmo os mais bem intencionados e mais respeitosos com as peculiaridades da vida de Francisco, como era, entre os italianos Raoul Manselli, não conseguem entender o porquê último da sua mudança radical. Detêm-se – e com razão, por causa do seu método – na porta, falando de um “segredo de Francisco”, destinado a permanecer assim para sempre. O que se consegue constatar historicamente é a decisão de Francisco de mudar o seu status social. De pertença à classe superior, que contava na cidade por nobreza e riqueza, ele escolheu colocar-se no extremo oposto, compartilhando a vida dos últimos, daqueles que não eram nada, os assim chamados “menores”, atingidos por todos os tipos de pobreza. Os historiadores justamente insistem no fato de que Francisco não escolheu a pobreza e muito menos o pauperismo; escolheu os pobres! A mudança é motivada mais pelo mandamento; “Ama o teu próximo como a ti mesmo”, que pelo conselho: “Se queres ser perfeito, vai’, vende tudo o que tens e dá aos pobres, depois vem e segue-me”. Era a compaixão pela pobre gente, mais do que a busca da própria perfeição que o movia, a caridade mais do que a pobreza. Tudo isso é verdade , mas ainda assim não toca o fundo do problema. É o efeito da mudança, não a sua causa. A escolha verdadeira é muito mais radical: não se tratou de escolher entre riqueza e pobreza, nem entre ricos e pobres, entre a pertença a uma classe mais do que a outra, mas de escolher entre si mesmo e Deus, entre salvar a própria vida ou perdê-la pelo Evangelho. Houve alguns (por exemplo, em tempos mais recentes, Simone Weil ), que chegaram a Cristo por meio do amor aos pobres e houve outros que chegaram aos pobres partindo do amor por Cristo. Francisco pertence a este segundo grupo. A razão profunda da sua conversão não é de natureza social, mas evangélica. Jesus tinha formulado a lei uma vez por todas com uma das frases mais solenes e mais certamente autênticas do Evangelho: “Se alguém quer vir após mim , negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida a perderá , mas quem perder a sua vida por minha causa a encontrará ” (Mt 16 , 24-25) . Francisco, beijando o leproso, negou-se a si mesmo naquilo que era mais “amargo” e repugnante à sua natureza. Fez violência a si mesmo. O detalhe não escapou ao seu primeiro biógrafo que descreve assim o episódio: “Um dia um leproso parou diante dele: fez violência a si mesmo, aproximou-se dele e o beijou. A partir daquele momento decidiu desprezar-se sempre mais, até que pela misericórdia do Redentor obteve plena vitória”[2]. Francisco não foi voluntariamente aos leprosos, motivado por humana e religiosa compaixão. “O Senhor, escreve, levou-me no meio deles”. É nesse pequeno detalhe que os historiadores não sabem – nem poderiam – dar um juízo, e de fato é a origem de tudo. Jesus tinha preparado o seu coração para que a sua liberdade, no momento certo, respondesse à graça. O sonho de Spoleto tinha servido para isso e a pergunta de se preferia servir o servo ou o patrão, a doença, a prisão em Perugia e aquele mal-estar estranho que não lhe permitia mais encontrar alegria nas diversões e lhe fazia procurar lugares solitários. Embora sem pensar que se tratasse de Jesus em pessoa sob as aparências de um leproso (como mais tarde tentou-se fazer, pensando no caso análogo da vida de São Martinho de Tours[3]), naquele momento o leproso para Francisco representava em todos os aspectos Jesus. Não tinha ele dito: “O fizestes comigo”? Naquele momento escolheu entre si mesmo e Jesus. A conversão de Francisco é da mesma natureza daquela de Paulo. Para Paulo, em um certo momento, aquilo que antes tinha sido “lucro” mudou e tornou-se “perda”, “por amor de Cristo” (Fil 3, 5ss); para Francisco aquilo que tinha sido amargo converteu-se em doçura, também aqui “por Cristo”. Depois deste momento, ambos podem dizer: “Já não sou eu que vivo, mas Cristo vive em mim”. Tudo isso nos obriga a corrigir uma certa imagem de Francisco popularizada pela literatura posterior e aceita por Dante na Divina Comedia. A famosa metáfora das núpcias de Francisco com a Senhora Pobreza que deixou marcas profundas na arte e na poesia franciscanas pode ser enganosa. Não apaixona-se por uma virtude, nem mesmo pela pobreza; apaixona-se por uma pessoa. As núpcias de Francisco foram, como aquelas de outros místicos, um casamento com Cristo. Aos companheiros que lhe perguntavam se ele pretendia ter uma mulher, vendo-o uma noite estranhamente ausente e brilhante, o jovem Francisco respondeu : “Terei a esposa mais nobre e bela que vocês jamais viram”. Esta resposta é muitas vezes mal interpretada. Do contexto aparece claro que a esposa não é a pobreza, mas o tesouro escondido e a pérola preciosa, ou seja, Cristo. “Esposa, comenta Celano que narra o episódio, é a verdadeira religião que ele abraçou; e o reino dos céus é o tesouro escondido que ele procurou”[4]. Francisco não se casou com a pobreza, nem sequer com os pobres; casou-se com Cristo e foi por amor a ele que se casou, por assim dizer “em segundas núpcias” com a Senhora pobreza. Assim será sempre na santidade cristã. Na base do amor pela pobreza e pelos pobres, ou está o amor por Cristo, ou os pobres serão, de um modo ou de outro, instrumentalizados e a pobreza se tornará facilmente um fato polêmico contra a Igreja, ou uma ostentação de maior perfeição com relação a outros na Igreja, como aconteceu, infelizmente, também em alguns dos seguidores do Poverello. Em ambos os casos, faz-se da pobreza a pior forma de riqueza, aquela da própria justiça.

2. Francisco e a reforma da Igreja
Como foi que aconteceu que a partir de um evento tão íntimo e pessoal, como foi a conversão do jovem Francisco, tenha começado um movimento que mudou ao mesmo tempo o rosto da Igreja e teve tanta influência na história, até os nossos dias? É preciso dar uma olhada na situação da época. Na época de Francisco a reforma da Igreja era uma necessidade sentida mais ou menos conscientemente por todos. O corpo da Igreja vivia tensões e lacerações profundas. De um lado estava a Igreja institucional – papa, bispos, alto clero – desgastados pelos seus perenes conflitos e pelas suas alianças muito próximas com o império. Uma Igreja sentida muito distante, envolvida em assuntos muito acima dos interesses do povo. Em seguida, estavam as grandes ordens religiosas, muitas vezes prósperas pela cultura e espiritualidade após as várias reformas do século XI, entre as quais aquela Cisterciense, mas fatalmente identificadas com os grandes proprietários de terras, senhores feudais da época, vizinhos e ao mesmo tempo remotos também eles, por problemas e padrões de vida, do povo comum. No lado oposto havia uma sociedade que começava a emigrar dos campos para as cidades em busca de maior liberdade das várias servidões. Esta parte da sociedade identificava a Igreja com as classes dominantes das quais se sentia a necessidade de libertar-se. Assim, se alinhavam de boa vontade com aqueles que a contradiziam e a combatiam: hereges, grupos radicais e pauperísticos, enquanto simpatizava com o baixo clero, muitas vezes não com a altura espiritual dos prelados, porém mais perto das pessoas. Havia, portanto, fortes tensões que cada um procurava explorar em proveito próprio. A Hierarquia procurava responder a estas tensões melhorando a própria organização e reprimindo os abusos, tanto internamente (luta contra a simonia e concubinato dos padres) quanto externamente na sociedade. Os grupos hostis procuravam, pelo contrário, explodir as tensões, radicalizando o contraste com a Hierarquia dando origem a movimentos mais ou menos cismáticos. Todos brandiam contra a Igreja o ideal da pobreza e simplicidade evangélica fazendo disso uma arma polêmica, mais do que um ideal espiritual a ser vivido com humildade, chegando a questionar também o ministério da Igreja, o sacerdócio e o papado. Estamos acostumados a ver Francisco como o homem providencial que capta essas demandas populares de renovação, as purifica de toda carga polêmica e as traz de volta ou as atua na Igreja em profunda comunhão e submissão a essa. Francisco, portanto, como uma espécie de mediador entre os hereges rebeldes e a Igreja institucional. Em um conhecido manual de história da Igreja é apresentada dessa forma a sua missão: “Já que a riqueza e o poder da Igreja apareciam muitas vezes como uma fonte de graves males e os hereges do tempo a utilizavam como argumento para as principais acusações contra ela, em algumas almas piedosas surgiu o nobre desejo de restaurar a vida pobre de Jesus e da Igreja primitiva, para poder assim mais eficazmente, influenciar no povo com a palavra e o exemplo”[5]. Entre estas almas coloca-se naturalmente em primeiro lugar, juntamente com São Domingos, Francisco de Assis. O historiador protestante Paul Sabatier, embora tão benemérito dos estudos franciscanos, tornou quase canônica entre os historiadores, e não só entre aqueles leigos e protestantes, a tese segundo a qual o cardeal Ugolino (o futuro Papa Gregório IX) teria tido a intenção de captar Francisco para a Cúria, domesticando a carga crítica e revolucionária do seu movimento. Na prática é a tentativa de fazer de Francisco, um precursor de Lutero, ou seja, um reformador pela via de críticas, mais do que da santidade. Não sei se esta intenção possa ser atribuída a algum dos grandes protetores e amigos de Francisco. Parece difícil atribuí-la ao card. Ugolino e menos ainda a Inocêncio III, conhecido pela ação reformadora e o apoio dado às várias formas novas de vida espiritual surgidas em seu tempo, incluído os Frades Menores, os dominicanos, os Humilhados Milaneses. Uma coisa, porém, é absolutamente certa: aquela intenção nunca passou pela mente de Francisco. Ele nunca pensou ser chamado para reformar a Igreja. É preciso ter cuidado para não tirar conclusões erradas das famosas palavras do Crucifixo de São Damião “Vai’, Francisco e repara a minha Igreja que, como vês, está em ruínas”. As fontes mesmas nos asseguram que ele compreendeu aquelas palavras no sentido bastante modesto de ter que reparar materialmente a igrejinha de São Damião. Foram os discípulos e os biógrafos que interpretaram – e, é preciso dizer, não sem razão – aquelas palavras como se referindo à Igreja instituição e não só à Igreja edifício. Ele permaneceu sempre na sua interpretação literal e de fato continuou a reparar outras igrejinhas nos arredores de Assis que estavam em ruínas. Também o sonho em que Inocêncio III teria visto o Poverello sustentar com as suas costas a Igreja de Latrão desmoronando não diz nada de mais. Supondo que o fato seja histórico (um fato análogo também é narrado sobre São Domingos), o sonho foi do papa, não de Francisco! Ele nunca foi visto como o vemos hoje no afresco de Giotto. Isto significa ser reformador pelo caminho da santidade: sê-lo, sem sabê-lo!

3. Francisco e o retorno ao Evangelho
Se não quis ser um reformador, o que foi que quis ser e fazer Francisco? Também aqui temos a sorte de ter o testemunho direto do Santo no seu Testamento: “E depois que o Senhor me deu irmãos , ninguém me mostrou o que eu deveria fazer; mas o mesmo Altíssimo me revelou que eu deveria viver segundo a forma do santo Evangelho. E eu com poucas palavras e simplesmente o fiz escrever, e o senhor Papa mo confirmou”. Fala do momento no qual, durante uma Missa, escutou a passagem do evangelho onde Jesus envia os seus discípulos dizendo: “Enviou-os a pregar o reino de Deus e a curar os enfermos. E disse-lhes: «Nada leveis para o caminho, nem bastão, nem alforje, nem pão, nem dinheiro; tampouco tenhais duas túnicas” (Lc 9, 2-3)[6]. Foi uma revelação impressionante daquelas que orientam toda uma vida. Daquele dia em diante foi clara a sua missão: um retorno simples e radical ao evangelho real, aquele vivido e pregado por Jesus. Restaurar no mundo a forma e o estilo de vida de Jesus e dos apóstolos descrito nos evangelhos. Escrevendo a Regra para os seus frades começará assim: “A regra e a vida dos Frades Menores é esta: observar o santo Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo”. Francisco não teorizou esta sua descoberta, tornando-a o programa para a reforma da Igreja. Ele realizou em si a reforma e assim indicou tacitamente à Igreja o único caminho para sair da crise: reaproximar-se do evangelho, reaproximar-se dos homens e especialmente dos humildes e dos pobres. Este retorno ao Evangelho reflete-se em primeiro lugar na pregação de Francisco. É surpreendente, mas todos notaram: o Poverello fala quase sempre de “fazer penitência”. A partir de então, diz o Celano, com grande fervor e exultação, ele começou a pregar a penitência, edificando todos com a simplicidade de suas palavras e a generosidade de seu coração. Onde quer que fosse, Francisco dizia, recomendava, suplicava que fizessem penitência[7]. O que é que Francisco compreendia com esta palavra que ele trazia tanto no coração? Neste sentido caímos (pelo menos eu caí por muito tempo) em erro. Reduzimos a mensagem de Francisco a uma simples exortação moral, a um bater-se no peito, angustiar-se e mortificar-se para expiar os pecados, enquanto que tem toda a vastidão e o ar do evangelho de Cristo. Francisco não exortava a fazer “penitências”, mas fazer “penitência” (no singular”!) que, veremos, é totalmente outra coisa. O Poverello, exceto nos poucos casos que conhecemos, escrevia em latim. E o que encontramos no texto latino, do Testamento, quando escreve: “O Senhor deu a mim, frade Francisco, começar a fazer penitência assim”? Encontramos a expressão “poenitentiam agere”. Sabe-se que ele amava expressar-se com as mesmas palavras de Jesus. E esta palavra – fazer penitência – é a palavra com a qual Jesus começou a pregar e que repetia em cada cidade e aldeia onde ia: “Depois que João foi preso, veio Jesus para a Galiléia proclamando o Evangelho de Deus: cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1, 15). A palavra que hoje se traduz com “convertei-vos” ou “arrependei-vos”, no texto da Vulgata usado pelo Poverello, soava “poenitemini” e em Atos 2, 37 ainda mais literalmente “poenitentiam agite”, fazei penitência. Francisco nada fez além de relançar o grande apelo à conversão com o qual se abre a pregação de Jesus no Evangelho e aquela dos apóstolos no dia de Pentecostes. O que ele quis dizer com a palavra “conversão” não precisa explicá-lo: sua vida, ele mostrou. Francisco fez no seu tempo aquilo que no tempo do Concílio Vaticano II tentou-se fazer com o lema: “quebrar as muralhas”: quebrar o isolamento da Igreja, trazê-la de novo para o contato com o povo. Um dos fatores de escuridão do evangelho era a transformação da autoridade compreendida como serviço, em autoridade compreendida como poder que tinha produzido infinitos conflitos dentro e fora da Igreja. Francisco, por sua vez, resolve o problema em senso evangélico. Na sua Ordem, novidade absoluta, os superiores se chamarão ministros, ou seja, servos, e todos os outros frades, ou seja, irmãos. Outro muro de separação entre a Igreja e o povo era a ciência e a cultura da qual o clero e os monges tinham o monopólio na prática. Francisco sabe disso e, portanto, assume a posição drástica que sabemos sobre este ponto. Ele não é contrário à ciência-conhecimento, mas à ciência-poder; aquela que favorece aqueles que sabem ler sobre aqueles que não sabem ler e lhes permite comandar com altivez ao irmão: “Traga-me o breviário”. Durante o famoso Capítulo das Esteiras a alguns dos seus irmãos que queriam empurrá-lo a adequar-se à atitude das “ordens” cultas do tempo, respondeu com palavras de fogo que deixaram, lê-se, os frades tomados de temor: “Irmãos, meus irmãos, Deus me chamou para trilhar o caminho da simplicidade e o mostrou para mim. Não quero, portanto que me citem outrsa Regras, nem aquela de Santo Agostinho, nem aquela de São Bernardo ou de São Bento. O Senhor revelou -me ser sua vontade que eu fosse um idiota no mundo: esta é a ciência à qual Deus quer que nos dediquemos! Ele vos confundirá por meio da vossa mesma ciência e sabedoria”[8]. Sempre a mesma atitude coerente. Ele quer para si e para os seus irmãos a mais rígida pobreza, mas na Regra, exorta-os a “não desprezar e a não julgar os homens que vêm vestidos com hábitos finos e coloridos e usar comida e bebida delicadas, mas sim cada um julgue e despreze a si mesmo”[9]. Escolhe ser um iletrado mas não condena a ciência. Uma vez assegurado que a ciência não extinga “o espírito da santa oração e devoção”, será ele mesmo a permitir a frade Antonio de dedicar-se ao ensino da teologia e São Boaventura não pensa que está traindo o espírito do fundador, abrindo a ordem aos estudos nas grandes universidades. Yves Congar vê nisso uma das condições essenciais da “verdadeira reforma” na Igreja, a reforma, ou seja, que permanece tal e não se transforma em cisma: isto é, a capacidade de não absolutizar a própria intuição, mas permanecer solidário com o todo que é a Igreja[10]. A convicção, diz o Papa Francisco, na sua recente Exortação apostólica Fidei gaudium, que “o todo é superior à parte”.

4. Como imitar Francisco
O que diz a nós hoje a experiência de Francisco? O que podemos imitar dele, todos e rápido? Sejam aqueles que Deus chama a reformar a Igreja pelo caminho da santidade, sejam aqueles que se sentem chamados a renová-la pelo caminho da crítica, sejam aqueles que ele mesmo chama a reformá-la pelo caminho do cargo que ocupam?  A mesma coisa com a qual se começou a aventura espiritual de Francisco: a sua conversão do eu a Deus, a sua negação de si. É assim que nascem os verdadeiros reformadores, aqueles que mudam realmente algo na Igreja. Os mortos a si mesmos. Melhor, aqueles que decidem seriamente morrer a si mesmos, porque se trata de uma empresa que dura toda a vida e também além, se, como dizia brincando santa Teresa de Ávila, o nosso amor próprio morre vinte minutos depois de nós. Dizia um santo monge ortodoxo, Silvano do Monte Athos: “Para ser verdadeiramente livres, é necessário começar a ligar a si mesmo”. Homens como estes são livres com a liberdade do Espírito; nada os para e nada os espanta mais. Tornam-se reformadores pelo caminho da santidade, e não somente pelo caminho do ofício. Mas o que significa a proposta de Jesus de negar-se a si mesmo? É ainda possível propô-la a um mundo que fala somente de auto-realização, auto-afirmação? A negação nunca é fim em si mesmo, nem um ideal em si. A coisa mais importante é aquela positiva: Se queres seguir-me; É o seguir Cristo, possuir Cristo. Dizer não a si mesmo é o meio; dizer sim a Cristo é o fim. Paulo a apresenta como uma espécie de lei do espírito: “Se com a ajuda do Espírito fazes morrer as obras da carne, vivereis” (Rom 8, 13). Isso, como se pode ver, é um morrer para viver; é o oposto da visão filosófica que diz que a vida humana é “um viver para morrer” (Heidegger). Trata-se de saber qual fundamento queremos dar à nossa existência: se o nosso “eu” ou “Cristo”; na linguagem de Paulo, se queremos viver “para nós mesmos”, ou “para o Senhor” (cf. 2 Coríntios 5, 15, Rom 14 , 7-8). Viver “para si mesmos” significa viver para a própria comodidade, a própria glória, o próprio progresso; viver “para o Senhor” significa recolocar sempre em primeiro lugar, nas nossas intenções, a glória de Cristo, os interesses do Reino e da Igreja. Cada “não”, pequeno ou grande, falado a si mesmo por amor, é um sim dito a Cristo. Somente deve-se evitar a ilusão. Não se trata de saber tudo sobre a negação cristã, sua beleza e necessidade; trata-se de passar ao ato, de praticá-la. Um grande mestre de espírito da antiguidade dizia: “É possível despedaçar dez vezes a própria vontade em um brevíssimo tempo; e vos digo como. A pessoa está passeando e vê algo; o seu pensamento lhe diz: “Olha lá”, mas ele responde ao seu pensamento: “Não, não olho”, e despedaça assim a própria vontade. Depois encontra outros que estão falando (leia falando mal de alguém) e o seu pensamento lhe diz: “Fale’ também você aquilo que sabe”, e despedaça a sua vontade calando”[11].  Este antigo Padre traz, como se vê, exemplos tirados todos da vida monástica. Mas eles podem ser atualizados e adaptados facilmente para a vida de cada um, clérigos e leigos. Encontros, se não com um leproso como Francisco, com um pobre que você sabe que vai lhe pedir algo; o seu homem velho te empurra a passar do lado oposto do caminho, e você pelo contrário, se faz violência e lhe vai ao encontro, talvez presenteando-lhe somente com uma saudação e um sorriso, se não pode fazer outra coisa. Oferecem a você a ocasião para um lucro ilícito: e você diz não e negou a si mesmo. Foi contestado em uma ideia; toca o ponto sensível, gostaria de responder com força, cala e espera: despedaçou o seu eu. Acredita ter sido passado pra trás, um tratamento, ou um destino não adequado aos seus merecimentos: gostaria de contar para todos, fechando-se em um silêncio cheio de tácita reprovação. Diz não, quebra o silêncio, sorri e reabre o diálogo. Negou a si mesmo e salvou a caridade. E assim por diante. Um sinal que prova uma boa luta contra o próprio eu, é a capacidade ou ao menos o esforço de alegrar-se pelo bem feito ou a promoção recebida de outro, como se acontecesse consigo mesmo:  “Bem aventurado aquele servo – escreve Francisco em uma das suas Admoestações – que não se orgulha pelo bem que o Senhor diz e obra por meio dele, mas sim pelo bem que diz e obra por meio de outro”. Uma meta difícil (eu não falo certamente como quem já a alcançou!), mas a história de Francisco, nos mostra o que pode nascer de uma negação de si feita em resposta à graça. A meta final é poder dizer com Paulo e com Ele: “Não mais eu que vivo, Cristo vive em mim”. E haverá alegria e paz plenas, já sobre esta terra. Francisco, em sua “perfeita alegria”, é um exemplo vivo da “alegria que vem do Evangelho,” do Evangelii gaudium!

Traduzido do original italiano por Thácio Siqueira
[1] Y.Congar, Vera e falsa riforma nella Chiesa,Milano Jaka Book, 1972, p. 194.
[2] Celano, Vita Prima, VII, 17 (FF 348).
[3] Cf. Celano, Vita Seconda, V, 9 (FF 592)
[4] Cf. Celano, Vita prima, III, 7 (FF, 331).
[5] Bihhmeyer – Tuckle, II, p. 239.
[6] Legenda dei tre compagni VIII (FF 1431 s.).
[7] FF, 358; 1436 s.; 1508.
[8] Legenda perugina 114 (FF 1673).
[9] Regola Bollata, cap. II.
[10] Sobre as condições da verdadeira reforma veja Congar, ob. cit. pp. 177 ss.
[11] Doroteo di Gaza, Opere spirituali, I,20 (SCH 92,p.177).

 

Humildade é “fazer-se pequenos, mas por amor, para ‘elevar’ os outros”, disse Pe. Raniero Cantalamessa, O.F.M. Cap
Na sua segunda pregação de advento o Pregador da Casa Pontifícia discorre sobre a virtude da humildade à exemplo de São Francisco de Assis
Por Thácio Lincon Soares de Siqueira

Na manhã desta sexta-feira, na sua segunda pregação de Advento dirigida ao Santo Padre e aos membros da Cúria Romana, Pe. Raniero dirigiu a sua atenção a uma virtude especial que caracterizou toda a vida de São Francisco de Assis, a humildade. “A virtude da humildade tem um estatuto todo especial – disse o pregador da casa pontifícia – tem-na quem pensa que não a tem, não a tem quem pensa tê-la”. Mostra disso acontece em Maria Santíssima, que tinha a humildade em mais alto grau, mas só Deus sabia disso, ela não, disse Cantalamessa. E isso porque o próprio da humildade é que “o seu odor só é percebido por Deus, não por quem o emana.” Humildade, então, não é olhar para si mesmos ou para as próprias misérias; humildade “é olhar para Deus antes que a si mesmo e medir o abismo que separa o finito do infinito”, disse. “Paradoxalmente, porém, o que mais enchia de assombro a alma de Francisco não era a grandeza de Deus, mas a sua humildade”. Francisco, que dava a Deus o título: “Tu es humildade”, “captou uma verdade profundíssima sobre Deus”, que “Deus é humildade porque é amor” e se encarnou. “Diante das criaturas humanas, Deus se encontra desprovido de qualquer capacidade não só coercitiva, mas também defensiva”, disse, afirmando também que “É possível rejeitá-lo, excluí-lo: ele não se defenderá, deixará fazer”. Cristo é, portanto o segundo motor da humildade de Francisco. O homem-Deus que disse: “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração!” (Mt 11, 29). Porém, em que devemos imitar a humildade de Cristo?, perguntou-se o Pregador da Casa Pontifícia. Cristo nunca se reconheceu pecador, muito pelo contrário, se chamou de Mestre e Senhor, disse ser mais do que os maiores profetas. E eis que aqui, diz Pe. Raniero, aprendemos algo novo: “A humildade não consiste principalmente em ser pequenos, porque pode-se ser pequenos, sem ser humildes; não consiste principalmente no sentir-se pequenos” (…) mas no “fazer-se pequenos, e não por alguma necessidade ou utilidade pessoal, mas por amor, para “elevar” os outros”. E “Jesus se fez “pequeno”, como “se fez carne”, ou seja de forma permanente, até o fim. Escolheu pertencer à categoria dos pequenos e dos humildes” para sempre. Então, disse Pe. Cantalamessa, “Esta nova face da humildade é resumida em uma palavra: serviço.”. Algumas considerações práticas sobre a virtude da humildade Pe. Raniero disse que o considerar-se o mais vil e desprezível deve passar primeiro pelo ser considerado pelos demais dessa forma, assim como Francisco, que primeiro foi ridicularizado por amigos e familiares e considerado como “um ingrato, um fanático, alguém que nunca teria feito nada de bom na vida”. O motivo disso é que pretender lutar sozinho contra o orgulho “é como usar o próprio braço para punir a si mesmo: realmente nunca se fará mal.” Pe. Raniero assegurou que a luta contra o orgulho é algo de toda a vida. “O orgulho é capaz de alimentar-se tanto do mal quanto do bem; porém, ao contrário do que acontece com todos os outros vícios, o bem, não o mal, é o terreno de cultivo preferido deste terrível “vírus”.” Finalizando as suas reflexões, disse o Pregador da Casa Pontifícia, que a humildade não é só uma virtude privada, mas também da Igreja como instituição e povo de Deus. E “é com essa, melhor do que com qualquer apologética, que se acalmam as hostilidades e os prejuízos contra ela e se abre o caminho para a aceitação do Evangelho”.

 

Texto completo da segunda pregação de Advento do Pe. Raniero Cantalamessa, OFM Cap.
O Frei Capuchinho, Raniero Cantalamessa fala sobre a humildade como verdade e como serviço em Francisco de Assis.

1. Humildade objetiva e humildade subjetiva
Francisco de Assis, vimos na última pregação, é a prova viva de que a reforma mais útil para a Igreja é aquela pelo caminho da santidade, que consiste cada vez em um corajoso retorno ao Evangelho e que deve começar a partir de si mesmos. Nesta segunda meditação gostaria de aprofundar um aspecto do retorno ao Evangelho, uma virtude de Francisco. De acordo com Dante Alighieri, toda a glória de Francisco depende do “seu ter-se feito humilde[1]”, ou seja, da sua humildade. Mas, em que consistiu a proverbial humildade de São Francisco? Em todas as línguas pelas quais a Bíblia passou para chegar até nós, ou seja, em hebraico, grego, latim e italiano, a palavra “humildade” tem dois significados básicos: um objetivo que indica mesquinhez, pequenez ou miséria de fato e um subjetivo que indica o sentimento e o reconhecimento que se tem da própria pequenez. Este último é o que entendemos por virtude da humildade. Quando Maria diz no Magnificat: “Olhou para a humildade (tapeinosis) da sua serva”, entende a humildade no sentido objetivo, não subjetivo! Por isso muito apropriadamente em diferentes idiomas, por exemplo, em alemão, a palavra é traduzida como “pequenez” (Niedrigkeit). Como se pode imaginar, além do mais, que Maria exalte a sua humildade e atribua a essa a escolha de Deus, sem, com isso mesmo, destruir a humildade de Maria? No entanto, às vezes, se escreveu imprudentemente que em Maria não se reconhece nenhuma outra virtude a não ser aquela da humildade, como se, de tal forma, se fizesse uma grande honra, e não pelo contrário um grande erro, com tal virtude. A virtude da humildade tem um estatuto todo especial: a tem quem pensa que não a tem, não a tem quem pensa tê-la. Só Jesus pode declarar-se “humilde de coração” e sê-lo realmente; esta, veremos, é a característica única e irrepetível da humildade do homem-Deus. Maria não tinha, portanto, a virtude da humildade? Claro que tinha e no mais alto grau, mas só Deus sabia isso, ela não. Só este fato, de fato, constitui mérito incomparável da verdadeira humildade: que o seu odor só é percebido por Deus, não por quem o emana. São Bernardo escreve: “O verdadeiro humilde quer ser considerado desprezível, não proclamado humilde”.[2] A humildade de Francisco se coloca nesta linha. O Florilégio nos mostra um episódio significativo a este respeito e, no fundo, certamente histórico. Um dia, voltando S. Francisco de orar no bosque, e ao sair do bosque, o dito Frei Masseo quis experimentar-lhe a humildade; foi-lhe ao encontro e, a modo de gracejo, disse: “Por que a ti? Por que a ti? Por que a ti?” S. Francisco respondeu: “Que queres dizer?” Disse Frei Masseo: “Por que todo o mundo anda atrás de ti e toda a gente parece que deseja ver-te e ouvir-te e obedecer-te? Não és homem belo de corpo, não és de grande ciência, não és nobre: donde vem, pois, que todo o mundo anda atrás de ti?” Ouvindo isto, S. Francisco, todo jubiloso em espírito, levantando a face para o céu por grande espaço de tempo, esteve com a mente enlevada em Deus; e depois, voltando a si, ajoelhou-se e louvou e deu graças a Deus; e depois, com grande fervor de espírito, voltou-se para Frei Masseo e disse: “Queres saber por que a mim? Queres saber por que a mim? Queres saber por que todo o mundo anda atrás de mim? Isto recebi dos olhos de Deus altíssimo, os quais em cada lugar contemplam os bons e os maus: porque aqueles olhos santíssimos não encontraram entre os pecadores nenhum mais vil nem mais insuficiente nem maior pecador do que eu;[3]”

2. A humildade como verdade
A humildade de Francisco tem duas fontes de iluminação, uma de natureza teológica e uma de natureza cristológica. Reflitamos na primeira. Na Bíblia encontramos atos de humildade que não partem do homem, da consideração da própria miséria ou do próprio pecado, mas têm como única razão Deus e a sua santidade. Tal é exclamação de Isaías: “sou um homem de lábios impuros”, de frente à súbita manifestação da glória e da santidade de Deus no templo (Is 6, 5 s); tal é também o grito de Pedro depois da pesca milagrosa: “Afasta-te de mim, que sou um pecador!” (Lc 5, 8). Temos diante de nós a humildade essencial, aquela da criatura que toma consciência de si na presença de Deus. Enquanto a pessoa se comparar consigo mesma, com os outros ou com a sociedade, nunca terá a ideia exata do que ela é; falta-lhe a medida. “Que acento infinito, escreveu Kierkegaard, coloca-se no eu quando tem como medida Deus![4]” Francisco teve de modo eminente esta humildade. Uma máxima que repetia muito era: “O que um homem é diante de Deus, assim é, e nada mais[5]”.  O Florilégio narra que em uma noite, o irmão Leão quis espiar de longe o que fazia Francisco durante a sua oração noturna no bosque da Verna e de longe o ouvia murmurar por muito tempo algumas palavras. No dia seguinte o santo o chamou e, depois de tê-lo amavelmente repreendido por ter desobedecido sua ordem, revelou-lhe o conteúdo de sua oração : “Sabe, frei ovelhinha de Jesus Cristo, que quando eu dizia as palavras que ouviste estavam sendo mostrados a minha alma dois lumes: um da notícia e conhecimento de mim mesmo, o outro da notícia e conhecimento do Criador. Quando eu dizia: Quem és tu, ó dulcíssimo Deus meu? eu estava em lume de contemplação, em que via o abismo da infinita bondade, sabedoria e poder de Deus. E quando eu dizia: Quem sou eu? estava em um lume de contemplação em que via a profundeza lamentável de minha vileza e miséria[6]” Era aquilo que Santo Agostinho pedia a Deus e que considerava a totalidade de toda a sabedoria: “Noverim me, noverim te. Que eu conheça a mim e que eu conheça a ti; que eu me conheça para humilhar-me e que eu conheça a ti para amar-te[7]”. O episódio de Frei Leão foi certamente embelezado, como sempre no Florilégio, mas o conteúdo corresponde perfeitamente à ideia que Francisco tinha de si e de Deus. Prova disso é o começo do Cântico das criaturas com a distância infinita que coloca entre Deus “altíssimo, onipotente, bom Senhor”, a quem deve-se o louvor, a glória, a honra e a benção”, e o mísero mortal que não é digno nem sequer de “mencionar”, isto é, pronunciar, o seu nome. Altíssimo, onipotente, bom Senhor , Teus são o louvor, a glória, a honra e toda a bênção. Só a ti, altíssimo, são devidos; E homem algum é digno de te mencionar. Com esta luz, que eu chamei teológica, a humildade nos aparece essencialmente como verdade. “Me perguntava um dia, escreve Santa Teresa d’Avila, por qual motivo o Senhor ama tanto a humildade e veio-me à mente, de repente, sem nenhuma reflexão minha, que deve ser assim porque ele é a mais alta Verdade e a humildade é verdade[8]”. É uma luz que não humilha, mas pelo contrário dá alegria imensa e exalta. Ser humildes de fato não significa ser infelizes consigo e nem sequer reconhecer a própria miséria, nem, de alguma forma, a própria pequenez. É olhar para Deus antes que a si mesmo e medir o abismo que separa o finito do infinito. Quanto mais se percebe isso, mais se torna humilde. Então começa-se até mesmo a alegrar-se do próprio nada, porque é graças a ele que é possível oferecer a Deus um rosto cuja pequenez e cuja miséria cativou o coração da Santíssima Trindade desde toda a eternidade . Um grande discípula do Poverello, que o Papa Francisco proclamou santa há pouco tempo, Angela da Foligno, perto da morte, exclamou: “Oh, nada desconhecido, oh nada desconhecido! A alma não pode ter melhor visão neste mundo do que contemplar o próprio nada e morar nele como na cela de uma prisão[9]”. “Há um segredo neste conselho, uma verdade que se experimenta provando. Descobre-se então que existe realmente esta cela e que é possível entrar realmente cada vez que se queira. Ela consiste no calmo e tranquilo sentimento de ser um nada diante de Deus, mas um nada amado por ele! Quando se está dentro da cela, desta prisão luminosa, não se vêm mais os defeitos do próximo, ou se vêm em um outra luz. Compreende-se que é possível, com a graça e com o exercício, realizar o que disse o Apóstolo e que parece, à primeira vista, excessivo, isto é, “considerar todos os outros superiores a si” (cf. Fl 2, 3), ou pelo menos se entende como isso possa ter sido possível aos santos. Fechar-se naquela prisão é muito diferente de fechar-se em si mesmos; é, pelo contrário, abrir-se aos outros, ao ser, à objetividade das coisas. O contrário daquilo que sempre pensaram os inimigos da humildade cristã. É fechar-se ao egoísmo, não no egoísmo. É a vitória sobre um dos males que também a moderna psicologia julga funesta para a pessoa humana: o narcisismo. Naquela cela, além do mais, não penetra o inimigo. Um dia, Antônio, o Grande teve uma visão; viu, em um instante, todos os infinitos laços do inimigo estendidos pela terra e disse gemendo: “Quem poderá portanto evitar todos estes laços?” e respondeu-lhe uma voz: “Antônio, a humildade![10]” “Nada, escreve o autor da Imitação de Cristo, conseguirá fazer ensoberbecer aquele que está firmemente fixado em Deus[11]”

3. Humildade como serviço de amor
Falamos da humildade como verdade da criatura diante de Deus. Paradoxalmente, porém, o que mais enchia de assombro a alma de Francisco não era a grandeza de Deus, mas a sua humildade. Nos Louvores de Deus altíssimo que se conservam escritos com sua caligrafia em Assis, entre as perfeições de Deus – “Tu és Santo. Tu és Forte. Tu és Trino e Uno. Tu és Amor, Caridade. Tu és Sabedoria…” – a um certo ponto, Francisco insere um incomum: “Tu és humildade!” Não é um título colocado ali por engano! . Francisco captou uma verdade profundíssima sobre Deus que deveria também maravilhar-nos. Deus é humildade porque é amor. Diante das criaturas humanas, Deus se encontra desprovido de qualquer capacidade não só coercitiva, mas também defensiva. Se os seres humanos escolhem, como fizeram, recusar o seu amor, ele não pode intervir com autoridade para impor-se. Não pode fazer outra coisa além de respeitar a livre escolha dos homens. É possível rejeitá-lo, excluí-lo: ele não se defenderá, deixará fazer. Ou melhor, a sua maneira de defender-se e de defender os homens contra o seu próprio aniquilamento, será aquela de amar ainda e sempre, eternamente. O amor cria por sua própria natureza dependência e a dependência a humildade. Assim é também, misteriosamente, em Deus. O amor fornece, portanto, a chave para entender a humildade de Deus: é preciso pouco poder para se mostrar, é preciso muito mais, porém, para se esconder, para desaparecer. Deus é esta força ilimitada de escondimento de si e como tal se revela na encarnação. Pode ver a manifestação visível da humildade de Deus contemplando Cristo que se coloca de joelhos diante dos seus discípulos para lavar os seus pés – e eram, podemos imaginá-lo, pés sujos -, e ainda mais, quando, reduzido à mais radical impotência na cruz, continua a amar, sem nunca condenar. Francisco captou este nexo estreitíssimo entre a humildade de Deus e a encarnação. Eis algumas das suas fogosas palavras: “Eis que a cada dia ele se humilha, como quando desceu da sede real para o ventre da Virgem; cada dia ele mesmo vem a nós com aparência humilde; cada dia desce do seio do Pai para o altar nas mãos do sacerdote[12]”. “Oh, humildade sublime! Oh, sublimidade humilde, que o Senhor do universo, Deus e Filho de Deus, assim se humilhe ao ponto de esconder-se, para a nossa salvação, sob a pouca aparência de pão! Olhai, irmãos, a humildade de Deus, e abri os vossos corações diante dele[13]”. Descobrimos assim o segundo motor da humildade de Francisco: o exemplo de Cristo. É o mesmo motor que Paulo indicava aos Filipenses quando recomendava-lhes de ter os mesmos sentimentos de Cristo Jesus que  “humilhou-se a si mesmo fazendo-se obediente até a morte” (Fil 2 , 5.8). Antes de Paulo foi o próprio Jesus em pessoa que convidou os discípulos a imitar a sua humildade: “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração!” (Mt 11, 29). Em que, poderíamos perguntar-nos, Jesus nos diz para Imitar a sua humildade? Em que Jesus foi humilde? Percorrendo os Evangelhos, nunca encontramos a menor admissão de culpa nos lábios de Jesus, nem quando conversa com os homens, nem quando conversa com o Pai. Esta – a propósito – é uma das provas mais escondidas, mas também das mais convincentes, da divindade de Cristo e da absoluta unicidade da sua consciência. Em nenhum santo, em nenhum grande da história e em nenhum fundador de religião, se encontra uma tal consciência de inocência. Todos reconhecem, mais ou menos, ter cometido alguns erros e ter algo para ser perdoados, pelo menos por Deus. Gandhi, por exemplo, tinha uma consciência agudíssima de ter, em certas ocasiões, tomado posições erradas; também ele teve os seus remorsos. Jesus nunca. Ele pode dizer dirigindo-se aos seus adversários: “Quem dentre vós me acusa de pecado? (Jo 8, 46). Jesus proclama ser “Mestre e Senhor” (cf. Jo 13, 13), de ser mais do que Abraão, Moisés, Jonas, Salomão. Onde, então, a humildade de Jesus, para poder dizer: “Aprendei de mim que sou humilde”? Aqui descobrimos algo importante. A humildade não consiste principalmente em ser pequenos, porque pode-se ser pequenos, sem ser humildes; não consiste principalmente no sentir-se pequenos, porque a pessoa pode sentir-se pequeno e sê-lo realmente e esta seria objetividade, não ainda humildade; sem contar que o sentir-se pequenos e insignificantes pode nascer também de um complexo de inferioridade e levar ao fechamento em si mesmo e ao desespero, em vez de à humildade. Portanto, a humildade, por si, no grau mais perfeito, não é no ser pequenos, não é no sentir-se pequenos, ou proclamar-se pequenos. É no fazer-se pequenos, e não por alguma necessidade ou utilidade pessoal, mas por amor, para “elevar” os outros. Assim foi a humildade de Jesus; ele se fez tão pequeno ao ponto de “desaparecer” mesmo para nós. A humildade de Jesus é a humildade que desce de Deus e que tem o seu modelo supremo em Deus, não no homem. Na posição em que se encontra, Deus não pode “elevar-se”; nada existe acima dele. Se Deus sai de si mesmo e faz algo fora da Trindade, isso só pode ser um abaixar-se e um fazer-se pequeno; só poderá ser, em outras palavras, humildade, ou, como dizia alguns Padres gregos, synkatabasis, ou seja, condescendência. São Francisco faz da “irmã água” o símbolo da humildade, definindo-a “útil, humilde, preciosa e casta”. A água de fato nunca se “exalta”, nunca “sobe”, mas sempre “desce”, até alcançar o ponto mais baixo. O vapor sobe e é por isso o símbolo tradicional do orgulho e da vaidade; a água desce e é por isso símbolo da humildade. Agora sabemos o que quer dizer a palavra de Jesus: “Aprendei de mim que sou humilde”. É um convite a fazer-nos pequenos por amor, a lavar, como ele, os pés dos irmãos. Em Jesus vemos, porém, também a seriedade desta escolha. Não se trata, de fato, de descer e fazer-se pequeno de tanto em tanto, como um rei que, na sua generosidade, de vez em quando, se digna descer entre o povo e talvez também servi-lo com algo. Jesus se fez “pequeno”, como “se fez carne”, ou seja de forma permanente, até o fim. Escolheu pertencer à categoria dos pequenos e dos humildes. Esta nova face da humildade é resumida em uma palavra: serviço. Um dia – lemos no Evangelho – os discípulos tinham discutido uns com os outros sobre quem era o “maior”; então Jesus, “sentando-se” – como para dar maior solenidade à lição que estava prestes a dar -, chamou os Doze e disse-lhes: “Se alguém quiser ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos” (Mc 9 , 35). Quem quer ser o “primeiro” seja o ” último”, ou seja, desça, se abaixe. Mas, depois explica o que compreende por último: seja o “servo” de todos. A humildade proclamada por Jesus é portanto serviço. No Evangelho de Mateus, esta lição de Jesus é proclamada com um exemplo: “Exatamente como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir” (Mt 20 , 28).

4. Uma Igreja humilde
Algumas considerações práticas sobre a virtude da humildade, tomadas em todas as suas manifestações, ou seja, tanto na relação com Deus quanto na relação com os homens. Não devemos nos iludir pensando que alcançamos a humildade só porque a palavra de Deus nos tenha levado a descobrir o nosso nada e nos tenha mostrado que ela tem que traduzir-se em serviço fraterno. Até que ponto chegamos de fato à humildade se vê quando a iniciativa passa de nós para os outros, ou seja, quando não somos mais nós que reconhecemos os nossos defeitos e erros, mas são os outros que o fazem; quando não somos somente capazes de dizer-nos a verdade, mas também de deixar que os outros a digam, de boa vontade. Antes de reconhecer-se diante de Frei Matteo como o mais vil dos homens, Francisco tinha aceitado de bom grado e por um longo tempo, ser ridicularizado, considerado por amigos, familiares e por toda a cidade de Assis, um ingrato, um fanático, alguém que nunca teria feito nada de bom na vida. Em que ponto estamos na luta contra o orgulho, se vê, em outras palavras, do como nós reagimos, externamente ou internamente, quando somos contrariados, corrigidos, criticados ou deixados de lado. Pretender matar o próprio orgulho batendo nele sozinhos, sem a intervenção de fora de ninguém, é como usar o próprio braço para punir a si mesmo: realmente nunca se fará mal. É como se um médico quisesse tirar um tumor dele mesmo sozinho. Quando tento receber glória de um homem por qualquer coisa que eu diga ou faça, é quase certo que quem está na minha frente tenta receber glória de mim a respeito de como escuta e como responde. E acontece assim que cada um busca a sua própria glória e ninguém a recebe e, se, por acaso, a recebe não é mais do que “vaidade”, ou seja, glória vazia, destinada a dissolver-se em fumaça com a morte. Mas o efeito é igualmente terrível; Jesus atribuía à busca da própria glória até mesmo a impossibilidade de crer. Dizia aos fariseus: “Como podeis crer, vós que recebeis glória uns dos outros, e não procurais a glória que vem do Deus único?” (Jo 5, 44). Quando nos encontremos imersos em pensamentos e desejos de glória humana, joguemos na mistura de tais pensamentos, como uma tocha ardente, a palavra que Jesus mesmo usou e que nos deixou: “Eu não busco a minha glória!” (Jo 8, 50). A luta da humildade dura a vida inteira e se estende a todos os aspectos da mesma. O orgulho é capaz de alimentar-se tanto do mal quanto do bem; porém, ao contrário do que acontece com todos os outros vícios, o bem, não o mal, é o terreno de cultivo preferido deste terrível “vírus”. Escreve sabiamente o filósofo Pascal: “A vaidade tem raízes tão profundas no coração do homem que um soldado, um servo da milícia, um cozinheiro, um carregador se gaba e finge ter seus admiradores e os mesmos filósofos os querem. E aqueles que escrevem contra a vanglória aspiram à glória de terem escrito bem, e aqueles que os leem, a vangloria de tê-los lido; e eu, que escrevo isto, talvez tenha o mesmo desejo; e aqueles que me leem talvez também[14]”. Para que o homem “não se ensoberbeça”, Deus geralmente o fixa no chão com uma espécie de âncora; coloca do seu lado, como com São Paulo, um “mensageiro de Satanás que o fere”, “um espinho na carne” (2 cor 12, 7). Não sabemos exatamente o que fosse exatamente para o Apóstolo este “espinho na carne”, mas sabemos bem o que é para nós! Cada um que queira seguir o Senhor e servir a Igreja o tem. São situações humilhantes que nos lembram constantemente, às vezes de noite e de dia, a dura realidade daquilo que nós somos. Pode ser um defeito, uma doença, uma fraqueza, uma impotência, que o Senhor nos deixa, apesar de todas as súplicas; uma tentação persistente e humilhante, talvez mesmo uma tentação de soberba; uma pessoa com a qual somos obrigamos a conviver e que, apesar da retidão de ambas as partes, tem o poder de tirar fora a nossa fragilidade, de demolir a nossa presunção. A humildade não é apenas uma virtude privada. Existe uma humildade que deve brilhar na Igreja como instituição e povo de Deus. Se Deus é humildade, também a Igreja deve ser humildade; se Cristo serviu, também a Igreja deve servir, e servir por amor. Por muito tempo a Igreja, no seu conjunto, tem apresentado ao mundo a verdade de Cristo, mas talvez não muito a humildade de Cristo. No entanto, é com essa, melhor do que com qualquer apologética, que se acalmam as hostilidade e os prejuízos contra ela e se abre o caminho para a aceitação do Evangelho. Há um episódio de Os noivos de Manzoni que contém uma profunda verdade psicológica e evangélica. Frei Cristoforo, acabado o noviciado, decide pedir publicamente perdão aos parentes do homem que, antes de fazer-se frade, matou em um duelo. A família se enfileira, formando uma espécie de forcas caudinas, de modo que o gesto se torne o mais humilhante possível para o frade e de maior satisfação para o orgulho da família. Mas, quando veem o jovem frade abaixar a testa no chão, ajoelhar-se diante do irmão do morto e pedir perdão, cai a arrogância, são eles que se sentem confusos e pedem perdão, até que ao final todos se apertam para beijar-lhe a mão e encomendar-se às suas orações[15]. São os milagres da humildade. No profeta Sofonias Deus diz: “Deixarei em teu seio um povo humilde e pobre, e procurará refúgio no nome do Senhor” (Sof 3, 12). Esta palavra ainda é atual e talvez também dessa dependerá o sucesso da evangelização na qual a Igreja está comprometida. Agora sou eu que, antes de terminar, tenho que lembrar a mim mesmo uma máxima querida por São Francisco. Ele repetia muitas vezes: “Carlos imperador, Orlando, Oliviero, todos os paladinos trouxeram uma vitória gloriosa e inesquecível… Mas há muitos que, somente com a narração dos seus feitos, querem receber honra e glória dos outros homens[16]”. Usava este exemplo para dizer que os santos praticaram as virtudes e outros procuram a glória somente narrando isso aos outros[17]. Para que também eu não entre nesse número, me esforço por colocar em prática o conselho que um antigo Pai do deserto, Isaque de Nínive, dava a quem é obrigado pelo dever a falar de coisas espirituais, às quais ainda não chegou com a própria vida: “Fale delas, dizia, como alguém que pertence à classe dos discípulos e não com autoridade, depois de ter humilhado a tua alma e de ter-se feito menor do que todos os teus ouvintes”. Com este espírito, Santo Padre, Veneráveis Pais, irmãos e irmãs, ousei falar-vos de humildade.

(Traduzido do original italiano por Thácio Siqueira/ ZENIT)
[1] Paraíso XI, 111.
[2] S. Bernardo de Claraval, Sermões sobre o Cântico, XVI, 10 (PL 183,853).
[3] Fioretti, cap. X.
[4] S. Kierkegaard, La malattia mortale,II, cap.1.  in Opere, a cura di C. Fabro, Sansoni, Firenze 1972, pp.662 s.
[5] Ammonizioni, XIX (FF 169); cf. também S. Bonaventura, Legenda maggiore, VI,1 (FF 1103).
[6] Considerações dos Sagrados Estigmas, III (FF 1916).
[7] S. Agostinho, Soliloquios,I,1,3; II, 1, 1 (PL 32, 870.885).
[8] S. Teresa d’Avila, Castelo Interior, VI dim., cap. 10.
[9] Il libro della B. Angela da Foligno, Quaracchi, 1985, p. 737.
[10] Apophtegmata Patrum, Antonio 7: PG 65, 77.
[11] Imitação de Cristo, II, cap. 10.
[12] Admoestações,I (FF 144).
[13] Carta à toda a Ordem (FF 221)
[14] B. Pascal, Pensieri, n. 150 Br.
[15] A. Manzoni,  Os Noivos, cap. IV.
[16] Admoestações VI (FF 155)
[17] Celano, Vida segunda, 72 (FF 1626)

 

Como São Francisco: degustar o mistério do Natal com os olhos e com os lábios
Última pregação do advento: pe. Cantalamessa analisa a humildade da encarnação a partir do ponto de vista do Pobrezinho de Assis e nos convida a “amar, socorrer e evangelizar” os pobres
Por Salvatore Cernuzio

Terceira e última pregação do advento, feita pelo pe. Raniero Cantalamessa. Depois de abordar a figura de São Francisco e de explicar como a Igreja inteira foi reformada graças àquele humilde frade, o pregador da Casa Pontifícia agora analisa o mistério do Natal, daquele “pobre Rei recém-nascido” encarnado na pequena cidade de Belém. O capuchinho lembrou ainda a tradição do presépio, criado pelo Santo de Assis na cidade de Greccio, e salientou que ele “nos ajuda a integrar a visão ontológica da encarnação com a visão mais existencial e religiosa”. “Não importa apenas saber que Deus se fez homem”, disse Cantalamessa, mas também “saber que tipo de homem ele se fez”. Entre São João e São Paulo já se percebem perspectivas diferentes, embora complementares, do evento da encarnação. Para João, “o Verbo se fez carne”; para Paulo, “Cristo, sendo rico, se fez pobre”. São Francisco “se alinha com São Paulo”, porque, “mais do que na realidade ontológica da humanidade de Cristo, ele insiste, até a comoção, na humildade e na pobreza dela”. Segundo as fontes, “a humildade da encarnação e a caridade da paixão” tinham o poder de levar o santo de Assis até as lágrimas. Uma vez, um frade lhe recordou, durante almoço, da pobreza e da indigência da Virgem Maria e do seu Filho. São Francisco imediatamente se levantou da mesa, explodiu em soluços de dor e, com as lágrimas lhe escorrendo pelo rosto, comeu o resto do pão sobre a terra nua. “O santo padroeiro da Itália devolveu ‘carne e sangue’ aos mistérios do cristianismo, tantas vezes ‘desencarnados’ e reduzidos a conceitos e silogismos”. A sua distinção “entre o fato da encarnação e o modo da encarnação”, disse o pregador da Casa Pontifícia, “lança luz sobre o problema atual da pobreza e da postura dos cristãos perante ela”. Em sua encarnação, Cristo “assumiu, de forma muito especial, o pobre, o humilde, o sofredor, a ponto de se identificar com eles”. No pobre há uma presença “real” de Cristo, não, é claro, como na Eucaristia, mas do jeito que Jesus disse: “Aquele certo alguém necessitado de um pouco de pão, aquele idoso que morria enrijecido de frio na calçada, era eu”. Cantalamessa prosseguiu: “Não acolhe plenamente a Cristo quem não está disposto a acolher o pobre com quem Cristo se identificou”. O pobre é um “vigário passivo de Cristo”, no seguinte sentido: “aquilo que se faz ao pobre é como se fosse feito a Cristo”. É por isso que João XXIII, no concílio, cunhou a expressão “Igreja dos pobres”, indicando que “todos os pobres do mundo, batizados ou não, fazem parte da Igreja”. Segue-se que o papa é o “pai dos pobres” e é “uma alegria ver como este papel tem sido levado a sério pelos últimos papas”, em particular pelo papa atual. No entanto, constatou o pregador, “nós temos a tendência de colocar paredes de vidro duplo entre nós e os pobres. Vemos os pobres andando, se agitando, gritando por trás da tela da televisão, nas páginas dos jornais e nas revistas missionárias, mas o seu clamor nos chega como de muito longe. Não penetra o nosso coração”. As palavras “pobre”, “imigrante”, provocam, nos países ricos, “o mesmo efeito que provocava nos antigos romanos o grito de “bárbaros”: o desconcerto, o pânico”. “Nós lamentamos e protestamos pelas crianças impedidas de nascer, mas não deveríamos fazer o mesmo pelos milhões de crianças que nascem e são condenado à morte pela fome, pela doença, forçadas a ir para a guerra e a matar umas as outras em nome de interesses que não são alheios a nós, dos países ricos?”. Devemos protestar não só “pelos idosos, pelos doentes, pelos deformados que a eutanásia ajuda a matar”, mas também “pelos idosos que morrem de frio ou que são abandonados à própria sorte”. O primeiro passo, portanto, é “superar a indiferença e a insensibilidade, é perceber os pobres”. Três palavras são essenciais: “amá-los, socorrê-los, evangelizá-los”. Amá-los no sentido de “respeitar e reconhecer a sua dignidade”, a exemplo de santos como São Francisco, São Vicente de Paulo e Santa Teresa de Calcutá, “cujo amor pelos pobres foi o caminho da sua santidade”. Os pobres “não merecem só a nossa simpatia, mas também a nossa admiração”, porque “eles são os verdadeiros campeões da humanidade”. Nós distribuímos tantos troféus e medalhas de ouro para quem simplesmente pulou um centímetro a mais do que o outro, mas não levamos em nenhuma consideração “os saltos mortais, as provas de força, os slalom de que os pobres são capazes tantas vezes” para sobreviver. Ao dever de amar os pobres, segue o de socorrê-los. “De que adianta ter pena de um irmão ou de uma irmã carente de roupa e de alimento e só dizer ‘Coitado, como você sofre! Vá, se aqueça, coma!’, sem lhe dar nada para se aquecer e para comer?”, perguntou o padre Cantalamessa, ecoando as palavras de São Tiago: “a compaixão, assim como a fé, sem obras é morta”. E acrescentou que, “no dia do juízo, Jesus não dirá: ‘Eu estava nu e tivestes pena de mim’, mas ‘Eu estava nu e me vestistes’. Não devemos culpar a Deus pela miséria do mundo, mas a nós mesmos”. Hoje não basta “a simples esmola”: podem ser feitas muitas coisas “para socorrer” os pobres e “promover a sua ascensão”. Entre elas, evangelizar: “Não podemos permitir que a nossa má consciência nos leve a cometer a enorme injustiça de privar da boa notícia aqueles que são os primeiros e mais naturais destinatários dela”, afirmou Cantalamessa. “A ação social deve acompanhar a evangelização, nunca substituí-la”. Os pobres “têm o direito sacrossanto de ouvir o evangelho na sua totalidade, e não numa edição resumida ou controversa”. Para finalizar, o pe. Raniero voltou a refletir sobre Francisco de Assis e explicou que, para ele, o Natal não era “apenas uma oportunidade de chorar a pobreza de Cristo”, mas uma festa que “fazia explodir toda a capacidade de exultação que havia em seu coração. No Natal, ele fazia loucuras literalmente, se tornava uma daquelas crianças que ficam sempre com os olhos cheios de maravilhamento diante do presépio, e, toda vez que dizia ‘Jesus’ ou ‘Menino de Belém’, passava a língua pelos lábios como a saborear e reter toda a doçura daquelas palavras”. Nós também, convidou Cantalamessa, podemos saborear os sentimentos de São Francisco. O capuchinho encerrou suas palavras recitando os versos de um popular canto natalino italiano, “Tu scendi dalle stelle” [Tu desces das estrelas], musicado por Santo Afonso Maria de Ligório, e propondo: “Deixemo-nos comover pela mensagem simples, mas essencial” deste canto.

 

Terceira e última pregação de Advento que o pregador da casa pontifícia, Pe. Raniero Cantalamessa, OFM. Cap. pronunciou hoje ao Papa e à Cúria Romana.
O mistério da Encarnação contemplado com os olhos de Francisco de Assis

1. Greccio e a instituição do presépio
Todos nós conhecemos a história de Francisco que, em Greccio, três anos antes de sua morte, deu início à tradição natalícia do presépio; mas é bom recordá-la, brevemente, nesta circunstância. Celano escreve assim: “Uns quinze dias antes do Natal, São Francisco mandou chamá-lo, como costumava fazer, e disse: “Se você quiser que celebremos o Natal em Greccio, é bom começar a preparar diligentemente e desde já o que eu vou dizer. Quero lembrar o menino que nasceu em Belém, os apertos que passou, como foi posto num presépio, e contemplar com os próprios olhos como ficou em cima da palha, entre o boi e o burro”. […].E veio o dia da alegria. O santo vestiu dalmática, porque era diácono, e cantou com voz sonora o santo Evangelho. De fato, era “uma voz forte, doce, clara e sonora”, convidando a todos às alegrias eternas. Depois pregou ao povo presente, dizendo coisas doces como o mel sobre o nascimento do Rei pobre e sobre a pequena cidade de Belém.[1]” A importância do episódio não está tanto no fato em si e nem sequer na influência espetacular que teve na tradição cristã; está na novidade que isso revela a respeito da compreensão que o santo tinha do mistério da encarnação. A insistência demasiado unilateral, e às vezes até obsessiva, sobre os aspectos ontológicos da Encarnação (natureza, pessoa, união hipostática, comunicação dos idiomas) tinha feito muitas vezes perder de vista a verdadeira natureza do mistério cristão, reduzindo-o a um mistério especulativo, que deve ser formulado com categorias cada vez mais rigorosas, mas muito distantes do alcance do povo. Francisco de Assis nos ajuda a integrar a visão ontológica da Encarnação com aquela mais existencial e religiosa. Não importa, de fato, só saber que Deus se fez homem; importa também saber que tipo de homem se fez. É significativo o modo diferente e complementar com o qual João e Paulo descrevem o evento da encarnação. Para João, consiste no fato de que o Verbo, que era Deus, se fez carne (cf. Jo 1,1-14); para Paulo, consiste no fato de que “Cristo, sendo de natureza divina, assumiu a forma de servo e se humilhou a si mesmo fazendo-se obediente até a morte” (cf. Fl 2 , 5 ss.). Para João, o Verbo, sendo Deus, se fez homem; para Paulo “Cristo, sendo rico, se fez pobre” (cf. 2 Cor 8, 9). Francisco de Assis segue a lógica de São Paulo. Ao invés da realidade ontológica da humanidade de Cristo (na qual ele acredita firmemente com toda a Igreja), ele insiste, até à comoção, na humildade e na pobreza dela. Duas coisas, dizem as fontes, tinham o poder de comovê-lo até as lágrimas, cada vez que as escutava: “a humildade da encarnação e a caridade da sua paixão[2]”.  “Não consegui reprimir as lágrimas, ao pensar na extrema pobreza que padeceu nesse dia a Virgem Senhora pobrezinha. Uma vez, estando sentado à mesa a comer, e tendo um irmão recordado a pobreza da bem-aventurada Virgem e de seu Filho, imediatamente se levantou a chorar e a soluçar, e, com o rosto banhado em lágrimas, comeu o resto do pão sobre a terra nua[3]”. Francisco recolocou dessa forma “carne e sangue” nos mistérios do cristianismo, muitas vezes “desencarnados” e reduzidos a conceitos e silogismos nas escolas teológicas e nos livros. Um estudioso alemão viu em Francisco de Assis aquele que criou condições para o nascimento da arte moderna da Renascença, enquanto que dissolve pessoas e eventos sacros da rigidez estilizada do passado e lhes dá concretude e vida[4].

2. O Natal e os pobres
A diferença entre o  fato  da encarnação e o modo dela, entre a sua dimensão ontológica e aquela existencial, nos interessa porque lança luz sobre o problema atual da pobreza e da atitude dos cristãos para com ela. Ajuda a dar uma base bíblica e teológica para a opção preferencial pelos pobres, proclamada no Concílio Vaticano II. Se, pelo fato da encarnação, o Verbo, de certa forma, assumiu cada homem, como diziam certos Padres da Igreja, pelo modo em que ocorreu a encarnação, ele assumiu, de uma forma muito especial, o pobre, o humilde, o sofredor, a ponto de se identificar com eles. É claro que no pobre não se tem o mesmo gênero de presença de Cristo que se tem na Eucaristia e nos outros sacramentos, mas trata-se de uma presença, também essa, verdadeira, “real”. Ele “instituiu” este sinal, como instituiu a Eucaristia. Aquele que pronunciou sobre o pão as palavras: “Este é o meu corpo”, disse essas mesmas palavras também dos pobres. Disse-as quando, falando daquilo que se fizer, ou não se fizer, pelo faminto, o sedento, o prisioneiro, o desnudo e o desterrado, declarou solenemente: “O fizestes a mim” e “Não o fizestes a mim”. De fato isso equivale a dizer: “Aquela certa pessoa esfarrapada, necessitada de um pouco de pão, aquele ancião que morria entorpecido de frio nas calçadas, era eu!”. “Os Padres conciliares – escreveu Jean Guitton, observador leigo do Vaticano II, reencontraram o sacramento da pobreza, a presença de Cristo sob as espécies daqueles que sofrem[5]”. Não aceita plenamente a Cristo quem não estiver disposto a aceitar o pobre com o qual ele se identificou. Quem, no momento da comunhão, se aproxima cheio de fervor para receber a Cristo, mas tem o seu coração fechado para os pobres, se assemelha, diria Santo Agostinho, a alguém que vê se aproximar de longe um amigo que não vê há anos. Cheio de alegria, corre para encontrá-lo, fica na ponta dos pés para beijar sua testa, mas ao fazê-lo não percebe que está esmagando os seus pés com sapatos com pregos. Os pobres são os pés descalços que Cristo ainda colocou sobre esta terra. Também o pobre é um “vigário de Cristo”, aquele que faz as vezes de Cristo. Vigário, no sentido passivo, não ativo. Ou seja, não no sentido de que aquilo que faz o pobre é como se Cristo o fizesse, mas no sentido em que aquilo que se faz ao pobre é como se o fizesse a Cristo. É verdade, como escreve São Leão Magno, que depois da ascensão, “tudo aquilo que havia de visível em Nosso Senhor Jesus Cristo passou nos sinais sacramentais da Igreja[6]”, mas é igualmente verdade que, do ponto de vista da existência, isso também passou nos pobres e em todos aqueles dos quais ele disse: “o fizestes a mim”. Tragamos a consequência que deriva de tudo isso em termos de eclesiologia. João XXIII, no Concílio, cunhou a expressão “Igreja dos pobres[7]”. É, talvez, um significado que vai além do que se entende à primeira vista. A Igreja dos pobres não é constituída apenas pelos pobres da Igreja! Em certo sentido, todos os pobres do mundo, sejam batizados ou não, fazem parte. A sua pobreza e sofrimento é o seu batismo de sangue. Se os cristãos são aqueles que foram “batizados na morte de Cristo” (Rm 6, 3), quem é, de fato, mais batizado na morte de Cristo do que eles? Como não considerá-los, de alguma forma, Igreja de Cristo, se o próprio Cristo declarou que eles são o seu corpo? Eles são “cristãos”, não porque se declaram membros de Cristo, mas porque Cristo os declarou membros de si: “O fizestes a mim!”. Se existe um caso em que o polêmico termo “cristãos anônimos” pode ter uma aplicação plausível, é precisamente este dos pobres. A Igreja de Cristo é, portanto, muito maior do que o que as estatísticas atuais dizem. Não só como modo de dizer, mas verdadeiramente, realmente. Nenhum dos fundadores de religiões se identificou com os pobres como fez Jesus. Nenhum proclamou: “Tudo aquilo que fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25, 40), onde o “irmão mais pequenino” não  indica somente o crente em Cristo, mas, como é aceito por todos, cada homem. Segue-se disso que o Papa, vigário de Cristo, é realmente o “pai dos pobres”, o pastor deste imenso rebanho, e é uma alegria e uma inspiração para todo o povo cristão ver como este papel tem sido levado a sério pelos últimos Sumos Pontífices e de uma maneira especial pelo pastor que hoje está sentado na Cátedra de Pedro. Ele é a voz mais respeitável que se eleva na defesa deles. A voz dos sem voz. Realmente não se “esqueceu dos pobres”! O que escreve o Papa, na recente exortação apostólica, sobre a necessidade de não ficar indiferente ante o drama da pobreza no mundo globalizado de hoje, me fez pensar em uma imagem. Temos a tendência de colocar entre nós e os pobres, vidros duplos. O efeito dos vidros duplos, muito utilizado hoje na construção, é que ele impede a passagem do frio, calor e do ruído, suaviza tudo, atenua, abafa tudo. E, de fato, vemos os pobres mover-se, agitar-se, gritar por trás da tela da televisão, nas páginas dos jornais e das revistas missionárias, mas o seu clamor nos chega como de longe. Não nos penetra o coração. Falo-o para a minha própria confusão e vergonha. A palavra: “os pobres” provoca, nos países ricos, aquilo que provocava nos romanos antigos o grito “os bárbaros”!: o choque, o pânico. Eles se preocupavam por construir muros e enviar exércitos às fronteiras para mantê-los afastados; nós fazemos a mesma coisa, de outras maneiras. Mas a história diz que é inútil. Choramos e reclamamos – e com razão! – pelas crianças que são impedidas de nascer, mas não devemos fazer o mesmo pelas milhões de crianças nascidas e condenadas à morte pela fome, doenças, crianças obrigadas a ir para a guerra e matar-se entre si por interesses que não são estranhos a nós dos países ricos? Não será porque a primeira pertence ao nosso continente e têm a nossa própria cor, enquanto a segunda pertence a outro continente e tem uma cor diferente? Protestamos – e mais do que com razão! – pelos idosos, os doentes, os deformados ajudados (às vezes forçados) a morrer com a eutanásia; mas não deveríamos fazer o mesmo pelos anciãos que morrem congelados de frio ou abandonados à sua sorte sozinhos? A lei do liberalismo econômico do “viver e deixar viver” nunca deveria transformar-se na lei do “viver e deixar morrer”, como está acontecendo em todo o mundo. É claro que a lei natural é santa, mas é precisamente para ter a força de aplica-la que temos necessidade de recomeçar da fé em Jesus Cristo. São Paulo escreveu: “O que era impossível à Lei, porque enfraquecida pela carne, Deus tornou possível, enviando o seu próprio Filho” (Rm 8, 3). Os primeiros cristãos, com os seus costumes, ajudaram o estado a mudar as próprias leis; nós cristãos de hoje não podemos fazer o contrário e pensar que seja o estado com as suas leis que têm o dever de mudar os costumes do povo.

3. Amar, socorrer, evangelizar os pobres
A primeira coisa a ser feita, com relação aos pobres, é, portanto quebrar os vidros duplos, superar a indiferença e a insensibilidade. Devemos, como, aliás, o Papa nos exorta: “Dar-nos conta” dos pobres, deixar-nos tomar por uma preocupação saudável pela sua presença no meio de nós, muitas vezes, a uma curta distância da nossa casa. O que precisamos fazer em concreto por eles, pode ser resumido em três palavras: amá-los, socorrê-los, evangeliza-los. Amar os pobres. O amor pelos pobres é um dos traços mais comuns da santidade católica. No próprio São Francisco, como vimos na primeira meditação, o amor pelos pobres, a partir de Cristo pobre, vem antes do que o amor pela pobreza e foi esse que o levou a casar-se com a pobreza. Para alguns santos, como São Vicente de Paulo, Madre Teresa de Calcutá e muitos outros, o amor para com os pobres foi, de fato, o seu caminho para a santidade, o seu carisma. Amar os pobres significa antes de tudo respeitá-los e reconhecer a sua dignidade. Neles, por causa da falta de outros títulos e distinções secundárias, brilha com uma luz mais brilhante a radical dignidade do ser humano. Em uma homilia de Natal realizada em Milão, o cardeal Montini dizia: “A visão completa da vida humana sob a luz de Cristo vê em um pobre algo mais do que um necessitado; vê neles um irmão misteriosamente revestido de uma dignidade, que exige pagar-lhe reverência, recebê-lo com cuidado, compadece-lo além do mérito[8]”. Mas os pobres não só merecem a nossa piedade; também merecem a nossa admiração. Eles são os verdadeiros campeões da humanidade. São distribuídos anualmente taças, medalhas de ouro, de prata, de bronze, ao mérito, à memória ou aos vencedores de competições. E talvez só porque foram capazes de correr em uma fração de segundos menos do que os outros, os cem, duzentos ou quatrocentos metros com barreiras, ou de saltar um centímetro mais alto do que os outros, ou de vencer uma maratona ou uma corrida de slalom. Contudo, se alguém observasse de quais saltos mortais, de quais forças, de quais slalom, são capazes, às vezes, os pobres, e não uma vez, mas durante toda a vida, o desempenho dos mais famosos atletas nos pareceriam joguinhos de crianças. O que é uma maratona em comparação, por exemplo, ao que faz um homem-riquixá de Calcutá, que no final de sua vida andou a pé o equivalente a várias voltas ao redor da terra, no calor mais extenuante, puxando um ou dois passageiros, por estradas ruins, entre buracos e poças d’água, deslizando-se entre um carro e outro para não ser atropelado? Francisco de Assis nos ajuda a descobrir uma razão ainda mais forte para amar os pobres: o fato de que eles não são simplesmente os nossos “semelhantes” ou o nosso “próximo”: são nossos irmãos! Jesus tinha falado: “Um só é o vosso Pai celeste e vós sois todos irmãos” (cf. Mt 23,8-9), mas esta palavra foi compreendida até agora como direcionada somente aos discípulos. Na tradição cristã, irmão no sentido estrito é somente aquele que compartilha da mesma fé e recebeu o mesmo batismo. Francisco retoma a palavra de Cristo e dá a ela um sentido universal que é aquele que certamente tinha em mente também Jesus. Francisco colocou “todo o mundo em estado de fraternidade[9]”. Chama irmãos não apenas os seus irmãos e companheiros de fé, mas também os leprosos, os ladrões, os sarracenos, ou seja, crentes e não-crentes, bons e maus, especialmente os pobres. Novidade, esta, absoluta, que estende o conceito de irmão e irmã também às criaturas inanimadas: o sol, a lua, a terra, a água e até mesmo a morte. Isso, evidentemente, é poesia, mais do que teologia. O santo sabe bem que entre essas criaturas e os seres humanos, feitos à imagem de Deus, há a mesma diferença do que entre o filho de um artista e as obras criadas por ele. Mas é que o senso de fraternidade universal do Pobrezinho não tem fronteiras. Isso da fraternidade é a contribuição específica que a fé cristã pode dar para fortalecer a paz no mundo e a luta contra a pobreza, como sugere o tema da próxima Jornada Mundial da Paz “Fraternidade, fundamento e caminho para a paz”. Pensando bem, esse é o único fundamento verdadeiro e não irrealista. Que sentido, de fato, falar de fraternidade e de solidariedade humana, se começarmos de uma certa visão científica do mundo que conhece, como únicas forças de ação no mundo, “o acaso e a necessidade”?  Se se parte, em outras palavras, de uma visão filosófica como aquela de Nietzsche, segundo a qual o mundo só é vontade de poder e toda tentativa de opor-se a isso é somente sinal de ressentimento dos fracos contra os fortes”? Está certo quem diz que “se o ser é apenas caos e força, a ação que busca a paz e a justiça permanecerá inevitavelmente sem fundamento[10]”. Falta, neste caso, uma razão suficiente para se opor ao liberalismo desenfreado e à iniquidade fortemente denunciada pelo Papa na exortação Evangelii gaudium. Ao dever de amar e respeitar os pobres, segue aquele de socorrê-los. Aqui nos ajuda São Tiago. Para que serve, diz ele, compadecer-se diante de um irmão ou uma irmã sem roupa ou comida, dizendo-lhes: “Pobrezinho, como sofre! Ide em paz, aquecei-vos e saciai-vos”, e não lhes der o necessário para a sua manutenção? A compaixão, como a fé, sem obras é morta (cf. Tg 2, 15-17). Jesus não dirá no juízo: “Estava nu e tivestes pena de mim”; mas “estava nu e me vestistes”. Não devemos culpar a Deus pela miséria do mundo, mas a nós mesmos. Um dia vendo uma criança tremendo de frio e que chorava de fome, um homem foi tomado de revolta e gritou: “Oh, Deus, onde estás? Porque não fazes nada por esta criatura inocente?”. Mas uma voz interior lhe respondeu: “Claro que fiz algo. Te fiz!”. E compreendeu imediatamente. Hoje, no entanto, já não é suficiente só a esmola. O problema da pobreza se tornou planetário. Quando os Padres da Igreja falavam dos pobres pensavam nos pobres da sua cidade, ou, no máximo, naqueles da cidade vizinha. Não conheciam nada mais, a não ser muito vagamente e, além do mais, embora conhecessem, enviar ajuda teria sido ainda mais difícil, em uma sociedade como a deles. Hoje sabemos que isso não basta, embora nada nos dispense de fazer aquilo que possamos também a nível individual. O exemplo dos muitos homens e mulheres do nosso tempo mostra-nos que há muitas coisas que podem ser feitas para socorrer, cada um de acordo com os seus meios e possibilidades, os pobres promover-lhes a elevação. Falando do “grito dos pobres”, na Evangelica testificatio, Paulo VI falava especialmente a nós religiosos: “Isso faz com que alguns de vocês cheguem aos pobres em seu estado, compartilhem com eles as suas preocupações amargas. Convida, por outro lado, não poucos dos vossos institutos a reconverter em favor dos pobres algumas das suas obras[11]”. Eliminar ou reduzir o injusto e escandaloso abismo que existe entre ricos e pobres no mundo é a tarefa mais urgente e mais ingente que o milênio que apenas terminou entregou ao novo milênio no qual entramos. Esperemos que não seja ainda o problema número um que o presente milênio deixará em herança para o próximo. Finalmente, evangelizar os pobres. Esta foi a missão que Jesus reconheceu como a sua por excelência: “O Espírito do senhor está sobre mim, me ungiu para evangelizar os pobres” (Lc 4, 18) e que indicou como sinal da presença do Reino aos enviados pelo Batista: “Aos pobres é anunciado a boa nova” (Mt 11, 15). Não devemos permitir que a nossa má consciência nos leve a cometer a enorme injustiça de privar da boa nova aqueles que são os primeiros e os mais naturais destinatários. Talvez, acrescentando à nossa desculpa, o provérbio que “barriga vazia não tem ouvidos”. Jesus multiplicava os pães e também a palavra, na verdade administrava primeiro, às vezes por três dias seguidos, a Palavra depois se preocupava também dos pães. Não só de pão vive o pobre, mas também de esperança e de cada palavra que sai da boca de Deus. Os pobres tem o direito sagrado de ouvir o Evangelho na sua totalidade, não em edições reduzidas ou polêmicas; o evangelho que fala de amor aos pobres, mas não de ódio aos ricos.

4. Alegria no céu e alegria na terra
Terminemos com outro tom. Para Francisco de Assis, Natal não era somente a ocasião para chorar a pobreza de Cristo; era também a festa que tinha o poder de fazer explodir toda a capacidade de alegria que estava no seu coração, e era muito grande. No Natal ele fazia literalmente loucuras. “Queria que neste dia os pobres e os mendigos fossem saciados pelos ricos, e que os bois e os burros recebessem uma ração de comida e de feno mais abundante que o normal. Se pudesse falar ao imperador – dizia – suplicarei a ele de emitir um decreto geral, pelo qual todos aqueles que têm possibilidades, devessem espalhar pelas ruas trigo e grãos, para que em um dia de tanta solenidade os pássaros e especialmente as irmãs cotovias tivessem em abundância[12]”. Transformava-se como que em uma dessas crianças que estavam com os olhos cheios de admiração diante do presépio. Durante a celebração do natal em Greccio, narra o biógrafo, quando pronunciava o nome ‘Belém’ enchia a boca de voz e de muito afeto, produzindo um som parecido ao balido das ovelhas. E cada vez que dizia: ‘Menino de Belém’ ou ‘Jesus’, passava a língua sobre os lábios, como para saborear e reter toda a doçura daquelas palavras”. Há uma canção de Natal que expressa perfeitamente os sentimentos de São Francisco, diante do presépio e isso não surpreende se pensarmos que foi escrita, letra e música, por um santo como ele, Santo Alfonso Maria de Ligorio. Escutando-o no tempo de natal, deixemo-nos comover pela sua mensagem simples mas essencial: Tu desces das estrelas ó Rei do céu, e vens em uma gruta no frio, e no gelo… A ti que sois do mundo o Criador, faltam os pães, o fogo, oh meu Senhor. Caro eleito bebezinho, quanta esta pobreza mais me apaixona, já que te fizeste amor pobre ainda. Santo Padre, Veneráveis Padres, irmãos e irmãs, Feliz Natal!

(Tradução Thácio Siqueira / www.zenit.org)
[1] Celano, Vida Primeira, 84-86 (Fontes Franciscanas, 468-470)
[2] Ib. 30, (FF 467).
[3] Celano, Vida Segunda, 200 (FF 788).
[4] H. Thode, Franz von Assisi und die Anfänge der Kunst des Renaissance in Italien, Berlin 1885.
[5] J. Guitton, cit. da R. Gil, Presencia de los pobres en el concilio, in “Proyección” 48, 1966, p.30.
[6] S. Leão Magno, Discurso 2 sobre a Ascensão, 2 (PL 54, 398).
[7] In AAS 54, 1962, p. 682.
[8] Cf. Il Gesú di Paolo VI, organizado por V. Levi, Milano 1985, p. 61.
[9] P. Damien Vorreux, Saint François d’Assise, Documents, Parigi 1968, p. 36.
[10] V. Mancuso, in La Repubblica, Venerdì 4 Ottobre 2013.
[11] Paulo VI, Evangelica testificatio, 18 (Ench. Vatic., 4, p.651).
[12] Celano, Vida Segunda,  151 (FF  787-788)

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