I Domingo do Advento – Ano B

Por Mons. Inácio José Schuster

Começamos hoje, com a Igreja, um novo ano litúrgico: 1° domingo do Advento. Este tempo do Advento que nos separa do Natal, e para ele nos prepara, não é um tempo de nostalgia; não nos voltamos ao passado. Advento significa vinda. E o que isto quer dizer hoje para nós? Tomamos consciência, através das leituras bíblicas que nos são apresentadas, que Aquele que veio no passado, vem, misteriosamente, no presente da existência de cada um, e virá no futuro que nos é absolutamente incerto. Não é preciso olhar para o passado. Aquele que nasceu em Belém nunca mais repetirá Seu nascimento naquela cidade, mas Ele renasce, ou está disposto a renascer, a cada ano, a cada dia de nossa vida, no coração da comunidade, da Igreja e no coração de cada um de nós. E Ele próprio, por ser Emanuel, isto é, Deus conosco, acompanha-nos ao longo de nossa peregrinação terrestre, ao grande e definitivo encontro. Advento significa exatamente chegada, e nós estamos a caminho, e a cada dia nos aproximamos mais deste grande e definitivo encontro. O Cristão não entrega sua vida ao túmulo, não entrega sua vida à morte ou ao abismo, ele entrega sim sua vida nas mãos de Jesus Cristo, como o Cristo entregou a própria vida nas mãos do Pai. Nós nos aproximamos lenta, mas progressivamente, deste dia. E gostaríamos que este dia fosse um dia feliz. A Igreja o chama o dia do verdadeiro nascimento, pois nosso verdadeiro nascimento não foi aquele para este mundo, embora celebremos, a cada ano, e com certa festividade, o nosso aniversário, o verdadeiro aniversário será quando sairmos deste mundo e nascermos, definitivamente, para a eternidade. Ora, para tanto nós nos preparamos com seriedade. A Palavra com que se encerrou o ano litúrgico passado, abre e inaugura este ano: vigilância. Vivamos de maneira tal que, no final, não tenhamos muito de que nos arrepender; vivamos de maneira tal que não acumulemos remorso sobre remorso, no final, quando não houver mais tempo para colocar a nossa casa, isto é, a nossa vida, em ordem. Abramo-nos a Deus e a Cristo que, no Espírito Santo, esculpi o homem verdadeiro, o homem digno da eternidade de Deus. Não é preciso temer o encontro, ele será transformador. É preciso sim prepararmo-nos para ele. E isto porque será o momento mais solene e decisivo de toda a nossa existência. De Advento em Advento, de ano em ano, aproximamo-nos do grande e definitivo encontro do tempo com a eternidade.

 

VIGIAI E ORAI QUE O SENHOR EM BREVE RETORNARÁ
Padre Bantu Mendonça

Iniciamos hoje o tempo do Advento e as palavras vigiai e orai constituem uma constante da Igreja primitiva. Eis alguns exemplos: Marcos, no Getsêmani, põe nos lábios de Jesus a repreensão dirigida a Pedro: “Simão estás dormindo? Não foste capaz de vigiar por uma hora? Vigiai e orai para que não entreis em tentação: pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mc 14,17). A mesma recomendação a encontramos em Mateus 26,41. A vigília sem a oração é inútil ou prejudicial. Os banquetes da época celebravam-se durante as horas noturnas. Tanto romanos como judeus vigiavam, porém, de forma diversa a dos cristãos. Eram célebres os banquetes entre fariseus ao entardecer da sexta feira, ou seja, ao iniciar-se o sábado (Lc 14,13). Assim entendemos a explicação de Lucas, na qual Jesus admoesta os discípulos para ficar de sobreaviso, para que seus corações não fiquem atordoadas pela embriaguez, pelas orgias e pelos cuidados da vida, de modo a cair sobre eles esse dia, repentinamente, como uma cilada (Lc 21,34). Daí também a oração que se pede para acompanhar a vigília. Em 1Ts 5,4-9: “Vós, porém, meus irmãos, não andeis nas trevas, de modo que esse dia vos surpreenda como um ladrão, pois que todos vós sois filhos da luz, filhos do dia. Não somos da noite, nem das trevas. Portanto, não durmamos a exemplo dos outros; mas vigiemos e sejamos sóbrios. Quem dorme, dorme de noite. Nós, pelo contrário, que somos do dia, sejamos sóbrios, revestidos da couraça da fé e da caridade, e do capacete da esperança da salvação”. Sem dúvida que os que vigiam ou estão despertos ou são os que não dormem à noite. A sobriedade é porque os banquetes celebravam-se à noite e geralmente demoravam durante todo o período numa espécie de orgia de vinho e luxúria. Com o raciocínio anterior, as metáforas usadas por Paulo permitem entender melhor o texto de Marcos e o de Lucas, que sem dúvida contêm certas explicações explícitas (Lc 21,34-36) e que temos explicado anteriormente. Por isso, Lucas exorta a ficar acordados, orando em todo momento, para ter a força de escapar de tudo o que deve acontecer e de ficar de pé diante do Filho do Homem. Esta oração-vigília, é recomendada por Paulo em Ef 4,2: “Perseverai na oração, vigilantes, com ação de graças”. A impressão que temos hoje – após a história iluminar as palavras de Jesus – é a de que os primeiros cristãos foram dominados pelo estilo apocalíptico de medo e apreensão, o que acontece também agora em grande número de cristãos e é aproveitado, sobretudo, por determinadas seitas. Os apóstolos tiveram, porém, que acalmar os ânimos de modo a devolver paz e confiança, deixando uma porta aberta a um saudável temor. Que mensagem encontramos neste Evangelho para os dias de hoje? Tendo como fundo a segunda vinda em majestade ou poder de Jesus, vista do ângulo do castigo divino a Jerusalém, podemos refletir em três ideias chaves no Evangelho de hoje. A primeira é a de que na ausência do Mestre, todos e cada um dos seus discípulos em particular receberam um poder para realizar o seu trabalho na propagação do Reino. Uma segunda recomendação é a vigilância, ou seja, estar atentos para que o dia da volta do Senhor não encontre seus servos não-preparados, dormindo, como poderia ser o caso do porteiro que não sabia a hora da volta de seu amo. A vigilância era necessária porque a vinda era um castigo como foi o dilúvio nos tempos de Noé (Gn 7) ou o incêndio das cidades pecadoras de Sodoma e Gomorra (Gn 19). Quando as forças humanas – tanto intelectuais como biológicas – pareciam insuficientes, temos a força divina que sempre nos acompanha, mas que é necessário pedir. Deus não age primária e solitariamente. Ele espera ser rogado, porque assim encontramos em nossa impotência a poderosa presença de Deus. A oração confirma nossa insignificância e afirma nossa fé. Nos tempos atuais a proximidade de um juízo e castigo divinos parecem estar fora do marco da história. Mas não é verdade. As muitas guerras, as violências de todo gênero, as calamidades dos fenômenos da natureza exigem que pessoalmente estejamos preparados por meio da vigilância que o apóstolo pedia (1Ts 5) e a oração que sempre é companheira e guia de nossas vidas. A nossa morte é sempre incerta e será o início do nosso julgamento final. Portanto, vigiai e orai que o Senhor em breve retornará.

 

1º Domingo do Advento
Mc 13,33-37: “Vigiai para que não aconteça que, vindo Ele de repente, vos encontre dormindo”

33Ficai de sobreaviso, vigiai; porque não sabeis quando será o tempo. 34Será como um homem que, partindo em viagem, deixa a sua casa e delega sua autoridade aos seus servos, indicando o trabalho de cada um, e manda ao porteiro que vigie. 35Vigiai, pois, visto que não sabeis quando o senhor da casa voltará, se à tarde, se à meia-noite, se ao cantar do galo, se pela manhã, 36para que, vindo de repente, não vos encontre dormindo. 37O que vos digo, digo a todos: vigiai!

Começamos um novo tempo litúrgico: Advento – Ano “B”, onde o fio condutor será o Evangelho de São Marcos, e neste primeiro domingo, Jesus nos fala sobre a vigilância que devemos ter com os dons que nos são dados para nossa administração.

O Senhor passa pela nossa vida e nos pede vigilância, pois, não sabemos quando Ele virá, temos de estar preparados. Vigiar e, sobretudo, amar. Quem ama cumpre os mandamentos e espera com ansiedade, com urgência, que Cristo volte; porque esta vida é espera, é caminho ao encontro de Cristo Senhor.

Vigiar significa ser bom observador das coisas a nossa volta, significa ter um olhar contemplativo, e deixar-se inundar pelo amor de Deus. Os primeiros cristãos repetiam com freqüência e com amor a jaculatória: “Vem, Senhor Jesus” (1Cor 16, 22; Ap 22, 20). E, ao exercitar deste modo a fé e a caridade, aqueles cristãos encontravam a força interior e o otimismo necessários para o cumprimento dos deveres familiares e sociais, e desprendia-se interiormente dos bens terrenos, com o senhorio que dá a esperança da vida eterna.

Que o tempo do Advento nos faça refletir sobre a nossa vigilância e nosso amor ao próximo?

 

1º DOMINGO DO ADVENTO – B
Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Diocese da Campanha, MG.

“A vós, meu Deus, elevo a minha alma. Confio em vós, que eu não seja envergonhado! Não se riam de mim meus inimigos, pois não será desiludido quem em vós espera”(cf. Sl 24,1-3). Irmãos e Irmãs, Iniciamos o Tempo do Advento. Depois de refletirmos o tempo comum, coroado com a festa de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, é chegado o doce momento da reflexão acerca deste tempo que é a antecipação do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo. Advento, tempo de espera e de esperança, de atenção e de vigilância, de alegre chegada e amorosa acolhida do Deus Conosco, o Emanuel. As santas comemorações natalinas são preparadas pelo tempo do Advento, o qual se reveste de dupla característica: tempo de preparação para as solenidades do Natal, nas quais se recorda a primeira vinda do Filho de Deus ao meio dos homens e das mulheres; e concomitantemente, tempo em que, com esta recordação, os espíritos se dirigem para a expectativa da Segunda vinda de Cristo no fim dos tempos. Nesta dupla perspectiva, o tempo do Advento apresenta-se como tempo de devota e jubilosa espera. Advento é um tempo forte de esperança e de conversão. Conversão e mudança de vida geram um sentimento muito caro na nossa vida: a esperança cristã. Este Advento é enriquecido com duas opções muito fortes na vida da Igreja no Brasil: a Novena de Natal e a coleta para a Campanha da Evangelização que financia a vida pastoral das nossas Igrejas irmãs pobres e sofredoras do Norte, do Nordeste e da Amazônia, e auxilia a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e as Dioceses e Arquidioceses nas suas ações pastorais específicas. Estes irmãos aguardam o nosso gesto concreto para que o Evangelho do Deus Menino seja proclamado e difundido naquelas regiões de missão e de miséria deste país continente. O Advento é composto de quatro semanas: nas duas primeiras semanas, todos somos convidados a ficar vigilantes e alertas, esperando com grande entusiasmo e alegria a chegada gloriosa do Cristo Salvador. Já nas duas últimas semanas, lembrando o que falavam os profetas a respeito da Bem Aventurada Virgem Maria, preparemos, mais de perto o nascimento do Redentor na cidade de Belém. O Advento nos faz relembrar de uma realidade muito presente em nossas vidas: a permanente espera da vinda do Senhor Jesus. É o Cristo que vem ao nosso encontro no presente e no futuro, como veio no dia de ontem, que é o passado. É uma peregrinação em direção ao Absoluto. Por isso, com o novo ano litúrgico, vamos estudar o Evangelho de São Marcos. São Marcos nos apresenta Jesus como Messias, o Filho de Deus e também como o Filho do Homem, o enviado de Deus no fim dos tempos, convidando a todos para a vigilância e para a vida digna. Todos esperamos, todos vivemos adventos, aguardando a manifestação cada vez mais visível do Reino de Deus, em que Justiça e paz se abracem e todos os povos e culturas desabrochem felizes e reconciliados contemplando o Deus que vem conosco, EMANUEL, NUMA TERRA SEM MALES, que a todos acolha, especialmente aqueles que precisam de paz para viver na fraternidade de irmãos. Irmãos e Irmãs,   Primeiro domingo do Advento, tempo em que exclama a Antífona de Entrada da Sagrada Eucaristia: “A vós, meu Deus, elevo a minha alma. Confio em vós, que eu não seja envergonhado! Não se riam de mim meus inimigos, pois não será desiludido quem em vós espera”. (Cf. Sl 23,1ss.) Vivemos um momento de clímax neste tempo de Advento. Neste domingo, o primeiro de quatro, temos uma convocação para uma preparação geral para o encontro com o Senhor no último dia. Este é o domingo da confiança na Misericórdia de Deus. A vinda do Senhor Jesus não é para o cristão motivo de medo ou de angústia. Muito pelo contrário, a vinda de Jesus deve ser esperada com doce esperança cristã. Nesse sentido a primeira leitura(cf. Is 63,16b-17.19b;64,2b-7) nos alerta sobre este desejo clamando que, se necessário, iremos rasgar os céus, para o encontro do Senhor com o seu povo que humilhado, povo que peregrina, povo que está na terra de Judá, desarticulado nos anos imediatamente subseqüentes ao exílio, esperando a restauração de sua Nação. Todos estão cansados do castigo, e digo mais, todos estão cansados de injustiça, clamando por paz e por esperança. O encontro definitivo com o Senhor está próximo. Que Deus se mostre com poder e misericórdia. Provocação poética do amor paterno de Deus por sua criatura – Judá depois do Exílio, socialmente agitado e politicamente dependente. O povo, na sua desolação, reconhece o seu pecado, mas confia, embora fraco como um vaso, naquele que o modelou.  Isso tem uma conexão com o ensinamento da Segunda Leitura(cf. 1Cor 1,3-9), da carta dirigida por Paulo aos Coríntios: a tudo devemos dar graças a Deus e nos mantermos firmes na fidelidade ao projeto de Deus e à sua obra redentora. A ação de graças pela confirmação dos coríntios na fé, prova de que Deus é fiel. Que os cristãos o sejam também: irrepreensíveis, com vistas à vinda do Senhor, que se espera para breve. Constante crescimento na comunhão com Cristo, com vistas à sua plena manifestação. Irmãos e Irmãs, Cristo veio inaugurar a presença do Reino de Deus, e seus discípulos, iluminados pelo Espírito de Pentecostes, entenderam que, depois de sua elevação na glória, ficava para eles a missão de continuar o que ele fundara. Todos nós ao sermos convidados a ficar vigilantes, pelo Evangelho de hoje(cf. Mc 13,33-37), somos convidados, a sermos co-responsáveis com a realização e o acontecimento entre nós do Reino de Deus. Cristo veio pela primeira vez, para nos revelar o sentido verdadeiro do esperado Reino de Deus: revelou que a causa do Reino de Deus é a causa dos homens e das mulheres deste mundo, e que o Reino de Deus se realiza entre nós pela prática do amor fraterno e da caridade benfazeja, repartindo tudo, mesmo que seja um simples sorriso e um aperto de mão ao irmão excluído ou ao favelado. Por isso, com a ausência de Cristo todos nós, sem distinção, devemos assumir como nossa a causa de Deus: trata-se de uma vigilância escatológica, ou seja, estarmos ocupados, com diligência, com o Reino que Cristo mostrou presente, enquanto vivemos preparando-nos para o encontro com Ele, com a glória, advinda das boas obras de caridade e da misericórdia. O trecho do Evangelho de hoje faz um forte apelo para a vigilância. O que significa vigiar? Esta história de que temos que esperar uma solução miraculosa para os problemas do mundo não é mais admissível. O homem e a mulher devem estar engajados na realização dos projetos e do Reino de Deus na vida concreta do dia a dia. Jesus está vivo em nosso meio, até o fim dos tempos, por isso devemos interpretar a “volta de Cristo” como sendo um fato isolado que acontecerá num dia e numa hora específicos do calendário que a Ele caberá dentro  do tempo de Deus. O importante hoje é a responsabilidade que Deus nos deixou: fazer acontecer o seu Reino no dia a dia de nossa vida pessoal, paroquial, comunitária, em todas as nossas relações, pessoais e profissionais, praticando a paz e a justiça. Cristo resolverá nossos problemas na medida em que nós deixarmos o Cristo que está em cada um, pelo Batismo, agir na comunicação das bem-aventuranças da vida cristã. Tudo isso para ajudar a edificar, aqui e agora, um novo tempo, tempo de graça e de paz. Meus irmãos, Este domingo nos deixa uma reflexão importante sobre a presença permanente de Deus como sentido último de nossa existência e atuação em cada momento, principalmente no testemunho público e social de nossa fé perante o mundo cada dia mais secularizado e mais longe da santidade que é pedida pelo Menino encarnado no Seio Virginal e concebido em Belém. Presença que é alegria e esperança, da presença deste Deus que se alegra com nosso compromisso evangelizador e nosso engajamento no encontro com o Senhor que vem, carregando as sementes da Esperança cristã. Advento é isso, tempo de espera, mas tempo de revisão de vida, em que as coisas velhas vão dando espaço para as coisas novas para acontecer aqui e agora o Reino de Deus. Todos somos convidados a enxergar a situação que nos rodeia e acreditar que é possível resolver nossos problemas sempre contando com a graça e o auxílio de Deus Menino, o Divino Infante. Que a liturgia inaugural do tempo do Advento contamine nossos corações com o “gram finale” da Liturgia Eucarística: “amar desde agora as coisas do céu, e caminhando entre as coisas que passam, abraçar as que não passam”. Tudo passa, só Cristo permanece, pelos séculos dos séculos, Amém!

 

O salmo responsorial situa-nos numa atmosfera espiritual que não só nos ajuda a entender, a partir da oração, a primeira leitura, mas também nos aponta pistas para viver o primeiro domingo do Advento. No salmo 121, encontramos os temas mais importantes da nossa celebração. É importante iniciarmos o caminho que tem como meta o duplo encontro que nos fala o Senhor neste domingo: o encontro escatológico (evangelho) e o encontro imediato (presente) que nos prepara para a celebração da encarnação de Deus. A resposta ao salmo “Vamos com alegria para a casa do Senhor” manifesta a alegria desse encontro. A alegria é o sentimento que deve “reinar” neste Advento. Esta disposição de nos pôr a caminho supõe que pensemos onde estamos, de onde viemos e de necessitamos, como fala a carta aos Romanos; e, por isso, é necessário estarmos atentos, vigiando como diz o evangelho. A paz em Jerusalém que o salmista espera encontrar terá que ser um encontro com a paz interior: “Haja paz dentro dos teus muros”, aparecendo como um desejo: é a mesma paz que nos fala Isaías. Há a convicção de se encontrar aquilo que se deseja: a esperança é o fundamento deste salmo. Hoje, existirá o desejo de Deus? O evangelho deste domingo deve ser proclamado com a confiança que emana das palavras de Jesus aos seus discípulos: “quando vier o Filho do Homem”, porque este é o núcleo da esperança. Não se trata de um otimismo insensato, mas da certeza profunda de que Deus está e se faz próximo; trata-se, pois, de nos prepararmos para viver com o Emanuel (Deus-Connosco). A sua presença transformará a realidade de acordo com o seu Reino. Não se trata de uma esperança inquietante e com medo. É importante deixar bem claro que o encontro com Deus é a possibilidade de viver a plenitude da vida. Assim, o convite à vigilância não deve vir acompanhado de uma atitude de desconfiança, porque Deus não é um ladrão, nem é o dilúvio. Jesus pede-nos que saibamos estar alerta: nos exemplos do dilúvio e da visita inesperada do ladrão, é importante acentuar a imprudência mais que a desgraça. São Paulo fala na importância do momento presente, porque o futuro da salvação já está presente. Se não se vive com o desejo de Deus, o mais provável é, com as inúmeras atividades de nossas vidas, esquecer esta perspectiva escatológica: perder a consciência de que o verdadeiro Amor vem ao nosso encontro. Não se supõe que se viva no medo e na ansiedade, mas no desejo de estarmos preparados para bem receber Aquele que é o Amor. Por isso, “abandonemos as obras das trevas e revistamo-nos das armas da luz”. Como o salmo 121, o profeta Isaías, na primeira leitura, também nos convida a iniciar uma peregrinação. Isaías era um homem culto, conhecia muito bem como os reis do seu tempo queriam expandir cada vez mais as suas áreas de influência. Assim, a paz seria um bem de pouca duração. Poderíamos estabelecer certo paralelismo com o mundo de hoje profundamente dividido por ideologias, estratégias, religiões, lutas nacionalistas, interesses econômicos, etc. O profeta não propõe uma luta onde uma parte impõe a sua vontade sobre a outra parte, mas uma mudança de atitude interior: o horizonte que nos deve orientar para chegar ao lugar desta peregrinação é “subamos ao monte do Senhor, ao templo do Deus de Jacó. Ele nos ensinará os seus caminhos e nós andaremos pelas suas veredas”. Em cada domingo, Isaías irá apresentar-nos diferentes aspectos da paz. Hoje, por exemplo, quando diz que “converterão as espadas em arados e as lanças em foices”, é a capacidade de passar de uma sociedade agressiva (o simbolismo da guerra com as espadas e as lanças) para uma sociedade mais produtiva para todos, mais preocupada com o bem comum, como o alimento que se obtém com o cultivo das terras: arados e foices são símbolos. Para além disto, este trabalho pela paz, supõe também harmonia e respeito pelas pessoas em todas as suas dimensões: pessoal, familiar ou social. A paz será tema constante neste tempo de Advento. A paz começa no interior da pessoa e com a contribuição de todos seja “estendida” a todos as dimensões da sociedade.

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