XXXIII Domingo do Tempo Comum – Ano A

Por Mons. Inácio José Schuster

Estamos chegando no fim de mais um Ano Litúrgico. E isso nota-se na “tonalidade” escatológica das leituras. Os últimos domingos do Tempo Comum têm esta perspectiva escatológica (o fim dos tempos) que se prolonga até à solenidade de Cristo-Rei (encerramento do Ano Litúrgico). O texto evangélico deste domingo é a parábola dos talentos que devem ser postos a render. Recorda-nos a vinda de Jesus Cristo como Juiz universal, ou seja, o momento em que cada um prestará contas da sua própria vida. Sugerimos a proclamação da forma longa do texto. Se tivéssemos que resumir numa frase a sua mensagem, diríamos: “aproveitar o tempo”. Na parábola, um patrão louva e recompensa os seus funcionários a quem deu cinco e dois talentos, porque com criatividade fizerem render o que tinham recebido. Todavia, repreende e castiga aquele que, tendo recebido somente um talento, não o pôs a render, nem fez qualquer esforço para que tal acontecesse. Todos recebemos talentos na nossa vida: uns de ordem natural (a vida, a saúde…), outros de ordem espiritual, outros de ordem intelectual, outros de ordem material. Em primeiro lugar, é importante que cada um descubra os seus próprios dons, para, ao longo da vida, os pôr a render. No evangelho não se tem em consideração o número de “talentos”. Não está nas nossas mãos receber mais ou menos; o que é importante é pôr a render os talentos que nos foram concedidos. A primeira leitura ajuda-nos a aprofundar o evangelho. O Livro dos Provérbios elogia a mulher virtuosa. Parece um texto muito “machista”, mas não podemos esquecer o contexto social da época em que foi escrito. Nessa altura, a mulher não trabalhava fora de casa e ocupava-se somente das tarefas domésticas. Mas a finalidade do texto continua atual: elogiar a mulher virtuosa, ou seja, a pessoa que, como nos diz o evangelho, põe a render os seus talentos. A Oração Eucarística IV faz referência ao cuidado que devemos ter com tudo o que Deus nos concedeu, ou seja, os bens deste mundo e as nossas próprias qualidades: “Formastes o homem à vossa imagem e lhe confiaste o universo, para que, servindo-Vos unicamente a Vós, seu Criador, exercesse domínio sobre todas as criaturas”. A proclamação da Oração Eucarística IV neste domingo completaria a Liturgia da Palavra. Tal como a primeira leitura e o evangelho, a segunda leitura fala-nos do fim dos tempos, especialmente da vinda do Senhor. Eram muitos os que perguntavam sobre quando seria o regresso de Jesus. São Paulo responde que o mais importante não é saber o dia ou a hora, mas que somos filhos da luz e, por isso, não vivemos nas trevas. Por outras palavras, repete a mensagem da parábola dos talentos: “não durmamos como os outros, mas permaneçamos vigilantes e sóbrios”. Um elemento essencial na escatologia é a imagem do banquete. O prêmio que se recebe por ter feito render os talentos é um lugar no banquete do Senhor. Todos desejamos participar nesse banquete final. Mas, não podemos esquecer que, enquanto não chegar esse momento, somos convidados à eucaristia, antecipação sacramental do banquete escatológico. Como conclusão da homilia e introdução à liturgia eucarística, poder-se-ia salientar a importância da missa na vida do cristão, onde se recebe o corpo e o sangue de Cristo que um dia virá em plenitude com toda a sua glória e esplendor.

 

VIVA O TEMPO PRESENTE NUMA FIDELIDADE ATIVA
Padre Bantu Mendonça

A expectativa e a vigilância convertem-se em responsabilidade pela transformação do mundo. A parábola dos talentos ressalta a vigilância como atitude de quem se sente responsável pelo Reino de Deus. E quem recebeu talentos – e não os faz render – pode ser demitido do Reino por “justa causa”. O Evangelho situa-se no quinto e último grande discurso escatalógico, ou aquele que trata do fim último das coisas. O tema básico do discurso é a vigilância, ilustrada pela leitura dos sinais dos tempos, a parábola do empregado responsável, a das virgens prudentes e imprudentes e que vai terminar na festa de Cristo Rei, com o texto sobre o Juízo Final. Por trás da parábola dos talentos há um tempo de expectativa e de sofrimento. Na época em que Mateus escreveu o Evangelho, muitos cristãos estavam desanimados diante da demora da segunda vinda do Messias. Além disso, o converter-se à fé cristã acarretava perseguição e até morte. As comunidades se esvaziavam e o ardor por Jesus Cristo esmorecia. O evangelista escreve com o objetivo de reanimar a fé. Jesus apresenta-se como um Senhor que, antes de empreender uma viagem, reúne seus empregados e reparte com eles sua riqueza para que a administrem. A um deu cinco talentos, a outro dois e um talento ao terceiro: a cada um segundo sua capacidade. E viajou para longe. No retorno, Ele pede contas. Os dois primeiros fizeram com que os talentos rendessem em dobro. O último devolveu o talento tal qual tinha recebido, pois com medo de arriscar havia enterrado o talento. Curioso é o motivo de tal procedimento. Não tomou tal atitude por preguiça, mas por medo da severidade de seu Senhor. Em consequência, os dois primeiros foram elogiados e recompensados pela eficiente administração e o último foi demitido por “justa causa”. No tempo de Jesus um talento era uma soma considerável de dinheiro, e hoje pode ser interpretado em termos de dons ou carismas recebidos de Deus. O trecho demonstra que o importante é arriscar-se e lançar-se à ação em prol do crescimento do Reino de Deus, para que os dons que recebemos d’Ele possam crescer e se frutificar. De forma alguma se deve interpretar este texto “ao pé-da-letra”, como se ele tratasse de investimentos e lucros financeiros, pois ele é uma parábola, que é uma comparação usando imagens e símbolos conhecidos. Jesus confiou à comunidade cristã a revelação dos segredos do Reino e a revelação de Deus como o “Abbá”, ou querido Pai. Esse dom é um privilégio, mas também um desafio e uma responsabilidade. Nem a comunidade cristã nem o cristão individual podem guardar para si essa riqueza. Embora carreguemos “esse tesouro em vasos de barro” (cf. II Cor 4,7), como disse São Paulo, temos que partir para a missão, para que todos cheguem a essa experiência de Deus e do Reino. Não é suficiente que estejamos preparados para o encontro com o Senhor. O “outro lado da medalha” é a atividade missionária, que faz com que o Reino de Deus cresça, mediante o testemunho da nossa prática de justiça. O terceiro empregado, devolvendo ao Senhor o talento que recebera – nem mais nem menos – em termos de justiça está quite. Ele personifica os membros das comunidades que não traduzem em seus relacionamentos os dons recebidos de Deus ou daqueles que, observando rigorosamente a Lei, se consideram perfeitos cumpridores da vontade do Senhor, mas que, na verdade, desconhecem a exigência fundamental do Messias que é de gratidão e iniciativa. Por isso, são castigados por sua mediocridade. Enterrar os talentos é sinônimo de eximir-se da responsabilidade diante da missão que o Ressuscitado confiou a Seus discípulos como Suas testemunhas e continuadores da obra que Ele mesmo recebeu do Pai: salvar a humanidade (cf. At 1,6-11). Enterrar os talentos é privar a comunidade dos dons de que ela está necessitando. A omissão é um pecado que prejudica a edificação da comunidade. É instalar-se para não correr riscos. Para aqueles que aderiram à fé, não basta ser bons evitando o mal a fim de serem aprovados como solícitos administradores dos bens do Reino. O que se exige de nós é a capacidade de correr o risco com responsabilidade e compromisso. Jesus nos alerta sobre a necessidade de vivermos o tempo presente numa fidelidade ativa como um preparo ao Juízo Final. Quando voltar, o Senhor recompensará os bons administradores com a salvação, isto é, com a alegria de Seu convívio na Jerusalém celeste. Portanto, não enterre o seu talento. Faça-o render a fim de que possa ser recompensado pelo Senhor quando chegar: “Muito bem, empregado bom e fiel. Tu foste fiel negociando com pouco dinheiro, e por isso vou pôr-te para negociar com muito. Vem festejar comigo!”

 

O SERVO BOM E FIEL… VEM PARTICIPAR DA MINHA ALEGRIA
Por Dom Emanuele Bargellni, Prior do Mosteiro da Trasnfiguração
33º DOMINGO DO TEMPO COMUM – A
Leituras: Pr 31, 10-13; 19-20; 30-31 – 1 Ts 5, 1-6; Mt 25, 14-30

Que alegria ouvir este apaixonado convite na boca do patrão elogiando seu empregado pela obra bem cumprida; ficando feliz de partilhar com ele sua própria felicidade! Se além disto, – isto é, o patrão que se alegra pela engenhosa criatividade do seu servidor – for o próprio Senhor, que trata o servidor como seu amigo, introduzindo-o na sua intimidade, o estupor desta festa é ainda mais encantador! É justamente isso, o que Jesus pretende nos revelar, através da parábola, sobre a relação do Pai com cada um de nós. Uma relação de confiança, com a qual o Pai desafia a liberdade, a criatividade e a responsabilidade do homem na construção do seu reino, e o convida a tornar-se seu colaborador. A parábola do patrão, que entrega a seus empregados uma relevante soma de dinheiro para que eles a trabalhem durante sua ausência, faz parte da perspectiva escatológica que caracteriza todo o capítulo 25 do evangelho de Mateus. Sobre a vinda gloriosa do Senhor, ninguém conhece o tempo e a modalidade ao não ser o próprio Pai (Mt 24,36.42-44). Esta incógnita deve gerar nos discípulos vigilância e anseio do encontro, como acontece com as moças que esperam em meio à noite o noivo, enquanto este se atrasa para chegar e celebrar a festa das bodas (Mt 25, 1-13). Deve suscitar confiança e operosidade e não medo, como nos empregados sábios que administram os talentos recebidos (Mt 25, 14-30). Deve alimentar aquela lucidez de visão que faz reconhecer o Senhor já presente nas situações da vida, especialmente nos mais necessitados. O Senhor julgará somente a partir da criatividade fecunda do amor, não pela quantidade das obras cumpridas (Mt 25, 31-46). Com a parábola de hoje, Jesus nos surpreende mais uma vez. O Pai, nos diz Jesus, se relaciona com o homem, apontando antes de tudo sobre suas capacidades positivas. Com o intuito de despertar suas potencialidades e responsabilidade, o liberta de todo medo que paralisa as energias vitais, e de toda presunção que faz o homem descuidar de suas responsabilidades diante de Deus. Deus, ao contrário, transforma o empregado num colaborador responsável e criativo, e ainda mais, num amigo com quem partilhar a sua mesma alegria da vida. Que diferença com certas imagens de Deus, recorrentes em certa pregação, que, com o intento de recuperar o enfraquecido sentido do pecado, chega a apresentar-lhe o rosto deformado de um fiscal, interessado mais ao código das normas que à pessoa! A parábola destaca logo três elementos salientes na pedagogia de Deus. 1- “Chamou seus empregados e lhes entregou seus bens… a cada qual de acordo com sua capacidade” (Mt 25,15). Os executivos das empresas, ao entregar uma tarefa aos empregados, determinam antes de tudo o objetivo da iniciativa. Pretendem de todos, sem distinção, o máximo esforço para alcançá-lo. O alcance do objetivo é o único critério para avaliar o comportamento de todo empregado. O Pai de Jesus, ao contrário, na imagem do patrão da parábola, entrega seus bens “a cada um de acordo com sua capacidade”, e, ao acertar as contas, julga o resultado, não em base da quantidade do capital ganho, mas em proporção ao empenho que, com responsabilidade e criatividade, cada um desenvolveu. Ele está interessado antes de tudo ao bem estar, à realização das potencialidades da pessoa, mais que à renda do capital entregue. Ele está interessado em poder partilhar sua felicidade com o empregado/amigo! A retribuição que Deus dá é sempre total, contra a lógica de uma visão mercantil e moralizante da vida e da religião. A parábola dos trabalhadores desempregados, chamados a trabalhar na vinha do patrão a qualquer hora do dia, com a distribuição do inteiro salário mesmo para aqueles que tinham chegado ao cair do sol, já orientava nesta direção desconcertante, isto é, do estilo do Pai que recompensa dando, não o que achamos ter merecido, mas a si mesmo e gratuitamente. “Toma o que é teu e vai. Eu quero dar a este último o mesmo que a ti…. Ou estás com ciúme porque sou bom? (Mt 20, 1- 16). 2- “Chamou seus empregados e lhes deu seus bens….. Em seguida viajou” (Mt 25, 15). O patrão, depois de entregar a cada um os talentos de acordo com sua capacidade, escolhe viajar. Afasta-se deliberadamente. Deixa aos empregados plena liberdade de atuação. Manifesta plena confiança em cada um, e de cada um solicita a expressão das próprias capacidades. Corre o risco de perder. Não exige mais, não renuncia ao possível. Chama cada um a ser seu colaborador na vida e na construção do seu reino. O Senhor é amante da vida e promove as pessoas. Deparamos-nos com o mistério da liberdade do homem, solicitada e promovida por Deus. Significativa esta imagem do patrão que, depois de entregar aos empregados seus bens, vai viajar.  Se afasta, por assim dizer, para cada um estar certo que Deus não limita sua liberdade, criatividade e responsabilidade na construção da sua história. Como afirma Paulo na carta aos Filipenses, Deus se faz pequenino, e se retrai na pequenez do Verbo que se despoja de toda glória divina, se esvazia, e partilha nossa pequenez, para o homem partilhar a vida verdadeira em plenitude. “Oh admirável intercâmbio! Deus se fez homem para que o homem participe da natureza de Deus”, cantamos com estupefata alegria ao celebrar o mistério da encarnação na solenidade do Natal. 3- Cada um dos empregados reage à sua maneira. Nisto cada um manifesta quem ele é de verdade, e qual a qualidade da relação vivenciada para com o patrão. Os dois primeiros empregados manifestam auto-estima, iniciativa, abertura aos riscos e prudência, liberdade e responsabilidade. O terceiro tem uma baixa auto-estima, dá una leitura prejudicialmente negativa das atitudes do patrão, vive a relação com ele sob o pesadelo do medo, e acaba simplesmente escondendo no chão o precioso talento: “Senhor, sei que és um homem severo, pois colhes onde não plantaste e colhes onde não semeaste. Por isso fiquei com medo e escondi o teu talento no chão. Aqui tens o que te pertence” (Mt 25, 25). Ele reduz Deus às medidas da sua mesquinhez de ânimo. O medo paralisa suas capacidades, o torna irresponsável diante do patrão e do talento, enquanto ele julga que seu dever e sua habilidade hão de limitar-se a “guardar intacto” o talento recebido. Pelo contrário esta atitude é definida pelo patrão como uma radical infidelidade à tarefa recebida, que era a de trabalhar o talento e não somente de guardá-lo. Às vezes o mesmo mecanismo paralisante se insinua na vida pessoal e até na vida das comunidades, no que diz respeito ao tesouro vivente que nos foi “entregue-confiado” (em latim: entregar = tradere, traditio[tradição]), através da pregação do evangelho e da tradição viva da Igreja. A Tradição da Igreja, a dos elementos essenciais da fé e da vida espiritual da Igreja, é um tesouro vivente e dinâmico, como é a Palavra de Deus que a gerou e que fica gerando-a. É preciso trabalhá-la para que ela possa produzir seus frutos de vida no Espírito. Guiada pela Divina Providência, ela cresce ao longo da história, sob o impulso do mesmo Espírito e através dos vários ministérios e experiências da comunidade cristã. Uma luz muito iluminadora sobre este assunto tão vital foi oferecida ao povo cristão do nosso tempo, pelo Concílio Vaticano II na Constituição Dei Verbum (ver em maneira especial o n. 8), e mais recentemente pela Exortação apostólica do Papa Bento XVI, “Verbum Domini” (2010). Às vezes, na presunção de guardar em maneira mais fiel algumas práticas religiosas ou certas maneira de pensar a vida cristã, que alguém julga como “tradição” importante, acaba congelando o tesouro da fé e da vida recebida, sob uma determinada forma histórica ou cultural. O tesouro fica escondido no chão, impedido de frutificar. O Senhor vai nos pedir conta desta administração do seu tesouro, talvez generosa, mas desprovida do devido discernimento do Espírito. A cultura da modernidade parece ter desenvolvido, no que diz relação à responsabilidade do homem na história, uma atitude que vai num sentido contrário. Destacou a responsabilidade do homem até a radical autonomia na construção do mundo, considerando Deus um impedimento à real dignidade do homem. “Viver como se Deus não existisse”, foi um marco fundamental da modernidade. A tradição bíblica, porém, considera o homem/mulher colaborador de Deus na sábia gestão da criação. O trabalho do homem corresponde à sua divina vocação de “guardar e cultivar” o mundo e promover a vida na história (cf Gn 2, 8-15). Paulo, na carta aos Tessalonicenses, destaca esta tarefa, como preparação responsável à vinda gloriosa do Senhor (Ts 5, 1-6). Esta tensão entre compromisso na história do hoje e a espera da vinda gloriosa do Senhor, faz dos cristãos homens e mulheres de espírito critico, sábios, vigilantes e livres. A repetida imagem bíblica do ladrão que surpreende na noite, e das dores do parto que podem sobrevir de repente (1 Ts 5,2-3), não devem nos desnortear. Jesus e Paulo pretendem destacar o fato que o evento escatológico do reino de Deus não depende dos poderes humanos, mas da livre e benevolente vontade do Pai. Isto há de gerar não medo, mas vigilância confiante. A imagem da mulher operosa e criativa, reforça esta perspectiva (primeira leitura). Às vezes também entre as pessoas “religiosas”, se encontra a atitude “mundana” de acreditar que o homem e não Deus é o principal protagonista da santidade pessoal, assim como da eficácia da evangelização e do ministério apostólico nas suas variadas formas. O papa Bento XVI, durante sua recente visita apostólica na Alemanha, chamou a atenção sobre a exigência de despojar-se de certas formas finas de mundanização que poluem a Igreja no espírito. Jesus nos diz que Deus chama o homem a tornar-se seu colaborador, na liberdade e na criatividade. Seu próprio projeto de vida se torna também obra do homem, a exercer na liberdade do amor, liberta de todo medo: “Vós não recebestes um espírito de escravos, para recair no temor, mas recebestes um espírito de filhos adotivos, pelo qual clamamos: Abba-Pai” (Rm 8,15). A recompensa que o empregado/amigo/filho recebe, é o próprio Deus: “Como foste fiel na administração de tão pouco, eu te confiarei muito mais. Vem participar da minha alegria” (Mt 25,21.23). O empregado medroso, ao contrário, tem uma imagem totalmente deformada do patrão/Deus, como de um “algoz”; e de si mesmo como de um escravo. Junto com o talento, enterrou a si mesmo. Está já morto. Por isso, como se poderia ainda deixar o talento precioso nas suas mãos? Ou, como ele poderia partilhar a alegria do seu patrão? Por si mesmo, ele se jogou fora da vida. A dura sentença do patrão que o expulsa do circuito da festa, mais que uma severa punição por parte do patrão, parece a ratificação da triste sorte já construída pelo próprio empregado medroso e irresponsável. A Oração Eucarística IV, hoje pode interpretar bem as perspectivas abertas pelas leituras bíblicas, e dar-lhes a profundidade da oração que tudo consegue unificar em Cristo e no seu mistério de morte e ressurreição, transformando o dom da palavra recebida em ação de graças ao Pai, por Cristo Jesus, no Espírito Santo.

 

Homilia do Padre Françoá Costa – XXXIII Domingo do Tempo Comum – Ano A
Espiritualidade do trabalho

Aquele que recebeu cinco talentos e o que recebeu somente dois foram bons trabalhadores. Cada um deles, recebidos os talentos, “negociou com eles; fê-los produzir, e ganhou outros” (Mt 25,16). É preciso trabalhar! Mais ainda, é preciso trabalhar bem! São João Paulo II, na sua Carta Encíclica sobre o trabalho humano (“Laborem exercens”), falava de “elementos para uma espiritualidade do trabalho”. No entanto, ninguém duvida que a primeira coisa para falarmos de uma espiritualidade do trabalho é que se tenha um trabalho e se trabalhe. É verdade que nem sempre é fácil ter um trabalho. Há muitas pessoas desempregadas. Nesse sentido, a justiça social apela aos representantes responsáveis pelo bem comum da sociedade que se empenhem em criar cada vez mais postos de trabalho.

Mas também é verdade que alguém poderia não trabalhar ou trabalhar mal simplesmente porque é um preguiçoso. Como vencer a preguiça? Trabalhando. Uma boa lição deixou aos filhos aquele camponês que estava prestes a morrer. Conta-se que os seus filhos eram bem comodistas e o pai, já moribundo, disse-lhes: ‘meus filhos, estou morrendo, mas vou deixar como herança um campo e um tesouro que se encontra neste mesmo campo; vocês só terão que procurá-lo cavando o terreno’. Morto o pai, começou a caça ao tesouro. Vão cavando, revolvendo o terreno e… nada. Depois de, literalmente, cavar todo o terreno não encontraram nenhum tesouro; só então entenderam qual era o tesouro que o pai lhes tinha deixado: o trabalho.

O trabalho é um dom de Deus, que criou o homem para que trabalhasse (cf. Gn 2,15). No nosso trabalho nós temos que fazer como aqueles servos que negociaram e fizeram com que os talentos se multiplicassem. Eles sabiam que eram administradores de bens que não lhes pertenciam. E nós, o que somos? Administradores, servos, trabalhadores na vinha do Senhor, negociantes com os talentos de Deus. O Senhor nos pedirá conta da nossa administração. Temos que trabalhar santificando a nossa profissão.

O primeiro requisito para santificar o próprio trabalho, agradando ao Senhor e fazendo do trabalho um ambiente de apostolado, é fazê-lo bem: pontualidade, responsabilidade, honestidade, prudência, solidariedade etc. Essas e outras virtudes formam o cortejo das virtudes do trabalhador. Um cristão que deseja ser santo, mas desenvolve mal o seu trabalho pode vir a ser um autêntico contra testemunha do Evangelho: reza, mas não trabalha bem; vai à Missa, mas não é honesto nas relações de compra e venda; faz penitência, mas não pratica a pequena mortificação de chegar pontualmente ao trabalho; fala que todo mundo tem que ser bom, mas ele mesmo é não é justo com os seus funcionários… Mal serviço à evangelização! Ainda que participe de uns cinco grupos da paróquia, se não é bom trabalhador, bom pai de família e bom amigo dos seus amigos, não vai atrair para Deus, não estará se santificando, não estará vivendo uma boa espiritualidade.

É justamente em meio ao barulho do mundo, ao ruído das fábricas, à paciente leitura dos livros da faculdade, enfim, por ocasião dos diversos afazeres do cotidiano nós encontramos a Deus, ele nos espera em meio a essas coisas. Fugir dessa realidade é fugir do mundo real e seria, portanto, fugir do encontro com Deus. Nesse sentido, as palavras de S. Francisco de Sales são atuais para animar-nos a viver essa “espiritualidade do trabalho” da qual falava o grande João Paulo II: “a prática da devoção tem que atender à nossa saúde, às nossas ocupações e deveres particulares. Na verdade, Filotéia, seria porventura louvável se um bispo fosse viver tão solitário como um cartuxo? Se pessoas casadas pensassem tão pouco em juntar para si um pecúlio, como os capuchinhos? Se um operário frequentasse tanto a igreja como um religioso o coro? Se um religioso se entregasse tanto a obras de caridade como um bispo? Não seria ridícula tal devoção, extravagante e insuportável? Entretanto, é o que se nota muitas vezes, e o mundo, que não distingue nem sequer a devoção verdadeira da imprudência daqueles que a praticam desse modo excêntrico, censura e vitupera a devoção, sem nenhuma razão justa e real” (S. Francisco de Sales, Filotéia, 1,3).

Vamos continuar negociando com os nossos talentos. Há momentos nos quais precisamos ser fortalecidos para continuar com esse empenho firme e alegre: santificar a realidade profissional, a de todos os dias. Vamos fortalecer-nos na Missa dominical, e até diária se possível; na meditação diária da Palavra de Deus; na reza quotidiana do Terço; nas visitas ao Santíssimo. Todas essas práticas de piedade são como um “posto de combustível” aonde o carrinho da nossa alma vai se reabastecer para continuar caminhando, encontrando e amando a Deus, conversando com ele em todos os momentos da nossa jornada.

 

Homilia de D. Henrique Soares da Costa – XXXIII Domingo do Tempo Comum – Ano A
Pr 31,10-13.19-20.30-31 / Sl 127 / 1Ts 5,1-5 / Mt 25,14-30

De um modo ou de outro, a Palavra do Senhor sempre nos fala da vida, nos revela o sentido, nos mostra o caminho. Hoje, o Senhor nos apresenta a existência como um punhado de talentos, de dons, de oportunidades que a providência gratuita e misteriosa de Deus colocou em nossas mãos para que façamos frutificar. Certamente, jamais compreenderemos porque nascemos desse modo ou somos daquele outro. Podemos, no entanto, ter a certeza que o Senhor nos deu uma vida, “a cada um de acordo com a sua capacidade”. Ora, é esta vida, dom de Deus, fruto de um desígnio de amor sem fim, que cada um de nós deve responsavelmente cultivar e fazer frutificar em benefício nosso de dos irmãos. Na mulher forte e industriosa da primeira leitura, aparece um exemplo de alguém que não se contenta em passar pela vida, mas vai tecendo o fio da existência com as pequenas fidelidades de cada dia. Do mesmo modo, a segunda leitura chama-nos atenção para o fato que nos serão pedidas contas da vida, dom recebido de Deus. Daí, o conselho: “Não durmamos, como os outros, mas sejamos vigilantes e sóbrios”.

Caríssimos, uma das grandes tentações do mundo atual é pensar que a existência é nossa de modo absoluto, como se cada um de nós se tivesse criado a si próprio, dado a si próprio a existência. Fechados em si próprios, os homens pensam que podem ser felizes construindo a vida de seu próprio modo, à medida de suas próprias idéias e objetivos. Ilusão! A vida é dom de Deus e somente nos faz felizes se dela fizermos um diálogo amoroso com o Senhor, autor e doador de nosso ser. Mais que talentos na vida, o Senhor nos concedeu a própria vida como um precioso talento. Desenvolvê-lo e ser feliz e buscar não a nossa própria satisfação, não nossa própria medida, não nosso próprio caminho, mas fazer da existência uma busca amorosa e cheia de generosidade da vontade de Deus. Eis! Somente seremos felizes e maduros quando tivermos a capacidade de arriscar verdadeiramente nos perder, nos deixar para nos encontrar no Senhor, alicerce e fonte de nossa vida. Eis o verdadeiro investimento!

Infelizmente, a dinâmica do mundo hodierno, pagão e ateu, não no ajuda nessa direção. Há distração demais, novidade demais, produto demais a ser consumido; há preocupação demais com uma felicidade compreendida como satisfação de nossos desejos, carências e vontades. Há consciência de menos de que a vida é dom e serviço, doação e abertura para o infinito; há percepção de menos de que aqui estamos de passagem e de que lá, junto ao Senhor, é que permaneceremos para sempre. Atolamo-nos de tal modo nos afazeres da vida, no corre-corre de nossas atividades, no esforço por satisfazer nossas vontades, na busca de nossa auto-afirmação, que perdemos a capacidade de compreender realmente que somos passageiros e viandantes numa existência breve e fugaz que somente valerá a pena será vivida na verdade se for compreendida como abertura para o Senhor e, por amor a ele, abertura generosa e servidora para os outros.

Caríssimos, estejamos atentos à advertência do Apóstolo: “Vós, meus irmãos, não estais nas trevas, de modo que esse dia vos surpreenda como um ladrão. Todos vós sois filhos da luz e filhos do dia” O Dia é Cristo, a Luz é Cristo. Viver na luz, viver no dia é viver na perspectiva de Cristo Jesus, é valorizar o que ele valoriza e desprezar o que ele despreza. Filhos da luz, filhos do dia – eis o que deveríamos ser! Mas, com tanta freqüência nossa mente e nosso coração, nossos pensamentos e nossos afetos encontram-se entenebrecidos como o dos pagãos… Quão grave para nós, porque conhecemos a Luz, cremos no Dia que é o Cristo-Deus!

Não nos iludamos, não façamos de conta que não sabemos: todos haveremos de dar contas a Deus de nossa existência, do sentido que lhe demos, daquilo que nela construímos. Queira Deus que nossa vida seja como a do Cristo Jesus: uma verdadeira e amorosa abertura para Deus e uma abertura para os outros! Queira Deus que consigamos, iluminados pela sua Palavra, nutridos pela sua Eucaristia e animados pela oração diária, viver nossa existência na perspectiva de Deus, de tal modo que vivamos, vivamos de verdade, vivamos em abundância, vivamos uma vida que valha a pena!

Que o Senhor no-lo conceda pela sua graça. Amém.

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