Fim do mundo? A Profecia de São Malaquias

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 517 – julho 2005
Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

Em síntese: A profecia atribuída a São Malaquias, bispo de Armagh (Irlanda), no século XII não era conhecida até 1595. Os pesquisadores chegaram à conclusão de que foi forjada por interessados políticos que queriam colocar sobre a Cátedra de Pedro o Cardeal Simoncelli, de Orvieto, precisamente indicado pelo Espírito Santo mediante o dístico “De antiquitate urbis”. A falsidade da profecia logo se evidenciou, pois foi eleito Papa não Simoncelli, mas o Cardeal Sfondrate. A profecia é um instrumento da desonestidade política e não merece crédito.
A eleição do Papa Bento XVI deu ocasião a que os meios de comunicação trouxessem à tona a Profecia de São Malaquias, que prevê o fim do mundo para os próximos anos, sendo o último Papa Pedro II. Torna-se assim oportuno estudar esta matéria.

1. O conteúdo da Profecia
São Malaquias de Armagh (distinga-se do profeta Malaquias, do Antigo Testamento) nasceu na Irlanda em 1095 aproximadamente. Fez-se monge do mosteiro de Bangor (Irlanda). Ordenado sacerdote aos 25 anos, empenhou-se na renovação da vida monástica, começando pelo mosteiro de Bangor, sob a orientação do arcebispo Celso, primaz da Irlanda. Feito bispo de Connor, tornou-se depois arcebispo de Armagh. Interessado na restauração dos mosteiros, era grande amigo de S. Bernardo, seu contemporâneo. Morreu na França em 1148, quando viajava para se encontrar com o Papa Eugênio III.
Deixou fama de santidade e foi muito estimado pelas gerações seguintes, de modo que, após o devido processo, o Papa Clemente III o canonizou em 1190.
A esse Santo atribui-se a famosa “Profecia dos Papas”, que terá sido escrita em 1139, quando Malaquias passou um mês em Roma. Consta de 111 (segundo outros, 113) dísticos latinos, que tentam caracterizar a figura de cada Pontífice desde Celestino II (1143-1144) até Pedro II, que deverá presenciar o fim do mundo.
Esse texto, embora seja atribuído a um autor do século XII, só se tornou de conhecimento público em 1595, quando o beneditino belga Arnoldo de Wyon o inseriu no seu opúsculo Lignum Vitae, ornamentum et decus Ecclesiae (Lenho da Vida, ornamento e glória da Igreja); nessa obra dividida em cinco tomos, Wyon enumera os monges beneditinos que ilustraram a sua Ordem, entre os quais é apresentado S. Malaquias, monge de Bangor tido como profeta.
Os 74 primeiros dísticos da lista dos Papas, no Lignum Vitae, são acompanhados de breve comentário, da autoria do historiador espanhol Afonso Chacón, dominicano, falecido após 1601.
O comentário aplica os dizeres da Profecia aos 74 Papas que governaram desde Celestino II (f 1144), um dos contemporâneos de S. Malaquias, até Urbano VIII (| 1590); mostra como o conteúdo de cada oráculo se cumpriu adequadamente na figura do Pontífice ao qual é referido. Eis, por exemplo, os dísticos 3-7 da série:
3. Ex magnitude montis – Da grandeza do monte – Eugênio III, de origem etrusca em cidade do Monte Grande
4. Abbas Suburranus – Abade Suburrano – Anastásio IV, da família Suburra
5. De rure albo – Do campo branco – Adriano IV, nasceu pobre na cidade de S. Albano
6. Ex tetro cárcere – Do cárcere escuro – Vitor IV, foi cardeal de S. Nicolau no cárcere de Túlio
7. Via transbiteriana – Via além do Tibre – Calisto III, Gui de Cremo, cardeal de Sta Maria Além do Tibre
O comentário de Chacón, indicando quando (na história) começa a série dos Papas da lista, permite calcular aproximadamente a época em que se dará o fim do Papado e a segunda vinda do Senhor; assim contam-se 38 Pontífices desde Urbano VII (+1590) até o fim do mundo; João Paulo II (De labore Solis, do sofrimento do Sol) teria ainda três sucessores; o último, Pedro II, veria, com a geração dos seus contemporâneos, a consumação da história.
Eis os últimos dísticos da lista:
“101. Crux de cruce (Cruz da cruz) – Pio IX (1846-1878)
102. Lúmen in cae/o (Luz no céu) – Leão XIII (1878-1903)
103. Ignis ardens (Fogo ardente) – Pio X (1903-14) 104. Religio depopulata (Religião devastada) – Bento XV (1914-22) 105. Fides intrépida (Fé intrépida) – Pio XI (1922-1939)
106. Pastor Angelicus (Pastor angélico) – Pio XII (1939-58)
107. Pastor et Nauta (Pastor e Navegante) – João XXIII (1958-63)
108. Fios Florum (Flor das Flores) – Paulo VI (1963-78)
109. De Medietate Lunae ou Da Lua crescente (Da meia-lua) – João Paulo I (1978)
110. De Labore Solis (Do sofrimento do Sol) – João Paulo II (1978-2005)
111. Gloria olivae (Glória da Oliveira) – Bento XVI (2005-…)
112. In persecutione extrema S. R. E. sedebit (Governará durante extrema perseguição da Santa Igreja Romana)
113. Petrus Romanus, qui pascet oves in multis tribulatíonibus; quibus transactis, civitas septicollis diruetur, et ludex tremendus iudicabit populum. Finis (Pedro Romano, que apascentará as ovelhas em meio a muitas tribulações. Passadas estas, será destruída a cidade das sete colinas e o tremendo Juiz julgará o seu povo. Fim)”.
Trata-se agora de examinar que valor se deve atribuir a tal Lista de Papas.

2. A autoridade da Profecia
Como se compreende, há quem defenda a credibilidade da lista dos Papas, como também há quem a recuse. Examinemos uma e outra sentença.

2.1. O “Sim” à Profecia
A Profecia de Malaquias, logo depois de divulgada em 1595, obteve sucesso considerável. É inegável que os dísticos interpretados por Chacón se aplicam bem aos Papas desde Celestino II até Urbano VII.
Eis alguns exemplos mais frisantes:
– “Avis Ostiensis” (Ave de Óstia) convém adequadamente a Gregório IX (1227-41), que foi Cardeal-bispo de Óstia e tinha uma águia em seu brasão;
– “De parvo homine” (Do homem pequeno) corresponde a Pio III (t 1503), que se chamava Francisco Piccolomini (= Pequeno homem);
– “Jerusalém Campaniae” (Jerusalém da Campanha) designa bem Urbano IV (1261-64), nascido em Troyes (Champanha) e Patriarca de Jerusalém.
De Urbano VII (+1590) em diante, Chacón não interpretou mais os oráculos. Muitos historiadores, porém, julgam que continuam a quadrar bem com as figuras dos Pontífices que se têm assentado sobre a cátedra de Pedro.
Assim, para tomar exemplos recentes, indicar-se-iam:
– “Crux de cruce” (Cruz oriunda da cruz), dístico que designa Pio IX (1846-78) com acerto, pois este Pontífice sofreu duros golpes da parte da Casa de Savoia, em cujo emblema figurava uma cruz;
– “Religio depopulata” (Religião devastada) é o dístico bem adaptado a Bento XV (1914-22), que durante o seu pontificado assistiu à primeira guerra mundial;
– “Fides intrépida” (Fé intrépida) corresponde a Pio XI (1922-39), Pontífice das missões e defensor da verdade contra modernas teorias sociais e políticas;
– “Pastor et Nauta” (Pastor e Navegante) parece caracterizar bem o Papa João XXIII, ex-Patriarca de Veneza, cidade das gôndolas, reconhecido por sua ardente têmpera de Pastor de almas… Mas inegavelmente este dístico caracteriza ainda melhor os Papas seguintes: Paulo VI, e principalmente João Paulo II, que percorreu todos os continentes da Terra em suas viagens apostólicas.
Admitida a veracidade da Profecia na base das observações acima, julgam alguns autores que o fim do mundo não está longe, pois só deverá haver dois Papas até a segunda vinda de Cristo.
Procurando interpretar os dísticos acima, há quem queira prever a história dos tempos finais nos seguintes termos:
As divisas “Pastor Angelicus” (Pio XII), “Pastor et Nauta” (João XXIII) e “Fios florum” indicam um período de grande paz e bonança para a religião (foram mesmo os tempos de Pio XII, João XXIII e Paulo VI?). Santidade angélica deve florescer no Pastor e nas ovelhas da Igreja; o Pastor, sendo navegante, gozará de grande prestígio no mundo inteiro e empreenderá viagens intercontinentais a fim de confirmar a pregação do Evangelho em toda parte.
– As três últimas divisas insinuam os acontecimentos que deverão preceder imediatamente a manifestação do Anticristo: flagelos, como uma calamitosa expansão do islamismo (“Lua crescente”), penas e fadigas sobre os filhos da luz (“Sol”); além disto, a almejada conversão dos judeus a Cristo (a oliveira simboliza o povo judaico em Rm 11,17-29). Depois disto, sob o Papa Pedro II, Cristo aparecerá como Juiz Universal…
Que dizer dessas conjeturas?
Carecem de autoridade. Usando de toda a objetividade, bons críticos modernos não hesitam em rejeitar a autenticidade da Profecia de S. Malaquias.

2.2. A recusa da autenticidade
Quem primeiramente impugnou o valor das Profecias, apelando para argumentos ainda hoje plenamente válidos, foi o Pe. Ménestrier S. J., no seu livro “Réfutation des Prophéties faussement attribuées à S. Malachie sur les élections des Papes” (Paris 1689). Eis as principais razões desde então aduzidas contra a genuinidade das profecias:
1)  durante cerca de 450 anos, isto é, desde S. Malaquias (+1148) até o opúsculo “Lignum Vitae” (1595), jamais autor algum fez alusão aos oráculos de S. Malaquias; nem os historiadores medievais e renascentistas, ao escrever a Vida dos Papas, mencionam tal documento, que certamente deveria ser citado, caso fosse conhecido. E por que motivo, em que circunstâncias, teria este caído em mão de Chacon, seu comentador, após 450 anos de ocultamente? E como de Chacon terá sido transmitido a Wyon, que o editou pela primeira vez?
2)  Ao argumento do silêncio associa-se a verificação de falhas históricas e teológicas na Profecia de Malaquias. De fato, na lista dos Papas figuram antipapas (como Vítor IV, 1159-64; Nicolau V, 1328-30; Clemente VII, 1378-94), efeito este que dificilmente se poderia atribuir à inspiração divina. A finalidade mesma da Profecia (insinuar a época do fim do mundo) parece contrariar a intenção de Cristo, que em mais de uma ocasião se negou a revelar aos homens a data do juízo final (cf. Mc 13, 32; At 1, 7). Além disto, a aplicação dos dísticos aos respectivos Papas baseia-se em notas por vezes acidentais na figura dos respectivos Pontífices, o que lhe dá um cunho de arbitrário; assim Nicolau V (legítimo Papa de 1447 a 1455) traz a divisa “De modicitate Lunae” (Da pequenez da Lua) por ter nascido de família modesta no lugar chamado Lunegiana; Pio II (1458-1464) é assinalado “De capra et albergo” (Da cabra e do albergue) por haver sido secretário dos Cardeais Capranica e Albergati!
Positivamente, podem-se indicar as circunstâncias que deram ocasião à falsificação: observe-se, antes do mais, que as divisas dos Papas até 1590 aludem todas a traços concretos e particulares de cada Pontífice: lugar e família de origem, cargos exercidos antes da eleição, figuras dos brasões, etc.
– De 1590 em diante, porém, os oráculos referem apenas qualidades morais, cuja aplicação é assaz vaga, podendo convir a mais de um Pontífice; assim “Vir religiosus” (Varão religioso), “Ignis ardens” (Fogo ardente), “Fides intrépida” (Fé intrépida); qual Papa não mereceria estes qualificativos, caso não fosse de todo indigno?
Observada esta diferença, julgam alguns críticos que a “Profecia de S. Malaquias” foi forjada justamente nesse ano de 1590, quando o falsificador já conhecia parte da história dos Papas que ele havia de caracterizar, ficando-lhe desconhecida a outra parte (a do futuro). O ensejo para se inventar a “Profecia” terá sido o conclave de 1590, após a morte de Urbano VII; o certame foi árduo, durante um mês e 19 dias. Entre os Prelados mais em vista, achava-se o Cardeal Simoncelli, cidadão de Orvieto e antigo bispo desta cidade; ora pensa-se que os amigos de Simoncelli pretenderam favorecer a eleição deste candidato apresentando aos interessados uma lista “profética” de Papas em que o sufragado pelo Espírito Santo após o Pontífice Urbano VII era o Papa “De antiquitate urbis” (Da antiguidade da cidade), isto é, o Papa de Orvieto (= “Urbs vetus” = cidade antiga); em vista disto, terão forjado uma série de dísticos papais condizentes com a realidade desde Celestino II (no séc. XII), mas assaz arbitrária após Urbano VII. Essa lista, com a qual os mistificadores quiseram associar até mesmo o nome abalizado de S. Malaquias, não logrou o desejado efeito, pois na verdade quem saiu eleito do conclave foi o Cardeal Sfondrate, arcebispo de Milão, que tomou o nome de Gregório XIV… É esta uma das explicações mais correntes dos motivos que terão inspirado a pseudo-profecia de S. Malaquias!
Ménestrier, na obra referida, cita outro caso semelhante de recurso à “autoridade divina” para decidir a eleição de um Papa. Após a morte de Clemente IX (1669), alguns adeptos do candidato Cardeal Bona, lembrando-se do texto de Eclo 15, 1: “Qui timet Deum, faciet bona” (Quem teme a Deus, fará obras boas [Bona]), espalharam o seguinte trocadilho:
“Grammaticae leges plerumque Ecclesia spernit: Esset Papa bónus si Bona Papa foret”. “As leis da gramática, geralmente a Igreja as despreza: Haveria um bom Papa, se Bona Papa fosse”.
Diante dessas observações da crítica abalizada, vê-se que vão seria evocar a “Profecia” de S. Malaquias, seja para ilustrar a história do Papado, seja para prever o decurso dos futuros tempos ou mesmo a época da segunda vinda de Cristo!

3. Magistério da Igreja e profecias
No século XV e no século XVI (quando foi redigida a “Profecia de S. Malaquias”) grande número de “profetas” se apresentavam ao público, predizendo o fim do mundo; diziam ter visões, sobre as quais pregavam em altas vozes. Tal foi o caso, por exemplo, de Pedro Boaventura, eremita não sacerdote, que afirmava ser ele mesmo o “Papa angélico”, salvador do mundo; anatematizava o Papa de Roma e os Cardeais, declarando que os fiéis deviam separar-se de Roma para salvar-se e dirigia cartas aos reis pedindo que o ajudassem. Seguiram-no 20.000 partidários. Outros pregadores na época diziam falar em nome de Deus, anunciando o fim do mundo e iminentes flagelos para a Igreja e o Pontífice Romano.
Lutero (+1546) também se apresentava como salvador da Igreja, embora não tivesse a pretensão de ser Papa.
Diante de tais mensagens tomaram posição os Concílios do Latrão V (1516-17) e de Trento (1543-65).
– Aos 19-12-1516, o do Latrão, presidido pelo Papa Leão X, promulgou um decreto importante: após recordar que existe na Igreja o carisma da profecia concedido pelo Espírito Santo, chamou a atenção para o perigo de se crer, sem discernimento, em tudo o que seja extraordinário; em consequência, o Concílio reservou à Santa Sé a tarefa de aprovar ou não revelações particulares antes que fossem dadas a público. De modo especial, proibiu o anúncio de alguma data para a vinda do Anticristo e do juízo final, visto que tal mensagem contraria todo o teor da pregação de Jesus: Este afirmou explicitamente que “não compete aos homens conhecer os tempos e os momentos que o Pai fixou com sua própria autoridade” (At 1, 7; cf. Mt 24, 36; Mc 13, 32).
As normas do Concílio do Latrão V são válidas até nossos dias, quando também se verifica um pulular fantasioso de profecias, que pretendem definir a data do fim do mundo com as catástrofes precursoras. Em vez de se deter em previsões imaginosas e vãs, é para desejar que o cristão se volte para o que Deus certamente lhe pede no momento presente e cumpra sua missão com zelo.

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