Um pecado chamado melindre

Por Mons. Inácio José Schuster

Talvez as pessoas não saibam o quanto esse mal é perigoso. O melindre corrompe, causa dissensão e engano. Costuma-se dizer que todo mundo é um pouco melindroso. Afinal, todos nós somos suscetíveis a nos ofendermos pelos mais diferentes motivos e isso faz parte da natureza humana. O que nos preocupa é quando a pessoa transforma essa suscetibilidade em hábito, ou seja, está o tempo todo sentindo-se ofendida por qualquer motivo que seja. Uma passagem bíblica que comprova e ilustra bem o perigo do melindre está em Atos 15, 36-41. Nesse trecho, Paulo e Barnabé se separam, ao que parece por um motivo banal: um queria levar João Marcos na viagem missionária que fariam e o outro não. O motivo do embate aparentemente não era tão significativo para gerar tamanha discordância, mas uma coisa é certa: a reação a ele foi incompatível e desproporcional, especialmente por se tratar de dois missionários reconhecidos e respeitados pela Igreja. Puro melindre. Pois bem, o melindre sempre causa problemas, especialmente para quem tem de administrá-los. Nós padres gastamos muito tempo buscando solucionar questões críticas surgidas por melindres. Os motivos são os mais variados e fúteis possíveis: um paroquiano se queixa de não ter sido cumprimentado por outro e isso se transforma em motivo para ele não ir mais à igreja; o pároco ou o vigário não sabem o nome de alguém e por isso eles não servem para dirigir a Igreja; o nome de alguém não saiu no Informativo ou Site paroquial e logo querem saber quem são os incompetentes que fazem esse boletim. Para alguns, tais situações podem até parecer absurdas, mas sinto muito em dizer que elas ocorrem. A pessoa melindrosa invariavelmente é também insegura, imatura e egoísta, precisa sentir-se valorizada o tempo todo, apega-se a fatos e situações mínimas e irrelevantes e enxerga as coisas sob uma única perspectiva: a dela. O melindre, se não for controlado, pode conduzir a pessoa ao pecado, pois quem se sente injustiçado e é melindroso tende a procurar “fazer justiça”. Como interiormente a pessoa sabe que não está correta, a única forma que ela encontra de “fazer justiça” também é de maneira incorreta, fazendo fofoca, julgando outras pessoas e suas atitudes e gerando discórdia e divisão no meio da Igreja. A única forma de deter o melindre é apresentá-lo a Deus como uma debilidade que precisa ser curada. Somente ao compreender o valor que Deus lhe dá é que a pessoa passa a ter condições de valorizar as coisas que são fundamentais na vida, passando assim a respeitar, tolerar e suportar o outro e sua visão diferente. São Paulo amadureceu e mais tarde, reconsiderando sua posição, recomendou João Marcos para ser um auxiliador de Timóteo em Éfeso (2Tm 4, 11). Que assim como São Paulo possamos caminhar rumo ao amadurecimento das nossas emoções e especialmente da nossa fé. Que Deus nos cure e nos livre de todo melindre para que sejamos uma Igreja cada vez mais saudável.

“Somos responsáveis por aquilo que fazemos, pelo que não fazemos e pelo que impedimos de ser feito” [Albert Camus, escritor e filósofo franco-argelino (1913-1960)].

 

Superando os Melindres  

Se alguém decidir viver por sentimentos, certamente terá muitos problemas, porque a carne e o diabo sempre acharão ocasião para lhe ferir com suscetibilidades, ou seja, com melindres, amuos e sensibilidades, que são muito pertinentes à nossa natureza terrena. Então, para o propósito de vencer estes e outros tipos de problemas, é ordenado aos cristãos que aprendam a viver pela nova natureza que têm em Cristo, e não pela antiga natureza carnal e terrena. O amor que tudo sofre, suporta, espera e perdoa, e que é paciente e benigno, é sempre exercitado, quando não nos deixamos vencer por nossos sentimentos melindrados, e triunfamos pela prática da Palavra de Deus, que nos ordena nunca termos um coração ressentido ou magoado, seja contra quem for.

Honrar não depende de gostar. Fazer o bem não depende de sermos aceitos, aplaudidos e louvados. Respeitar não depende de sermos também respeitados. Entender não depende de sermos entendidos. Amar não significa necessariamente gostar de algo ou alguém. É terrível manter uma atitude de defesa dos nossos sentimentos contra tudo e contra todos. É muito contrário ao amor que tudo sofre e suporta a atitude de tentarmos nos poupar a nós mesmos, fugindo de nos relacionarmos com os outros, pelo temor de sermos feridos por alguma palavra ou ação, que possa nos atingir e fazer com que fiquemos magoados. Não é este o tipo de prudência que nosso Senhor nos ordena, porque isto não é prudência, mas fuga e temor de viver.

Por isso a Bíblia nos ordena que deixemos as coisas próprias de crianças quando chegamos a ser adultos. Crianças não podem enfrentar desafios pesados e encarar de frente as vicissitudes da vida, mas toda pessoa verdadeiramente adulta, está capacitada a fazê-lo. Pessoas maduras não vivem se justificando de tudo o que pensem estar lhe contrariando, por estar em desacordo com o seu modo de pensar e sentir. Saul procurava se vingar de todo aquele que lhe contrariasse, por discordar dele, mas Davi raramente deixava de agir segundo a vontade de Deus, mesmo quando era contrariado e aborrecido. Mas o exemplo máximo do espírito de paciência e tolerância que devemos ter especialmente em face dos ataques do reino das trevas, com o intuito de nos roubar a paz, encontramos no próprio Senhor Jesus Cristo, que jamais se deixou governar por sentimentos melindrados, senão exclusivamente pela vontade de Deus Pai. Importa termos sempre a atitude do Apóstolo São Paulo, conforme ele se expressou em 1Cor 4, 3: “A mim pouco se me dá ser julgado por vós, ou por tribunal humano; pois nem eu me julgo a mim mesmo”. Ainda que o juízo que fizerem de nós seja de inspiração satânica ou não, e se tal juízo não corresponde à verdade, devemos nos guardar de qualquer tipo de melindre, porque por isto, seremos vencidos pelo mal, não propriamente do ataque que nos fizeram ou que julgamos que nos tenham feito, sem que fôssemos de fato atacados, mas, seremos vencidos pelo mal em nós mesmos, do nosso próprio coração ressentido e abatido.

Importa então, se queremos ser sempre vencedores deste mal, para que possamos manter a nossa paz, amor e alegria, diante de Deus e dos homens, que tenhamos a mesma atitude do Apóstolo São Paulo, de não sermos conduzidos por nossos sentimentos ou pelos juízos de outros, mas pelo que a Palavra de Deus afirma acerca do nosso comportamento ou de nossas atitudes e reações. O grande alvo do reino espiritual da maldade em fazer com que nos firamos com suscetibilidades, ou seja, que fiquemos melindrados com o que ouvimos ou vimos, disseram ou fizeram em relação a nós ou a outros, e que não aprovamos, é principalmente o de produzir amarguras e ressentimentos, que nos afastam da comunhão com o Senhor. Por isso somos alertados a não abrigar tais sentimentos, como por exemplo, no texto de Tg 3, 13-18: Quem dentre vós é sábio e inteligente? Mostre com um bom proceder as suas obras repassadas de doçura e de sabedoria. Mas, se tendes no coração um ciúme amargo e gosto pelas contendas, não vos glorieis, nem mintais contra a verdade. Esta não é a sabedoria que vem do alto, mas é uma sabedoria terrena, humana, diabólica. Onde houver ciúme e contenda, ali há também perturbação e toda espécie de vícios. A sabedoria, porém, que vem de cima, é primeiramente pura, depois pacífica, condescendente, conciliadora, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, nem fingimento. O fruto da justiça semeia-se na paz para aqueles que praticam a paz.

Nunca haverá qualquer perda em perdoar e esquecer ofensas reais ou supostas como tal sem que o sejam, porque com isto estaremos provando para nós mesmos que temos de fato nos negado para amarmos e perdoarmos os que nos ofendem, sejam eles nossos inimigos ou não. E sem o aprendizado desta negação do nosso ego, não poderemos viver a vida cristã e fazer qualquer serviço constante para Cristo, porque o inferno não dará descanso às nossas almas, sempre procurando nos tornar ressentidos contra alguém que nos tenha contrariado.

Alarguemos então os nossos espíritos e corações! Amemos como Cristo nos ama, ou seja, suportando ofensas e todo tipo de pecado, exceto a blasfêmia contra o Espírito Santo. Olhemos para o Senhor, e não para nós mesmos ou para os outros, para acharmos o perfeito amor e o perfeito bem, porque isto jamais será achado em qualquer pessoa enquanto estivermos na terra. Estejamos prontos então a superar ofensas, palavras proferidas precipitadamente, juízos incorretos, ou qualquer ponto que possa suscitar algum tipo de discórdia onde deveria reinar o amor, porque sempre estaremos sujeitos a errar, por maior que seja o nosso desejo de acertar. Todavia não erremos no dever de perdoar, de esquecer ofensas, de amar até mesmo nossos inimigos, de não guardarmos qualquer tipo de ressentimento ou rancor, porque nossa ira acabará se voltando contra nós mesmos para nos destruir, e nos arrancará da nossa comunhão com Deus.

Lembremos que somos convocados pela Bíblia a sermos amadurecidos, espiritualmente falando, e muito deste crescimento se comprova pelo modo como nos conduzimos não segundo os nossos sentimentos melindrados, mas segundo a verdade da Palavra de Deus.

Como já dissemos antes, se alguém decidir continuar vivendo segundo os seus sentimentos, terá certamente muitos problemas, mas se viver segundo a Palavra de Deus, os problemas surgirão, mas serão vencidos pela verdade e pelo poder de nosso Senhor Jesus Cristo. E uma vez desfeitas as amarras do mal, o navio da nossa alegria, força, e amor, seguirá o seu rumo, vendo restauradas todas as coisas que haviam sido arruinadas pelo nosso mau temperamento, que se permitia ser vencido pelo diabo.

Espelhemo-nos no exemplo que nos foi deixado pelo Apóstolo São Paulo, o qual havia aprendido a ter o prazer da comunhão com Deus, o deleite de praticar e fazer a Sua vontade divina, em meio às ofensas que lhe dirigiam, nas necessidades, nas perseguições e nas angústias que suportava por causa do Seu amor a Cristo, de modo que sabia que importa aprendermos a conviver com os espinhos na nossa carne, oriundos de mensageiros de Satanás, que são usados para nos humilhar.

“E ele me disse: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. Por isso, de boa vontade antes me gloriarei nas minhas fraquezas, a fim de que repouse sobre mim o poder de Cristo. Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo. Porque quando estou fraco, então é que sou forte” (2Cor 12, 9-10).

Em troca da nossa paciência e decisão de suportar ofensas por amor a Cristo, o Senhor nos dará do Seu poder e nos fará fortes não somente para suportar tais ofensas e angústias, como também para que possamos fazer toda a Sua vontade, ou seja, continuarmos na prática do bem, mesmo para os que nos tenham ofendido, ou que imaginamos que nos ofenderam, sem que o tivessem feito de fato.

 

O Melindre
Melindre: Afetação, facilidade de magoar-se, suscetibilidade, delicadeza no trato.
Sinônimo: ressentimento.

Em nosso entendimento, um dos maiores entraves para o nosso desenvolvimento é o melindre. O melindre é o verdadeiro vírus da discórdia. Ele ataca sorrateiramente a todos aqueles que, não vigilantes, dão valor maior do que o devido a si mesmo. O amor próprio tem um limite. Ter amor próprio na dose certa é importante. Precisamos nos amar, cuidar de nossa boa aparência e gostar de nós mesmos. Esse amor não pode superar o limite do razoável. Quando passamos a nos julgar superiores a nossos irmãos, avançamos para a vaidade, para o orgulho, para a falsa superioridade. Ao atingir esse estágio perigoso, todas as idéias, observações ou palavras de nossos semelhantes que são contrárias ao nosso ponto de vista nos machucam muito. Surge então o melindre. Não admitimos ser contrariados. Não aceitamos opiniões diferentes. Nos enchemos de mágoa, de não me toques. E o pior é que isso nos entristece, nos tira do equilíbrio, trazem consequências físicas e afetam profundamente nosso relacionamento com pessoas queridas. A mágoa destrói nossas resistências orgânicas. Ela obstrui os nossos canais responsáveis pela circulação sanguínea e pelo equilíbrio de nosso corpo físico. O melindre é causa de muitas discussões que poderiam ter sido evitadas. Bastaria uma atitude de tolerância, de compreensão. Todos nós, espíritos ainda imperfeitos vivendo na Terra, estamos sujeitos a ter atitudes e a falar palavras ofensivas a nossos irmãos, e que a tolerância mútua e o perdão podem transformar em coisas banais e sem importância os episódios que julgamos terríveis ofensas que nos fazem. Uma pequena discussão entre marido e mulher pode trazer muita discórdia e até separações por causa do melindre. Tolerância é ainda o melhor remédio para a manutenção da paz nos lares. O mesmo acontece entre pais e filhos, entre irmãos e entre amigos, muitas vezes provocando o afastamento de pessoas que se amam, apenas por terem se deixado levar pelo melindre. Muitas entidades religiosas respeitáveis podem ser atingidas por esse terrível vírus. Temos que combater esse mal. O caminho para isso é seguir os ensinamentos e o exemplo de Jesus. Vamos contar até dez, respirar fundo, combater o ato de nos julgar superiores, ouvir o que o outro nos fala, ponderar com calma sem alterar a voz, analisar todos os ângulos do que diz nosso oponente, são algumas coisas que podemos fazer para sufocar nosso amor próprio ferido. Lembremos de que não somos o centro do universo, e que todos podem ter opiniões diferentes sobre qualquer assunto. Nosso grande erro é querer impor a nossa verdade ao nosso semelhante. E gritamos. E nos descontrolamos.

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