XXXII Domingo do Tempo Comum – Ano A

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus (Mt 25, 1-13)
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Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos esta parábola: “O Reino dos Céus é como a história das dez jovens que pegaram suas lâmpadas de óleo e saíram ao encontro do noivo. Cinco delas eram imprevidentes, e as outras cinco eram previdentes. As imprevidentes pegaram as suas lâmpadas, mas não levaram óleo consigo. As previdentes, porém, levaram vasilhas com óleo junto com as lâmpadas. O noivo estava demorando e todas elas acabaram cochilando e dormindo. No meio da noite, ouviu-se um grito: ‘O noivo está chegando. Ide ao seu encontro!’ Então as dez jovens se levantaram e prepararam as lâmpadas. As imprevidentes disseram às previdentes: ‘Dai-nos um pouco de óleo, porque nossas lâmpadas estão se apagando’. As previdentes responderam: ‘De modo nenhum, porque o óleo pode ser insuficiente para nós e para vós. É melhor irdes comprar aos vendedores’. Enquanto elas foram comprar óleo, o noivo chegou, e as que estavam preparadas entraram com ele para a festa de casamento. E a porta se fechou. Por fim, chegaram também as outras jovens e disseram: ‘Senhor! Senhor! Abre-nos a porta!’ Ele, porém, respondeu: ‘Em verdade eu vos digo: Não vos conheço!’ Portanto, ficai vigiando, pois não sabeis qual será o dia, nem a hora”.

Com a parábola das dez virgens, Nosso Senhor narra bem concretamente a diferença de destino entre aqueles que se entregam à vida contemplativa e aqueles que, imprudentemente, não rezam. Porque o óleo com que as cinco virgens previdentes mantêm acesas as suas velas não é outra coisa senão a oração: só através de um trato íntimo e perseverante com o Senhor poderemos manter ardendo a chama da caridade em nossos corações.

No dizer de Santo Agostinho, “Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti”. Se por um lado Nosso Senhor deseja distribuir a todos os homens as suas graças atuais, a fim de que “se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2, 4), por outro lado, não chegaremos a receber essas efusões do Espírito Santo se não lhas pedirmos expressamente. Isso acontece porque Deus age nas almas de maneira sutil, como o sopro de uma “brisa suave”, sem violências.

Para quem deseja caminhar a passos largos no caminho da perfeição, fica o conselho de crescer também na vida sacramental, pois é principalmente na Comunhão que se torna perceptível esse toque delicado do Senhor, derramando óleo em nossas lâmpadas.

Munidos perseverantemente, então, desses dois instrumentos — oração e sacramentos —, entraremos um dia na “festa de casamento” eterna com o divino Noivo de nossas almas, Jesus Cristo. Oxalá não mereçamos ouvir, ao fim de nossas vidas, a mesma palavra de condenação dirigida às virgens imprudentes do Evangelho: “Não vos conheço!”

 

A vigilância previdente
Por Mons. Inácio José Schuster

Mais uma vez Jesus nos convida à vigilância e nos dá como exemplo a parábola das virgens previdentes e imprevidentes. Adaptando a história à nossa existência nós podemos refletir acerca da nossa trajetória aqui na terra enquanto estamos nos preparando para um dia ir ao encontro do “noivo”. Todos nós sabemos que a nossa vida é breve e que um dia nós faremos a viagem em busca do reino que nos foi prometido por Deus.

O noivo é Jesus e a noiva é a nossa alma que tem sede de encontrá-Lo. O tempo em que vivemos aqui na terra é a oportunidade que nós temos para, também como as jovens previdentes, providenciarmos o “óleo” que mantém a lâmpada da nossa alma acesa. E o óleo que conserva acesa a chama do amor de Deus no nosso coração, nós o encontramos quando buscamos viver a fé que provêm da oração, o consolo que nos dá o Espírito Santo, é a alegria de uma vida voltada para Deus.

Quando nós vivemos somente entregues às coisas que o mundo nos acena e temos o coração ligado às coisas passageiras nós esquecemos de alimentar a nossa alma e, com certeza, nos faltará luz para atravessar o vale escuro no caminho que nos levará para outro estágio da nossa vida.

As jovens imprudentes, talvez vivessem uma vida despreocupada de Deus, achando que buscando somente as coisas do mundo, na hora da necessidade, Deus traria o óleo para suas lâmpadas. Muitas vezes nós também ficamos como que meio adormecido(a)s, anestesiado(a)s pelas preocupações com trabalho, com sobrevivência, amealhando dinheiro, confiantes de que ainda temos muito tempo de vida para só depois pensarmos nas coisas de Deus.

Jesus, porém nos diz: “ficai vigiando, pois não sabeis qual será o dia nem a hora”. O caminho que nós precisamos atravessar é escuro e haverá um momento em que a porta se fechará. Por isso, precisamos nos preparar! Enquanto é tempo toda hora é hora para adquirirmos o que manterá a nossa lâmpada acesa. É na intimidade com a Palavra de Deus que nós vigiamos à espera do noivo que virá um dia nos levar para a morada que Ele mesmo nos preparou.

 

Alegria ou temor, ante o Esposo que chega!
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A lâmpada de nossa alma brilha pelo azeite da virtude? Ou está ela apagada pela tibieza? Se assim for, no dia do Juízo o Divino Esposo dirá que não nos conhece!

I – A mais solene festa social do povo eleito

A Liturgia do 32º Domingo do Tempo Comum nos apresenta a famosa parábola das dez virgens que saem ao encontro do noivo, composta por Nosso Senhor no contexto de seu discurso escatológico. Era uma história perfeitamente acessível aos que O escutavam — neste caso, os discípulos —, pois se desenrolava em torno de um conhecido costume da época: a cerimónia nupcial. Em nossos dias os usos são diferentes, o que nos dificulta captar o significado profundo desta narração do Divino Mestre.

Como os Evangelhos são a Palavra de Deus, seu sentido abrange todas as eras históricas. Assim, cabe-nos recordar es­sas remotas tradições, para melhor entendermos a linguagem de Nosso Senhor e dela extrair a aplicação que nos convém.

Um contrato familiar selado com alegre esplendor

A principal comemoração social existente na vida do po­vo eleito, no Antigo Testamento, era a festa de casamento. Para torná-lo efetivo, as famílias de ambas as partes acordavam pre­viamente as condições da união, em especial o preço do mohar, uma soma em dinheiro que a do jovem devia entregar ao pai da moça. Em seguida celebravam-se os desponsórios, pelos quais os noivos ficavam prometidos entre si; e, por fim, como culminação das mencionadas tratativas entre os parentes, marcava-se a data das bodas, em geral com conside­rável antecedência. Só então se formalizava a aliança definitiva em um contrato escrito.1

A instituição da família era muito prezada e tinha uma estru­tura mais sólida que na atualida­de, conservando ainda caracte­rísticas do período patriarcal, em que o pai fazia o papel de um di­minuto chefe de estado, com po­der sobre todos os que estavam sob sua proteção e autoridade. Compreende-se que a fundação de um novo lar fosse um aconte­cimento cercado de alegria e dos mais esplendorosos festejos, os quais duravam sete dias, podendo estender-se até por duas se­manas.

O cortejo nupcial formado pelos amigos dos noivos

Um aspecto sui generis desta solenidade era o de começar à hora do crepúsculo, quando o Sol emitia seus últimos fulgores. O noivo dirigia-se à casa da noiva, acompanhado de seus amigos e ataviado como um rei, tendo a fronte cingida por uma coroa, com todo o luxo que suas posses permitissem. Para dar corpo e magni­ficência ao cerimonial, as amigas da noiva, também virgens, com ela aguardavam a chegada do noivo, que iria conduzi-la em jubiloso cortejo rumo à sua casa,2 onde se iniciaria o banquete com as bênçãos proferidas pelo pai de um dos nubentes ou por alguma pessoa de destaque. É possível que nas Bodas de Caná Jesus te­nha sido o convidado de honra que abençoou os cônjuges. Logi­camente essas jovens amigas da futura esposa entravam também no festim como convivas de especial estima e consideração.

Para se deslocar à noite pelas ruas seguindo a procissão nup­cial, as virgens, bem como os demais participantes do ato, usavam instrumentos de iluminação próprios à época: tochas ou lâmpa­das. Não havia iluminação artificial por energia elétrica. Quando anoitecia, tornava-se impossível locomover-se com segurança na intensa escuridão, e usavam-se lâmpadas para facilitar a visuali­zação dos caminhos — como as referidas por Nosso Senhor —, normalmente feitas de barro e alimentadas com azeite ou resina. Como não eram grandes, o combustível durava pouco. Se o traje­to fosse longo seria preciso levar reserva de azeite.

Também não é demais lembrar que os fósforos não haviam sido inventados, nem o isqueiro a gás. Para obter fogo se reque­ria certa arte e paciência: batiam-se duas pedras apropriadas, uma contra a outra, até se acender com uma faísca a mecha ou algo facilmente inflamável. Era tarefa tão complexa, que havia o costume de se ter uma dessas lamparinas sempre ardendo, ou se conservavam algumas brasas na lareira, a fim de conseguir fogo com presteza para qualquer finalidade. Deixar que a chama se apagasse era um verdadeiro desastre, porque acendê-la de novo não seria nada simples. Era imperioso ser vigilante e tomar cui­dado para que a lâmpada contivesse azeite suficiente…

Esta é a realidade da vida social israelita que Jesus tomará e, com sua insuperável didática, aplicará numa parábola, combi­nando os aspectos verídicos, como os descritos acima, com da­dos fictícios. Contudo, ao acrescentar estes últimos — por exem­plo, o fato de as virgens ficarem à espera do noivo até o meio da noite, atraso que nunca ocorria — o Divino Mestre estimulava o interesse e a imaginação dos ouvintes, fazendo com que com­preendessem melhor a lição moral que Ele queria transmitir.

II – Dez virgens: os sentidos do corpo e do espírito

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos esta parábola: 1 “O Reino dos Céus é como a história das dez jovens que pegaram suas lâmpadas de óleo e saíram ao encontro do noivo. 2 Cinco delas eram imprevidentes, e as outras cinco eram previdentes. 3 As imprevidentes pegaram as suas lâmpadas, mas não levaram óleo consigo. 4 As previdentes, porém, levaram vasilhas com óleo junto com as lâmpadas”.

O número de amigas que podiam acompanhar a noiva durante as núpcias não estava definido, e eram tantas quantas quisessem os nubentes. Qual seria na parábo­la, então, o sentido mais profundo dado por Nosso Senhor ao fato de serem cinco virgens prudentes e cinco virgens loucas?3

Os Padres da Igreja sugerem-nos uma explicação muito útil para nossa vida espiritual: “As cinco virgens sábias e as cinco néscias” — afirma São Jerônimo — “podem ser interpretadas como os cinco sentidos, dos quais uns caminham com presteza rumo às moradas celestes e desejam as coisas elevadas, e outros, por terem ávido apetite da imundície terrena, carecem do in­centivo da verdade para iluminar o coração. Da vista, do ouvido e do tato, em sentido espiritual, foi dito: ‘O que vimos, o que ouvimos, o que com nossos olhos contemplamos e nossas mãos apalparam’ (I Jo 1, 1); sobre o paladar: ‘provai e vede como o Senhor é suave’ (Sl 33, 9); e sobre o olfato: ‘Atrás da fragrância de teus perfumes corremos’ (Ct 1, 3); e também: ‘somos o bom odor de Cristo’ (II Cor 2, 15)”.4

Possuímos cinco sentidos corporais: tato, paladar, olfato, audição e visão. Entretanto, todos eles têm seu correspondente na alma, como nos dá eloquente prova a própria Escritura. As­sim, podemos viver em função dos cinco sentidos carnais ou dos cinco espirituais. Quem age de acordo com os primeiros, utili­zando-os para o mal, preocupa-se em comprazer à sua vaidade, a seu egoísmo, à curiosidade, ao delírio de atrair as atenções so­bre si e de se comparar com os demais; em suma, de satisfazer suas paixões. Aquele, porém, que procede conforme os sentidos espirituais está constantemente orientado para seu ideal e sua vocação, tendo presente, sobretudo, quem o chamou: Deus!

Não obstante, para guiar esses sentidos com a retidão devi­da é preciso que haja azeite, mas em abundância, em demasia… Com efeito, o azeite significa saber aparelhar-se para manter a vista, a audição, o olfato, o paladar e o tato voltados para o sobrenatural, com a atenção posta no Noivo que vai chegar, o qual, evidentemente, é Nosso Senhor Jesus Cristo.

Tal é a conduta das cinco virgens prudentes que levaram azeite de sobra, isto é, reforçaram a vigilância contra qualquer eventual deslize, evitando, a todo custo, as ocasiões próximas de pecado.

As virgens loucas, imagem das almas tíbias

No extremo oposto está a atitude das virgens loucas. No­te-se que elas não foram à festa desprovidas de azeite, apenas trouxeram pouca quantidade, por não quererem carregar uma vasilha. Julgavam que esse pouco lhes seria suficiente, pois o noivo decerto não tardaria… E se lhes viesse a faltar, bastaria tomá-lo de uma das companheiras.

Esta é bem a imagem dos que têm a alma tíbia, dos me­díocres, cuja intenção se prende às coisas materiais, concretas, humanas. Gostam do meio-termo, andam contentes consigo mesmos, consideram qualquer avanço na virtude um exagero. Justificam suas faltas com o fato de serem concebidos no peca­do original, e se esquecem de que o Divino Redentor obteve a graça superabundante para nossa santificação. Criam, com isso, a ilusão de que o seu escasso esforço já é bastante para entrar no Céu. Ora, com meias medidas não se alcança a bem-aventu­rança! “Não és nem frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quen­te! Mas, como és morno, nem frio nem quente, vou vomitar-te” (Ap 3, 15-16).

A dinâmica da vida espiritual bem pode ser comparada a uma escada rolante, porém com uma característica sui generis: usamo-la para subir, quando a escada desce. Esta figura repre­senta nossas más inclinações, pois a natureza humana decaída sempre arrasta para baixo. Se quisermos galgar a escada rolante à mesma velocidade com que ela desce, não saímos do lugar. A da vida espiritual, todavia, possui uma curiosa particularidade: se subirmos com a mesma rapidez sua velocidade aumenta, de tal forma que é indispensável imprimir à ascensão maior pres­teza do que a da escada, senão logo estaremos no ponto de par­tida. Se formos mais depressa lograremos progredir, e atingire­mos com facilidade seu cimo!

A natureza humana exige os cochilos, mas sem perder a vigilância

5 “O noivo estava demorando e todas elas acabaram cochilando e dormindo”.

Podia acontecer, em alguma ocasião, que o noivo demo­rasse um pouco mais do previsto. Ora, Nosso Senhor se refere a um atraso exorbitante, pormenor que indica um exagero inten­cional. A tal ponto o noivo tardou que as virgens sucumbiram ao cansaço, até adormecerem.

A parábola, delicada e sábia como é, não recrimina o fato de todas terem dormido, e sim, como veremos, a imprevidência das cinco néscias. De fato, há oportunidades em que pensáva­mos estar prontos para acolher o Noivo, mas Ele não Se apres­sa em vir ter conosco. Então, nos é exigido um longo período de espera até a sua vinda.

Esta situação de si não é má; ao contrário, é até formativa. Todos passa­mos por períodos de aridez, tanto os fervorosos como os que se estagnaram na me­diocridade. Os sentidos se apagam, e a noite escura nos subtrai a clareza do panorama para o qual somos chamados pela nossa vocação de cristãos. Não é ra­ro isto ocorrer perto da morte e, por incrível que pareça, até aos Santos. Santa Teresinha do Menino Jesus e tantos outros, em seus últimos dias, suportaram uma terrível aridez.

Há, ainda, na sonolência das dez virgens outro simbolis­mo. Dado o nosso estado de contingência, é impossível, a não ser por uma ação extraordinária da graça, que não sejamos atraídos pelas mais diversas realidades da vida. São momentos em que não conseguimos cogitar nos altos horizontes do sobre­natural e temos de cochilar um pouco, ou seja, prestar atenção nos aspectos materiais da existência, como a saúde, o alimento ou as necessidades pecuniárias. Ao fazê-lo, no entanto, sempre devemos guardar uma vasilha de azeite, símbolo de uma vida interior sólida, com muita vigilância, de modo que passada a ne­cessidade de cuidar do concreto, voltemos a elevar a vista para as coisas celestes.

Mas quantas vezes cochilamos, a ponto de cair num sono profundo e esquecer a importância primordial da provisão do azeite… Abandonamos os exercícios de piedade, deixamos de rezar, não fugimos das ocasiões de pecado… De relaxamento em relaxamento na vida espiritual, quando menos se espera apare­ce o Noivo! Não há energia humana capaz de nos manter na prática da virtude. É preciso ter um bom reservatório de azeite: muita vigilância e oração, pois sem a força do Espírito Santo nenhuma criatura se conserva estavelmente em estado de graça.

6 “No meio da noite, ouviu-se um grito: ‘O noivo está chegando. Ide ao seu encontro!’ 7 Então as dez jovens se levantaram e prepararam as lâmpadas”.

Se o casamento de­via realizar-se ao pôr do Sol e o noivo só se apre­sentou no meio da noite, as dez jovens aguarda­ram durante várias ho­ras, pelo que o azeite se gastou. As cinco pruden­tes logo prepararam suas lâmpadas, despejando o azeite que ti­nham na vasilha, de maneira a receber o noivo e ainda fazer com ele todo o percurso restante.

A ilusão de mudar de vida quando chega o Esposo

8 “As imprevidentes disseram às previdentes: ‘Dai-nos um pouco de óleo, porque nossas lâmpadas estão se apagando’. 9 As previdentes responderam: ‘De modo nenhum, porque o óleo pode ser insuficiente para nós e para vós. É melhor irdes comprar aos vendedores’”.

As virgens néscias perceberam que seu azei­te estava para acabar e pediram uma parte às prudentes. Estas não lhes cederam nada, sem mani­festar egoísmo com tal ati­tude, pois, por terem sido previdentes, estavam no direito de dispor em benefício próprio daquilo que traziam. Por isso mandaram as loucas comprar óleo. Ora, como iam encontrar um vendedor a essa altura da noite? Era algo inusitado: bater à porta do comerciante em hora tão tardia — ainda mais naquele tempo — seria em vão; na melhor das hipóteses este lhes recomendaria voltar na manhã seguinte.

As virgens imprevidentes foram malsucedidas e as previ­dentes foram bem-sucedidas, inclusive por não terem dado um pouquinho do seu azeite às que o solicitavam. Analisemos, pois, o porquê desta recusa das previdentes: não se podem transferir os méritos de uns para os outros, pois cada alma é obrigada a ad­quirir os seus e a velar por sua própria vida espiritual. Quando chega o instante de comparecer diante de Deus não é possível que alguém mais previdente nos empreste méritos, e não podem “as virtudes de um remediar os vícios de outros”.5 Ou se tem o que deveria ser apresentado naquela hora ou não se tem! É o que nos recorda São João Crisóstomo, de forma bastante incisi­va: “Que lição tirar disto? No outro mundo, quem não tiver boas obras não poderá ser socorrido por ninguém, não porque não queiram fazê-lo, mas por ser impossível. As virgens insensatas, na realidade, procuraram refúgio no impossível”.6

No dia derradeiro já não haverá tempo de mudar, a não ser que nos seja concedida uma graça fulminante e eficaz, pois não somos capazes de modificar nosso comportamento no es­paço de um instante e recuperar tudo aquilo que era preciso ter sido realizado durante uma vida inteira. Portanto, perante a iminência da morte, reagiremos como estamos acostumados a fazer. Se não armazenarmos azeite, quando formos acordados, ainda que queiramos nos esforçar não o conseguiremos, por­que se morre tal como se viveu. É noite, não há lojas abertas… Quão ilusório se patenteia, então, o cálculo de muitos: “Deus é bom! Ele certamente dar-me-á um aviso antes de me chamar, e, no fim, me arrependerei, rezarei um tanto, e com uma ab­solvição tudo se resolverá!”. Quem conhece as circunstâncias em que a morte vai surpreender cada um de nós? Quem nos garante a presença de um sacerdote disponível para ministrar os últimos Sacramentos?

A alma tíbia procura o consolo no pecado

10 “Enquanto elas foram comprar óleo, o noivo chegou, e as que estavam preparadas entraram com ele para a festa de casamento. E a porta se fechou”.

As virgens loucas saíram para comprar o azeite. O que sig­nifica isto? Quando nos afastamos do Noivo, vamos procurar os consolos do mundo. Quem está viciado em deleites terrenos não busca ânimo em Jesus, e sim naquilo a que se está afeito. E como se apresentar depois diante de Deus, com a consciência tranquila? Neste sentido pondera Santo Agostinho: “Não se deve pensar que elas [as prudentes] lhes dão um conselho, mas que lhes recordam a falta, in­diretamente. Porque os vendedores de azeite são os aduladores que, elo­giando o que é falso ou desconhecido, induzem as almas a erro […]. Quando elas se inclinavam para as coisas de fora e procura­vam recrear-se nos praze­res habituais, porque não tinham gosto nos gozos interiores, chegou Aquele que julga”.7

As virgens prudentes, pelo contrário, possuíam suficiente azeite da virtude praticada com entusiasmo, com fortaleza, com generosidade, com desprendimento, tendo os sentidos da alma postos no sobrenatural, e puderam ingressar com o Noivo na sa­la das bodas.

Se não reservarmos o azeite, sofreremos o repúdio do Esposo

11 “Por fim, chegaram também as outras jovens e disseram: ‘Senhor! Senhor! Abre-nos a porta!’ 12 Ele, porém, respondeu: ‘Em verdade eu vos digo: Não vos conheço!’”

Para melhor compreender a gravidade do ensinamento de Nosso Senhor com esta parábola, é preciso saber que “não conhecer” na linguagem daqueles tempos tinha uma acepção um tanto diferente da que lhe atribuímos hoje. Modernamente significa ignorar quem é a pessoa. Mas naquela época em que a população era ínfima, comparada com a atual, numa cidade, e ainda mais numa aldeia, todos se relacionavam. A expressão “não te conheço” equivalia a chamar o outro de estrangeiro e mandá-lo embora. Era, portanto, um repúdio, uma ofensa. “Que significado tem: não vos conheço?” — pergunta Santo Agostinho — “Tendes minha desaprovação, minha reprovação. Não vos conheço porque não sois compatíveis com o meu modo de proceder; meu proceder desconhece o vício. Que coisa admi­rável: desconhece os vícios e, entretanto, os julga”.8 Assim, nas palavras do noivo revela-se a sentença do Divino Juiz que os ré­probos ouvirão no grande dia: “Retirai-vos de Mim, malditos! Ide para o fogo eterno” (Mt 25, 41).

Àquelas infelizes jovens de nada adiantou sua condição virginal para terem direito a entrar na festa, pois a virgindade do corpo perde seu valor quando falta a da alma, como se vê pela afirmação de São Jerônimo: “O Senhor não conhece os que praticam a iniquidade e, ainda que sejam virgens, […] estejam orgulhosos de sua pureza corporal e de sua confissão da verda­deira fé, sem embargo, porque não têm o azeite da sabedoria, basta-lhes como castigo que o Esposo os ignore”.9

Também nós devemos ter azeite na lâmpada no dia a dia, quer dizer, cultivar bem a vida espiritual, rezar sempre, comun­gar com frequência e confessar-se com regularidade. Mesmo sem ter matéria grave a declarar é imprevidência não se apro­ximar do tribunal da Penitência, porque este Sacramento infun­de na alma abundantes graças que só ali se obtêm, ainda que não haja necessidade de recuperar o estado de graça. Para isso o penitente deve enunciar ao menos genericamente as culpas do passado, a fim de receber a absolvição. Era o que motivava vá­rios Santos, como São Vicente Ferrer, Santo Inácio de Loyola ou São Carlos Borromeu a fazerem a confissão diária. Alguns, como São Francisco de Borja ou São Leonardo de Porto Maurí­cio, faziam-na duas vezes por dia.10

Nossas obras serão conhecidas por todos

Há quem se iluda, alegando ter cometido suas faltas às ocul­tas, longe da vista dos homens. Na realidade, todavia, diante da perspectiva do Juízo Final, o estar sozinho não existe. E se somos propensos a julgar que este dia grandioso e terrível será dentro de tantos séculos que ninguém se lembrará de nós, devemos, ao in­vés disso, persuadir-nos da seriedade dessa ocasião em que, pelo divino poder, não só cada um guardará na memória a totalidade de seus atos, mas todos conhecerão as obras dos demais.11 Deus, ante o qual tudo é presente — porque para Ele não há passado nem futuro —, por assim dizer, transferirá ao nosso entendimen­to, incapaz por si de abarcar tal imensidade, o conhecimento dos méritos e deméritos de cada um. Esta noção não se apagará, de modo que tanto os Bem-aventurados e os Anjos do Céu quanto os precitos do inferno a conservarão eternamente.

O valor da vigilância

13 “Portanto, ficai vigiando, pois não sabeis qual será o dia, nem a hora”.

Por fim, Nosso Senhor conclui a parábola deixando claro que a elaborou com o objetivo de nos incentivar a sermos vigilantes. A seus discípulos, depois de lhes anunciar os últimos acontecimentos e sua vinda gloriosa, Ele advertiu: “Vigiai, pois, em todo o tempo e orai, a fim de que vos torneis dignos de escapar a todos estes males que hão de acontecer, e de vos apresentar de pé diante do Filho do Homem” (Lc 21, 36). E pouco antes de começar a Paixão, duran­te a agonia no Horto das Oliveiras, recomendou-lhes novamente: “Vigiai e orai para que não entreis em tentação” (Mt 26, 41).

Quantas vezes rezamos, e até muito, para não cair em tentação! Só isso, contudo, não basta, porque é preciso vigiar. Vigiar é tão importante quanto orar, pois, ao nos precavermos, fugimos das ocasiões próximas de pecado e, com isso, obstamos a possibilidade de uma queda. Vigiar, pois, significa ter os olhos bem abertos para que os sentidos inferiores não nos arrastem para baixo, mas, isto sim, nos ajudem a subir até Deus, admi­rando seus reflexos na criação. A beleza de uma rosa, um suave tecido, um agradável perfume, uma harmoniosa música ou até uma ótima comida, são elementos que podem nos elevar a alma.

Eis a inspiração evangélica para um bom exame de cons­ciência: como me comporto nessa matéria? Meus cinco sentidos carnais dominam os sentidos espirituais? Quais circunstâncias me levam ao mal? Tal companhia que não é boa? É preciso cortar. Tal programa de televisão inconveniente? Não devo vê-lo. Tal acesso à internet? Evitarei a todo custo. Se a vigilância exige que eu arran­que um olho ou corte uma das mãos, conforme diz figurativamen­te Nosso Senhor (cf. Mt 5, 29-30), é imprescindível fazê-lo, porque é melhor entrar no Céu coxo, manco ou cego, do que conservar todos os membros e ser lançado ao fogo eterno (cf. Mt 18, 8-9).

Uma profecia certa: nossa morte

Não deixemos para amanhã o que podemos fazer hoje, porque talvez nesta mesma noite sejamos julgados! Profecia cer­ta e segura é esta: todos morreremos. Dia e hora, porém, nin­guém o sabe, pois até mesmo um doente à beira da morte ignora o instante exato em que esta lhe sobrevirá. Quem ousará prome­ter que vai acordar amanhã? Quem se atreverá a garantir que terminará de ler este artigo? Nosso destino é a morte, mas sua perspectiva nos auxilia a abandonar os apegos e nos arranca do caminho errado que abraçamos. Entrar pelas vias do vício é uma loucura, porque nada há na face da Terra de mais adverso a Deus do que o pecado, que nos expõe a sermos apanhados pelo justo Juiz no momento em que menos esperamos (cf. Mt 24, 44.50; Lc 12, 46), com as mãos vazias e as lâmpadas apagadas. E Ele dirá que não nos conhece!

Peçamos a Nosso Senhor Jesus Cristo, por intercessão de Maria Santíssima, a graça de sermos realmente vigilantes em nos­sos pensamentos, desejos e ações, visando a santidade em tudo. Assim estaremos sempre com a lâmpada abastecida de azeite… ²

1) Cf. TUYA, OP, Manuel de; SALGUERO, OP, José. Introducción a la Biblia. Ma­drid: BAC, 1967, v.II, p.310-312.

2) Cf. Idem, p.312-313.

3) Embora o texto litúrgico apresente a tradução “jovens imprevidentes” e “previden­tes”, a fim de aprofundar o sentido místico da parábola usaremos também “virgens loucas ou néscias” e “virgens prudentes”, conforme o texto grego deste Evangelho, que utiliza os termos παρθένος (parthénos) – virgem; μωρός (morós) – louco, néscio; φρόνιμος (phrónimos) – prudente.

4) SÃO JERÔNIMO. Comentario a Mateo. L.IV (22,41-28,20), c.25, n.58. In: Obras completas. Comentario a Mateo y otros escritos. Madrid: BAC, 2002, v.II, p.353; 355.

5) Idem, p.357.

6) SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Homilía LXXVIII, n.1. In: Obras. Homilías sobre el Evangelio de San Mateo (46-90). 2.ed. Madrid: BAC, 2007, v.II, p.553.

7) SANTO AGOSTINHO. De diversis quæstionibus octoginta tribus. Q.59, n.3. In: Obras. Madrid: BAC, 1995, v.XL, p.165-166.

8) SANTO AGOSTINHO. Sermo XCIII, n.16. In: Obras. Madrid: BAC, 1983, v.X, p.620.

9) SÃO JERÔNIMO, op. cit., p.357.

10) Cf. SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO. La veritable épouse de Jé­sus-Christ. C.XVIII, n.1. In: OEuvres Ascétiques. 6.ed. Tournai: Casterman, 1882, t.XI, p.17; CHIAVARINO, Luis. Confessai-vos bem. 4.ed. São Paulo: Paulinas, 1957, p.105-106.

11) Cf. SANTO AGOSTINHO. De Civitate Dei. L.XX, c.14. In: Obras. Madrid: BAC, 1958, v.XVI-XVII, p.1480; SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. Suppl., q.87, a.1; a.2.

 

32º Domingo Comum
http://paroquiacristoreice.com.br/index.php/component/content/article/43-destaques/1527-homilia.pdf

No Evangelho que ouvimos, Jesus nos fala do fim dos tempos. Como era seu costume, ele usava parábolas; isso é: figuras para realçar as lições que seus ouvintes precisavam aprender sobre os tempos finais. Como em outras parábolas que Jesus contou, não podemos buscar o significado em cada mínimo detalhe. Por exemplo: O fato de haver cinco virgens prudentes e cinco insensatas não quer dizer que a metade da humanidade será salva e a outra metade não. O significado é este: haverá apenas dois grupos de pessoas: Os que estão preparados e os que não estão. Percebamos que estão em grupo, em comunidade, se não fosse tal ênfase Jesus colocaria apenas duas pessoas, uma de um lado e outra do outro, cada uma de forma solitária.

A intenção de Jesus nesta parábola é chamar a atenção para a responsabilidade pessoal de cada um. As virgens insensatas poderiam ter tomado a iniciativa de trazer mais óleo, ou ter buscado enquanto havia tempo. Mas não o fizeram. Da mesma forma, muitas pessoas hoje poderiam buscar mais a Palavra de Deus, compreendê-la e crer na mensagem salvadora em Jesus Cristo (O noivo) e aplica-la às suas vidas. Entretanto, muitos se contentam com o pouco que aprenderam no passado, quem sabe de parentes ou de outra maneira (como em comunidades mal conduzidas), ou ainda com algumas tradições religiosas, sem de fato terem a fé verdadeira bem solidificada e alicerçada na Palavra de Deus.

Muitos não alimentam suficiente e continuamente a chama da fé que receberam gratuitamente de Deus no Batismo ou através da santa Palavra. Falo da fé que lhes garante a vida eterna por graça de Jesus Cristo.

E um dia a chama pode apagar por simples falta de cuidado e atenção. E, quando o Senhor vier repentinamente, não haverá mais tempo para buscar a Palavra, o óleo tão necessário para manter a chama acesa e trazer a luz.

É necessário que todos tomemos a iniciativa de vigilância enquanto estamos a caminho. Não desperdicemos as oportunidades que Deus nos dá para estarmos sempre em comunhão com ELE. É para isto que Deus nos dá o tempo de vida.

É bom lembrar que as cinco que entraram com o Noivo na festa de casamento, tiveram acesso não por méritos próprios, mas pela graça de Deus. Deus preparou a festa para os que Nele creem e se apegam aos méritos do Salvador Jesus. Elas entraram “com o Noivo”. Jesus disse: “Eu sou o Caminho, e a Verdade, e a Vida; ninguém vem ao Pai SENÃO por mim” (Jo 14,6).

 

A caridade é simbolizada no óleo
Mt 25, 1-13:. Homilia de Santo Agostinho (S. 93, 2,2.3,4.4,5)
http://www.agustinosrecoletos.com/blog/pt-pt/2014/11/03/caridade-e-simbolizada-oleo/

«Entendamos, pois, caríssimos, que essa parábola concerne a todos nós, isto é, a toda a Igreja: não só aos que estão a cargo dela, sobre os quais vos falamos ontem, nem só ao povo, mas a todos. Por que se fala de cinco virgens e depois de outras cinco? Estas cinco virgens, mais as outras cinco, todas elas são almas de cristãos…

Não se costuma falar de virgindade quando se trata de pessoas casadas; porém, também nos casados se dá a virgindade da fé, que ressalta a castidade conjugal. Pois, para que o saiba a vossa santidade: não é inadequado considerar como virgem a toda e qualquer alma, no que diz respeito à integridade da fé, pela qual ela se abstém do ilícito e pratica as boas obras. Até a Igreja inteira, que consta de virgens e crianças, de mulheres e de varões casados, é designada com o mesmo nome de virgem. Donde o provamos? Ouve o Apóstolo que diz, referindo-se não apenas às virgens, mas à Igreja toda: Fui eu que vos desposei a um único esposo, apresentando-vos a Cristo como virgem pura (2Cor 11, 2)…

Poucas conservam a virgindade no corpo, no coração, porém, todos devem conservá-la. Assim sendo, se é boa a abstinência das coisas ilícitas, da qual a virgindade recebe seu nome, e dignas de loa são as obras boas, significadas nas lâmpadas, por que são admitidas cinco e as outras cinco, rejeitadas?… Entre as mesmas virgens que levavam lâmpadas, umas são ditas previdentes e outras, imprevidentes. Donde é que o podemos ver e em que as distinguimos? Pelo óleo. Algo grande significa o óleo, muito grande. Que te parece? Não seria a caridade? Dizemo-lo perguntando, sem adiantar a resposta. Eu vos direi por que me parece que a caridade é simbolizada no óleo. O óleo é o mais excelente de todos os fluidos. Põe água num recipiente e infunde-lhe óleo: o óleo ficará por cima. Põe óleo e infunde-lhe água: o óleo ficará por cima. Se seguires a ordem, o óleo vence; se a mudares, vence também. A caridade não acabará nunca (cf. 1Cor 13, 8)».

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