XXIX Domingo do Tempo Comum – Ano A

Mt 22,15-21: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.

15Reuniram-se então os fariseus para deliberar entre si sobre a maneira de surpreender Jesus nas suas próprias palavras. 16Enviaram seus discípulos com os herodianos, que lhe disseram: Mestre, sabemos que és verdadeiro e ensinas o caminho de Deus em toda a verdade, sem te preocupares com ninguém, porque não olhas para a aparência dos homens. 17Dize-nos, pois, o que te parece: É permitido ou não pagar o imposto a César? 18Jesus, percebendo a sua malícia, respondeu: Por que me tentais, hipócritas? 19Mostrai-me a moeda com que se paga o imposto! Apresentaram-lhe um denário. 20Perguntou Jesus: De quem é esta imagem e esta inscrição? 21De César, responderam-lhe. Disse-lhes então Jesus: Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.

Fariseus e herodianos se unem para conspirar contra Jesus. Os herodianos eram os partidários da política de Herodes e de sua dinastia: admiravam a dominação romana e, em matéria religiosa, compartilhavam com as idéias materialistas dos saduceus. Os fariseus eram zelosos cumpridores da Lei, anti-romanos e consideravam o regime de Herodes e dos seus sucessores como um poder obtido pela fraude. Havia uma diferença radical entre herodianos e fariseus, mas, nesta ocasião se unem e fazem uma pergunta maliciosa, mostrando como odiavam a Jesus. Se o Senhor respondesse que era lícito pagar o tributo a César, os fariseus estariam depreciando Jesus perante o povo, que pensava com mentalidade nacionalista. Se respondesse que não era lícito, os herodianos podiam denunciá-lo junto às autoridades romanas. Mas, Jesus responde com sabedoria e fidelidade à Sua pregação sobre o Reino de Deus. Fariseus e herodianos não alcançam a profundidade da colocação de Jesus: “Dai, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, onde Jesus confirma os deveres para com César, mas acrescenta que também devem dar a Deus o que lhes corresponde. Jesus apresenta outro lado da moeda, que eles ignoravam. O que corresponde a César? – a tributação necessária para a existência do ordenamento temporal, para a realização do bem comum e a felicidade plena do ser humano. E o que se deve dar a Deus? – Obediência aos Mandamentos, que implica “em Tudo Amar e Servir”, conforme nos diz Santo Inácio de Loyola. A resposta de Jesus está longe do entendimento de seus tentadores, está acima do “sim” e do “não” que queriam que Jesus respondesse. A doutrina de Jesus está acima de qualquer proposta política, e se, como fiéis leigos, no exercício de nossa liberdade, fizermos uma opção, escolhendo uma determinada posição em assuntos temporais, devemos desempenhar fielmente nossas tarefas, nos deixando guiar pelo Espírito do Evangelho… Nós leigos, que participamos ativamente na vida da Igreja, estamos obrigados não somente a impregnar o mundo de espírito cristão, mas também somos chamados a dar testemunho de Cristo em tudo, no meio da comunidade humana (cf. Gaudium et Spes, nº 43). Jesus reconheceu a autoridade civil e seus direitos, mandando dar o tributo a César, mas lembrou claramente que se deviam observar os direitos superiores de Deus (cf. Dignitatis Humanae nº 11). Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

 

Por Mons. Inácio José Schuster

Neste 29° domingo do Tempo Comum, nós encontramos uma perícope no texto de Mateus, que tem como finalidade conter um “logion”, isto é,  uma expressão de Jesus que tornou-se famosa no Cristianismo, e até mesmo fora dele. “Dai a Cesar o que é de Cesar, e a Deus o que é de Deus.” Queriam tentá-Lo: “devemos ou não pagar o tributo ao estrangeiro, ao dominador?” Qualquer que fosse a resposta de Jesus O comprometeria. Se dissesse sim, seria taxado de colaboracionista dos Romanos, e perderia Seu encanto com o povo Judeu que O acompanhava, se dissesse não, poderia ser acusado de rebeldia contra os dominadores. Jesus não se descompôs: “de quem é esta moeda? De quem é esta efígie? Em Seu tempo, provavelmente de Tibério Cesar, o imperador Romano daquela época. Se se comercia com o que é de Cesar, se se compra e se vende através de uma moeda que vem de Cesar, então nada mais justo que se dar a Cesar o que é de Cesar. No entanto, este não é o texto que nos leva, nós Cristãos, a respeitar e, de certa maneira, obedecer as autoridades civis constituídas, ainda que não comunguem de nossa fé. Existem outros textos do Novo Testamento que incutem nos Cristãos um respeito para com essas autoridades legítimas que nos governam neste mundo. Não é este, porém, o texto. Jesus não equipara Cesar a Deus. A frase de Jesus, famosa e célebre, deve ser entendida da seguinte maneira: podem dar a Cesar o que lhe pertence, porque Cesar, de maneira nenhuma, deve fazer ou faz concorrência com Deus. No entanto, se a Cesar o que é de Cesar, a Deus – que é infinitamente superior a Cesar – o que Lhe convém. E o que convém a Cesar? Simplesmente o pagamento dos impostos que são exigidos. Que convém a Deus? Muito mais que respeito; Deus não quer o posto de quem quer que seja, Deus quer o coração, Deus quer a obediência, Deus quer a totalidade, Deus quer a vida, Deus quer toda a energia para Si. Nada disto Cesar reclama para ele. Portanto, Cesar e Deus não estão no mesmo nível e não podem ser equiparados. De resto, o próprio texto insinua que se nós obedecemos a Cesar, se nós o respeitamos, nós não precisamos amá-lo, não precisamos temê-lo e não precisamos reverenciá-lo. E se, no entanto, Cesar exorbitar, se for além de suas prerrogativas, se exigir o que não é lícito, Deus deve ser preferido. E neste caso, Cesar deve ser rebaixado. Isto aconteceu muitas vezes no Cristianismo e, sobretudo, no Cristianismo das origens, quando Cesar queria ser adorado como uma divindade – pensamos, por exemplo, em Domiciano, no final do século primeiro – e os Cristãos não estavam dispostos a este ato cultual, como nos ensina o Livro do Apocalipse.

 

TEMOS DADO A DEUS O QUE É DE DEUS?
Padre Bantu Mendonça

Estamos na última semana da vida de Jesus. Ele atua como mestre no pórtico de Salomão ao oriente da esplanada do Templo. Seus inimigos estão à espreita para ver como apanhá-lo em suas palavras e, por isso, propõem diversas questões – que eram discutidas na época – com o intuito de ver seus conhecimentos e até de poder acusá-lo diante das autoridades por sua discrepância da Lei ou sua oposição às autoridades romanas. Um destes episódios é o de hoje: “Mestre, sabemos que és verdadeiro e que, de fato, ensinas o caminho de Deus. Não te deixas influenciar pela opinião dos outros, pois não julgas um homem pelas aparências. Dize-nos, pois, o que pensas: É lícito ou não pagar imposto a César?” É lícito significa se está de acordo com a Lei. Pagar o tributo a César seria, segundo os zelotas e os fariseus, dar dinheiro a um representante de um deus pagão. Seria manter o princípio de propriedade do Estado Romano sobre terras que Javé-Deus tinha dado a Israel a título inalienável. Segundo os juristas romanos, o povo de Israel tinha unicamente o usufruto destas terras. Por isso, a taxação era uma escravidão evidente segundo o povo eleito. Diante deste fato, a resposta se fosse favorável aos romanos atrairia o desprezo do povo sobre Jesus. Mas, se a resposta de Jesus fosse contrária ao pagamento do tributo, poderia ser causa suficiente para tratar Jesus como zelota e os herodianos acusá-lo-iam às autoridades – como realmente o fizeram – de impedir o pagamento do tributo a César (Lc 23,2). Jesus pede a moeda onde estava escrita ao redor da efígie do César: César Tibério, do divino Augusto filho, ele mesmo Augusto Pontifice Máximo. A moeda foi cunhada em Roma – como todas as moedas em ouro ou prata. Todos, tanto fariseus como herodianos, usavam a moeda, o que era de fato aceitar o domínio de César. A tradução mais exata da resposta de Jesus seria: “Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Sem dúvida, Jesus aponta para uma dívida que temos tanto com as autoridades civis como para com Deus: 1º – Ele estabelece uma clara distinção entre os deveres cívicos e os religiosos, não confundindo as áreas, mas separando-as. 2º – Toda autoridade da qual nos servimos – como se serviam do denário os judeus – tem origem divina, como Ele respondeu a Pilatos: “Nenhuma autoridade terias sobre mim se de cima não te fosse dada”. (Jo 19,11) Deus quer ser representado na autoridade do homem, como diz Paulo, independentemente dessa autoridade ser boa ou má. Em Rm 3,1 afirma: “Não há autoridade que não proceda de Deus e as autoridades que existem foram por Ele instauradas”. No mundo moderno não interrogamos Jesus sobre o tributo a César, mas interrogamos a Igreja sobre o Jesus que está mostrando ao mundo: O homem oprimido tem substituído a mensagem evangélica sobre o verdadeiro Jesus, Filho de Deus, Redentor e Salvador. Do Evangelho tomamos unicamente a mensagem sobre a justiça e igualdade. E a fé, fundamento da vida cristã, fica diluída em termos humanos. O homem substitui o Deus encarnado. Em Jesus queremos ver um revolucionário e, na revolução, um remédio universal, uma redenção necessária embora dolorosa. Portanto, devemos favorecê-la e acompanhá-la com ilusão e até propagá-la como remédio dos males modernos. Da frase eu vim evangelizar os pobres reduzimos o Evangelho a uma simples conclusão de semelhante afirmação. O resto da boa notícia não interessa. É por isso que os milagres de Jesus ou são silenciados ou são negados e, entre eles, a Ressurreição. A vida eterna do Evangelho é traduzida como vida melhor na terra por uma repartição mais justa das riquezas. O sobrenatural é substituído pelo natural. O pão de cada dia desloca o Pão Eucarístico necessário para a verdadeira vida. A política tem tomado o lugar da religião. Damos a César o que é de César. Mas não damos a Deus o que é de Deus, embora esse Deus moderno seja o grande arquiteto que anula o Cristo do qual temos recebido o nome. A fé se reduz a uma ideia mais conforme com a filosofia natural do que com a dos versículos dos Evangelhos. Temos que nos perguntar se damos a Deus o que é de Deus. Porque, embora sabendo que Ele é o verdadeiro Senhor de nossas vidas, muitas vezes O temos relegado a um segundo plano quando nos declaramos independentes ou buscamos nosso próprio bem, no lugar da vontade que é absoluta no céu e que deveria ser também soberana na terra, como rezamos no Pai Nosso.

 

Hoje é o Dia Mundial das Missões. Desde 1926, com o Papa Pio XI, no penúltimo domingo de Outubro a Igreja reza para que a fé chegue a todos os povos e que todos os fiéis tomem consciência da importância das missões. No comentário de entrada e na homilia, esta preocupação deve estar presente. Uma das intenções da Oração Universal dos Fiéis deverá ser dedicada às missões. Poder-se-á utilizar o formulário da Missa pela Evangelização dos Povos (ver Missal Romano. Também somos convidados a auxiliar as missões com a nossa oferta paro o Dia Mundial das Missões. A evangelização é uma dimensão essencial da Igreja. Desde os seus inícios, a Igreja se expandiu, porque os apóstolos não descuidaram o trabalho missionário que nunca foi interrompido através das gerações. “A Igreja, enviada por Deus a todas as gentes para ser “sacramento universal de salvação”, por íntima exigência da própria catolicidade, obedecendo a um mandato do seu fundador, procura incansavelmente anunciar o Evangelho a todos os homens. Já os próprios Apóstolos em que a Igreja se alicerça, seguindo o exemplo de Cristo, “pregaram a palavra da verdade e geraram as igrejas”. Aos seus sucessores compete perpetuar esta obra, para que a “palavra de Deus se propague rapidamente e seja glorificada (2 Tess. 3, 1), e o reino de Deus seja pregado e estabelecido em toda a terra” (Concílio Vaticano II, Ad Gentes, n. 1). Todos somos missionários, apesar de não partirmos para terras longínquas. Podemos colaborar na difusão do reino de Deus no nosso ambiente familiar e social, no nosso trabalho. O exemplo de uma vida em conformidade com o evangelho é o melhor testemunho que podemos dar. Uma vida autenticamente cristã vale mais que mil palavras. Além disto, podemos colaborar com as missões, através das nossas orações e da nossa humilde ajuda econômica. A primeira leitura do Livro de Isaías narra-nos um elogio de Ciro, rei dos Persas. Depois de conquistar Babilônia e com o seu decreto do ano 538 a. C., permitiu aos israelitas e aos outros povos que ali estavam desterrados regressarem às suas terras. Ajudou-os a reconstruir a sua nação e o Templo de Jerusalém. Através deste rei estrangeiro, que não conhecia Deus, cumpre-se a vontade do Senhor. Assim, Ciro é um instrumento escolhido por Deus, um caudal da graça divina, um meio para que prossiga a história da salvação. Na nossa vida, temos, de certeza, conhecimento de pessoas e de acontecimentos, através dos quais sentimos a mão paternal de Deus a intervir. Agradeçamos ao Senhor pelas suas intervenções na nossa vida, para que o anúncio do seu amor e da sua graça prossiga no mundo e em cada um de nós. No evangelho, os fariseus colocam a Jesus um dilema, armando uma cilada: “É lícito ou não pagar tributo a César?” Mas Jesus, conhecendo a sua malícia, respondeu: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Jesus não prega uma separação, mas diz-nos que deve harmonia entre ser bom cidadão e ser bom cristão. Uma coisa não anula a outra, mas quando há oposição entre ambas (moral sexual, respeito pela vida, identidade do matrimônio…), há que optar pela vontade de Deus.

 

29º DOMINGO DO TEMPO COMUM – A
“Clamo por vós, meu Deus, porque me atendestes; inclinai vosso ouvido e escutai-me. Guardai-me como a pupila dos olhos, à sombra das vossas asas abrigai-me.” (Sl 16,6.8)
Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Diocese da Campanha, MG.

Irmãos e irmãs, Refletiremos neste domingo acerca da soberania de Deus e o nosso relacionamento com as coisas do mundo político. Está presente a famosa frase “Daí a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”(cf. Mt 22,21). Na primeira leitura desta Santa Missa(cf. Is 46,1.4-6) o rei pagão, Ciro, é instrumento de salvação nas mãos de Javé, o rei verdadeiro.  O rei Crio, o pagão que fez os judeus voltar do Exílio. Embora ele conheça Deus só por ouvir dizer, Deus o conhece, o toma pela mão; o profeta até o chama de “ungido”, o título da dinastia davídica: pois ele atua em favor do povo de Israel. Ciro é um bendito instrumento nas mãos de Javé, para tornar conhecido seu nome, sua fama de ser um Deus que salva. Caros irmãos, Jesus, ao fim de sua pregação, entrou abertamente em conflito com as autoridades do povo judeu. Em vista disso, quiseram armar para Jesus uma cilada, para que as autoridades o pegassem em alguma palavra que pudesse ser o motivo de sua condenação, ou seja, que fosse contra os princípios judaicos. Esse trecho do Evangelho de hoje (Mt 22,15-21) é bem conhecido de todos: O que é de César e o que é de Deus. Inúmeras vezes, durante toda a caminhada pública de Jesus, o Salvador enfrentou os chefes do povo e aqueles que se colocavam contra a sua Pessoa, o seu Reino e a sua Missão. Tudo isso porque Jesus veio pregar a libertação, denunciar o sistema religioso de então, maculado pelos interesses mesquinhos, cheio do rigorismo de prescrições rituais que mais amarravam, do que proporcionavam a salvação. Mateus, portanto, nos ensina neste domingo de quais virtudes os cristãos devem se lembrar na sua caminhada: a sinceridade, a honestidade, a abertura do coração, o espírito do acolhimento, a prática de boas obras, a coerência entre o dizer e o fazer, entre outras diretivas para o bem viver de uma vida voltada para as coisas do Senhor da Vida. Os fariseus não tinham coragem de enfrentar Jesus, por isso eles mudaram de tática, tentando provocar Jesus a cair em tentação. Meus irmãos, Jesus nos pede hoje que tenhamos atenção em dois pecados muito recorrentes e comuns nos dias de hoje: a exploração e a falsidade. O contexto atual é igual ao de dois mil anos atrás. A Palestina era colônia romana, totalmente dependente do poder central. Na colônia, todos deveriam pagar tributos exorbitantes, ou seja, impostos ao Imperador Romano, que era conhecido pelo nome de César – César Augusto. O tributo era pago com uma moeda de prata, chamada denário, que tinha impressa a figura do Imperador. Além de não poder citar o nome de César Augusto, porque “augusto” era um adjetivo reservado somente para Deus e proclamá-lo em vão era uma blasfêmia, os judeus queriam que Jesus entrasse em contradição, até porque eles se sentiam profundamente humilhados no pagamento do imposto, que era exorbitante e pesado. Mais do que isso, um judeu pagar imposto para um rei que não fosse hebreu, era um absurdo, porque teria que reconhecer nele o representante de Deus, o que contradizia as leis, os profetas, costumes e dignidade de raça. Manusear essa moeda para eles também era um sacrifício, uma idolatria, porque no denário estava inscrito “divino” Augusto. Tudo em volta do tributo era repugnante, porque ia contra os sentimentos de dignidade, sobretudo dos fariseus, que eram muito xenóbofos e nacionalistas. Respondendo que os judeus deveriam pagar o tributo poderiam acusá-lo de estar a serviço dos estrangeiros, de ser explorador do povo, de trair sua raça, podendo ser apedrejado por isso. Se respondesse não, seria acusado de subversão e de sonegação, podendo ser levado ao procurador romano para ser condenado. Enfim, tudo foi colocado para que Jesus, respondendo afirmativa ou negativamente, fosse sumariamente condenado e eliminado, porque incomodava ao poder religioso de então, que era medíocre e sem compromisso com a edificação do Reino de Deus. Meus irmãos e irmãs, O homem é, ao mesmo tempo, corpo e espírito, terra e céu. A religião não abrange somente a alma. Ela envolve o homem inteiro, seu ser e seu fazer, seu presente e seu futuro. A lição do Evangelho é que todas as dimensões: religiosa, social, política e econômica se complementam, se necessitam e devem ser igualmente respeitadas, acontecendo – ao mesmo tempo e com a mesma meta – a felicidade escatológica. A pessoa humana é o todo. “Dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” significa não negligenciar nem a dimensão para o alto, nem a dimensão social em suas diversas manifestações. Quando dizemos “dar a César o que é de César” nunca podemos deixar Deus de lado. Também nossos compromissos com o país, com a economia, com a política, com a cultura, com o trabalho e com o progresso devem sempre respeitar os mandamentos de Deus que ilumina todos os setores da vida do homem. Em tudo, mas em tudo mesmo, Deus deve estar presente em primeira mão. Tudo isso porque Ele nos criou à sua imagem e semelhança. Em vista disso, todos nós trazemos a marca de Deus. Caríssimos, A segunda leitura (1Tessalonicenses 1,1-5) nos fala da chegada da parusia. O texto nos apresenta um itinerário de vida para esta semana: fé atuante, caridade abundante e esperança perseverante. Paulo, nesta carta, tem bons motivos para dar ação de graças, poucas semanas trabalhou em Tessalônica teve que partir às pressas, mas a fé cresceu, a forca de Deus operou neles: eles são os eleitos. A carta toda é agradecida lembrança e experiência da vinda do Senhor. A missa de hoje nos questiona: a construção da cidade terrestre é uma tarefa importante, mas não será ela caduca? Construindo a cidade dos homens contribui-se ou não para a edificação do Reino de Deus? Não serão dois reinos distintos? Para nós católicos a esperança não se realiza, certamente, em plenitude, senão na vida eterna. Entretanto, a esperança se manifesta e é eficaz aqui e agora: é uma força imensa no mundo, é um fermento poderoso que o faz levedar, é um sal que dá sentido e sabor ao esforço humano de libertação, ao empenho temporal. Não existem duas esperanças: uma terrena e outra celeste. A esperança é uma só: ela está intimamente ligada ao Céu, mas através do empenhamento cristão, a antecipa na realidade terrestre. O cristão deve dizer sim à vida e não à violência que traz o uso das armas de fogo. Os irmãos e irmãs de caminhada devem ter a fé de Deus, que nos fez à sua imagem e semelhança, para iluminar os rumos do Brasil, com caridade e esperança nestes momentos difíceis. Porque de esperança e esperança, dando a César o que lhe pertence e a Deus tudo o que lhe devemos, vamos construir uma grande Nação, sendo a meta o centro da liturgia de hoje: estarmos, todos, à disposição do supremo Senhor, na construção da globalização da solidariedade.

 

“DAI A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR E A DEUS O QUE É DE DEUS”
Por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração
29º Domingo Comum – A
Leituras: Is 45, 1.4 – 6; 1 Ts 1, 1 – 5b; Mt 22, 15 – 21

Em muitas nações está tornando-se muito vivo o debate sobre o sentido e o estilo da presença dos cristãos, e em particular dos católicos, na atividade política. Em alguns dos grandes países de antiga tradição cultural e religiosa própria como, por exemplo, na Índia e na China, os cristãos constituem uma porcentagem muito pequena. Por isso mesmo encontram dificuldade para exprimir uma presença significativa no nível social e político. A única palavra possível é o testemunho da própria vida inspirada pelo evangelho. Em outras nações de antiga tradição cristã, como na Europa, hoje, porém, profundamente influenciadas pela mentalidade secularizada, os cristãos encontram forte oposição para uma presença mais incisiva nas mídias, nas estruturas econômicas, culturais e sociais, assim como no âmbito da política. A mentalidade secularizada pretende reduzir ao âmbito individual e particular toda expressão da dimensão religiosa da existência das pessoas. Às vezes os cristãos chegam a sofrer uma verdadeira marginalização social por parte dos grandes poderes econômicos e culturais, isso quando não são conduzidos até a morte pela violência dos fundamentalistas religiosos, por causa do testemunho fiel ao evangelho e às exigências de justiça que o evangelho leva consigo. Todo mundo conhece as doloridas crônicas dos últimos anos, narrando acontecimentos dramáticos na Ásia, na África, mas também na América Latina e até no Brasil. Em outros países, muitos católicos, depois de experiências bastante problemáticas e negativas, se afastaram do empenho político, e às vezes até social, achando ser mais condizente para eles dedicarem-se exclusivamente à “própria vida espiritual”, dentro das próprias comunidades, limitando a ação à caridade de emergência fornecida aos mais necessitados. Talvez se encontrem outras pessoas e grupos, que sonhem voltar ao “tempo feliz” quando a Igreja, através das conexões diretas da sua hierarquia com as autoridades públicas, conseguia influenciar o comportamento social das pessoas, além das convicções interiores e da coerente prática pessoal. Era o tempo da chamada cristandade. Hoje a situação está radicalmente mudada, já que todas as sociedades apresentam-se profundamente pluralistas em nível social, cultural e religioso.  Como colocar-se neste novo contexto histórico, que é o nosso, para ser luz e sal do mundo, segundo o mandamento de Jesus (cf Mt 5,13)? Homens e mulheres animados pela novidade que vem de Cristo, somos chamados a “partilhar as alegrias, as esperanças e as dores” dos homens e das mulheres do nosso tempo, como se exprime o Concílio Vaticano II, na Constituição “Gaudium et Spes”- “Alegrias e esperanças”. A palavra de Deus deste domingo nos oferece algumas indicações para iluminar e orientar nosso caminho. Somos chamados a viver este nosso tempo com inteligência e discernimento espiritual, e colocando ao serviço dos nossos irmãos e irmãs “as energias que vem da nossa fé e as nossas capacidades humanas, procurando não os interesses particulares mas o bem comum”(papa Bento XVI – 10/10/11). Diante das tentativas de afastar Deus da vida dos homens e das mulheres contemporâneas na pressuposição que ele diminua a sua liberdade e a responsabilidade, o papa Bento XVI, durante sua recente visita apostólica a sua terra natal, a Alemanha, afirmou com renovado vigor: “Onde Deus está presente, há esperança e abrem-se perspectivas novas e, frequentemente, inesperadas que vão para além do hoje e das coisas efêmeras”. Jesus nos abre o caminho que passa através do processo de morte a nós mesmos e ao poder mundano, para libertar as energias criativas que nos habitam e que vem do Espírito de amor. É preciso, porém, aproximar-se a Jesus com o coração simples das crianças, pois é a elas, e aos pequenos, que o Pai revela a profundidade do reino de Deus, e faz compreender a beleza de viver a páscoa transformadora com Jesus, e de pertencer ao Senhor na liberdade dos seus filhos e filhas (cf. Mt 11, 25-27). Esta atitude interior de abertura ao Senhor e de desapego do poder, é um critério fundamental para nos afinar com o coração de Deus e atuar como discípulos de Jesus. Se ela faltar, até os milagres, se tornam incapazes de nos despertar às novidades de Deus, como aconteceu com os concidadãos de Jesus em Nazaré! (cf Mc 6, 5-6). Ao contrário, os fariseus, fazem perguntas “para apanhar Jesus em alguma palavra” (Mt 22,15). Não estão à procura da verdade e da vida, mas espalham armadilhas para enganar. Projetam no diálogo com Jesus a maldade e a divisão que polui o seu coração. Escolhem por este objetivo o terreno mais equivocado, o da política. Como diz o salmista, os ímpios “falam de paz com seu próximo, mas tem a malícia no coração” (Sl 28,3). No tempo de Jesus os romanos ocupavam com as tropas a terra de Israel e o povo era obrigado a pagar pesados tributos. O imperador de Roma, o César, era de fato o seu verdadeiro patrão. A tradição religiosa de Israel, ensinava, ao contrário, que o único dono do povo eleito devia ser considerado o Senhor, o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, o Deus que tinha libertado seu povo da escravidão do Egito. Este conflito de consciência despertava repetidas rebeliões sociais e militares entre o povo, que os romanos sufocavam com o sangue e, no final, com a destruição de Jerusalém no ano 70. Aceitar pagar a taxa do tributo significava reconhecer e aceitar a dominação dos romanos, estrangeiros e pagãos. Isto significava para Jesus perder o favor do povo. Por outro lado, a recusa do pagamento provocaria a reação violenta dos ocupantes. Qualquer resposta, imaginam os adversários de Jesus, acabaria colocando-o numa situação desfavorável e perigosa. Jesus desmascara a sua malícia. Indica a autêntica relação do homem e da mulher, assim como do poder publico, para com Deus e para com o homem, pois o poder existe para servir as pessoas. Jesus não aceita a contraposição entre Deus e o homem, mas destaca a primazia absoluta de Deus, como a nascente da liberdade do homem e da natureza do poder como serviço. “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Da primazia de Deus brota aquela unidade interior que gera a liberdade da consciência para a orientação da própria vida, e o respeito das obrigações em relação à legitima autoridade pública no nível social, quando suas disposições não violam a consciência das pessoas nem o bem comum. A comum pertença à sociedade gera a obrigação moral e civil de contribuir com o bem comum, pagando impostos justos ao Estado, para que este os invista em serviços de pública utilidade. Assim, a autoridade pública tem o dever de não se aproveitar dos recursos públicos para fins particulares. Ainda mais, da relação com Deus como referência fundamental da própria vida, nasce a exigência e a capacidade de empenhar-se com todas as suas energias ao serviço da sociedade e da promoção da justiça. “A ação política, conduzida com integridade e profissionalismo, dizia Paulo VI, constitui o mais alto exercício da caridade”. Não instrumentalizar a religião para fins políticos, nem pretender fazer do poder político um instrumento impróprio, para dominar sobre os demais, nem para impor a própria visão religiosa, invés de respeitar e promover a liberdade e o crescimento integral das pessoas. Quantos abusos e quantas distorções se podem observar no cenário público! Isto constitui um grande desafio para os cristãos do nosso tempo, conscientes da própria responsabilidade histórica em relação à sociedade.  Já através dos profetas o Senhor tinha afirmado o valor supremo da sua relação conosco, graças à aliança no amor: “Eu serei seu Deus e eles serão meu povo” – “Eu serei Deus para vocês e vocês serão povo para mim” (cf. Jer 31,33).   lei da aliança deixa de ser uma obrigação exterior para tornar-se a inspiração que atinge o coração do homem sob o influxo do Espírito, e orienta sua existência em todas suas manifestações, individuais e públicas. O homem renovado pelo Espírito de Deus acaba com a divisão interior e com as ambiguidades nas suas relações com os demais. Tudo nele, quando vive sob esta influência benéfica e criadora do Espírito, é ao mesmo tempo resposta de amor a Deus e serviço de amor ao próximo. Diante de uma nova pergunta maliciosa de um fariseu sobre qual fosse o maior dos mandamentos, Jesus indica na unidade indivisível do amor sem limites e sem reserva a Deus e ao próximo, o sentido supremo e único de toda a escritura: “Desses dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas” (Mt 22, 34-40).  A consciência que Deus guia a história de cada um, e de toda a humanidade com sua providência e sua fidelidade, sobretudo em favor dos mais necessitados, desperta a força interior e a esperança. Esta força interior gerou – e continua gerando – tantos mártires cristãos ontem e hoje.  Esta é a mensagem fundamental que o profeta apresenta ao povo de Israel, no momento em que, depois de quase cinqüenta anos de exílio da própria terra, não tem a coragem nem de esperar mais um futuro diferente. O profeta, ao contrário, iluminado pelo Espírito do Senhor consegue ler na ascensão militar e política do rei Ciro, no ano 535 a.C., a manifestação da providência com a qual Deus dirige a história em favor do seu povo, além da presunção de onipotência que o próprio Ciro talvez tenha de si mesmo. “Por causa de meu servo Jacó e de meu eleito Israel, chamei-te (Ciro) pelo nome; reservei-te e não me reconheceste. Eu sou o Senhor, não existe outro: fora de mim não há deus” (Is 45, 4-5). Aqui está uma mensagem muito importante e atual para nós também. Às vezes temos a tendência a julgar os acontecimentos turbulentos e as profundas transformações sociais, políticas, econômicas, culturais e religiosas da nossa época, somente como elementos negativos. E ficamos sonhando voltar ao passado, imaginado-o como melhor. Falta-nos às vezes a consciência de ser “amados por Deus” e de ser “do número dos escolhidos”, como lembra o apóstolo Paulo aos Tessalonicenses (segunda leitura). Esta é condição indispensável para manter viva a atuação da nossa fé, o esforço da nossa caridade e a firmeza da nossa esperança em Cristo (1 Ts 1,3). Falta-nos a capacidade de exercitar a leitura profética da situação, para descobrir a eventual função libertadora em nosso favor que ela guarda escondida em si mesma. Quais são as novas oportunidades para crescer em autenticidade, na nossa humanidade e na experiência da nossa fé, da nossa esperança e da nossa caridade? Qual é o “Ciro”, escolhido misteriosamente por Deus, para nos abrir um novo caminho de vida mais autêntica? Seria um exercício muito proveitoso parar um pouco em silêncio e em oração diante de si mesmo e do Senhor; re-ler na luz do Espírito, a própria história, e tentar reconhecer quantas vezes à primeira vista certa situação nos parecia somente negativa e depois se revelou ser um “Ciro libertador”, uma oportunidade oferecida pelo Senhor, em função de um salto de qualidade de nossa própria vida. Tentemos ficar um pouco mais conosco mesmos e com o Senhor neste domingo. Sem dúvida acabará saindo dos nossos lábios, se formos sinceros, o canto de louvor e de admiração do salmista: “Cantai ao Senhor Deus um canto novo… Manifestai a sua glória entre as nações e, entre os povos do universo, seus prodígios!… Adorai-o no esplendor da santidade, terra inteira, estremei diante dele” (Salmo Responsorial).

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