Espiritualidade Missionária

Por Mons. Inácio José Schuster

I. TENTANDO ENTENDER O QUE É ESPIRITUALIDADE

Não são poucos os agentes de pastoral que costumam reclamar: falta espiritualidade em nosso grupo! Quando os cristãos manifestam essa inquietação, o que na verdade, estão demandando? Creio estarem denunciando o fato de se sentirem meros executores de obras meritórias. Sentem-se meros “tarefeiros”. Cumprem tarefas, promovem e participam de muitas reuniões, visitam doentes, sobem em favelas e descem em vilas, organizam encontros e assembléias. Trabalham, evangelizam e sentem-se vazios, desmotivados. E alguns, diante das primeiras dificuldades na convivência, no relacionamento com os outros irmãos de caminhada, desistem e deixam o trabalho no meio do caminho. Sim, talvez tenha faltado espiritualidade, porque a Igreja não é uma empresa a que prestamos serviço… Sentimos falta de espiritualidade. Mas o que significa exatamente essa palavra? Evidentemente, ela vem de “espírito”.

Pedimos socorro ao Aurélio e lá encontramos algumas definições para a palavra espírito:
• A parte imaterial do ser humano, a alma.
• Entidade sobrenatural ou imaginária como os anjos, o diabo, os duendes.
• Pessoa dotada de inteligência ou bondade acima do comum: é um grande espírito!
• ânimo, índole.
• Líquido obtido pela destilação, álcool.
Perdemos tempo. Aurélio não nos ajudou, deixou-nos na mão. Mas não nos precipitemos. Aproveitemos alguma coisa.

Talvez nos sirvam os conceitos “ânimo, índole”. Espírito seria aquilo que anima a nossa ‘ânima’, a nossa alma. Seria o nosso entusiasmo, seria a nossa motivação maior, seria o nosso cerne, aquilo que sobra quando tudo acaba. No AT, o termo que traduz espírito é ruah, que significa hálito. O respiro que pode ser concebido como um princípio ou como um sinal de vida. Lá no Gênesis, o espírito da vida é o hálito. A respiração é o hálito de Deus, o sopro comunicado ao homem por insuflação divina (Gn 2,7). O espírito no AT, originalmente vento e sopro, é concebido como uma entidade divina dinâmica, pela qual Deus-Iahweh realiza seus objetivos.
No NT, o termo que traduz espírito é PNEUMA. Muito semelhante ao sentido e ao uso da palavra ruah: é o movimento do ar, principalmente sopro ou vento. A novidade do NT: espírito como força de Deus, presente em Jesus Cristo e posteriormente nos apóstolos. O Espírito é dado, antes de tudo, ao próprio Jesus no batismo. Em Jo aparece como o Paráclito, o espírito de verdade que o mundo não conhece. Dessa forma, Espiritualidade seria viver uma vida segundo o Espírito, uma vida no Espírito, aí se contrapondo à vida segundo a carne, à vida na carne. Essas duas situações fundamentais que caracterizam o ser humano são desafios que exigem uma definição e uma opção fundamental.

1. Uma pessoa pode viver segundo a carne e seus imperativos:
•Organiza sua vida segundo as diretrizes do mundo débil, caduco e mortal;
•Considera sua vida no mundo como a única realidade e obedece aos mecanismos da mortalidade. “Comamos e bebamos porque amanhã morreremos”.
•Fecha-se sobre si mesmo, goza egoisticamente dos bens terrenos e atende indistintamente às exigências das paixões humanas.
•Não vislumbra nada para além do nascimento e da morte.
•Tudo se reduz em construir este mundo, assegurá-lo o mais possível preservado da morte, embora jamais o consiga.
•Para o homem do projeto-carne, a ganância de acumular é inteligência, a rapina é esperteza, a trapaça é habilidade, a corrupção é sagacidade nos negócios, exploração do outro é sabedoria de um trabalho lucrativo.
•Conseqüências da vida segundo a carne: impureza, ódios, discórdias, ciúmes, invejas, divisões (cf. Gl 5, 19-21). As Escrituras entendem como sinônimo: andar no pecado. Carne é a debilidade moral, a infidelidade na obediência a Deus.

2. Viver segundo o espírito é outra opção fundamental para a existência humana. Quem vive nessa dimensão não está livre do peso da vida, das tribulações, da dor e da angústia.
• Quem assim vive assume sem lamúrias a condição humana.
• Acolhe a mortalidade e a pequenez como vindas de Deus.
• Para tal pessoa, o mundo não fornece o sentido derradeiro das buscas do coração. Somente Deus pode ser o descanso do inquieto coração.
• A pessoa espiritual vê este mundo com os olhos da eternidade. Esta vida não é tudo. Viver segundo o espírito é viver filialmente face a Deus na devota obediência de sua vontade. Fraternalmente com os irmãos e senhorilmente frente ao mundo como um livre Senhor e responsável pela reta ordem das realidades do mundo.
À luz desta compreensão, Jesus podia dizer: “O Espírito é quem dá a vida. A carne não serve para nada” (Jo 6, 33). E São Paulo redizia: “As tendências da carne são a morte, mas as do espírito são a vida e a paz” (Rm 8, 6). Quem vive o projeto do espírito lentamente vai vivificando a carne. Não é possível jogar a carne fora. A vida segundo o espírito não consiste em recalcar ou negar a própria realidade da criação. Pelo contrário, exige um acolhimento e aceitação humilde. Esta atitude tem como conseqüência o triunfo da vida. Espiritualidade é viver segundo o Espírito do Senhor, tentando fazer novas todas as coisas. É uma resposta pessoal à presença de Deus, uma experiência interior, um encontro pessoal e profundo com o Pai misericordioso. Faz-se como uma oração silenciosa… A vivência de uma espiritualidade provoca um certo esquecimento de si, generosidade, desapego das coisas, relatividade dos acontecimentos. Qualquer realidade, mesmo as realidades mais concretas e materiais, quando tocadas por Deus, ficam espirituais. Assim, alguém que dá comida a um faminto movido por Deus, faz um ato espiritual. Viver uma espiritualidade é cultivar a presença de Deus em nós. Presença que envolve todo nosso ser: corpo, sexualidade, afetividade, inteligência, vontade, liberdade, relação com os outros, com as coisas, com o mundo, com Deus. Qualquer espiritualidade supõe uma experiência de Deus.

Condições para a experiência de Deus:
1. Acreditar que Ele existe, está vivo.
2. Fazer silêncio dentro de si para escutá-lo.
3. Prestar atenção nessa Presença.
4. Responder, acolher ativamente sua Presença na práxis.

II. A ESPIRITUALIDADE MISSIONÁRIA

Missão sempre evoca uma ação, uma atividade. Quando pensamos num missionário, sempre o imaginamos envolvido em mil atividades. Caminhando, subindo e descendo vilas, batendo de porta em porta, atendendo uma fila de centenas de pessoas doentes. O missionário é o homem e a mulher incansáveis. Deixaram tudo: família, amigos, país natal e partiram para um desafio que exige, antes de tudo, esforço físico. O missionário, nessa concepção, é um atleta, um ginasta, que precisa ter, antes de tudo, preparo físico. Ser missionário é quase uma malhação. Dessa forma, ficam imediatamente excluídos da possibilidade de ser missionários: os idosos, os enfermos, as crianças, os monges, as monjas. Fica difícil entender que Santa Teresinha do Menino Jesus seja apresentada como modelo de missionária, aliás, Padroeira Universal das Missões da Igreja. Dessa caricatura podemos deduzir que o missionário, nessa perspectiva, transforma-se num “tarefeiro”. Cumpre tarefas. Se o missionário não cultivar uma espiritualidade própria, uma mística, bem cedo ele vai pedir aposentadoria. Cansado, extenuado, suado, vai desistir de sua missão, caso não cultive o que podemos chamar de vida interior.
“A Espiritualidade missionária exprime-se, antes de tudo, no viver em plena docilidade ao Espírito, e em deixar-se plasmar interiormente por Ele, para se tornar cada vez mais semelhante a Cristo” (João Paulo II, A Missão do Redentor, n. 87). O Papa nos lembra que os apóstolos eram muito limitados. Amavam o mestre, eram generosos na resposta a seus apelos, mas mostravam-se incapazes de compreender suas palavras e eram renitentes em segui-lo pelo caminho da cruz. O Espírito cuidará de transformá-los em testemunhas corajosas e anunciadores esclarecidos de sua Palavra: será o Espírito quem os conduzirá pelos caminhos árduos e novos da missão. Continua o Papa a afirmar que a nota essencial da espiritualidade missionária é a comunhão íntima com Cristo. Não é possível compreender e viver a missão, sem a referência a Cristo. Como “enviado”, o missionário experimenta a presença reconfortante de Cristo que o acompanha em todos os momentos da vida: “Não tenhas medo… porque Eu estou contigo” (At 18, 9-10). O chamado à missão deriva, por sua natureza, da vocação à santidade. Todo cristão só é autêntico missionário se empenhar no caminho da santidade. A vocação universal à santidade está estritamente ligada à vocação universal à missão. Por isso, o Papa nos exorta a que tenhamos um novo “ardor de santidade”, a sermos “contemplativos na ação”. Sem o Espírito, o Evangelho é morto e a evangelização é uma simples propaganda. Com o Espírito, entretanto, o Evangelho é força de Deus e a evangelização é um Pentecostes. As técnicas de evangelização são boas, mas mesmo as mais aperfeiçoadas não poderiam substituir a ação do Espírito Santo.

Já podemos falar em SANTIDADE MISSIONÁRIA, cujos elementos são os seguintes:
1. A centralidade de Cristo na vida do missionário e a abertura ao seu Espírito, que chama e envia gratuitamente à missão. Cristo oferece clarividência, paciência e perseverança, força e audácia nas decisões, criatividade na busca de soluções sempre novas. É imprescindível uma assimilação progressiva das motivações da fé em Cristo que nos libertam das ilusões.
2. A pobreza como condição e estilo de vida, que traz um êxodo constante de si mesmo, das seguranças, do desejo de poder. É convite ao desapego, ao desprendimento de certos modelos caducos. Saber mergulhar na ambigüidade da história, sem se escandalizar e sem se perder.
3. Amor eclesial: uma espiritualidade inspirada na missão cultiva uma relação de amor com a Igreja. Apesar das dificuldades e conflitos, o missionário não pode fechar-se num mundo reduzido. Sintonia com a Igreja Particular, afinidade e afabilidade para com o Pastor diocesano, engajamento nos planos pastorais diocesanos. Cuidar para não ser “livre atirador”, solista. Um missionário nunca está sozinho, deve buscar a comunhão e a participação. A eclesialidade supõe sujeição à caminhada eclesial. Mesmo que eu discorde de alguns pontos, não posso me excluir e buscar caminhos pessoais como criança emburrada.
4. Atitude de realismo: é necessária uma espiritualidade impregnada pela realidade. O idealismo do evangelizador não deve distanciá-lo do cotidiano da comunidade humana e cristã. Ver, julgar, agir. Não se esquecer do primeiro passo: VER. Ter senso crítico, não ser ingênuo, estar bem informado. A santidade missionária parte da vida para buscar na missão o sentido pleno da realização dessa mesma vida, tentando alcançar a libertação integral.
5. Abertura sem fronteiras: O amor de Jesus não tem fronteiras, muros, cercas, áreas privadas. “Quem é minha mãe e quem são meus irmãos”? Ter uma espiritualidade sem fronteiras é considerar-se ponte entre a comunidade cristã e os povos de outras religiões. A missão torna-se uma visita respeitosa aos amigos, sem que se invada a casa alheia… O missionário é uma pessoa do diálogo, o que criará condições para a inculturação do Evangelho.
6. Atitude de provisoriedade: a vocação missionária é vocação de movimento, deslocamento. A dinâmica do provisório exige despojamento das ambições e projetos pessoais. Ninguém é insubstituível (o cemitério está cheio de insubstituíveis…). Saber dar lugar, saber a hora certa de partir para outros campos… “não grudar na peroba”… Não temos aqui morada permanente…

A espiritualidade missionária exige confronto com algumas tentações:
A) A tentação do protagonismo: não querer ser estrela. Evitar aparecer muito. Ser fermento na massa, ser “fogo de monturo”. Ex. Irmãzinhas de Jesus, de Charles de Foucauld. Criticar, sem aceitar as críticas, não saber escutar e colaborar… Lembrar-se que a Igreja é de Cristo. Sou mero instrumento. Evitar personalismo…
B) A tentação do fatalismo: Conformismo, desânimo diante da rotina ou da falta de resultados visíveis. Jesus pode fazer também das crises e dos fracassos ocasiões de crescimento. Vontade de largar tudo, jogar o arado para o lado. Lembrar que um planta e outro colhe… Os resultados não se vêem a curto prazo. Lançar sementes.
C) A tentação do narcisismo: Eu faço e aconteço… Sei que falo bem e transformo-me num sedutor pela palavra e não pelo testemunho. D) A tentação do ativismo: Agir sem motivações de fé e sem impregnar a ação com a contemplação. Passar de um projeto a outro sem uma adequada reflexão e sem um sério discernimento no Espírito. Descuidar da oração. Transformar-se numa “lata vazia” que só faz barulho. Dar “show”. Sem conteúdo, sem sentido, sem conversão, sem reconhecimento das próprias fraquezas.

 

ESPIRITUALIDADE MISSIONÁRIA
É a espiritualidade nata do ser Igreja. A expressão “espiritualidade missionária” aparece, pela primeira vez, no Decreto Conciliar Ad Gentes (1965): “promover a vocação e a espiritualidade missionária, o zelo e a oração pelas missões” (AG 29). A Espiritualidade missionária também é vida segundo o Espírito, que “unifica a Igreja na comunhão e no ministério, dotando-a com vários dons hierárquicos e carismáticos. Vivifica as instituições eclesiásticas como se fosse a alma. Introduz nos corações dos fiéis o mesmo espírito missionário pelo qual era movido Jesus Cristo” (AG 4). Pelo batismo, o Espírito leva os batizados a participar de forma responsável na missão de Jesus. Todo o cristão é chamado a viver a vocação missionária, em nível pessoal e comunitário, na perspectiva da evangelização universal. A raiz da espiritualidade missionária é a incorporação na Igreja missionária que se origina da missão do Filho e da missão do Espírito, segundo a caridade, o “amor fontal” de Deus Pai. A espiritualidade missionária não é algo opcional, que está acima da realidade eclesial. Ela origina-se da natureza, da essência do ser Igreja. É a marca dos seguidores e seguidoras de Jesus que assumem as opções concretas da Igreja na sua caminhada, hoje, e até o final dos tempos. O missionário caracteriza-se pela caridade apostólica de Cristo, que veio “também para congregar na unidade os filhos de Deus dispersos” (Jo 11, 52), do Bom Pastor, que conhece as suas ovelhas, procura-as e oferece sua vida por elas (Jo 10). Quem tem espírito missionário sente o ardor de Cristo pelas almas e ama a Igreja como Cristo a amou. O missionário é impelido pelo zelo das almas, que se inspira na própria caridade de Cristo, feita de atenção, ternura, compaixão, acolhimento, disponibilidade e empenho pelos problemas dos filhos de Deus. É alguém que caminha pelas estradas do povo, que escuta, vê, sente as alegrias e dores, os sonhos e derrotas, abrindo sempre caminhos de esperança. Ser missionário é amar a Igreja. A Igreja que serve o Reino com o anúncio que chama à conversão, fundando comunidades, difundindo os valores evangélicos com seu testemunho e atividade, no diálogo, na promoção humana, no compromisso pela paz e pela justiça, na educação, no cuidado dos doentes, na assistência aos pobres e pequenos, mantendo sempre firme a prioridade das realidades transcendentes e espirituais, premissas da salvação escatológica. Por fim, por sua oração de intercessão (Redemptoris Missio 20). O missionário vive em função do Reino de Deus, sabendo que o seu serviço não é cargo vitalício, nem profissão. Exerce seu serviço de acordo com suas possibilidades e consentimento da comunidade; ele dá tudo de si, com a maior gratuidade e fidelidade, e crê na palavra de Jesus, que diz: “Quando tiverem cumprido tudo o que lhes mandarem fazer, digam: somos empregados inúteis: fizemos o que devíamos fazer” (Lc 17, 10). “Isso que vimos e ouvimos nós agora o anunciamos a vocês, para que vocês estejam em comunhão conosco. E a nossa comunhão é com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo” (1Jo 1, 3).

 

ESPIRITUALIDADE? O QUE É ISTO?
Frei Patrício Sciadini, ocd – 13/08/2003

Uma das palavras mais usadas nestes últimos tempos é espiritualidade, porque nos faz muita falta para o equilíbrio de nossa vida. Dizem os psicólogos que quando se fala muito de uma coisa é porque não a possuímos e, portanto somos carentes do que falamos. Não sei se esta teoria está certa, não é minha especialidade. O que posso dizer é que a espiritualidade não é uma teoria que preenche o coração de ninguém. Para que a espiritualidade se torne algo de pessoal e de amado deve sair do papel e do campo das idéias e se fazer vida. Somente quem vive olhando para o alto, não se deixando escravizar pelas coisas da terra pode lentamente tornar-se uma pessoa espiritual. Devemos evitar o espiritualismo que nos impede de compreender que a ação é o caminho certo de toda forma de espiritualidade. Se um dia você tiver a oportunidade de visitar uma livraria do aeroporto ou rodoviária ou qualquer outra livraria você fica espantado em ver tantos livros que são denominados de espiritualidade, mas que na verdade não passam de pequenas e às vezes insignificantes orientações emocionais e psicológicas que não atingem o verdadeiro sentido da vida. No respeito para todos estes autores que fazem um bem imenso aos que lêem, discordo de tudo isto porque me parece que não pode existir uma autêntica espiritualidade sem uma referência explícita a determinados valores fundamentais como a defesa da vida, da paz, dos direitos humanos. A busca da espiritualidade não pode prejudicar a ninguém, mas deve nos ajudar a ser cada vez mais livres da matéria e senhores dos nossos instintos. Verdadeira espiritualidade é fruto de uma luta corajosa, forte, onde ficamos feridos, arranhados e sangrando, mas não desistimos da luta. Um dos textos que mais me ajudam como aprender a verdadeira e autêntica espiritualidade é a carta de São Paulo aos gálatas. Ele nos recorda a beleza da nossa vocação, deste caminho espiritual que devemos percorrer e que devemos sempre ter presente na vida. “Fostes chamados para a liberdade”. Somente quem busca a autêntica liberdade se aventura no caminho espiritual. A liberdade não é como normalmente se entende dentro da linguagem das pessoas no dia a dia. Livre é quem faz o que quer e como bem entende. Há muitos autores que dizem: “tenho o direito de ser feliz e de buscar a minha felicidade e realização, portanto até que não encontre vou buscando, não importa se isto me faz romper os laços da família, do amor, dos compromissos do matrimônio ou do relacionamento familiar, o que vale é a minha felicidade”. Na verdade nunca seremos felizes se nos deixarmos dominar pelo egoísmo que está em nós. A liberdade é um sonho duro a ser conquistado e que vai exigindo muito de nós. Esta liberdade nos leva à verdadeira espiritualidade do amor. Mais reflito sobre o amor e menos sei, e, no entanto me parece que com os anos que vão chegando o compreendo mais. Mesmo quem sabe por que a memória dos fracassos me faz ver em outra perspectiva o mesmo amor que devo conquistar. Perceber a necessidade do amor para viver uma dimensão de vida que não pode ser “espiritualização” de nada, mas sim somente espiritualidade autêntica e vital. Será o mesmo São Paulo que vai apresentando uma lista interminável de frutos da carne. São 15 nomeados e outros que ele não nomeia. E todos são causas de perturbações que nos afastam do valor fundamental da vida. Há quem acha que viver a feitiçaria ou espiritualismo é espiritualidade, ou quem vive até rancores e domínio dos outros… Pensa que para dominar os demais se necessite de uma forte espiritualidade. Não há dúvida que são visões distorcidas da verdadeira e autêntica espiritualidade. Não podemos confundir a espiritualidade no sentido católico do termo, esta não pode Ter outro alicerce a não ser Cristo Jesus. Existem várias espiritualidades: budista, muçulmana, hinduísta, judaica… são janelas pelas quais as pessoas vêem a vida. Mas nós queremos ver a vida pela janela do Evangelho e do coração de Deus, por isso o único alicerce de toda a espiritualidade é a Palavra de Deus que nos alimenta em cada momento. Paulo diz que os que vivem os frutos da carne não podem entrar no reino de Deus. Não é necessário termos todos os frutos da carne, é suficiente ter um que nos domine, para não termos acesso à mesma vivência do reino. Um fruto influencia toda a nossa vida e nos escraviza. Os frutos do Espírito, que são o sinal do autocontrole e do senhorio de nós mesmos, nos fazem entrar na verdadeira liberdade. Quais são estes frutos do Espírito? Os frutos do Espírito são: caridade, alegria, paz, longanimidade, afabilidade, bondade, fidelidade, mansidão, continência. Contra estes não há Lei (Gl 5, 22-23). Aqueles que vivem estes frutos do espírito não têm mais lei porque são orientados pelo amor e quem ama sabe que jamais poderá fazer o mal nem a si mesmo e nem aos outros. São João da Cruz, na sua visão de liberdade e de plenitude da vida, ensina que quem chega no cimo do monte encontra somente a honra e a glória de Deus, e que para o justo não há lei…O justo tem uma única lei que o orienta, o amor. Este não lhe permite mais ser escravo de nada e de ninguém. O caminho da verdadeira espiritualidade é um processo de libertação interior onde tudo está debaixo do poder da nossa liberdade e que nada mais poderá nos impedir de sermos livres no nosso agir. Na espiritualidade então percebemos que é necessário superar as ideologias mágicas que não realizam nada em nós. Por exemplo, a espiritualidade dos perfumes, das cores, do incenso queimado ou das novenas feitas somente pelo intuito de receber a graça e nada mais. São espiritualidades vazias e sem fundamento. É preciso que o Espírito encontre em nós uma resposta e se faça carne. Deus nos dá um espaço de tempo para viver a nossa espiritualidade e somente neste espaço de vida que somos chamados a realizar o seu projeto de amor. Não há nada de reencarnação e de caminhos de volta para nos purificar e chegar assim “à iluminação”. É aqui e agora que a nossa vida deve se realizar. Não há outras vidas e nem outra existência a não ser a vida eterna que se conquista no dia a dia duro e difícil do nosso carregar a cruz, e na luta sem trégua contra o mal que está dentro e fora de nós. Mas afinal o que é espiritualidade? É um estilo de vida pautado pelo Evangelho que visa a imitar a pessoa de Jesus. Seremos espirituais quando pudermos dizer com sinceridade com São Paulo apóstolo: “já não sou mais eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim”.

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