O respeito à criação e ao ser humano

Iniciando visita a Assis, Papa encontra crianças e doentes
Visita a Assis, sexta-feira, 4 de outubro  de 2013, Jéssica Marçal / Da Redação

Papa destacou necessidade de se ouvir as chagas de Jesus

Papa Francisco iniciou na manhã desta sexta-feira, 4, a visita à cidade de Assis na Itália. É a primeira vez que o Santo Padre vai à cidade do santo que inspirou seu nome de pontificado. A visita acontece no dia em que a Igreja celebra São Francisco de Assis.

A primeira atividade do Papa foi com as crianças portadoras de deficiência e doentes do Instituto Seráfico de Assis. Após ser recebido pelas autoridades, Francisco fez um discurso espontâneo para as crianças, dando por lido o que havia preparado.

Citando o que uma mulher lhe havia falado, que ali eles estavam entre as chagas de Jesus e que estas precisavam ser escutadas, o Papa recordou o episódio em que Jesus caminhava entre os discípulos tristes, e fez com que eles vissem suas chagas e então os discípulos O reconheceram.

“Aqui Jesus está escondido nestes rapazes, nestas crianças, nestas pessoas. No altar adoramos a Carne de Jesus; neles encontramos as chagas de Jesus. Jesus escondido na Eucaristia e Jesus escondido nestas chagas”.

Francisco destacou então a necessidade dessas chagas serem escutadas, talvez não tanto pelos jornais, o que dura um ou dois dias, mas pelos que se dizem cristãos.

“O cristão adora Jesus, o cristão procura Jesus, o cristão sabe reconhecer as chagas de Jesus. E hoje, todos nós, temos a necessidade de dizer: ‘estas chagas precisam ser ouvidas’”.

O Papa destacou então a esperança que é a presença de Jesus na Eucaristia. Ele lembrou que, ao ressuscitar, Cristo não tinha feridas em seu corpo, mas estava belo. “As chagas de Jesus estão aqui e estão no Céu diante do Pai. Nós cuidamos das chagas de Jesus aqui e Ele, do Céu, nos mostra as suas chagas e diz a todos nós: ‘estou te esperando’. Assim seja”.

Após o encontro com as crianças, Francisco fez uma visita privada ao Santuário de São Damião.

 

DISCURSO
Visita pastoral a Assis
Encontro com crianças portadoras de deficiência e doentes do Instituto Seráfico de Assis
Sexta-feira, 4 de outubro de 2013
Boletim da Santa Sé / Tradução: Jéssica Marçal

Nós estamos entre as chagas de Jesus, disse a senhora. Disse também que estas chagas precisam ser ouvidas, ser reconhecidas. E me vem em mente quando o Senhor caminhava com aqueles dois discípulos tristes. O Senhor Jesus, no fim, fez ver as suas chagas e eles O reconheceram. Depois o pão, onde Ele estava ali. O meu irmão Domenico me dizia que aqui se faz a Adoração. Também aquele pão tem necessidade de ser ouvido, porque Jesus está presente e escondido dentro da simplicidade e da suavidade de um pão. E aqui Jesus está escondido estes rapazes, nestas crianças, nestas pessoas. No altar adoramos a Carne de Jesus; neles encontramos as chagas de Jesus. Jesus escondido na Eucaristia e Jesus escondido nestas chagas. Precisam ser escutados! Talvez não tanto nos jornais, como notícias; isso é uma escuta que dura um, dois, três dias, depois vem um outro, um outro… Devem ser ouvidos por aqueles que se dizem cristãos. O cristão adora Jesus, o cristão procura Jesus, o cristão sabe reconhecer as chagas de Jesus. E hoje, todos nós, aqui, temos a necessidade de dizer: “estas chagas precisam ser ouvidas!”. Mas há uma outra coisa que nos dá esperança. Jesus está presente na Eucaristia, aqui é a Carne de Jesus; Jesus está presente entre vocês, é a Carne de Jesus: são as chagas de Jesus nestas pessoas.

Mas é interessante: Jesus, quando ressuscitou estava belíssimo. Não tinha em seu corpo as contusões, as feridas…nada! Era mais belo! Somente quis conservar as chagas e as levou ao Céu. As chagas de Jesus estão aqui e estão no Céu diante do Pai. Nós cuidamos das chagas de Jesus aqui e Ele, do Céu, nos mostra as suas chagas e diz a todos nós: ‘estou te esperando’. Assim seja.

O Senhor abençõe todos vocês. Que o seu amor desça sobre nós, caminhe conosco; que Jesus nos diga que estas chagas são Dele e nos ajude a dar voz a elas, para que nós cristãos as escutemos.

 

Em Missa, Papa convida ao respeito à criação e ao ser humano
Visita a Assis, sexta-feira, 4 de outubro  de 2013, Kelen Galvan / Da Redação

Papa Francisco destaca três aspectos que a vida de São Francisco ensina:  a relação vital com Cristo, que quem O segue recebe a verdadeira paz e o respeito pela criação

Cerca de 50 mil pessoas participaram, nesta sexta-feira, 4, da Santa Missa, presidida pelo Papa Francisco na Praça de São Francisco, em Assis, na Itália. O Pontífice visita a cidade do santo, cujo nome escolheu para seu Pontificado, neste dia em que a Igreja Católica celebra sua memória.

O Santo Padre agradeceu a todos os que foram a Assis para rezar com ele, e afirmou que, como tantos peregrinos, foi à cidade para “bendizer ao Pai por tudo o que quis revelar a esses pequeninos”.

O Papa recordou que Francisco, filho de um conhecido rico da cidade, após ter um encontro com o Senhor, despejou-se de uma “vida cômoda”, e escolheu viver como verdadeiro filho do Pai que está no Céu. “Essa história vivida por São Francisco, constitui uma maneira radical de seguir a Cristo”, ressaltou.

O Pontífice destacou três aspectos que a vida de São Francisco nos ensina: a relação vital com Cristo, que quem O segue recebe a verdadeira paz e o respeito pela criação.

O primeiro aspecto diz da realidade fundamental de que “ser cristão é uma relação vital com Cristo, é assimilar-se com Ele”. E esse caminho de Francisco começa “do olhar a Cristo”, explica o Santo Padre.

“Quem se deixa olhar por Jesus crucificado torna-se uma nova criatura… e é aqui que tudo começa, a experiência da graça que transforma: de sermos amados sem mérito algum”, afirmou.

O Evangelho de hoje (cf. Mt 11, 25-30) nos fala: “Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei”, e esta é a segunda coisa que Francisco dá testemunho, afirmou o Papa. “Quem segue a Cristo recebe a verdadeira paz, a paz que só Ele nos pode dar”.

O Pontífice explicou que a paz que Francisco acolhe e transmite não é uma paz “piegas”, nem uma espécie de energia panteísta com as energias do cosmos. “Isso não é franciscano”, afirmou.

Pelo contrário, “a paz de São Francisco é a paz de Cristo, que encontra quem toma sobre si o Seu jugo, isto é, o seu mandamento: ‘amai-vos uns aos outros como eu vos amei’. E este jugo não se pode levar com presunção e orgulho, mas com mansidão e humildade de coração”, explicou o Santo Padre.

Por fim, o terceiro aspecto que nos ensina São Francisco é o amor por toda a criação, por sua harmonia. “O Santo de Assis dá testemunho de respeito por tudo aquilo que Deus criou… onde o homem deve estar ao centro da criação”.

Nesse momento, o Papa pediu novamente para que cessem os conflitos armados e que sejam ouvidos “os gritos dos que sofrem”, na Terra Santa, no Oriente Médio e em todo o mundo.

“Respeitemos a criação.. não sejamos instrumentos de destruição, respeitemos todo o ser humano… cessem os conflitos armados… e que o ódio dê lugar ao amor, a ofensa à união”, afirmou.

No término da Celebração, o Pontífice fez a tradicional oferta do óleo para a lâmpada votiva a São Francisco.

Em seguida, dirigiu-se a Praça Donegiani em Santa Maria dos Anjos, onde irá almoçar com os pobres assistidos pela Caritas. Um pouco mais tarde, o Santo Padre fará uma visita privada à Ermida do Cárcere e uma oração na Cela de São Francisco.

 

HOMILIA
Visita Pastoral a Assis
Missa na Praça São Francisco de Assis
Sexta-feira, 4 de outubro de 2013
Boletim da Santa Sé / Tradução: Jéssica Marçal

“Eu te bendigo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondestes estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequenos” (Mt 11, 25).

Paz e bem a todos! Com esta saudação franciscana agradeço-vos por terem vindo aqui, nesta praça, cheia de história e de fé, para rezarem juntos.

Hoje também eu, como tantos peregrinos, vim aqui para bendizer o Pai por tudo aquilo que quis revelar a cada um destes “pequenos” de que fala o Evangelho: Francisco, filho de um rico comerciante de Assis. O encontro com Jesus o levou a despojar-se de uma vida confortável e despreocupada para casar-se com a “Mãe Pobreza” e viver como verdadeiro filho do Pai que está nos céus. Esta escolha, por parte de São Francisco, representava um modo radical de imitar Cristo, de revestir-se Daquele que, rico que era, fez-se pobre para enriquecer-nos por meio da sua pobreza (cfr Cor 8, 9). Em toda a vida de Francisco, o amor pelos pobres e a imitação de Cristo pobre são dois elementos unidos de modo indissociável, as duas faces de uma mesma moeda.

O que testemunha São Francisco a nós, hoje? O que nos diz, não com as palavras – isto é fácil – mas com a vida?

1. A primeira coisa que nos diz, a realidade fundamental que nos testemunha é esta: ser cristãos é uma relação vital com a Pessoa de Jesus, é revestir-se Dele, é assimilação a Ele.

De onde parte o caminho de Francisco rumo a Cristo? Parte do olhar de Jesus na cruz. Deixar-se olhar por Ele no momento em que doa a vida por nós e nos atrai para Ele. Francisco fez esta experiência de modo particular na pequena Igreja de São Damião, rezando diante do crucifixo, que também eu pude venerar hoje. Naquele crucifixo, Jesus não aparece morto, mas vivo! O sangue escorre das feridas das mãos, dos pés e dos lados, mas aquele sangue exprime vida. Jesus não tem os olhos fechados, mas abertos, grandes: um olhar que fala ao coração. E o crucifixo não nos fala de derrota, de fracasso; paradoxalmente nos fala de uma morte que é vida, que gera vida, porque fala de amor, porque é Amor de Deus encarnado, e o Amor não morre, antes, vence o mal e a morte. Quem se deixa olhar por Jesus crucificado é re-criado, transforma-se uma “nova criatura”. Daqui parte tudo: é a experiência da Graça que transforma, o ser amado sem mérito, mesmo sendo pecadores. Por isto Francisco pode dizer, como São Paulo: “Quanto a mim, não pretendo, jamais, gloriar-me, a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Gal 6,14).

Nós nos dirigimos a ti, Francisco, e te pedimos: ensina-nos a permanecer diante do Crucifixo, a deixar-nos guiar por Ele, a deixar-nos perdoar, recriar pelo seu amor.

2. No Evangelho, escutamos estas palavras: “Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei. Tomai meu jugo sobre vós e recebei minha doutrina, porque eu sou manso e humilde de coração” (Mt 11, 28-29).

Esta é a segunda coisa que Francisco nos testemunha: quem segue Jesus, recebe a verdadeira paz, aquela que só Ele, e não o mundo, pode nos dar. São Francisco é associado por muitos à paz, e é justo, mas poucos seguem em profundidade. Qual é a paz que Francisco acolheu e viveu e nos transmite? Aquela de Cristo, passada através do amor maior, aquela da Cruz. É a paz que Jesus Ressuscitado deu aos discípulos quando apareceu em meio a eles (cfr Jo 20, 19.20).

A paz franciscana não é um sentimento “piegas”. Por favor: este São Francisco não existe! E nem é uma espécie de harmonia panteísta com as energias do cosmo… Também isto não é franciscano! Também isto não é franciscano, mas é uma ideia que alguns construíram! A paz de São Francisco é aquela de Cristo, e a encontra quem “toma sobre si o seu jugo”, isso é, o seu mandamento: Amai-vos uns aos outros como eu vos amei (cfr Gv 13,34; 15,12).  E este jugo não se pode levar com arrogância, com presunção, com soberba, mas somente se pode levar com mansidão e humildade de coração.

Dirigimo-nos a ti, Francisco, e te pedimos: ensina-nos a sermos “instrumentos da paz”, da paz que tem a sua origem em Deus, a paz que nos trouxe o Senhor Jesus.

3. Francisco inicia o Cântico assim: “Altíssimo, onipotente, bom Senhor… Louvado sejas, com todas as criaturas” (FF, 1820). O amor por toda a criação, pela sua harmonia! O Santo de Assis testemunha o respeito por tudo aquilo que Deus criou e como Ele o criou, sem experimentar sobre a criação para destruí-la; ajudá-la a crescer, a ser mais bela e mais similar àquilo que Deus criou. E, sobretudo, São Francisco testemunha o respeito por tudo, testemunha que o homem é chamado a proteger o homem, que o homem esteja no centro da criação, no lugar onde Deus – o Criador – o quis. Não instrumento dos ídolos que nós criamos! A harmonia e a paz! Francisco foi homem de harmonia, homem de paz. Desta Cidade da Paz, repito com a força e a mansidão do amor: respeitemos a criação, não sejamos instrumentos de destruição! Respeitemos cada ser humano: cessem os conflitos armados que ensanguentam a terra, silenciem-se as armas e então o ódio dê lugar ao amor, a ofensa ao perdão e a discórdia à união. Ouçamos o grito daqueles que choram, sofrem e morrem por causa da violência, do terrorismo ou da guerra, na Terra Santa, tão amada por São Francisco, na Síria, no Oriente Médio, em todo o mundo.

Dirigimo-nos a ti, Francisco, e te pedimos: alcançai-nos de Deus o dom que neste nosso mundo nos seja harmonia, paz e respeito pela Criação!

Não posso esquecer, enfim, que hoje a Itália celebra São Francisco como seu Patrono. Eu dou as felicitações a todos os italianos, na pessoa do Chefe do governo, aqui presente. Exprime-o também o tradicional gesto da oferta do óleo para a lâmpada votiva, que este ano é da Região da Umbria. Rezemos pela nação italiana, para que cada um trabalhe sempre pelo bem comum, olhando para aquilo que une mais do que para aquilo que divide.

Faço minha a oração de São Francisco por Assis, pela Itália, pelo mundo: “Peço-te então, ó Senhor Jesus Cristo, pai das misericórdias, de não querer olhar à nossa ingratidão, mas de recordar-te sempre da superabundante piedade que [nesta cidade] mostraste, a fim de que seja sempre o lugar e a casa daqueles que verdadeiramente te conhecem e glorificam o teu nome bendito e gloriosíssimo nos séculos dos séculos. Amém” (Espelho de perfeição, 124: FF, 1824).

 

Em encontro com pobres, Papa pede despojamento do espírito mundano
Visita a Assis, sexta-feira, 4 de outubro  de 2013, Jéssica Marçal / Da Redação

Francisco falou do perigo de ceder à mundanidade, que mata a alma e a própria Igreja

Dando continuidade à sua visita a Assis, na Itália, nesta sexta-feira, 4, Papa Francisco encontrou-se com os pobres assistidos pela Cáritas. Ele falou com os presentes espontaneamente, dando como lido o discurso previamente preparado.

Francisco destacou que todos formam a Igreja, que todos devem andar pelos caminhos de Jesus, que percorreu uma estrada de despojamento, de si mesmo. Ele ressaltou que Jesus tornou-se servo, foi humilhado até a cruz, e este é o único caminho para quem deseja ser um verdadeiro cristão.

“Mas não podemos fazer um cristianismo mais humano – dizem – sem cruz, sem Jesus, sem despojamento? Deste modo, nos tornaremos cristãos de doceria, como belas tortas, como belos doces! Belíssimos, mas não cristãos de verdade!”.

O Santo Padre explicou que a Igreja deve despojar-se de um perigo grave que é o da mundanidade. Ele disse que o cristão não pode conviver com o espírito do mundo, que leva à maldade, à prepotência, ao orgulho. “Isto é um ídolo, não é Deus. É um ídolo! E a idolatria é o pecado mais forte!”.

O naufrágio ocorrido ontem em Lampedusa foi lembrado pelo Papa quando ele citou que tantos dos presentes ali no encontro estavam despojados neste “mundo selvagem”, que não dá trabalho, que não ajuda, que não se importa se crianças morrem de fome.

“O espírito do mundo faz estas coisas. É ridículo que um cristão – um cristão verdadeiro – que um padre, que uma irmã, que um bispo, que um cardeal, que um Papa, queira andar no caminho da mundanidade, que é um comportamento homicida. A mundanidade espiritual mata! Mata a alma! Mata as pessoas! Mata a Igreja!”.

Ele recordou, enfim, o despojamento de São Francisco, que o fez quando ainda era jovem, ainda não tinha forças suficientes. Foi Deus quem deu a São Francisco essa força, para recordar os ensinamentos de Jesus sobre esse espírito do mundo.

“Que o Senhor nos dê a coragem de nos despojarmos, mas não de 20 euros, despojar-nos do espírito do mundo, que é a lepra, o câncer da sociedade! E o câncer da Revelação de Deus!

Ao final do encontro, o Papa agradeceu a todos pelo acolhimento e pediu que rezassem por ele. Depois, ele seguiu para uma visita privada à Igreja de Santa Maria Maior e depois à Basílica de São Francisco, onde visitou o túmulo do santo. Mais tarde, ele celebrou a Santa Missa na Praça São Francisco de Assis.

 

DISCURSO
Visita Pastoral a Assis
Encontro com pobres assistidos pela Cáritas
Sexta-feira, 4 de outubro de 2013
Boletim da Santa Se
Tradução: Thaysi Santos

Disse-me meu irmão bispo que é a primeira vez em 800 anos que um Papa entra aqui. Nestes dias, nos jornais, na mídia, se fazia muita fantasia. “O Papa vai despojar a Igreja, lá”. “De que despojará a Igreja?”. ” Se despojará das vestes dos bispos, cardeais, se despojará de si mesmo.” Esta é uma boa oportunidade para fazer um convite à Igreja a se despojar. Mas a Igreja somos todos nós! Todos! Desde o primeiro batizado, todos nós somos Igreja e todos nós temos que andar pela estrada de Jesus, que percorreu um caminho de despojamento, Ele mesmo. E se tornou servo, servidor, quis ser humilhado até a cruz . E se queremos ser cristãos , não há um outro caminho. Mas será que não podemos fazer um cristianismo um pouco mais humano – dizem – sem a cruz, sem Jesus, sem despojamento? Desta forma, nos tornamos cristãos de pastelaria, como as belas tortas , como os belos doces! Belíssimo, mas não realmente cristãos! Alguém vai dizer : “Mas de que deve se despojar a Igreja? “. Deve se despojar hoje de um perigo gravíssimo que ameaça a todos na Igreja, todos: o perigo do mundanismo. O cristão não pode conviver com o espírito do mundo. O mundanismo que leva à vaidade, arrogância, ao orgulho. E este é um ídolo, não é Deus, é um ídolo! E a idolatria é o pecado mais forte!

Quando nos meios de comunicação se fala da Igreja, acredita-se que a Igreja seja os padres, freiras, bispos, cardeais e o Papa, mas a Igreja somos todos nós, como eu disse. E todos nós devemos nos despojar deste mundanismo: o espírito contrário ao espírito das Bem-aventuranças, o espírito contrário ao Espírito de Jesus. O mundanismo nos faz mal. É tão triste ver um cristão mundano, seguro – segundo ele – da segurança que dá a fé e da segurança que dá o mundo. Não se pode trabalhar nas duas partes. A Igreja – todos nós – deve se despojar do mundanismo que leva à vaidade, ao orgulho, que é idolatria.

O próprio Jesus nos dizia: “Não se pode servir a dois senhores, ou se serve a Deus ou ao dinheiro” (cf. Mt 6, 24) . No dinheiro estava todo este espírito mundano, vaidade, orgulho, este caminho… não podemos… é triste apagar com uma mão aquilo que escrevemos com a outra. O Evangelho é o Evangelho! Deus é um só! E Jesus se tornou um servo para nós e o espírito do mundo não cabe aqui. Hoje eu estou aqui com você. Quantos de vocês foram retirados deste mundo selvagem, que não oferece trabalho, que não ajuda, que não se importa se há crianças morrendo de fome no mundo, se muitas famílias não têm o que comer, não tem a dignidade de trazer o pão para casa, não se importa se tantas pessoas hoje precisam fugir da escravidão, da fome e fugir para buscar a liberdade. Com muita dor, tantas vezes, vemos que elas encontram a morte, como aconteceu ontem em Lampedusa: hoje é um dia de lágrimas! Quantas coisas hoje são provocadas por esse espírito do mundo. É ridículo que um cristão – um verdadeiro cristão – um padre, uma freira, um bispo, um cardeal, um papa, queira ir pela via deste mundanismo, que é uma atitude assassina. Mundanismo espiritual mata! Ele mata a alma! Mata a pessoa! Mata a Igreja !

Quando Francisco, aqui, fez aquele gesto de se despir, era um jovem menino, não tinha forças para isso. Foi o poder de Deus que o levou a fazer isso, o poder de Deus que quis nos lembrar do que Jesus disse sobre o espírito do mundo, aquilo que Jesus orou ao Pai, para que o Pai nos salvasse do espírito do mundo.

Hoje, aqui, peçamos essa graça a todos os cristãos. Que o Senhor conceda a nós a coragem de se despojar, mas não de 20 liras, mas do espírito do mundo, que é a lepra, o câncer da sociedade! É o câncer da revelação de Deus! O espírito do mundo é o inimigo de Jesus! Peço ao Senhor que a todos nós, nos dê a graça do despojamento. Obrigado !

Após a reunião, o Papa pronunciou as seguintes palavras :

Muito obrigado pelo acolhimento. Orem por mim, que eu preciso! Todos! Obrigado !

O discurso acima foi feito espontaneamente pelo Papa Francisco. Abaixo, segue o discurso que estava previamente preparado:

Queridos irmãos e irmãs,

Obrigado pela acolhida! Este lugar é um lugar especial e por isso eu quis fazer uma parada aqui, ainda que o dia fosse muito cheio. Aqui Francisco se despojou de tudo na frente de seu pai, o bispo, e o povo de Assis. Foi um gesto profético e também um ato de oração, um ato de amor e confiança no Pai, que está nos céus.

Com esse gesto Francisco fez sua escolha: a escolha de ser pobre. Não é uma escolha sociológica, ideológica, é a escolha de ser como Jesus, imitá-lo, segui-lo até o fim. Jesus é Deus, que se despoja de sua glória. Lemos em São Paulo: Cristo Jesus, que era Deus, despojou-se de si mesmo, esvaziou-se e se tornou como nós e esse “rebaixar” chegou até a morte de cruz (cf. Fl 2,6-8 ). Jesus é Deus, mas Ele nasceu nu, foi colocado em uma manjedoura e morreu nu e crucificado.

Francisco se despojou de tudo em sua vida mundana, de si mesmo, para seguir o seu Senhor, Jesus, para ser como Ele. O Bispo Guido, vendo seu gesto, imediatamente se levantou, abraçou Francisco e o cobriu com seu manto, e foi sua ajuda e auxílio (cf. Vita prima, FF, 344).

O despojamento de São Francisco nos diz exatamente o que o Evangelho nos ensina: seguir Jesus significa colocá-lo em primeiro lugar, se despojar das muitas coisas que temos e que sufocam o nosso coração, renunciar a nós mesmos, tomar a cruz e carregá-la com Jesus. Despir do nosso orgulho e refutar o desejo de ter, do dinheiro, que é um ídolo que aprisiona.

Todos nós somos chamados a ser pobres, despojarmos de nós mesmos, e para isso devemos aprender a estar com os pobres, compartilhar com aqueles que não tem o necessário, tocar a carne de Cristo! O cristão não é aquele que enche a boca com os pobres, não! É aquele que o encontra, que o olha nos olhos, que o toca. Estou aqui não para “fazer notícia”, mas para indicar que este é o caminho cristão, o caminho que percorreu São Francisco. São Boaventura , falando do despojamento de São Francisco, escreve: “Assim, pois, o servo do sumo Rei ficou nu, para que seguisse o Senhor nu e crucificado, objeto do seu amor.” E acrescenta que, assim, Francisco se salvou do “naufrágio do mundo” (FF 1043 ).

Mas gostaria, como pastor, de me perguntar: de que deve despir-se a Igreja ?

Despir-se de todo mundanismo espiritual, que é uma tentação para todos; livrar-se de toda ação que não seja para Deus, de Deus, o medo de abrir a porta e ir ao encontro de todos, especialmente dos mais pobres, dos necessitados, distantes, sem esperar, certamente, se perderem no naufrágio do mundo, mas levar com coragem a luz de Cristo, a luz do Evangelho, mesmo no escuro, onde não se vê e isso pode levar ao tropeço, despojar da aparente tranquilidade que dão as estruturas, certamente necessárias e importantes, mas que não devem nunca ofuscar a única força real que carrega em si: a de Deus, Ele é a nossa força! Despir-se daquilo que não é essencial, porque a referência é Cristo, a Igreja é de Cristo! Muitos passos, especialmente nessa década, têm sido dados. Continuamos nesta estrada que é a de Cristo, a dos Santos.

Para todos, mesmo para a nossa sociedade que dá sinais de cansaço, se queremos nos salvar do naufrágio, é necessário seguir o caminho da pobreza, que não é a miséria – esta deve-se combater – mas é saber partilhar, ser mais solidário com os necessitados, confiar mais em Deus e menos na nossa força humana. Monsenhor Sorrentino lembrou o trabalho de solidariedade do Bispo Nicolini, que ajudou centenas de judeus, escondendo-os em conventos, e o centro de seleção secreta era aqui, no bispado. Também isso é se despojar, algo que começa sempre do amor, da misericórdia de Deus !

Neste lugar que nos questiona, quero rezar para que todos os cristãos, a Igreja, cada homem e mulher de boa vontade, saibam se despojar do que não é essencial para ir ao encontro daquele que é pobre e pede para ser amado. Obrigado a todos!

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