XXVII Domingo do Tempo Comum – Ano A

Por Mons. Inácio José Schuster

Neste 27° Domingo do Tempo Comum, Mateus nos apresenta uma parábola que, na verdade, pende mais para o gênero literário da alegoria. Jesus narra, à oposição Judaica, o seguinte: “certo senhor possuía uma vinha. E nesta vinha trabalhavam operários. Depois de algum tempo de serviço, enviou emissários para que lhe trouxessem os produtos da própria vinha. Os vinhateiros, no entanto, os trataram mal. Bateram em um, insultaram um segundo e cobriram de feridas um terceiro. Inverossimilmente na história – mas não na parábola, na alegoria – o patrão, depois de assim ser tratado, lhes envia o próprio filho, dizendo consigo mesmo: “ao menos meu filho tratarão com respeito”. Mas não foi isso que fizeram. “Eis o herdeiro, vamos matá-lo e tomaremos posse da vinha.” Arrastaram-no para fora da cidade e o assassinaram. A quem se dirige esta parábola ou alegoria? Que quer ela dizer? Em pouquíssimas palavras, ela traz toda a história sagrada de Israel. Estes emissários são os Profetas do Antigo Testamento. Todos, já na tradição Judaica, perseguidos, desde Elias, perseguido por Acab, e sobretudo Jezabel, até João Batista, perseguido e executado por Herodes Antipas. O Filho é Jesus Cristo. Mas que aconteceu com o Filho? Ele teve sorte pior que os emissários anteriores. Foi arrastado para fora da cidade e sumariamente executado. Agora o final: que fará este senhor da vinha? “A pedra que os construtores rejeitaram, tornou-se a pedra angular.” E vem aqui citado um salmo que se aplica bem a Jesus Cristo e ao que fizeram com Jesus. Que fizeram os construtores de Israel, as autoridades religiosas com Jesus? Trataram Jesus como se fosse uma pedra de nenhum valor, uma pedra que merecesse simplesmente a lata do lixo, pois lançaram Cristo no lixo. E Deus foi à lata do lixo, assumiu aquela pedra ali jogada e A tornou a Pedra principal de um edifício novo, espiritual, que é a Igreja. E por isto mesmo, São Paulo, escrevendo aos Coríntios, dirá mais tarde: “existe um fundamento na Igreja, e ninguém coloque outro fundamento, a não ser esta Pedra inicial que foi colocada, e que é Cristo, Jesus”. Sobre esta Pedra nós estamos construindo com nossa vida, e na história, o edifício da Igreja. Na verdade, não deixa de ser também uma lição da alegoria. A Igreja vem, agora, tomar o lugar dos primeiros vinhateiros, daqueles que tinham tudo, mas se recusaram, na última hora, diante de Deus, a comportarem-se de maneira honesta como Deus deles esperava. O texto serve de reflexão, sobretudo, a nós que o substituímos. E podemos aplicar a nós também o salmo atribuído a Jesus: “a Pedra que os construtores rejeitaram, tornou-se Pedra escolhida por nós”. Há muita gente que os homens rejeitaram e rejeitam neste mundo, e Deus busca para fazer com ele, ou através dele, uma obra preciosa. Isto porque Deus é diferente daquilo que Dele imaginamos, e Deus prefere realizar coisas grandes, com pessoas humildes e simples.

 

27º Domingo do Tempo Comum
Mt 21, 33-43: “Por fim, enviou-lhes o próprio filho…”

33Ouvi outra parábola: havia um pai de família que plantou uma vinha. Cercou-a com uma sebe, cavou um lagar e edificou uma torre. E, tendo-a arrendado a lavradores, deixou o país. 34Vindo o tempo da colheita, enviou seus servos aos lavradores para recolher o produto de sua vinha. 35Mas os lavradores agarraram os servos, feriram um, mataram outro e apedrejaram o terceiro. 36Enviou outros servos em maior número que os primeiros, e fizeram-lhes o mesmo. 37Enfim, enviou seu próprio filho, dizendo: Hão de respeitar meu filho. 38Os lavradores, porém, vendo o filho, disseram uns aos outros: Eis o herdeiro! Matemo-lo e teremos a sua herança! 39Lançaram-lhe as mãos, conduziram-no para fora da vinha e o assassinaram. 40Pois bem: quando voltar o senhor da vinha, que fará ele àqueles lavradores? 41Responderam-lhe: Mandará matar sem piedade aqueles miseráveis e arrendará sua vinha a outros lavradores que lhe pagarão o produto em seu tempo. 42Jesus acrescentou: Nunca lestes nas Escrituras: A pedra rejeitada pelos construtores tornou-se a pedra angular; isto é obra do Senhor, e é admirável aos nossos olhos (Sl 117,22)? 43Por isso vos digo: ser-vos-á tirado o Reino de Deus, e será dado a um povo que produzirá os frutos dele.

Esta parábola, chamada de “Parábola dos vinhateiros homicidas”, vem completar a leitura do Evangelho de domingo passado, onde Jesus nos apresentou a parábola dos dois filhos. No Evangelho anterior nos é mostrado pelo Evangelista, um povo de Israel incorrigível, ou seja, que não quer ouvir Jesus. Já, no Evangelho de hoje, o Evangelista ao narrar a parábola, nos mostra o castigo e as conseqüências daqueles que não querem ouvir o Mestre. Jesus ao proferir a parábola compara Israel com uma vinha dotada de: cerca, lagar e torre de vigilância. Deus coloca na vinha lavradores e não acerta preço com eles, deixa-os livres. E, na parábola os lavradores são os colonos; o dono da vinha é Deus e a vinha é Israel. Os lavradores a quem Deus entregou o cuidado da vinha representavam os sacerdotes, escribas e anciãos, a quem Deus entregou o cuidado do povo de Israel. Como se fosse hoje a nossa Igreja, nossa Paróquia, nosso Movimento, Pastoral, Associação a quem Deus entrega o cuidado da nossa pequena vinha. E, como tomamos conta? Vemos também, na parábola, a ausência do dono da vinha, que dá a entender a confiança deste nos lavradores, que deveriam agir com responsabilidade. Da mesma forma, Deus nos faz uma proposta, como agimos depois com a nossa resposta. Com gratidão? Com dedicação? Com falta de responsabilidade? Na parábola o dono da vinha envia os servos para colher o produto da vinha, mas uns foram feridos, outros mortos e ainda outros apedrejados. O dono encaminha uma segunda leva de servos que sofre as mesmas conseqüências. Da mesma forma, ao longo da História da Salvação, Deus enviou vários Profetas, que também sofreram nas mãos dos sacerdotes e reis de Israel. Finalmente o dono da vinha envia o seu filho, pensando que o respeitariam. Conforme, na Plenitude dos Tempos, onde Deus envia o Seu Filho. Os lavradores agem com perversidade e matam o filho herdeiro, para ficarem com a herança. Enquanto, os chefes da sinagoga esperam ficar como donos indiscutíveis de Israel ao matarem Jesus Cristo (cf. Mt 12,14; 26,4), a ambição os deixa cegos. Não raro, o ser humano por causa de sua ambição, vive em um mundo secularizado, onde Deus é esquecido, abandonado, basta verificarmos os noticiários, onde a cada dia o Filho de Deus é assassinado. Na parábola, Jesus Cristo profetiza o castigo que acontecerá aos lavradores, dizendo que serão mortos e que a vinha será arrendada a outros lavradores, que a farão produzir. E, cita uma profecia de máxima importância, que será repetida por São Pedro diante do sinédrio (cf. At 4,11; 1Pd 2,4). A pedra é Jesus Cristo, mas os arquitetos de Israel, aqueles que constroem e governam o povo, não quiseram usá-la na construção. Por esta infidelidade de Israel, o Reino de Deus será transferido aos gentios, que saberão dar a Deus os frutos que Ele espera na vinha (cf. Mt 3,8-10). Então, precisamos estar assentados sobre esta pedra para estar solidamente edificado. Precisamos construir nossa vida com fidelidade sobre Cristo. Esta experiência nos enche de esperança e de segurança: pois, mesmo que nossa vida esteja cheia de dificuldades, mas se construímos a nossa vida sem rejeitar a “pedra angular”, que é Jesus Cristo, nossa vida não será abalada e nada devemos temer. Bendito seja Deus para sempre!

 

CRISTO PRECISA SER A BASE DE TUDO NA VIDA DO AUTÊNTICO CRISTÃO
Padre Bantu Mendonça

No Evangelho de hoje, Jesus conta a parábola dos trabalhadores maus. Esta história contada por Jesus retrata a incredulidade do povo de Israel – numa primeira fase – e, na segunda, de cada um de nós quando, deixando-nos orientar pelo orgulho e pela ganância, nos apoderamos dos bens que pertencem a Deus e nos rebelamos ante o convite à partilha. Os enviados por Deus são os profetas que exortaram a Israel. Mas esses não só não foram ouvidos como também foram mortos. Um exemplo disso é o profeta Isaías, que foi serrado vivo. Não olhando pela grande perda do profeta, Deus misericordiosamente envia o Seu próprio Filho, Jesus. Porém, Ele barbaramente também foi crucificado e morto, assim como o foram os profetas que o antecederam. Continuando com a parábola, Jesus pergunta: “E agora, quando o dono da plantação voltar, o que é que ele vai fazer com aqueles lavradores?” O povo responde, dizendo: “Com certeza ele vai matar aqueles lavradores maus e vai arrendar a plantação a outros. E estes lhe darão a parte da colheita no tempo certo”. Jesus então conclui a parábola, dizendo: “Vocês não leram o que as Sagradas Escrituras dizem? A pedra que os construtores rejeitaram veio a ser a mais importante de todas. Isso foi feito pelo Senhor e é uma coisa maravilhosa!” Falando da “pedra” Jesus quer que os judeus se recordem do grande acontecimento – quando da construção do Templo de Jerusalém. Assim, segundo se conta que na construção do famoso Templo de Jerusalém, os pedreiros haviam rejeitado uma enorme pedra julgando que não servia para nada por causa do seu tamanho, peso e forma. Então, os pedreiros colocaram uma pedra aqui, outra ali, até chegar à esquina. Ao chegar ao canto, notaram que faltava uma pedra adequada para amarrar a fundação, para dar sustentação à obra. Depois de muito procurar em vão, resolveram experimentar aquela pedra que havia sido rejeitada. E, para a surpresa de todos, essa pedra não só se encaixou perfeitamente naquele lugar, como ainda passou a ser a principal pedra de toda aquela construção, dando sustentação à toda obra. Essa pedra – mais tarde numa visão profética, – passou a simbolizar a obra redentora de Cristo. Jesus, como aquela pedra, foi rejeitado pelos homens, morto e sepultado. Mas, depois da ressurreição, Ele se tornou o principal instrumento de Deus para salvar a humanidade. Era, pois, a Jesus que o salmista se referia ao dizer: “A pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra angular”. (Salmo 118,22) Qual foi a razão última pela qual os dirigentes de Israel não entraram no novo Reino como povo escolhido? Diríamos que a razão imediata era o seu interesse material na religião que a transformava numa fonte de rendas e, portanto, numa visão espúria da espiritualidade religiosa. Em segundo lugar, o orgulho dos dirigentes de Israel não permitia a alguém interpretar a Lei de modo diferente do deles. Segundo sua interpretação os pobres estavam longe de Deus, considerando a pobreza como uma espécie de rejeição e castigo divinos, como também era interpretada a doença. “Quem pecou, este ou os pais para nascer cego?”, perguntarão os discípulos (Jo 9,2). Do mesmo modo a pobreza era considerada como o pior dos castigos divinos e a riqueza como o melhor dos benefícios. Nós vemos no Evangelho uma clara alusão a esta cosmovisão, quando, após Jesus declarar que um rico dificilmente entraria no Reino dos Céus, a pergunta dos discípulos demonstrava um desânimo total: “Então quem poderá se salvar?” (Mt 19,25). A doutrina de Jesus devia escandalizar os legistas e peritos da Lei quando, em suas Bem-aventuranças, declara o Reino como a herança dos pobres. Com respeito à razão última, é Paulo que o explica na sua Epístola aos Romanos: “Tanto judeus como gentios se tornaram pecadores”. Na frase de Paulo todos se encontram sob o império do pecado (Rom 9,13). Mas Deus – gratuitamente pela fé em Cristo – salva ao homem porque, se a Lei veio para que proliferasse a falta, porém, “onde proliferou o pecado superabundou a Graça” (Rom 5,21). E, logicamente, a Graça foi maior ao admitir os pagãos ao Reino.

 

Novamente neste domingo, o texto evangélico contém uma parábola de Jesus. Nela, Jesus compara a história da salvação aos trabalhos realizados numa vinha pelo seu proprietário. Deus cuida da humanidade até ao ponto de enviar o seu próprio Filho ao mundo. Acolher ou não esta intervenção suprema de Deus é a questão colocada por Jesus aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo. São Paulo relata-nos alguns aspectos fundamentais para quem segue Jesus Cristo que morreu para nos aproximar cada vez mais de Deus. Deus atua na história. A imagem da vinha continua a ser utilizada no evangelho. Como nos domingos anteriores, Jesus, a partir do exemplo de uma vinha e da relação do seu proprietário com os seus trabalhadores, alerta os judeus sobre a sua conduta incorreta. A história da salvação acontece por etapas, é progressiva, tendo como cume Jesus Cristo. Tantas vezes, a humanidade nem sempre acolheu algumas intervenções de Deus na história, rejeitando, por vezes até o próprio Filho que veio à vinha (ao mundo) para lhes comunicar o amor de seu Pai. O ser humano colocou-se muitas vezes longe de Deus, mas não prescindindo dos dons que Dele procedem. Recordemos que o primeiro pecado que a Bíblia narra no livro do Gênesis, é o desejo de Adão e Eva se tornarem deuses. Neste domingo, cada um de nós é convidado a rever a sua vida e a refletir no seguinte: que lugar ocupa Deus na minha vida? Que importância lhe dou? Como testemunho e vivo a fé em Jesus Cristo? Tendo em conta o evangelho deste dia, sugerimos que se faça a proclamação da Oração Eucarística IV que é um resumo de toda a história da salvação. Como é a nossa relação com Deus? Ao fazer a revisão da nossa vida, é importante ter em conta dois aspectos para ver qual é a nossa resposta às intervenções do dono da vinha na nossa história: como é a nossa relação com Deus e como é a nossa relação com os outros e conosco próprios? São Paulo auxilia-nos através da segunda leitura. Em primeiro lugar, convida-nos a colocar-nos diante de Deus com “as nossas orações, súplicas e ações de graça”. Em segundo lugar, apresenta-nos uma série de recomendações fundamentais para a nossa vida cristã: uma atitude positiva, aberta, ou seja, “tudo o que verdadeiro e nobre, justo e puro, amável e de boa reputação, virtude e digno de louvor é o que deveis ter no pensamento”. Tudo isto dá-nos paz: “a paz de Deus, que está acima de toda a inteligência, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos… E o Deus da paz estará convosco”. Como nos colocar diante de Deus? Através da Eucaristia, presença de Deus por excelência. Em primeiro lugar, ao celebrar a Eucaristia, tornamos presente a obra da redenção. Na missa, atualiza-se a salvação que Deus nos concedeu através da morte de seu Filho na cruz. A oração sobre as oferendas recorda-nos: “por estes sagrados mistérios que celebramos, confirmai em nós a obra da redenção”. Em segundo lugar, comungar o Corpo e o Sangue de Cristo transforma-nos interiormente. É um processo lento, mas pouco a pouco transformamo-nos Naquele que recebemos (cf. Oração depois da comunhão). A nossa meta é ser outro Cristo. Parece uma utopia ou algo que nunca alcançaremos. Mas continuemos a pedir-lhe: “dai-nos o que nem sequer ousamos pedir” (oração coleta). Para isso, “cumulai de bens os que Vos imploram e libertai a nossa consciência de toda a inquietação”.

 

27º DOMINGO DO TEMPO COMUM, C
Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Diocese da Campanha, MG

“Senhor, tudo está em vosso poder e ninguém pode resistir à vossa vontade. Vós fizestes todas as coisas: o céu, a terra e tudo o que eles contêm; sois o Deus do universo”(cf. Est 1,9ss).

A liturgia deste domingo nos coloca na perspectiva da reflexão sobre A VINHA DE DEUS. Um dos textos mais populares da literatura profética era o Cântico da Vinha, alegoria do profeta Isaías sobre a ingratidão da vinha escolhida por Deus, rodeada por ele com todos os cuidados possíveis e que, contudo, não produziu frutos. A vinha é Israel que, em vez de produzir a justiça – o bem que Deus deseja para todos -, institucionalizou o derramamento de sangue e a opressão. Assim se desenrola a Primeira Leitura de Hoje do Profeta Isaías(cf. Is 5,1-7). Esta perícope é uma das mais belas da Bíblia, que toma ares de uma canção de amor, mas em vez de descrever uma pessoa querida, descreve uma vinha, querida e amada, porém ingrata. A descrição torna-se ameaça e só no fim revela-se a identidade da simbólica vinha: é Israel. Israel não fez frutificar os cuidados que Deus lhe dedicou, não produziu justiça. Na sua desordem social e desprezo pelo direito, renegou a Aliança com Javé. Queridos irmãos e irmãs, Entre as parábolas de Jesus, certamente a deste domingo é a mais dura. Quase diria que esta parábola é a mais direta e radical de todas. Jesus se mostra desanimado de esperar que os corações dos fariseus e dos escribas se amoleçam, que seus ouvidos se abram. É o auge da queixa que Jesus fizera noutra ocasião: “Têm ouvidos e não ouvem, têm olhos e não vêem” (Mt 13,14-15). Se a parábola de Jesus tinha um endereço certo, e que foi atingido naquele momento, ainda hoje ela continua atual e alcança os que rejeitam a pessoa divino-humana de Jesus de Nazaré e seus ensinamentos? Ou aqueles que, julgando-se donos da verdade, querem apoderar-se da vinha, ou seja, do Reino de Deus? A vinha sempre foi e sempre será do Senhor. A criatura humana, exatamente por ser criatura, nasceu para o serviço do Senhor e do Reino do Senhor. Por não acreditarem na evidência da divindade de Jesus, fariseus e escribas frustraram a justificação (santificação) que Jesus trouxe; não entram no “Reino dos Céus”. Na parábola de hoje, Jesus se torna ainda mais forte e duro(cf. Evangelho de Mateus 21,33-43). Não só não quiseram crer, mas assassinaram os profetas e o próprio Filho de Deus. A parábola foi tão clara que “os sumos sacerdotes e os fariseus entenderam que falava deles” (Mt 21, 45) e se enfureceram. Jesus toma uma figura bastante familiar: a vinha. Familiar não só porque havia muita vinha na Palestina e era comum seu arrendamento, mas também porque, desde os profetas antigos, o povo de Israel era comparado à vinha.  Por isso mesmo a primeira leitura de hoje lembra que “a vinha do Senhor é a casa de Israel” (Is 5,1-7), por quem Deus tudo fizera. Dela, Deus esperava frutos de direito e de justiça, mas só colheu violência e traição. Também o Salmo Responsorial compara o povo de Israel a uma videira transplantada do Egito para a Terra Prometida e cultivada com carinho por Deus quando nos convida a salmodiar: “A VINHA DO SENHOR É A CASA DE ISRAEL!”. Irmãos e irmãs, A vinha é o Reino dos Céus, por causa de quem Ele viera ao mundo e fizera todo o bem possível. No Reino há lugar para todos trabalharem ou, como dirá em outra parábola, também contada em Jerusalém, há tempo para todos cultivarem e multiplicarem os talentos recebidos de Deus. Talentos que não pertencem à criatura, mas a Deus e só a Ele devem ser devolvidos e multiplicados. Hoje, Jesus lamenta que, em vez de multiplicar os frutos em santidade ou justiça, os frutos são o homicídio. Os enviados de Deus são assassinados e os fariseus se preparam para matar o próprio Filho de Deus. Jesus prevê a morte que terá cabo a sua vida. Uma morte violenta em que até o lugar é anunciado, ou seja, fora da cidade, no Calvário. É um anúncio profético, porque apresenta a decisão de Deus de substituir o velho pelo novo povo de Deus: “Arrendará a vinha a outros lavradores, que lhe dêem frutos” (Mt 21, 41). A decisão da traição e da morte de Jesus não é da vontade do dono da vinha, ou seja, de Deus, mas é resultante da vontade, da maldade dos vinhateiros. Jesus faz nascer a decisão de seus próprios lábios. A parábola ainda é profética porque confirma que Ele, Jesus, morto e rejeitado, será a pedra principal, a pedra angular da nova casa de Deus, da nova família de Deus, do novo povo de Deus, da nova e eterna aliança. Na nova vinha, anunciada por Cristo, o Pai encontrará toda a justiça e todo o direito (Is 5,7); encontrará a mais perfeita resposta ao seu amor e ternura. A parábola deste domingo é profética, ao afirmar que, apesar do homicídio na cruz, a obra de Cristo triunfará e se tornará motivo de admiração. A admiração é o primeiro passo da fé. As obras de Jesus serão sempre, de novo, raiz de uma fé que deverá alcançar e envolver a pessoa inteira do Messias Salvador. A grande novidade da liturgia de hoje, pela leitura atenta da parábola, é que ninguém é dono da vinha, do Reino. Somos filhos de Deus. Fomos redimidos pela paixão, morte e ressurreição do Filho do Dono da Vinha. A verdade e a salvação pertencem a Deus. E esta verdade e esta salvação só poderão dar frutos se semearmos aqui na terra boa o amor, a acolhida do diferente, a caridade e a misericórdia, tudo o aquilo que vai à contramão do homicídio, da morte e da destruição. Amor que é misericórdia! Amor que é acolhida! Amor que é gratuidade! Os vinhateiros homicidas da parábola são os que matam em nome da religião ou em nome de qualquer outro pressuposto direito. Matar alguém é matar o Filho de Deus presente em cada filho e filha de Deus. Estimados irmãos e irmãs, Jesus é a pedra que os pedreiros rejeitaram e que se tornou a pedra angular. Isso porque Jesus é o fundamento do novo povo quanto à coroação de tudo e de todos. Jesus é o alfa e o ômega, o princípio e o fim de toda a história da salvação. Somos, assim, convidados a aderir a Cristo e aos seus ensinamentos, com amor e com abertura à sua palavra e à sua misericórdia. São Paulo nos fala e nos mostra, na segunda leitura de hoje(cf. Fl 4,6-9), os frutos da justiça, realizada plenamente na pedra que os pedreiros rejeitaram e que se tornou pedra angular: o Cristo – tudo quanto for verdadeiro, nobre, reto, puro, amável, honrado, tudo o que for virtuoso e digno de louvor… Paulo não oferece um elenco de boas ações, de coisinhas para se fazer. Ele tem confiança na consciência do bem que Deus nos deu. “O Senhor está perto!” (cf. Fl 4,5) Nesta certeza, os cuidados naturais se tornam secundários. O grande cuidado deve ser a vinda do Senhor. Preparemo-nos para sua vinda, gozaremos a sua paz e brilhará a nossa alegria. Exatamente então, as ocupações deste mundo estarão no seu devido lugar: os valores e virtudes naturais serão transformados e elevados por nossa comunhão com Cristo. Sejamos gente, em nome de Cristo Jesus, e então produziremos frutos de justiça e o Deus da Paz estará conosco! Com São Paulo, apoiemo-nos na oração. Devemos pedir a graça da fidelidade para que possamos dar muitos frutos, guardando nossos corações e pensamentos em Cristo Jesus. Amém!

 

“A PEDRA QUE OS CONSTRUTORES REJEITARAM TORNOU-SE A PEDRA ANGULAR”
Por Gabriel Frade, professor de Liturgia e Sacramentos
27º Domingo do Tempo Comum – Ano A
Leituras: Is 5, 1-7; Sl 79 (80) 9.12.13-14, 15-16.19-20; Fl 4, 6-9; Mt 21, 33-43

“A celebração do ano litúrgico encerra força peculiar e eficácia sacramental. Através dela, o próprio Cristo, […] continua a sua via de imensa misericórdia, de tal modo que os fiéis de Cristo, não só comemoram e meditam os mistérios da Redenção, mas entram mesmo em contato com eles, comungam neles e por eles vivem” (Paulo VI, Mysterii paschalis, AAS 61 (1969), pp. 223-224). Estas oportunas palavras do saudoso papa Paulo VI ilustram de modo admirável a importância da celebração do mistério de Cristo ao longo do tempo. A Igreja ao celebrar neste 27º domingo do Tempo Comum, nos coloca em contato direto com a presença do mistério pascal de Cristo, um mistério ocorrido na história há tanto tempo, mas atualizado no nosso hoje trâmite a liturgia. Esse mistério celebrado no tempo continua realmente a “via de imensa misericórdia” de um Deus que continua apaixonado pela humanidade. É o que encontramos afirmado de modo solene na Oração do Dia: “Ó Deus eterno e todo-poderoso, que nos concedeis no vosso imenso amor de Pai mais do que merecemos e pedimos, derramai sobre nós a vossa misericórdia, perdoando o que nos pesa na consciência e dando-nos mais do que ousamos pedir”. O profeta Isaías na primeira leitura apresenta esse amor desmedido de Deus para conosco; um amor que vai muito além do que de fato “merecemos e pedimos”. A imagem usada pelo profeta para indicar essa realidade amorosa será aquela da vinha (cf. Ct 1, 6; 2,15; 8,12). Por meio de um poema, talvez baseado em alguma música usada durante o trabalho da vindima, o profeta narra uma paisagem inicialmente idílica: numa colina fértil o amado resolve plantar uma vinha. Lança mão de um trabalho amoroso, cercando de cuidados suas videiras, criando um ambiente no qual estas possam produzir as melhores uvas. Porém, de uma imagem paradisíaca, rapidamente a cena muda: malgrado os cuidados do amado, contrariando todas as suas expectativas, a vinha apresentou-lhe apenas uvas bravas, azedas. Todo o enfado se faz então sentir por parte do amado: seus atos de amor e ternura não foram correspondidos. Como se dá muitas vezes entre os amantes, quando um não corresponde ao outro, não corresponde à altura, a mágoa se faz grande… O próprio profeta nos dá a conhecer que a vinha é uma imagem. É a figura de Israel em sua relação com Deus, representado neste cântico pela personagem do amado cheio de atenção para com suas videiras: “A vinha do Senhor é a casa de Israel” (Salmo responsorial). No Antigo Testamento, com certa freqüência, a vinha é também imagem do amor para com o próximo, da solidariedade para com o outro (cf. Ex 23, 11; Dt 24, 21; Dt 23, 24; Lv 25, 3), ou seja, os frutos doces que o amado espera, são aqueles que lhe façam ver a correspondência do amor que brota de si nos corações dos homens, transbordado em ações que resultem no amor e no interesse para consigo e para com o próximo. Deus porém, não é como um amante humano. Ele é a fonte do amor (cf. 1Jo 4,16) e por isso mesmo quer a nossa felicidade. Nosso grande problema é que vivemos por vezes num constante afastamento dele, em busca de outros amores ilusórios. Somente um retorno livre ao amor primeiro, uma metanóia profunda de nosso ser, poderá nos abrir a novas perspectivas: “Não mais nos apartaremos de Vós: fazei-nos viver e invocaremos o vosso nome. Senhor, Deus dos Exércitos, fazei-nos voltar, iluminai o vosso rosto e seremos salvos”. (Salmo responsorial). Essa imagem da vinha é retomada também por Jesus no Evangelho. A parábola é bem conhecida e faz referência à imagem apresentada por Isaías na primeira leitura. Um proprietário planta uma vinha e, à diferença do relato de Isaías, a arrenda para que outros aí trabalhem. Quando chega o momento de colher os frutos de sua iniciativa, os arrendatários simplesmente negam-se a dar-lhe o que era devido: chegam mesmo a cometer diversas injustiças para com os emissários do proprietário. Ao final, depois de várias tentativas, o proprietário envia seu próprio filho que será morto de modo brutal pelos agricultores e a estes esperará a vingança do proprietário. A parábola é uma alusão possível à situação que Jesus vivia junto aos judeus de sua época: o proprietário da vinha é Deus; os agricultores arrendatários seriam uma imagem para indicar os judeus; os servos emissários do proprietário seriam os profetas e, finalmente, o filho assassinado brutalmente seria o próprio Jesus, que ao se colocar em rota de colisão com as autoridades religiosas de sua época, muito provavelmente intuira sua possível morte violenta – “lançaram-no fora da vinha e o mataram”: curiosamente, de modo análogo, Jesus foi crucificado fora dos muros de Jerusalém e aí morreu. Ao final da parábola aparece a imagem que apresentaria a superação de Israel pelo Novo Israel/Igreja. Parece que Jesus ao construir essa parábola usou não só as imagens do Antigo Testamento – especialmente a história narrada no livro dos Reis sobre a vinha de Nabot (cf. 1Rs 21, 1ss) – mas também a realidade do seu tempo, o quotidiano das pessoas. De fato, segundo alguns estudiosos, a Galiléia dos tempos de Jesus apresentava áreas cultiváveis que estavam, em sua maioria, nas mãos de proprietários estrangeiros. Por isso mesmo seria fato bastante comum estes grandes proprietários disporem de agricultores que trabalhassem como arrendatários. Ao final de determinados períodos do ano estes agricultores deviam pagar aos proprietários estrangeiros o percentual devido. Isso explicaria a necessidade do envio de servos para a cobrança das taxas cabíveis. Nesse período da história é bem possível que houvesse um clima revolucionário entre os agricultores da Galiléia, haja vista as diversas correntes contrárias ao poder estrangeiro vigente em toda a Palestina. A decisão de matar o filho para “ficar com a herança”, refletiria igualmente um aspecto da legislação judaica (cf. 1Rs 21, 15) e romana de então. Essa legislação previa que terceiros poderiam entrar na posse de todo e qualquer bem, quando deixasse de existir um legítimo proprietário. Embora esta narração componha a maior parte do Evangelho proclamado neste domingo, ele deve ser ouvido na sua totalidade. Os versículos finais, com a citação do salmo 118, são de grande importância para uma melhor compreensão da mensagem deste evangelho, desta boa notícia. Numa primeira leitura a parábola parece corresponder satisfatoriamente à compreensão humana da realidade, aliás, é baseado neste mecanismo de compreensão que são feitos alguns clichês utilizados na linguagem cinematográfica: toda vez que num filme há a figura de um herói, se constrói com freqüência uma história onde este deve sofrer desmedidas violências por parte de um inimigo. Esses atos de injustiça atingem seu clímax na medida em que se mostra de algum modo a fragilidade do herói, evidenciando ainda mais a total iniqüidade e injustiça perpetrada pelos inimigos. Tudo isso prepara a cena seguinte onde o herói, restabelecido em suas forças, contra-ataca e destrói seus inimigos levando os espectadores à total aprovação de seu ato heróico justificado, porém igualmente violento, ou melhor, ainda mais violento, já que normalmente os inimigos são totalmente destruídos. De fato, na conclusão da parábola encontramos a resposta à pergunta de Jesus que bem reflete essa compreensão: “Quando voltar o dono da vinha, como tratará aqueles agricultores? Certamente destruirá aqueles malvados…”. Porém, em meio à injustiça humana, ao pecado, Deus vai muito além, ao oferecer a sua misericórdia e o seu perdão: “derramai sobre nós a vossa misericórdia, perdoando o que mais nos pesa na consciência”. (Oração do dia). Perdão divino oferecido por meio do sacrifício agradável do Filho e que necessita da resposta humana, traduzida em conversão e santificação. De fato, este é o alerta do apóstolo: “ocupai-vos com tudo o que é verdadeiro, nobre, justo, puro, amável, honroso, virtuoso ou que de qualquer modo mereça louvor. (…) Então o Deus da paz estará convosco.” (2ª Leitura, Fp 4, 8-9). O dom de Deus pressupõe sempre uma atitude concreta e uma resposta livre dos cristãos, homens e mulheres, certamente imperfeitos, mas abertos à gratuidade: “Acolhei, ó Deus, nós vos pedimos, o sacrifício que instituístes e, pelos mistérios que celebramos em vossa honra, completai as santificação dos que salvastes” (Oração sobre as oferendas). Deus, ao contrário das expectativas humanas, vai sempre muito mais além. Ele vê aquilo que os homens não enxergam: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; pelo Senhor foi feito isso e é maravilha aos nossos olhos” (Evangelho) Deus, mediante a Ressurreição de seu Filho, injustamente morto “para a remissão dos pecados” da humanidade nos quer dar aquilo que do ponto de vista humano seria impensável, que sequer “ousaríamos pedir” (cf. Oração do dia): a própria vida divina. “Possamos, ó Deus onipotente, saciar-nos do pão celeste e inebriar-nos do vinho sagrado, para que sejamos transformados naquele que agora recebemos” (Oração depois da comunhão). Somente assim poderemos de fato produzir frutos doces de amor, de paz e justiça.

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