São Mateus, Apóstolo e Evangelista – 21 de Setembro

Por Mons. Inácio José Schuster

No início da primavera celebramos com a Igreja, a festa de São Mateus; os outros Evangelistas o chamam Levi. Mateus se autodenomina com seu próprio nome em seu Evangelho, que hoje vem proclamado. Poderíamos afirmar que assim fazendo Mateus, quer que o leitor compreenda de onde foi que ele veio. Mateus deseja que cada um de nós compreenda o que foi ele antes de conhecer Jesus. Era um homem egoísta, um cobrador de impostos, provavelmente desonesto e que roubava da pobre gente, para poder pagar o imposto a Herodes Antipas, na Galiléia. Jesus o chamou de onde ele estava. Mateus fecha pela última vez aquela gaveta maldita, na qual se encerrava a sua contabilidade desonesta e se põe a serviço de Jesus, modificando-se, convertendo-se para sempre. Celebrou uma grande festa não apenas para Jesus, mas para marcar o início de uma vida nova, o início de uma conversão verdadeira. Nós costumamos chamar os Apóstolos de Jesus de príncipes da Igreja, mas Mateus prefere outro título; prefere ser conhecido de seus leitores como um antigo cobrador de impostos, como um antigo publicano, um antigo judeu que trabalhava de maneira ambígua, ou pouco honesta. Mateus nos quer dizer que por primeiro encontrou misericórdia da parte de Deus, e tendo abandonado uma vida de pecados, se colocou a serviço de Jesus para o resto da sua existência. Somente aqueles que experimentaram em primeira pessoa a misericórdia de Deus ao lhe perdoar os próprios pecados, podem no futuro se tornarem-se apóstolos verdadeiros, falando a partir de experiências próprias, da bondade e do amor desinteressado de Deus em Cristo. Se Mateus não tivesse experimentado o perdão, jamais falaria da maneira como nos manifesta a respeito do infinito perdão de Deus em Cristo. Ele se sentiu perdoado dos pecados graves que havia cometido e como Santo Agostinho diria bem mais tarde, ele deve ter se sentido agradecido a Deus por tê-lo arrancado de um lamaçal e por tê-lo feito evitar novos pecados, que se não fosse a graça do chamamento de Cristo naquele momento, ele continuaria cometer até o resto  de sua miserável existência. E assim somos nós também. Cada um de nós se sinta como Mateus, um pecador perdoado, ainda que não tenha cometido pecados gravíssimos em sua vida. Santo Agostinho louvava e bendizia a Deus pelo perdão que Deus lhe havia dado aos próprios pecados cometidos e por outros muitos, que não fosse a bondade de Deus ao chamá-lo à conversão, também certamente teria cometido, enchendo a sua vida de misérias até o seu final. Todos somos pecadores perdoados como Mateus, todos podemos hoje louvá-lo e bendizer a Deus, porque em Cristo Jesus, nos oferece gratuitamente um perdão que não merecemos. Estes que passaram por esta experiência, sabem acolher com bondade e com misericórdia os outros grandes pecadores que o procurarem eventualmente na existência.

 

SÃO MATEUS
São Mateus é um dos apóstolos, homem decidido e generoso desde o primeiro momento da sua vocação. É também evangelista, o primeiro que por inspiração divina pôs por escrito a mensagem messiânica de Jesus. Foi ainda fervoroso pregador da boa nova,  que veio a selar com o seu sangue, como testemunha da verdade e divindade de Cristo. São Mateus foi judeu, como indica o nome de seu pai, Alfeu, e mesmo o seu, que na nossa língua é o mesmo que «dom de Deus», como Teodoro ou Adeodato. Exercia em Cafarnaum, lugar fronteiriço e porto de grande movimento, o oficio de cobrador dos direitos de portagem, como chefe subalterno, ao serviço de Herodes Antipas. Um dia em que Jesus saía da cidade de Cafarnaum em direção ao lago, fixou-se em Mateus, sentado no seu mocho diante da mesa da contribuição. Foi um fixar-se próprio de Jesus; olhou para ele com atenção e, sobretudo com amor. O olhar equivalia já a um convite carinhoso. Seguiu-se logo a palavra, que fala ao ouvido e ao coração: «Mateus, segue-me». Não foi preciso mais. Mateus devia saber quem era aquele Mestre, que seguiam muito de perto outros discípulos e muita gente. Levantou-se sem hesitar um instante, obedeceu ao convite, ao chamamento de Jesus, à vocação; deixou o serviço do rei Herodes, o negócio terreno, e pôs-se às ordens de Jesus, ao serviço do Reino dos céus. Não se sabe que admirar mais na vocação de São Mateus, se a bondade do Mestre que se fixa num publicano, homem de negócios e pecador – segundo a voz do vulgo – para o fazer coluna da sua Igreja; a autoridade e energia doce com que o chama; ou a generosidade pronta e decidida do agraciado. A voz da graça é forte e misericordiosa, e a correspondência humana um mistério também. São Mateus foi generoso em seguir o chamamento e agradecido ao mesmo tempo. Deu-se conta desde o primeiro instante de que tinha recebido um beneficio e quis corresponder e agradecê-lo. Deu um banquete em sua casa, para o qual convidou Jesus e os seus discípulos, e muitos colegas seus, «publicanos e pecadores», como disseram os Escribas e os Fariseus. O Novo Testamento não toma a falar de são Mateus, a não ser na lista dos doze apóstolos. Como todos eles, acompanhou o Salvador durante o ministério público; foi testemunha da Ressurreição e de diversas aparições; e por último assistiu à Ascensão e recebeu o Espírito Santo no dia de Pentecostes, para tomar parte na fundação da Igreja-Mãe de Jerusalém. Os dados que acrescenta a tradição não nos fornecem plena segurança sobre o aposto lado concreto de São Mateus e sobre o seu fim glorioso. É certo que a sua primeira pregação foi na Palestina, aos judeus. Clemente de Alexandria diz-nos, no século m, que o seu apostolado palestinense durou quinze anos. As outras regiões evangelizadas pelo primeiro evangelista não podemos determiná-las com certeza, porque os testemunhos são já tardios e não concordam plenamente entre si. São Gregório Magno fala-nos da Etiópia e Santo Isidoro da Macedônia. Parece certo que morreu mártir, pois assim o acreditou sempre a Igreja do Oriente e Ocidente, mas não podemos determinar nem o ano, nem o lugar, nem a espécie de martírio. A glória principal e importantíssima de são Mateus é o seu Evangelho, escrito primeiro em aramaico para os judeus convertidos e traduzido pouco depois para grego. O seu livro é conhecido e utilizado por todos os autores cristãos do século I e nomeado expressamente como obra do Apóstolo pelos principais historiadores dos séculos 11. Nele revela-se São Mateus como grande organizador de materiais dispersos, profundo conhecedor da riqueza da doutrina cristã e dos livros sagrados dos Judeus. São Mateus, como toda a alma grande e generosa, possui profunda humildade e desprezo de si mesmo. Possuía dois nomes, o de Levi e o de Mateus, tal como Simão e Pedro ou Paulo e Saulo designaram em cada um dos dois casos a mesma pessoa. Entre os cristãos, era conhecido por Mateus. Ora, enquanto Marcos e Lucas, ao contarem a vocação dos apóstolos, o mencionam simplesmente com o nome de Levi, e ao colocá-lo na lista dos Doze, pelo de Mateus, ele próprio dá-se invariavelmente o nome de Mateus e acrescenta-lhe o qualificativo de “publicano”, como se dissesse: Mateus, o publicano, isto é, o pecador, indigno de figurar entre os apóstolos e escolhidos de Jesus. Este espírito de humildade e desprezo próprio é genuinamente cristão, que aprenderam e ensinaram com o seu exemplo e a sua palavra os que estiveram mais perto do nosso Divino Fundador.

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