XIX Domingo do Tempo Comum – Ano A

Por Mons. Inácio José Schuster

Cada pessoa tem o seu temperamento que, por vezes, não é o melhor para se relacionar com os outros ou para cumprir a missão que Deus lhe confiou. Elias era um profeta valente e firme nas suas convicções. Mas, quando foi perseguido pela rainha Jezebel, fugiu para o Monte Horeb com medo e desejando a morte. No monte, escutou a voz de Deus e com temor experimentou a Sua presença. Deus aproveitou esta ocasião. Passou uma forte rajada de vento, mas Deus não estava no vento. Depois, sentiu-se um terremoto, mas o Senhor não estava no terremoto. De seguida, acendeu-se um fogo, mas Deus não estava no fogo. Depois do fogo, ouviu-se uma ligeira brisa; aí estava o Senhor! Deus não se manifesta como nós queremos. Deus tem o seu estilo e o seu modo de Se manifestar; é um Deus de surpresas. Os seus caminhos não são os nossos caminhos. A Elias, que era um profeta forte e decidido, quase violento como um terremoto, Deus ensina-o a acalmar-se e a saber encontrá-Lo na paz e no silêncio e não na confusão, na dispersão e nos altos decibéis das conversas. “Deus fala de paz ao seu povo e aos seus fiéis” (Salmo Responsorial).
Jesus dá-nos também uma lição de paz e de serenidade. Depois de ter dedicado longas horas a ensinar e a fazer a multiplicação dos pães, como líamos no domingo anterior, Jesus reserva para Si um momento de descanso, de paz interior, separando-se de todos para rezar ao Pai. Tem tempo para tudo: para pregar, para caminhar, para atender os outros e também para se retirar para rezar. Quando sobe à barca dos apóstolos, imediatamente a tempestade desapareceu. Deveríamos sempre procurar momentos de paz, de silêncio e de serenidade. É saudável para nos libertarmos do stress da vida, dando tempo à leitura, à música, aos passatempos, ao contato com a natureza e ao convívio familiar. É importante ter tempo para nos encontrarmos interiormente com Jesus Cristo, para fazer uma oração mais pausada a sós ou em comunidade. Precisamos de paz, de silêncio, de uma serenidade psicológica e espiritual. Em férias ou não, precisamos de nos reencontrar conosco próprios, com os outros, com a natureza e com Deus. Tudo isto é necessário para o nosso crescimento humano e cristão, para a nossa unidade interior. A celebração eucarística também pode contribuir para encontrar esta paz se for celebrada com um ritmo sereno e com amabilidade.
Como Elias, Pedro também recebeu uma lição. Sentiu, como todos os outros que estavam no barco, medo e pânico com a tempestade e com a presença fantasmagórica de Jesus sobre as águas. Então, Pedro desceu do barco e foi ao encontro de Jesus. Começou a afundar-se, quando perdeu a confiança. Homem de pouca fé! A sua oração, breve e urgente, não podia ser outra: “Salva-me, Senhor!”. Assim, aprendeu a não confiar excessivamente nas suas próprias forças, mas em Deus.
Na nossa vida, por vezes, temos a tentação de pensar que Deus nos abandonou. Assaltam-nos as dúvidas. Parece que tudo de mal nos acontece, que a vida perdeu a razão de ser, que a Igreja e o mundo não vão muito longe. Talvez, Jesus, hoje, também diga: “Homens de pouca fé”. Precisamos continuar a ouvir a frase de Jesus: “Tende confiança. Sou Eu. Não temais”. Jesus convida-nos a ter uma visão positiva e pascal da vida. Nem termos muito medo, nem entusiasmo excessivo. É importante não perder a calma tanto nos momentos de êxito como nos momentos de fracasso. Confiar mais em Deus, mesmo que tenhamos a sensação de que Ele se esconde. A vitória de Cristo contra as forças do mal é a certeza de que também nós venceremos. Sem perder a paz interior, trabalhemos para a vitória contra o mal.

 

‘VERDADEIRAMENTE, TU ÉS O FILHO DE DEUS!’
Padre Bantu Mendonça

À noite os discípulos entram no barco e se dirigem para o outro lado do mar em direção a Cafarnaum. Um fenômeno estranho, mas natural no alto mar. O barco estava sendo sacudido pelas ondas, “pois o vento era contrário”. Os discípulos se encontram fatigados, atormentados em remar. E o vento soprando forte e agitando o mar. De repente, Jesus se apresenta andando sobre as águas. Na escuridão da noite, a Sua figura pareceu ser um fantasma que pretendia ultrapassar a embarcação. Daí, os gritos de espanto e medo dos apóstolos. Na realidade, com essa ação, o Senhor demonstrou ter poderes divinos, pois lemos em Jó 9,8: “O Senhor caminha sobre as águas dos mares”. É interessante observar que Pedro foi o único a também querer, com a permissão de Jesus Nazareno, andar sobre as águas, como que estando “por cima” do mal. O mar era símbolo do mal e do oculto, especialmente suas profundezas nas quais reinava o poder das trevas e de onde saíram os impérios contrários ao verdadeiro Reino de Deus (cf. Dn 7,1-8). Pedro, uma vez mais, mostrou-se impetuoso e mais confiante do que seus companheiros. Não só reconhece o Mestre, mas quer participar desse poder de estar acima do mal, representado pelas águas turbulentas do mar. Ele sabe que o poder de Jesus não é unicamente pessoal, mas atinge igualmente Seus mais íntimos amigos e reconhece na prática o que Ele dirá mais tarde: “Em ti unicamente eu confio, pois cremos e reconhecemos que tu és o Santo de Deus” (Jo 6,69). Porém, sempre existe a dúvida e a indecisão após tomar uma atitude valente e corajosa. O vento, o mar agitado, abala a fé e a confiança do grande apóstolo. E unicamente a resposta de Cristo, diante da súplica angustiada deste [Pedro], restabelece a situação e salva o discípulo. O “Salva-me, Senhor!” de Pedro deve ser o nosso grito que salvará muitas vidas do fracasso total. No “Salva-me, Senhor!” encontramos a força que nos falta e a fé que procuramos em Jesus, nosso Salvador. Cristo, através da deficiência na fé de Pedro, quis mostrar que sempre – por detrás das situações de perigo e domínio do mar, representante das forças do mal – não estamos sozinhos, pois Ele o sustentava. Por isso, os Padres da Igreja afirmam que onde está Pedro está a Igreja e onde está a Igreja está Jesus. E, logicamente, na época em que foi feita a afirmação dos Padres da Igreja, estes não se referiam a Pedro, o Simão, filho de Jonas, mas ao bispo de Roma. Jesus entra na barca e o vento se acalma. Era uma perturbação de ondas e vento sem chuva, pouco parecido com a descrita em Mateus 8,23. Mas, tendo entrado Jesus na barca nada temem os discípulos, porque a paz, a tranquilidade e o sossego haviam chegado. E, então, aproximando-se de Cristo lhe prestam homenagem, dizendo: “Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!” O que significa: Tu tens algo do poder divino em teu ser. Meu irmão, Jesus é a sua paz. Portanto, não tenha medo e nem receio de O proclamar. Ele veio para livrar a mim e a você do medo e da angústia. O trecho de hoje está escrito precisamente para nos demonstrar que a transcendência e independência de Jesus – manifestada com Suas palavras e Seu proceder diante das leis e costumes tradicionais e diante das leis físicas da natureza, – revelam Seu domínio absoluto sobre as crenças e Seu senhorio total como Criador – e não como criatura – sobre os acontecimentos e sobre tudo o que há, de modo que a nossa resposta, hoje, não pode ser outra diferente desta: “Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!”

 

VIVER O PROCESSO DA FÉ
Padre Fábio de Melo

Quanto sofrimento é preciso passar para chegar na verdade dessa frase “Deus caminha comigo, Deus é meu grande amigo, Ele é mais forte um abrigo, Ele caminha comigo, n’Ele posso confiar”? Não tem nada por acaso nessa vida, não podemos chegar se não caminharmos. Para se eu preciso andar 5 km, preciso ter a disposição do primeiro passo e acreditar que de passo em passo chegarei. Tudo é processo, tem começo, meio e fim. O processo da fé é pontuado. A fé cristã é audaciosa, o que Jesus nos propõe é uma verdade audaciosa. Hoje a Igreja nos convida a ter fé, a viver o processo da fé, acreditar mesmo que não tenha razões para isso. A nossa fé passa pelo processo da inteligência, mas ela acontece quando preciso passar uma situação humana que me parece insuportável. E Deus começa arrancar de você frutos que não semeou. É a fé como dom, que começa a ver a vida a partir de um olhar que antes ninguém tinha lhe ensinado. A Igreja diz que a fé é dom. E temos a responsabilidade de administrá-lo. A fé é dom, mas é tarefa. Eu preciso buscar a minha atitude para confirmar o Cristo realizou na minha vida. A fé humana indica para uma fé maior. A fé primeira que experimentamos na vida, é a fé natural. Entramos num restaurante e não pensamos que a comida pode estar envenenada, você confia que não tem nada naquele alimento. A fé uma experiência natural que dá para a gente. Para mim não há nada mais precioso que confiar em alguém. Como é importante para o padre a confiança em que está perto de nós. E a partir dessa experiência humana, Deus nos convida a experimentar algo muito maior. Pedro, homem que fez a experiência de Jesus e mostra aqui sua fragilidade no processo de fé. Acho que Jesus o chamou de Simão nessa hora, que não tinha feito a experiência de Jesus, que não tinha feito a travessia que ele precisava. A fé vai ser vivida enquanto formos gente. A Igreja nos pede a fé no Ressuscitado, pois só essa fé nos poderá direcionar para o homem, e mulher que Jesus idealizou para cada um de nós. Estou em travessia, processos que nunca termina, pois nunca estaremos prontos para Deus. Sempre estaremos inacabados. A arte é assim, sempre inacabada, porque se tiver acabada, não há mais o que fazer. Nós sobrevivemos daquilo que em nós é inacabado. O que Deus já fez na sua vida hoje, não será o suficiente para o que precisará amanhã. Não somos postes, postes ficam parados, somos estrelas em deslocamentos. Deus vai te visitar a partir da sua particularidade. Não devemos medir o quanto de fé cada um tem. Precisamos ser cada dia mais homens de fé. Às vezes o caminho que precisamos percorrer não é tão longo, mas por não termos dimensão, ficamos parados. Muitas vezes eu encontro ateus que estão muitos mais próximos de Deus que eu, porque as vezes eles estão mais honestos e se aproximaram mais das questões humanas. Precisamos nos aproximar das questões humanas, estamos inseridos numa sociedade e é preciso encarnar na minha história tudo aquilo que digo crer. Se você acredita no mesmo Deus que eu tenho com você uma responsabilidade. Pois não tenho o direito de negligenciar o conteúdo dessa pregação, por isso eu sou um padre de travessia. O papel de padre hoje é ser o testemunho coerente de quem fez essa opção radical por ser Jesus de novo através da vida sacramental. Os sacramentos que celebramos é para santificar nossa alma e dar sentido as atitudes do corpo. É a totalidade da salvação acontecendo em nós e através de nós. A Igreja quer cada dia mais que a fé que celebramos vire vida na comunidade, que você sinta em Jesus o motivo da sua atitude. Eu estou aqui configurado a Ele, quero ser como Ele. Quanto mais eu acredito em Deus, muito mais é a minha capacidade de acreditar nos meus irmãos. Que amor a Deus é esse que não te faz amar seus irmãos? A fé que eu tenho em Jesus muda o modo de como eu olho para aqueles que estão do meu lado. Se Jesus tivesse a oportunidade de passar aqui como eu estou Ele lhe diria: “vamos lá, não fique parado, vamos fazer o que será. Vamos visitar regiões do seu coração que você ainda não conseguiu ir.” Muitas vezes na nossa miséria não acreditamos que Deus acredita em nós. Vamos acelerar o processo de nosso crescimento pessoal. Quanto mais acreditarmos em Deus, e tivermos a fé para suportar o sofrimento, mais testemunharemos Deus. Hoje precisamos tomar a decisão de deixar Deus acelerar em nós o crescimento. Para isso você precisa dar passos, tratar melhor seu marido, seu funcionário, deixar de fumar, etc. Você precisa acreditar em você. O que você precisa fazer concretamente para dar um passo na fé? Faça seu compromisso consigo mesmo, acredite que a partir de hoje você será uma pessoa diferente, uma pessoa melhor. Acredite em si mesmo, para demonstrar que Deus crê em ti. Eu creio em Deus e Ele crê em mim, e nós dois juntos ninguém segura.

 

A narração evangélica que a liturgia oferece neste domingo coloca-nos diante de uma característica importante da Igreja: viver no mundo. O texto diz que Jesus “obrigou” os discípulos a subir para o barco. O verbo “obrigar” tem um significado não muito agradável para a maior parte das pessoas; mas no texto evangélico, significa o caminho dos discípulos no meio deste mundo que, por vezes, é tempestuoso, ou seja, existem ventos contrários ao projeto de Deus. Depois da multiplicação dos pães, somos convidados a refletir na nossa missão no mundo que consiste em partilhar o pão com os pobres e com todos os povos. Também o evangelho deste domingo diz que aqueles que são portadores do projeto de Deus, esta Igreja representada no barco dos discípulos, são frágeis, com muitas limitações, com dúvidas (por vezes, há a tentação de pensar que Jesus nos abandona por uns tempos!). Se a fragilidade e a pobreza são coisas próprias do mundo, também o são da Igreja. Isto leva-nos a esta conclusão: quando a Igreja abandona o mundo, ou quer estar nele com poder, deixa de ser a Igreja que Jesus fundou. A narração da tempestade acalmada segue-se à do milagre da multiplicação dos pães, onde Jesus dá de comer a todos, tendo uma atenção especial aos doentes e aos pobres. É este o valor da nossa “reunião dominical” e da missão que nos está confiada. O barco que avança com dificuldade num mar tempestuoso e com ventos contrários é, hoje, um convite a contemplar o Ressuscitado. Um mar, que é o mundo, onde Jesus caminha como Senhor, acompanhando a sua Igreja. Este texto é introduzido pelo extrato do Primeiro Livro dos Reis (1ª leitura). O profeta Elias é perseguido. Refugia-se numa gruta. A sua fuga não é para fazer um retiro espiritual, mas num contexto de perseguição e de sofrimento por causa de defender a justiça em nome de Deus, faz uma grande experiência espiritual. Na segunda, continuamos a ler a Carta de S. Paulo aos Romanos. Ele abre-nos o coração para expressar o seu sofrimento ao ver que o seu povo não aceita Jesus. Como o Apóstolo sofre, porque tem um coração de pastor, com aquelas pessoas que se desviam do caminho certo. Se os pastores de hoje dessem o seu testemunho pessoal do seu próprio ministério, marcado pela caridade pastoral… Na homilia, é de lançar um convite a contemplar Jesus na sua humanidade e na sua divindade. É o que faz São Mateus que vai respondendo às perguntas que a comunidade faz acerca de Jesus: “Não é este o filho do carpinteiro?”. São Mateus apresenta-nos Jesus com características que somente pertencem a Deus. Uma delas ouvimos no domingo passado na partilha e multiplicação dos pães, recordando o maná do deserto. Hoje, a divindade de Jesus encontramos no poder de andar sobre as águas, algo próprio de Deus, Senhor do mundo. O gesto de estender a mão a Pedro, um gesto frequente nos salmos, expressa que Deus estende a mão aos necessitados. Outro aspecto a explorar na homilia é aprofundar a identidade da Igreja no mundo. Deus ama o mundo, enviou o seu Filho que se fez homem. Viver no mundo, anunciando a novidade do Evangelho conscientes que o Senhor está no meio de nós, ainda que, por vezes, para alguns seja ainda um “fantasma”. No final da Eucaristia, há sempre o envio: “Ide em paz”. Depois da experiência íntima com Deus, Ele envia-nos para o mundo, mas também nos diz como a Pedro: “Vem”.

 

19º DOMINGO DO TEMPO COMUM
“Considerai, Senhor, vossa aliança, e não abandoneis para sempre o vosso povo. Levantai-vos, Senhor, defendei vossa causa, e não desprezeis o clamor de quem vos busca.” (cf. Sl 73,20.19.22s)
Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Diocese da Campanha (MG)

Meus irmãos, Estamos celebrando neste domingo a vitória de Cristo sobre o mundo. Não podemos ter medo de vivenciar o seguimento cristão e cada um de nós é convidado a deixar a vivência pastoral pessoal e anunciar o evento evangelizador. Abandonar o comodismo e vivenciar o anúncio da mensagem evangélica que é sempre atual, questionadora, e, mais do que tudo isso, parte de uma mudança radical da vida da própria pessoa. Por isso, todos nós somos convidados a enxergar Deus nas coisas pequenas e simples da vida quotidiana. Apesar da violência humana, Deus está naquilo que significa paz e refrigério. Deus não está na tempestade(1Rs 19,9a.11-13a). Elias venceu os sacerdotes de Baal no monte Carmelo, invocado sobre eles o fogo do céu. Mas Deus lhe faz experimentar que o zelo não é sempre vitorioso e sua vocação não é a violência contra os homens, mas o serviço paciente. Elias, perseguido por Jezabel, fica sem força e foge até o Horeb. E aí Deus lhe fala, porém, não nos elementos violentos – tempestade, terremoto,fogo,  mas na brisa mansa. Dentro da brisa mansa, Ele confia a Elias uma nova missão, que é manifestada pela tempestade. A religiosidade mágica facilmente acredita que Deus se manifesta na tempestade. Mas Javé se manifesta acalmando a tempestade. Assim, ele se manifestou em Cristo, aos olhos dos Apóstolos, que estavam lutando contra o vento, no barco do lago de Genesaré. Por detrás de tudo isso, está a mitologia: o mar era o domínio de Leviatã, o monstro marinho, uma vez considerado como um deus, mais tarde, desmistificado até anjo ou diabo. A tempestade era a força do inimigo, acreditavam ainda os supersticiosos  pescadores galileus. Irmãos e Irmãs, Jesus se escondera no deserto, logo que soube da morte de João Batista. Havia perigo para o Divino Salvador. A multidão correu ao deserto atrás dele. Jesus teve compaixão dos peregrinos e multiplicou o pão. O povo, feliz e entusiasmado com a multiplicação dos pães, entusiasmou-se e quis proclamá-lo Rei. O momento era conflitante e profundamente delicado. Não era chegada a hora do Filho do Homem, porque Ele não viera para um reinado terreno. As coisas de Deus não podem ser confundidas com as coisas da política partidária dos homens. Por isso, coube ao próprio Jesus dispensar a multidão. No Evangelho deste domingo (cf. Mt 14,22-33) Jesus chegou aos discípulos que estavam na barca, depois que Ele despediu a multidão e foi rezar, andando sobre as águas. Isso foi uma demonstração aos seus mais próximos da grandiosidade de sua missão, que era exercida a mandado do Pai dos Céus. Jesus que andou sobre as águas é maior do que a maldade e tem o poder de “fazer da fossa surgir à vida” (cf. Jn 2, 7). Basta uma ordem dele e o peixe deixou Jonas em terra firme (cf. Jn 2,11), podendo cumprir a vontade de Deus de purificar os ninivitas. Há um plano de salvação por parte do Pai dos Céus. Jesus foi mandado ao mundo para dar pleno cumprimento deste projeto de salvação, conforme nos ensina São João 4,34. Entretanto, as forças do mal podem agir e reagir. Mesmo assim, o plano será cumprido na sua integralidade. Nenhuma porta do inferno levará vantagem, tendo em vista que Deus está conduzindo a sua Igreja pelos caminhos da História. É grandiosamente imenso o contraste entre o medo de um fantasma diabólico e a confiança de Pedro ao ouvir a voz de Jesus, que vinha caminhando sobre as ondas. Para Jesus é mais importante a confiança de Pedro do que o medo. No meio das dificuldades quotidianas da vida, é importante a comunidade substituir o medo pela partilha. Pedro, que teve a coragem de atirar-se às ondas encrespadas, ficou com medo do vento. Meus irmãos, Jesus multiplica o pão, o que foi motivo de grande contentamento e de admiração por parte do povo presente. A cena de Pedro o demonstra. A fé verdadeira pressupõe a humilde confiança e a humildade confiante, sem nenhuma exigência de milagres ou comprovações. Os apóstolos, reverentes, de joelhos comprovam o Senhorio de Jesus e a confiança daqueles que devem anunciar o seu projeto de Salvação: “Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!”(cf. Mt 14,33). A humildade de fazer a genuflexão, como se fosse para beijar os pés de Jesus, ou para adorá-Lo, é uma manifestação de quem reconhece ser Jesus, o dono da vida e do nosso destino. Essa deve ser a atitude do cristão, no seu comportamento diário, de não procurar milagres, mas ter uma fé autêntica, abalizada nas Sagradas Escrituras, levando adiante aquilo que o próprio Jesus disse: “Não tenha medo, creia, e venha ao Seguimento do Senhor!”. Meus irmãos, Paulo, na segunda leitura (cf. Rm 9,1-5), confessa sua paixão para com o povo de Israel, do qual ele é membro. O Apóstolo mesmo gostaria de ser condenado se, com isso, os seus irmãos judeus tivessem a salvação, conforme nos ensina Rm 9,3. Palavra forte, mas que não era mero exagero: Paulo sabia que seria impossível que eles estivessem pura e simplesmente perdidos. O plano de salvação vale para os judeus também, mesmo se aparentemente tenha sido passado adiante aos gentios. Com isso, podemos concluir da confiança que Paulo tem no plano de Deus, que ele pode dizer a nós hoje: se Israel for totalmente rejeitado, então, eu também! O Evangelho salva todo o que crê: primeiro o judeu, depois o grego(cf Rm 1,16). Os judeus têm sido privilegiados(cf Rm 3,1). Eles têm até o Messias. E, contudo, parece que não se verifica sua salvação, pois não tem a fé no Evangelho de Cristo. Caros fiéis, Ser cristão é ser voltado para a acolhida e para o entendimento do Deus da Brisa Mansa, que anda sobre as águas e leva para o mundo o testemunho inequívoco da necessidade de depositar nas mãos de Deus a confiança de nossa vida de fé. Vida de fé que o PAI DAS BEM-AVENTURANÇAS do céu abençoa e encaminha os pais da terra que tem o grave dever de nos fazer mais santos e imaculados, como o SENHOR DEUS fez ao enviar a Salvação por Jesus Cristo ao gênero humano!

 

“CORAGEM! SOU EU. NÃO TENHAIS MEDO!”
Por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração
19º DOMINGO DO TEMPO COMUM – A
Leituras: 1 Rs 19,9a.11-13; Rm 9,1-5; Mt 14, 22-33

“Depois do fogo, ouviu-se o murmúrio de uma leve brisa. Ouvindo isso, Elias cobriu o rosto com o manto, saiu e pôs-se à entrada da gruta” (1 Rs 19,13a). “Assim que subiram no barco, o vento se acalmou. Os que estavam no barco prostraram-se diante dele, dizendo: Verdadeiramente, tu és o filho de Deus” (Mt 14,33). Duas cenas de calma e serenidade quase paradisíacas, que acabam de concluir a atribulada travessia do deserto por parte do profeta Elias, e a longa noite dos discípulos, cheia de angústia ao lutar contra as ondas do lago agitadas pela tempestade. Apesar desse quadro, os protagonistas das duas histórias estão gozando tranqüilidade e paz profunda: dom surpreendente que acompanha o inesperado e íntimo encontro com o Senhor, que até pouco antes parecia estar ausente, surdo e mudo perante os seus gritos de medo e de ajuda. Por um lado as cenas marcam o cume da condescendência de Deus para com o seu profeta Elias, e a intensa manifestação da senhoria de Jesus sobre os agitados acontecimentos da história, para com os discípulos. Por outra parte, a mudança radical do cenário marca o ponto de chegada do longo processo de conversão do profeta ao Senhor, assim como do crescimento da frágil fé de Pedro e dos demais discípulos. O medo paralisante de pouco antes se traduz na solene profissão de fé que proclama Jesus “Filho de Deus”. Quantas vezes Jesus, ao encerrar o encontro com um homem ou com uma mulher que vai em busca dele, confiante em sua ajuda, declara: “Vai, a tua fé te salvou!” (cf. Mc 5,34; Mt 15, 28). O Senhor abre para nós o mesmo trilho! A profissão de fé dos discípulos nos coloca em cheio na plena luz da páscoa; páscoa que celebramos hoje, assim como em todo domingo, para que ilumine e oriente a partir de uma perspectiva interior nossos dias. Eles se sucedem uns aos outros, aparentemente iguais na repetição da rotina, e não raramente provados por feridas e fatigas sem saída. A luz do Ressuscitado os resgata do “não sentido”, e os faz lugar do possível encontro com o Senhor. A Igreja nos acompanha com o dom da Palavra de Deus e com o pão de vida da Eucaristia, para que nos tornemos companheiros da longa trajetória interior de Elias e dos discípulos, partilhando com eles a mesma força transformadora da fé e a intimidade para com o Senhor, que caracterizam toda autêntica relação com ele. O breve trecho do 1 livro dos Reis, proclamado na primeira leitura, nos apresenta apenas a conclusão da complicada história humana e interior de Elias, o primeiro dos profetas históricos de Israel. Ele é apresentado pela mesma escritura do AT e do NT, como modelo de tantos homens de Deus, chamados por ele a tornar-se seus amigos e corajosas testemunhas, na defesa da justiça em prol dos pobres, na recuperação das exigências da aliança estabelecida por Deus com Israel, na espera da vinda do Messias que vai restabelecer as condições para cumprir a originária aliança. A compreensão profunda da extraordinária experiência de Deus, vivenciada pelo profeta na gruta do monte Horéb, pressupõe uma leitura atenta e partícipe da fascinante aventura humana e espiritual de Elias, narrada nos capítulos 18-19 do 1 livro dos reis. À sua luz se compreende a colocação desta história em conjunção com a narração da noite de Jesus mergulhado em profunda oração na montanha, e sua ida em socorro dos discípulos em dificuldade dentro do barco no meio da tempestade. Na complexidade das intrigas e das paixões humanas, se desvela a secreta pedagogia com que Deus dirige a história, chama e forma seus profetas para guardar e alcançar o cumprimento do seu projeto de vida. Talvez seja útil lembrar alguns pontos salientes deste trajeto interior de Elias, para iluminar um pouco nosso próprio caminho existencial. Poderia nos ajudar também a entender porque a sua figura se tornou tão emblemática na tradição da própria Escritura, na tradição judaica posterior, naquela cristã, sobretudo na sua vertente mística, e até mesmo na tradição muçulmana. Cada uma delas se reconhece num ou no outro aspecto da sua experiência espiritual, como num espelho. No momento mais alto da revelação da identidade e da missão de Jesus na transfiguração, ele aparece dialogando sobre o cumprimento da sua tarefa de messias sofredor com Moisés e Elias, os dois eixos do projeto salvífico de Deus na aliança, que está para se realizar na sua morte e ressurreição (cf Lc 9, 30-31). O profeta, com zelo ardente pela pureza da fé de Israel com a violência de todo fundamentalista religioso (1 Rs 18,20-40), foi progressivamente transformado pelo próprio Senhor, através de uma série de despojamentos interiores, sempre mais sofridos e radicais. O Senhor lhe ordena de morar no deserto, onde aprende a se alimentar confiando na providência divina: os corvos trazem o pão e a torrente de água o sacia por um tempo limitado. O Senhor o envia a morar em terra pagã, sustentado por uma pobre viúva em Sarepta (1 Rs 17, 2-24).  O profeta pretende defender Deus com a matança dos profetas de Baal (1 Rs 18, 16-40). Foge para o deserto para salvar-se da vingança da rainha Jezabel, cai no extremo desânimo, o Senhor o socorre alimentando-o através de seu anjo, e o fortalece para cumprir seu caminho até a montanha do Senhor (1 Rs 19, 1-8). O Senhor o interpela como profeta refugiado na gruta da montanha. Ele se queixa de estar correndo riscos mortais pelo Senhor, e reivindica mais uma vez o feito de ficar sozinho para defendê-lo (1 Rs 19, 10.14). Em resposta o Senhor lhe ordena de “sair da gruta” em que está amparado, para ficar diante dele que está para passar diante dele ( 1 Rs 19, 9-11; 13-14)).   A gruta em que está refugiado, mais que na rocha da montanha, está escavada na realidade em seu pequeno mundo ideológico, onde falta o ar livre da vida e a visão ampla da realidade. O Senhor faz sair Elias deste túmulo de morte, e o faz nascer à vida nova. O murmúrio suave e brando é a habitação verdadeira do Senhor. A sua voz profunda é o silêncio que chega ao coração. Elias pode somente entrever a face do Senhor através do manto que cobre seu rosto, como a mão protetora de Deus cobriu o rosto de Moisés, na montanha do Sinai, para protegê-lo da luz insustentável da sua glória, concedendo-lhe o privilégio de contemplá-lo somente pelas costas (cf  Ex 33, 18-23). Elias sai deste encontro radicalmente transformado (1 Rs 19, 9-14). Recebe a nova missão de promover a vida do povo, em Israel e em Damasco, e de transmitir seu carisma de profeta a Eliseu (1 Rs 19, 15-18). Somente quem tem em si mesmo a vida do Senhor pode transmitir vida. Iniciada como fuga diante do poder prepotente da rainha Jezabel, a aventurosa viagem de Elias se transforma numa verdadeira peregrinação interior rumo ao centro de si mesmo, mais que uma transferência forçada de lugar geográfico para outro, com a finalidade de esconder-se. Marca o retorno às origens espirituais de Israel a descida do profeta nas profundidades do seu coração, onde encontra a verdadeira habitação do Senhor e a linfa vital da sua missão de profeta ao serviço do Deus da aliança e da vida. Através da pedagogia, severa e doce ao mesmo tempo, dos progressivos despojamentos de si, o Senhor molda o seu profeta, até fazê-lo digno de encontrá-lo na intimidade e na paz, como supremo dom de graça. Está superada toda manifestação de força que se impõe, simbolicamente expressa pelos impetuosos elementos naturais do vento violento e forte que quebra as montanhas, ou do terremoto e do fogo ( cf  1 Rs 19,11-12). Tais sinais tinham acompanhado a manifestação de Deus a Moisés e ao povo junto do Monte Sinai no momento de estipular a aliança (cf Ex 19,16-24). Desaparece também toda pretensão de fazer-se como defensor de Deus e quase seu protetor! Deus não precisa de defensores, mas de testemunhas da sua graça e da salvação que vem dele. Testemunhas que, antes de mais nada, sabem escutar o testemunho interior do próprio Espírito do Senhor que fala dentro de nós, nos atrai a si próprio, nos fortalece, e nos sugere o que  é importante de verdade a se dizer, diante do tribunal da história ( cf Mt 10, 17-20).  Apreender o caminho espiritual, deixando-nos guiar pelo próprio Senhor e a ser moldados pela sua pedagogia purificadora e libertadora, em tempo de marcado individualismo e protagonismo também na busca espiritual, é uma herança preciosa que nos vem do profeta e do próprio Jesus: “Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!” (Mt 14,27).  Enquanto com a fórmula “Sou eu”, Jesus evoca o poder do nome divino (cf Ex 3, 14-15) pelo qual ele domina o mal, como deixam vislumbrar seu caminhar em cima das ondas e a calma da tempestade, ele vai encontro dos discípulos, como um pai que cuida da sua criança assustada, os encoraja, e igualmente encoraja Pedro na fraqueza da sua fé, já que ele segura prontamente em sua mão respondendo a seu grito de ajuda, sobe no barco e a tempestade se acalma. A tradição cristã reconheceu neste evento, junto com a multiplicação dos pães, a imagem da Igreja na sua travessia ao longo da história, alimentada e sustentada pelo próprio Jesus. Na fé ela sabe e experimenta que Jesus não abandona os navegantes, assim como sabe que é ele mesmo a fortalecer a fé de Pedro e a garantir que o barco alcance seu destino, “para o outro lado do mar”, segundo o projeto de Deus.  Precisamos aprender o estilo da condescendência divina e da sua misericórdia solidária, num tempo em que cada um eleva o tom da voz para deixar-se ouvir, no atual show permanente e confuso das idéias e das propostas, onde se fica acentuando as cores de suas fardas e das suas bandeiras para afirmar seus princípios éticos, políticos, religiosos. Isto significa aprender com o profeta Elias a descer do monte Carmelo, lugar da matança dos profetas, e aprender a peregrinar com ele os duros trilhos do deserto até o monte Horeb, o lugar do encontro no silêncio com o Senhor e com as fontes da verdadeira vida. A mística não fecha a pessoa num mundo vazio, pelo contrário, a constrói com a mesma energia de Deus e a faz capaz de reconhecer e de cuidar do seu rosto divino, presente em toda pessoa e em toda situação. Estas passagens espirituais e culturais constituem um desafio permanente no caminho pessoal e das comunidades cristãs de todo tempo. É difícil fazer próprio o estilo de Deus e de Jesus. Depois que ele multiplicou os pães, o povo queria fazê-lo rei, destaca João, como que para garantir a continuidade da bonança material inesperada (Jo 6,15). Jesus, porém, refugiou-se sozinho na montanha, onde, numa noite de intensa oração face a face com o Pai, confirma sua escolha ao serviço do reino. Desta íntima relação com o Pai, ele desce em socorro potente e caridoso dos discípulos. Mas eles mesmos, observa S. Marcos, “ainda não tinham entendido nada a respeito dos pães, mas seu coração estava endurecido” (Mc 6, 52). A Igreja conhece bem o tesouro da fé que nos anima, embora exposta a tantas fragilidades diante das provações da vida. Por isso nos convida a rezar com confiança o Pai, para que o nosso coração de filhos e filhas seja por ele mesmo fortalecido e alcancemos a tranqüilidade e a intimidade da casa paterna que esperamos: “Deus eterno e todo poderoso, a quem ousamos chamar de Pai, dai-nos cada vez mais um coração de filhos, para alcançarmos um dia a herança que prometestes” (Oração do dia). A Oração Eucarística VI-B (Deus conduz sua Igreja pelo caminho da salvação) interpreta muito bem esta consciência viva da Igreja e a firme esperança que a anima em seu caminho.

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