Santa Maria Madalena – 22 de Julho

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Para o amor de Deus, nada é impossível. E, no entardecer da vida, seremos julgados segundo o amor. Os Evangelhos nos contam a história de Madalena. Uma pecadora que tanto admirou e amou Nosso Senhor Jesus Cristo que não só foi perdoada, mas que dela disse o Senhor: “em toda parte será contado em sua memória o que ela fez” (Mt 26, 13).

» As três Marias e Santa Maria Madalena
» Ela escolheu a melhor parte…
» Na Via Dolorosa, no Calvário, …de pé…
» Frutos do Amor a Deus
» “‘Maria!’ Ela voltou-se e exclamou: ‘Rabûni!’…
» A História de uma Virgem

Quem ouve o nome “Maria Madalena”, na maioria das vezes, lembra-se da mulher pecadora e de má vida do Evangelho. Poucos se recordam que dela foram tirados sete demônios (Lc 8, 2) e que ela foi perdoada de seus numerosos pecados (Lc 7, 47 – Mc 16, 9). Muitos ignoram que ela arrependeu-se do mal que praticou. Esquecem que ela viveu uma vida de penitente, que foi uma grande Santa. E que se santificou por amar intensamente a Deus. Ninguém comenta que foi a propósito dela que Nosso Senhor disse: “Em verdade vos digo: em toda parte onde for pregado este Evangelho pelo mundo inteiro, será contado em sua memória o que ela fez” (Mt 26, 13). E… quem tem nela um exemplo de virgindade e pureza? Vejamos um pouco da história de Santa Maria Madalena.

As três Marias e Santa Maria Madalena
O Papa São Gregório Magno, foi um zeloso reformador da Igreja, foi quem estabeleceu regras para o canto e cerimônias litúrgicas na Igreja e tornou-se mais conhecido como o criador do Calendário Gregoriano. Além disso, ele foi também um grande estudioso da vida dos santos e das Escrituras Sagradas. São Gregório Magno afirma que Maria Madalena, Maria de Betânia e Maria pecadora, citadas no evangelho, são a mesma pessoa. Por isso mesmo é que Santa Maria Madalena é, entre as mulheres, a que mais tem seu nome citado nos Santos Evangelhos. Ela nasceu em Magdala e viveu no século I. Conheceu Nosso Senhor, foi contemporânea de Nossa Senhora, dos Apóstolos, dos primeiros cristãos. “E Lázaro (…) era seu irmão” (Jo 11, 1-2).  Ela era irmã de Santa Marta e de Lázaro, a quem o Mestre Divino ressuscitou. “Lázaro havia caído doente em Bethania onde estavam Maria e sua irmã Marta. Maria era quem ungira o Senhor com óleos perfumados e Lhe enxugara os pés com seus cabelos” durante um banquete do qual Jesus participava.

Ela escolheu a melhor parte…
“Jesus andava pelas cidades e aldeias anunciando a boa nova do Reino de Deus. Os doze estavam com Ele, como também algumas mulheres que tinham sido livradas de espíritos malignos e curadas de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios” (Lc 8, 2). Madalena foi a mulher a quem Jesus exorcizou (Mc 16, 9). Depois disso, ela acompanhava Jesus, agradecida, contemplando sua divindade, amando a Deus, santificando-se. Santa Maria Madalena tinha uma alma admirativa e, por isso mesmo, era uma pessoa capaz de contemplar. Nas principais citações que o Evangelho traz dela sua admiração por Nosso Senhor fica destacada. E contemplar a Deus na Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo foi um dos pontos altos de sua vida. Sem dúvida, ela exercia tarefas que estavam destinadas às Santas Mulheres, contudo, em suas atividades ela procurava dar mais importância ao “Deus das obras que às obras de Deus”: ela havia escolhido a melhor parte… Esta afirmação está contida nos Evangelhos, são palavras do próprio Nosso Senhor: “Jesus estava em viagem, e entrou em uma aldeia e uma mulher chamada Marta o recebeu em sua casa. Marta tinha uma irmã chamada Maria que se assentou aos pés do Senhor para ouvi-lo falar. Marta toda preocupada com a lida da casa, veio a Jesus e disse: Senhor não te importas que minha irmã me deixe só a servir? Dize-lhe que me ajude. Respondeu-lhe o Senhor: “Marta, Marta, andas muito inquieta e te preocupas com muitas coisas; no entanto, uma só coisa é necessária; Maria escolheu a melhor parte, que lhe não será tirada” (Lc 10, 38-42). Muito embora ainda fosse uma pecadora, ela já havia dado mostras de sua escolha pela admiração contemplativa. Isso ficou evidente naquele banquete onde outras pessoas estavam com Jesus e não viam nele o Filho de Deus, mas um homem inteligente, esperto, talvez predestinado e, no máximo, um profeta: “Um fariseu convidou Jesus a ir comer com ele. Jesus entrou na casa dele e pôs-se à mesa. Uma mulher pecadora da cidade, quando soube que estava à mesa em casa do fariseu, trouxe um vaso de alabastro cheio de perfume; e, estando a seus pés, por detrás dele, começou a chorar. Pouco depois suas lagrimas banhavam os pés do Senhor, e ela os enxugava com os cabelos, beijando-os e os ungia com perfume (Lc 7, 36-38).

Na Via Dolorosa, no Calvário, … de pé, com a Virgem Maria!
Esta mulher contemplativa esteve no Calvário. “Havia ali algumas mulheres (…) que tinham seguido Jesus desde a Galileia para servi-lo. Entre elas Maria Madalena” (Mt 27, 55-56).  É certo que durante a peregrinação na via dolorosa Santa Maria Madalena esteve ao lado da Virgem Mãe de Deus, Nossa Senhora, a quem ela admirava e venerava afetuosamente e que naquela ocasião era quem mais sofria espiritualmente as dores pelas quais seu Divino Filho passava para a salvação dos homens. E essa, sem dúvida, foi uma ocasião oportuna que, aquela que muito havia pecado, encontrou para consolar quem nunca havia pecado.  No Calvário, quando todos fugiram, “junto à cruz de Jesus estavam de pé sua Mãe, a irmã de sua Mãe, Maria, mulher de Cléofas, e… Maria Madalena” (Jo 19, 25).

Frutos do Amor a Deus
O amor contemplativo de Maria Madalena rendeu-lhe os melhores frutos. E estes frutos não foram só o perdão de seus pecados e a graça de seu insigne e exemplar arrependimento. Outras graças espirituais ainda lhe foram concedidas por causa de sua admiração e amorosa contemplação da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade encarnada na Humanidade Santíssima de Nosso Senhor Jesus Cristo. Talvez a maior das graças recebidas por ela tenha sido dada por ocasião da Ressurreição do Divino Salvador: “Tendo Jesus ressuscitado de manhã, no primeiro dia da semana apareceu primeiramente a Maria de Magdalena, de quem tinha expulsado sete demônios (Mc 16, 9). Seu amor a Nosso Senhor já tinha feito com que ela, após a morte do Salvador estivesse junto Dele também em Seu sepultamento. E, depois que a pedra foi rolada, “Maria Madalena e a outra Maria ficaram lá, sentadas diante do túmulo” (Mt 27, 61).  No que pensava ela ali sentada? Não se sabe. A certeza que se tem é que ela não pensava em si, pois, Seu Senhor era sempre o centro de suas cogitações.

“‘Maria!’ Ela voltou-se e exclamou: ‘Rabôni!’ (Jo 20, 16)
Passou-se a sexta feira, passou-se o sábado. “Depois do sábado, quando amanhecia o primeiro dia da semana, Maria Madalena, e a outra Maria foram ver o túmulo” (Mt 28, 1). Ela descobriu o túmulo vazio e ouviu dois seres angélicos anunciarem a Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ela seria a primeira testemunha da Ressurreição do Senhor e a primeira a ver Cristo mais tarde no mesmo dia quando o Mestre deu a ela a mensagem para entregar aos demais discípulos (Jo 20, 1-18). Depois disso, que sentido teria continuar vivendo nessa Terra? Após ter sido curada e os demônios terem sido expulsos por Jesus, Maria Madalena coloca-se a serviço do Reino de Deus, fazendo um caminho de discipulado, seguindo Nosso Senhor no amor e no serviço. A partir deste encontro com Jesus Ressuscitado, Maria Madalena, a discípula fiel, continuou vivendo entre os apóstolos e discípulos, sendo um exemplo vivo das graças que o Senhor dispensou a ela, levando uma vida de testemunho e de luta por uma santidade maior.

A História de uma Virgem
A tradição nos conta que juntamente com a Virgem Maria e o Apóstolo João, ela foi evangelizar em Éfeso. Outra história, que desde muito corre no Ocidente, diz que ela viajou para Provença, França, com seus irmãos Marta e Lázaro com mais outros discípulos para evangelizar Gaul. Neste local ela passou 30 anos de sua vida na caverna de La Saint-Baume, nos Alpes Marítimos. Foi milagrosamente transportada, pouco antes de sua morte, para a Capela de Saint-Maximin, onde recebeu os últimos sacramentos da Santa Igreja. Ela foi enterrada em Aix. Em Vazelay, na França, todos afirmam que suas relíquias ali estão desde o século XI. No Ocidente, o culto à Santa Maria Madalena propagou-se a partir do Século XII. Na arte litúrgica da Igreja ela é representada com longos cabelos, segurando uma jarra própria para guardar óleos perfumados. Sua festa é celebrada no dia 22 de julho. Quando rezamos a Ladainha de Todos os Santos encontramos o nome de Santa Maria Madalena como a primeira das invocações das Santas Virgens. Isso não causa espanto a quem sabe que a Deus nada é impossível. É a beleza da contrição e do perdão. Aquele que é capaz de “transformar as pedras brutas em Filhos de Abraão”, pode perfeitamente devolver a integridade a uma pecadora. E isso, sobretudo se ela arrependeu-se muito, se admirou muito, se amou muito. Como foi o caso dela.
(Fonte: Bíblia Sagrada – Editora Ave Maria – São Paulo – 2008)

 

Santa Maria Madalena – porque muito amou…
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“Ama et quod vis fac”, ou seja, ama e faze o que quiseres. Frase ousada de Santo Agostinho, porém inteiramente teológica, por ser a caridade a virtude essencial, sem a qual, as demais virtudes carecem de valor 1.

O próprio São Paulo assim inicia seu nobre, distinto e angélico cântico sobre a rainha das virtudes: “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade sou como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine. Mesmo que eu tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência; mesmo que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver caridade, não sou nada. Ainda que distribuísse todos os meus bens em sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, de nada valeria!” (1Cor 13, 1-3).
Diversos autores afirmam que a caridade supera em beleza, valor e essência a todas as demais virtudes, inclusive a própria Fé e Esperança pelo fato de Deus constituir-Se no seu objeto primário e principal 2, e porque estas não ultrapassarão os umbrais da eternidade, enquanto que “a caridade jamais acabará” (1Cor 13, 8).
Segundo São Tomás, o progresso na vida sobrenatural consiste, essencialmente, na perfeição da caridade  3. Ela é a virtude que nos une diretamente a Deus conforme no-lo demonstra o discípulo amado: “Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele” (1Jo 4, 16). Disto procede a supremacia do amor: porque as demais virtudes somente preparam e iniciam essa união, mas quem a realiza de modo pleno é a caridade 4.
Por outro lado, o Apóstolo São Paulo mostra-nos que “o amor de Cristo nos pressiona” (2Cor 5, 14). Mas, no que consiste esse “pressionar”? Vejamos o que nos explica o Revmo. Monsenhor João Clá:
“É um modo de exprimir a força que tem o amor de Nosso Senhor por nós; este amor é transformante, infunde bondade e faz com que sejamos aquilo que jamais seríamos pelos nossos esforços ou natureza; é um amor que faz com que eu dê em relação ao Bem que é Ele, aquilo que eu nunca conseguiria dar por meu esforço. (…) Ele nos confisca [pois] é um amor tão superior, exuberante, rico, transbordante e incomensurável, que uma vez manifestado, torna-se impossível, de nossa parte, não vivermos para Ele” 5.
Estes foram os efeitos do amor do Divino Mestre em Santa Maria Madalena, “que foi cativada e transformada pela força deste amor, a tal ponto que depois de uma vida de vícios e desvarios, atingiu tão eminente grau de admiração e enlevo por Nosso Senhor Jesus Cristo e, sobretudo, foi tão amada por Ele que obteve a restauração da inocência” 6.
Voltemo-nos, pois, para sua vida e veremos as grandes maravilhas operadas por Deus naquela alma.
Maria Madalena nasceu de uma família muito digna, talvez a mais rica de Israel. Possuindo, desde pequena, uma aparência privilegiada, sua mãe tinha o costume de colocá-la sentada encima de uma almofada na janela, para que todos pudessem admirar sua beleza e seu bom comportamento. As ruas daquela época eram estreitas e os que por ali transitavam viam-na, conversavam um pouco com ela e, encantados, elogiavam tão extraordinária menina. Elogios estes, que serviram para dar início a um processo que a levaria a cometer os piores pecados, porque, “quando a pessoa não sabe se defender dos elogios e restituí-los a Deus, isso produz na alma um estrago tremendo” 7, pois, o “orgulho leva à impureza” 8. Foi justamente o que aconteceu com a jovem Maria Madalena.
Com a perda dos pais, deu-se a divisão da vasta herança. Coube a Lázaro — sendo o primogênito — herdar todas as terras e propriedades que possuíam em Jerusalém, assumindo com isso o encargo social e político da família. Marta, por sua vez, ficou em Betânia e viu-se obrigada a administrar as propriedades do irmão. Restou à Maria — por ser a caçula — o castelo que a família possuía em Mágdala, cidade muito mundana da época, devido à sua localização às margens do Mar da Galiléia.
Chegando a idade das paixões que rejeitam todo freio; quando a presença de toda pessoa honesta e séria resulta-lhe pesada” e sendo Maria Madalena “muito adulada e muito bela, circundada de adoradores, desfrutando ao respirar o incenso agradável dos elogios e sobretudo o perfume embriagante do prazer, fugiu da companhia de sua irmã” 9, aos quinze anos, para estabelecer-se em Mágdala. No entanto, em pouco tempo, “começou a levar uma vida afastada dos Mandamentos da Lei de Deus, tornando-se, assim, uma pecadora” 10.
Em certo momento chega a Mágdala rumores de estupefação, admiração e entusiasmo pelo grande profeta: Jesus Nazareno. Muito dada a estar de acordo com as notícias de acontecimentos mais recentes, Maria decidiu reunir uma caravana e ir ao encontro daquele, do qual todos comentavam. Quando chegaram ao lugar onde o Divino Mestre se encontrava, Ele “a viu, a olhou e a curou” 11, e, sobretudo, infundiu em sua alma graças superabundantes, operando assim sua conversão. Abandonando tudo o que tinha e todos os antigos amigos que a levaram ao pecado, seguiu a Nosso Senhor.
Entretanto, após passar um longo período acompanhando a Jesus juntamente com as outras Santas Mulheres, sentiu um desejo de voltar à Mágdala e à sua antiga vida. A pretexto de buscar algumas coisas, embora Marta e as outras insistissem à que não retornasse, ela decidiu ir e lá chegando retomou a sua vida de pecado.
Um dia, estando Nosso Senhor a pregar perto de Cafarnaum, dá-se o reencontro. Aquele Divino Olhar recai sobre Maria, mas desta vez, “esse olhar do Salvador e essa palavra penetrante mudaram seu coração mais dolorido que endurecido. Em seguida, ela seguiu a Jesus e não O deixou mais” 12.
Algum tempo depois, o Divino Mestre é convidado para jantar em casa de um fariseu. Maria Madalena rompendo as praxes da época — as quais proibiam a entrada de mulheres durante os banquetes — foi até Jesus para assim manifestar publicamente seu arrependimento e seu amor por Aquele que a havia transformado. Ali entrando, permaneceu aos pés do Salvador, e lhe ofertou o que de mais precioso possuía: suas lágrimas que, como sinal de penitência, lavaram aqueles Sagrados Pés; em seguida enxugou-Os com seus próprios cabelos; beijou-Os e por último, Os ungiu com o mais precioso perfume. Atos simbólicos de “seu coração que ela se empenhava em lançar todo inteiro no coração do Mestre” 13. Tal veneração e escravidão mereceu como recompensa do Salvador as seguintes palavras: “seus numerosos pecados estão perdoados, porque ela muito amou” (Lc 7, 47) e “em verdade vos digo: onde quer que for pregado em todo o mundo o Evangelho, será contado para sua memória o que ela fez” (Mc 14, 9).
Estando o Mestre em Betânia, Maria despreocupava-se de todos os assuntos da casa e permanecia aos Seus pés, ouvindo-O e admirando-O. Tinha o pensamento unicamente posto no Salvador, já que guardava um delírio de amor a Ele e não se interessava por outra coisa, a não ser o Mestre, que para ela era tudo 14. Por esta razão, recebeu esse elogio: “Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada” (Lc 10, 42). Ou seja, desde que a pessoa se ponha a amar, o demônio não consegue tirar nada e “ninguém rouba aquilo que o amor constrói” 15.
O Senhor concedeu imensos benefícios a Maria Madalena e distinguiu-a com sinais de predileção, infamou-a totalmente de amor por Ele e tornou-se íntimo dela.
Uma das características do enlevo é fazer com que o enlevado saia de si e se fixe em algo que lhe é superior 16, por isso, Santa Maria Madalena “se une a Ele em todos os estados pelos quais Ele faz passar sua humanidade. Ela se une a Jesus vivendo (…), a Jesus sofrendo (…) a Jesus morrendo e a Jesus morto” 17, de tal maneira, que acompanhou o Divino Mestre até na hora suprema do “Consummatum est”, quando todos O abandonaram. Mostrando que o enlevo verdadeiro é aquele que está disposto até ao holocausto, se isso for necessário, em favor do Amado.
Quando mataram a Nosso Senhor, ela — em contraposição aos discípulos, os quais “tinham fechado as portas do lugar onde se achavam, por medo dos judeus” (Jo 20, 19) — ia por todos os cantos, proclamando que haviam cometido um crime infame contra o Mestre, pois Este não tinha feito outra coisa senão o bem. Atraindo para si, o ódio de todo Sinédrio.
Sendo “a que mais fervorosamente amava o Senhor, (…) não podia conter-se de desejo de adorar e perfumar Seu sagrado Corpo” 18. Por isso, já na madrugada do domingo, quando uma dama não podia estar andando pelas ruas, ainda sem o sol ter nascido, com verdadeiro empressement desejava chegar o quanto antes ao túmulo, para assim venerar o Corpo Daquele que era o objeto absoluto de seu encanto. Estava de tal modo inebriada de amor, que neste ato de “imprudência” nem sequer se preocupava com os guardas, nem com a pesada laje a ser removida.
Chegando ao túmulo, encontrou-o aberto e os soldados não estavam mais lá. Aproximou-se e não viu o Sagrado Corpo do Redentor, julgando que o tivessem roubado. Sua primeira preocupação foi a de informar aos Apóstolos, demonstrando a pureza de seu amor todo feito de sabedoria e amor à hierarquia. Saiu correndo rumo ao Cenáculo. “Com seu ardor sem medida, Madalena contagiou os Apóstolos, e estes, associando-se aos mesmos sentimentos de amor, temor e esperança, partiram cheios de ânimo” 19. São Pedro e São João entraram na gruta, constataram que de fato o corpo não estava ali e saíram. Ela ficou, pois não possuía outro desejo a não ser o de empregar todos os meios para saber onde colocaram o Divino Corpo de seu Mestre. Estando nesta aflição, aparecem dois Anjos. Estes lhe dirigem a palavra, interrogando-a sobre o porquê de seu pranto. Ela, tomada de zelo, afirma: “Levaram o meu senhor e não sei onde o puseram” (Jo 20, 13), declarando, com isso, sua posição de escrava e incitando-os, respeitosamente, a dizer onde é que puseram o Corpo ou a indicar onde ele pudesse estar. O amor é cheio de educação, de elegância; o amor, quando é autêntico e puro, leva a um trato elevadíssimo 20.
Tendo dito isto, ela se volta para trás, e sem dar-se conta vê Nosso Senhor em pé, contudo, não O reconhece. E Nosso Senhor lhe pergunta: “Mulher, por que choras? Quem procuras?” (Jo 20, 15). Jesus disse isto para fazer aumentar ainda mais o seu amor, pois este é passível de crescimento, ou de diminuição. E quanto mais a pessoa explicita o amor que tem, mais nele cresce. Por esta razão, era conveniente que Madalena externasse seu entusiasmo e enlevo. Então, Jesus disse: Maria! (Jo 20, 16). Bastou que o Salvador pronunciasse seu nome para que ela O reconhecesse. Imediatamente, atira-se aos pés de Nosso Senhor. Este, porém, a impede, para que sua Fé e Caridade atingissem um grau mais eminente. Maria obedece de imediato, por se tratar de uma ordem de ‘seu Senhor’. Quer dizer, ela procurava o Corpo, e o que encontrou? Encontrou o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo. Este é, justamente, o fruto do amor. Quando a pessoa deseja com muito amor, devoção, enlevo, e, sobretudo, com labaredas de entusiasmo, especialmente quando se trata de algo ligado a Deus, recebe mais do que aquilo que procura. O Criador sempre concede muito mais do que se pede. Durante as perseguições, Maria Madalena juntamente com seus irmãos foram postos em um barco à deriva que chegou em Marselha no sul da França onde pregou a doutrina de Cristo e converteu um bom número de pessoas. Morreu em um local solitário nas montanhas de Sainte-Baume, onde vivia em contemplação e penitência. Concluamos com as palavras cheias de veneração sobre Santa Maria Madalena de São Francisco de Sales: “Ainda que não a honremos como virgem, se levarmos em conta a eminentíssima pureza que guardou depois de sua conversão, deve ser chamada arqui-virgem, porque, uma vez purificada na fogueira do amor sagrado, recebeu tão excelente castidade, e tão perfeita caridade, que depois da Mãe de Deus, ela foi quem mais amou a Jesus Cristo. Amou-O com os serafins, e ao amá-Lo foi mais admirável que eles, pois os serafins obtêm o amor sem dificuldades e conservam, mas esta santa o adquiriu com grandes suores e cuidados e o conservou com temor e solicitude” 21.

1 Cf. ROYO MARÍN, A. Teología de la perfeccíon cristiana. Madrid: BAC, 2006.
2  Cf. Clá Dias, João. Homilia sobre o enlevo. Caieiras: Igreja Nossa Senhora do Rosário, 9/5/2010.
3  Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, II-II q.184, a.1.
4 Cf. ROYO MARÍN, op. cit., ibidem
5 Clá Dias, João. Homilia sobre Santa Maria Madalena. Caieiras: Igreja Nossa Senhora do Rosário, 22/07/2008, p.1-2
6  CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Inocência e penitência. In: Dr. Plinio. São Paulo: Agosto, N.17, p.4, 1999.
7 CLÁ DIAS, João , op. cit., p.3 1 CLÁ DIAS, 2006, p.5(Arquivo IFTE)
8 OLLIVIER, P. Les amitiés de Marie. L’Ami du clergé. Paris: Mai, n. 20, 8v., p.328, 1896.
9  CLÁ DIAS, 2008, p.4(Arquivo IFTE)
10  OLLIVIER, P. Les amitiés de Marie. L’Ami du clergé. Paris: Mai, n. 20, 8v., p.329, 1896.
11  OLLIVIER, P. Les amitiés de Marie. L’Ami du clergé. Paris: Mai, n. 20, 8v., p.329, 1896.
12  OLLIVIER, P. Les amitiés de Marie. L’Ami du clergé. Paris: Mai, n. 20, 8v.,330, 1896.
13 Cf.CLÁ DIAS, 2006(Arquivo IFTE)
14 CLÁ DIAS, 2008, p.4(Arquivo IFTE)
15  Cf. CLÁ DIAS, 2010(Arquivo IFTE)
16 MAITRIER, J. Petit sermon pour la féte de Sainte Marie-Madeleine. L’Ami du clergé. Paris: Juillet, n.28, 4v., 433-435, 1892.
17CLÁ DIAS, 2008, p.13(Arquivo IFTE)
18 CLÁ DIAS, 2008, p.15(Arquivo IFTE)
19 Cf. CLÁ DIAS, 2008(Arquivo IFTE)
20 Cf. CLÁ DIAS, 2008(Arquivo IFTE)
21 SALLES, F. Obras Selectas. Madrid: BAC, 1953, 1v, p.432-433

 

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Papa eleva à FESTA dia da memória de SANTA MARIA MADALENA  

Sexta-feira, 10 de junho de 2016, Da Redação, com Rádio Vaticano

Decisão do Papa de criar a Festa de Maria Madalena exalta a dignidade da mulher e destaca a santa que foi a primeira testemunha da ressurreição de Jesus

O Dia de Santa Maria Madalena foi elevado à condição de festa na Igreja católica. A decisão, por “desejo expresso do Papa”, foi comunicada nesta sexta-feira, 10, pelo Vaticano. A festa da santa será comemorada no calendário romano em 22 de julho, mesmo dia em que era celebrada sua memória.

Apostolorum Apostola, ou Apóstola dos Apóstolos: assim Santo Tomás de Aquino definia Santa Maria Madalena, testemunha ocular da ressurreição de Cristo e primeira a dar a notícia aos Apóstolos.

Dignidade da mulher

“A decisão se inscreve no atual contexto eclesial, que pede uma reflexão mais profunda sobre a dignidade da mulher, sobre a nova evangelização e sobre a grandeza do mistério da misericórdia divina”, explica Dom Artur Roche, secretário da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos.

A mensagem de São João Paulo II, na Carta Apostólica Mulieris dignitatem, que trouxe novo alento à questão das mulheres, segue importante hoje para a Igreja. E ganha uma nuance especial com o Jubileu da Misericórdia.

“Santa Maria Madalena é um exemplo de verdadeira e autêntica evangelizadora, uma evangelista que anuncia a alegre mensagem central da Páscoa. O Papa tomou esta decisão neste contexto jubilar para ressaltar esta mulher que mostrou um grande amor a Cristo e por Cristo tão amada”, disse ainda Dom Roche.

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