Solenidade de Pentecostes – Ano A

Por Mons. Inácio José Schuster

Solenidade de Pentecostes, com a qual concluímos, este ano também, o Tempo Pascal. O Espírito Santo é o espírito de Jesus ressuscitado. Ele não vem a nós diretamente do alto da Santíssima Trindade, e nem é propriamente falando nesta, a Solenidade do Espírito Santo. O Espírito Santo que recebemos não está desvinculado de Jesus, Ele não nos é dado diretamente da eternidade, mas Ele vem a nós do coração aberto de Cristo na cruz, é o Espírito de Jesus. No início do Evangelho de João é dito que, por ocasião do batismo de Jesus, o Espírito desceu e pousou sobre Ele sob a forma de uma pomba. O Batista exclama: “Quem vem depois de mim é mais forte do que eu. Eu os batizo com água, mas Ele voz batizará com o Espírito Santo e com o fogo.” Jesus, cheio do Espírito Santo, inicia Sua pregação do Reino de Deus na Galiléia. Certa vez, em Jerusalém – diz-nos este mesmo Evangelista – por ocasião da festa das tendas, em Seu último dia exclama: “Quem tem sede venha a Mim e beba. Daquele que crê em Mim, jorrarão rios de água viva.” E o Evangelista acrescenta, em uma nota entre parênteses: “Ele falava do Espírito que haveriam de receber os que Nele cressem, pois o Espírito Santo não tinha sido ainda dado, pois Jesus não havia sido ainda glorificado”. Por ocasião de Sua Paixão e morte na cruz, sempre este Evangelista nos diz que, a última palavra de Jesus foi: “Tudo está consumado”. E inclinando a cabeça, entregou o espírito nos dois sentidos. No sentido comumente compreendido, entregou Sua alma a Deus. No sentido teológico do quarto Evangelista, entregava também o Espírito Santo. E a quem o entregava? À mãe e ao discípulo, os representantes da futura Igreja, aos pés de Sua cruz. Logo a seguir, um soldado abre-Lhe o lado com uma lança e imediatamente escorrem sangue e água. O sangue, símbolo da Eucaristia e a água, símbolo do Espírito que Ele começava a derramar pela Igreja inteira. E a este propósito poderíamos ler tranquilamente o capítulo 47 de Ezequiel: “A água, de início um corregozinho quase imperceptível, que se torna, à medida que se escoa e se esvai do templo, um rio impetuoso”. Assim é o Espírito Santo de Deus. Claro, toda esta linguagem é uma linguagem metafórica, porque nós não possuímos palavras adequadas ou vocábulos certos para transmitir realidades que nos ultrapassam, de muito. E o Espírito Santo concedido por Deus é uma delas. No entanto, estejamos conscientes disto: quem tem o Espírito Santo de Deus, possui Deus, quem não tem o Seu Espírito Santo, não O possui. Quem O possui é de Cristo, e quem não O possui não pertencesse a Jesus Cristo. De resto, Deus nos perdoa os pecados infundindo-nos o Seu Espírito Santo e dando-nos a capacidade de amar. Eis o que hoje, com a Igreja, estamos celebrando.

 

VINDE, ESPÍRITO SANTO!
Padre Bantu Mendonça

Com a saudação de Jesus, três fenômenos acontecem na vida dos discípulos: 1º) Todos ficaram cheios do Espírito Santo. 2º) Batizados num só Espírito, formam um só corpo, que é a Igreja. 3º) São enviados ao mundo como mensageiros da Boa Nova da salvação. Assim – em harmonia com a promessa de Jesus – o Espírito Santo manifesta a Sua presença sob os sinais sensíveis do vento e do fogo, descendo sobre os apóstolos e transformando-os totalmente, consagrando-os para a missão que Ele lhes havia confiado. Com este batismo no Espírito Santo nascia assim, oficialmente, a Igreja. Nesse dia, homens separados por línguas, culturas, raças e nações começavam a reunir-se no grande Povo de Deus num movimento que só terminará com a segunda vinda gloriosa de Jesus Cristo. A presença do Espírito Santo é o sinal da unidade da Igreja. Todos n’Ele formamos um só Corpo, que tem como cabeça o próprio Cristo. Todos nós fomos batizados num só Espírito, para formarmos um só corpo. O Espírito Santo é «a alma da Igreja». É Ele quem nos dá a perfeita compreensão do mistério pascal e nos leva a anunciar a ressurreição a todos os homens, sem exceção. É por Ele que nós acreditamos que Jesus é Deus e essa nossa fé se mantém. É Ele que enriquece o Corpo Místico com dons e carismas, numa grande variedade de vocações, ministérios e atividades. É Ele que, ao mesmo tempo em que nos distingue, dando-nos uma personalidade própria dentro da Igreja, nos põe em comunhão uns com os outros, de tal modo que a diversidade não destrói a unidade. “Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós: Recebei o Espírito Santo”. Com a Páscoa, inicia-se a nova criação. E, como na primeira, também agora o Espírito Santo está presente, a insuflar aos homens, mortos pelo pecado, a vida nova do Ressuscitado, jorrando do Corpo glorificado de Cristo, em que se mantêm as cicatrizes da Paixão. O sopro purificador e recriador do mesmo Deus comunica-se aos apóstolos. Apodera-se deles, a fim de que possam prolongar a obra da nova criação. E assim a humanidade, reconciliada com Deus, conserve sempre a paz alcançada em Jesus Cristo. É o Espírito que reza em nós e por nós, invocando Deus Pai. Transforma-nos, cria harmonia e fraternidade, acalenta e dá ânimo, revitaliza, faz-nos recomeçar, perseverar, manter a fé, não desistir da caridade e do serviço. É fogo que purifica, ilumina, aquece, irradia. Os outros reconhecerão em nós a presença e a ação do Espírito Santo de Deus pelos frutos que produzirmos, resultantes da eficácia dos dons d’Ele [Espírito Santo] e da manifestação dos efeitos, em nós, dessa presença palpável do Deus invisível. Reze e peça comigo: “Desça sobre mim, Espírito Santo! Deixe-me sentir o Seu fogo de amor aqui no coração, Senhor!”

 

REAVIVADOS NO ESPÍRITO SANTO
Padre Roger Luís

Deus usa da liturgia de hoje para nos formar, não sei se você prestou a atenção na oração da coleta no dia de hoje: “ó Deus, que, pelo mistério da festa de hoje, santificai a vossa Igreja inteira, derramai por toda a extensão do mundo os dons do Espírito Santo, e realizai agora no coração dos fiéis as maravilhas que operastes no início da pregação do Evangelho”. E assim como aconteceu com os apóstolos, hoje pode acontecer conosco através do uso dos dons do Espírito Santo. Aquilo que a Igreja colocou na boca de cada sacerdote no dia de hoje nesta oração acima, é isso que Deus quer que aconteça conosco. Um novo derramamento do Espírito Santo. Você acredita na oração que a Igreja faz no dia de hoje? Se você acredita, precisamos tomar posse dessa graça, e assumir esta verdade de fé, pela força da verdade da Igreja. Se você acredita você já esta recebendo essa maravilha em sua vida. Veja a primeira leitura [Atos 2, 1-11] que é o relato de Pentecostes, e esse é o relato do querer do coração de Deus para todos nós. Deus quer que anunciemos a Boa Nova a todas as nações, levando o evangelho em todas as línguas. Esta foi a primeira vocação missionária que a Igreja recebeu no nascimento. Evangelizem pelo poder do Espírito Santo. Não permita que ninguém aprisione o Espírito Santo que esta dentro de você. Porque Ele é livre, é poder, é unção, não dê desculpas, se você é carismático, se você recebeu o Espírito Santo, o Espírito Santo vai fazer o que Ele quiser fazer, independente de qualquer pessoa. Você já tentou engarrafar o vento? Assim também não tem jeito de engarrafar o Espírito Santo. A única coisa que você precisa é ser o que você é. Não perca suas características. Seja carismático, não deixe de orar, não retenha o Espírito Santo, porem obedeça e respeite o seu pároco. O refrão do Salmo de hoje que foi cantado em todas as paróquias neste Domingo diz: “Enviai o vosso Espírito Santo Senhor e da Terra toda face renovai” (Salmo 103). A beata Helena Guerra em uma das suas cartas ao Papa já dizia: “Este universal reavivamento de bem será fruto de uma oração universal” Que a sua casa seja uma casa de clamor de reavivamento do Espírito Santo, não espere somente chegar o grupo de oração. Não, mas, permita que o Espírito Santo seja derramado todos os dias em sua vida. Quem quer ser um autentico cristão, será perseguido, não foi assim com Jesus Cristo? Assim acontecerá o mesmo com você. Por isso não tenha medo, nem vergonha de ser o que você realmente é, um carismático. São Paulo já dizia a Timóteo: Vós não recebestes um espírito de timidez, mas de coragem e de ousadia que se chama: Espírito Santo. Se nós formos quem devemos ser, quem vai retroceder será o Diabo, porque ele não suporta o reavivamento do Espírito Santo. Tome posse: Deus escolheu você, Deus marcou você, Deus selou você com o Espírito Santo, você é um profeta de um novo tempo e você será um instrumento usado por Deus para propagar esta profecia. Não tenha medo. Deus escolheu você para ser um portador da sua Graça. Sim foi você que Deus escolheu, com toda dificuldade que você já viveu, sim Ele escolheu você para marcar esta geração, para ser um instrumento de Deus para esse povo, sim foi você que Deus escolheu. Não te cales, não fique quieto, Deus investiu em você. Diga ao Senhor que você aceita esta escolha e acolha aquilo que Deus quer pra você. Diga a Deus o seu desejo de ser reavivada pelo poder o Espírito Santo. Não tenha medo do amor de Deus que é derramado em seu coração, experimente a ação do Espírito Santo em sua vida.

 

Pentecostes: 50º, o dia que completa o número da plenitude, sete semanas de sete dias mais um. Cinqüenta dias depois da saída do Egito, os judeus selaram a Aliança com Deus no Monte Sinai. A comunidade cristã, 50 dias depois da Páscoa de Cristo (sua passagem ou êxodo para a Vida Nova) recebeu o dom do Espírito que a transformou. Termina, com esta solenidade, o Tempo Pascal. Nas missas de vigília (temos 2 formulários), encontramos várias leituras, sobretudo do Antigo Testamento, que nos ajudam a refletir sobre o mistério do Pentecostes. Neste comentário, debruçar-nos-emos somente sobre as leituras da missa do dia. Na celebração desta solenidade, há que ter em conta o seguinte: cânticos que falem do Espírito Santo, a seqüência antes do evangelho (se possível, cantada), a bênção solene no final da celebração, o “Ide em paz” com duplo Aleluia, um cântico mariano no final da celebração (de preferência, o “Regina Coeli”) e o gesto simbólico de apagar o Círio Pascal e colocá-lo no Batistério. O Espírito Santo é o melhor dom que Jesus Ressuscitado concedeu à sua comunidade. São João, no seu evangelho, diz-nos que no dia de Páscoa, Jesus colocou-se no meio dos seus discípulos, saudou-os e, depois, disse-lhes: “Recebei o Espírito Santo”. Todavia, São Lucas, nos Atos dos Apóstolos, coloca a descida do Espírito Santo 50 dias depois da Páscoa: “todos ficaram cheios do Espírito Santo”. Que transformação realizada, pelo Espírito, nos primeiros discípulos! Um grupo silencioso e temeroso transformado em evangelizadores. Uma comunidade cheia de medo transforma-se numa comunidade cheia de coragem e de ânimo. São Paulo diz à igreja de Corinto que é o mesmo Espírito que enriquece a comunidade com os seus carismas e os seus ministérios: uma riqueza variada, dentro da unidade que Ele gera. O Espírito Santo que transforma a primeira comunidade cristã é o mesmo que pairava sobre as águas no Gênesis, que transformou Maria de Nazaré em Mãe do Filho de Deus, que ressuscitou Jesus do sepulcro. O prefácio desta solenidade dá graças a Deus por este dom do Espírito que continua, hoje, a ser a alma da Igreja: o Espírito Santo, que no princípio da Igreja nascente revelou o conhecimento de Deus a todos os povos da terra e uniu a diversidade das línguas na profissão duma só fé”. O Espírito de Deus continua a agir na Igreja de hoje: ensina-nos e motiva-nos a rezar através de uma liturgia renovada e de uma espiritualidade mais bíblica; ajuda-nos a aprofundar o conhecimento teológico da História da Salvação; gera novos movimentos e carismas que se vão adaptando à história e a querem transformar; concede-nos admiráveis exemplos de amor e de sacrifício, até ao martírio; faz surgir novas iniciativas a favor da unidade na vida da Igreja e na sua relação com as outras confissões cristãs. Se Jesus Cristo nos transmitiu uma missão (“como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós”), também nos deu a Sua ajuda: o Espírito Santo. É o Espírito que nos conduz à verdade plena, à unidade, ao amor concreto e também, como encontramos no evangelho de hoje, ao perdão e à reconciliação de Deus. Cada um de nós deve sentir-se “habitado” por este Espírito que nos vai convidando, mesmo contra as tendências deste mundo, a viver segundo a vontade de Cristo e nos dá forças para colaborarmos na construção de um mundo melhor. Pelo sacramento “do dom do Espírito”, a Confirmação, sintamo-nos movidos por Ele, que é fogo, luz, água.

 

DOMINGO DE PENTECOSTES
At 2, 1-11 “Todos ficaram repletos do Espírito Santo”

A liturgia de hoje nos descreve a descida do Espírito Santo sobre a comunidade dos discípulos, em duas tradições – as de Lucas (Atos) e da Comunidade do Discípulo Amado (João 20).  Salta aos olhos que uma leitura fundamentalista da bíblia – infelizmente ainda muito comum entre nós – leva a gente a um beco sem saída, pois no Evangelho de João a Ressurreição, a Ascensão e a descida do Espírito se deram no mesmo dia (Páscoa), enquanto Lucas separa os três eventos, num período de cinquenta dias.  Por isso devemos ler os textos dentro dos interesses teológicos dos diversos autores – os 40 dias de Lucas, por exemplo, entre a Ressurreição e a Ascensão, correspondem aos 40 dias da preparação de Jesus no deserto, para a sua missão. Pois como Jesus ficou “repleto do Espírito Santo” (Lc 4, 1) e se lançou na sua missão “com a força do Espírito” (Lc 4, 14), a comunidade cristã se preparou durante o mesmo período, e na festa judaica de Pentecostes também experimentou que “todos ficaram repletos do Espírito Santo” (At 2, 4). Uma leitura superficial do texto de Atos dá a impressão dum relato uniforme e coeso – mas isso se deve a habilidade literária do autor.  Na verdade, ele costurou um relato só, tecendo elementos de duas tradições.  Uma leitura cuidadosa nos mostra essas duas tradições: a primeira está nos vv. 1–4, uma tradição mais antiga e apocalíptica; a segunda está nos vv. 5-11, mais profética e missionária. Nos primeiros versículos, estamos no ambiente duma casa, onde os discípulos se reuniram.  Atos nos faz lembrar que estavam reunidos três grupos distintos, os Onze, as mulheres, entre as quais Maria, a mãe de Jesus, e os irmãos do Senhor.  Embora talvez representem três tradições cristológicas diferentes no tempo de Lucas, ele faz questão de enfatizar que todos estavam reunidos com “os mesmos sentimentos, e eram, assíduos na oração” (At 1, 14).  Quer dizer, a descida do Espírito não é algo mágico, mas conseqüência da unidade na fé e no seguimento do projeto de Jesus. O primeiro relato (vv 1-4) usa imagens apocalípticas, símbolos da teofania, ou da manifestação da presença de Deus – o som dum vendaval e as línguas de fogo.  A expressão externa da descida do Espírito é o “falar em outras línguas” (não o “falar em línguas”- glossolalia – tão valorizado por muitos grupos de cunho neo-pentecostal). A segunda tradição muda o enfoque.  O ambiente muda da casa para um lugar público – provavelmente o pátio do Templo.  O sinal visível da presença do Espírito não é mais o falar em outras línguas, mas o fato que todos os presentes pudessem “ouvir, na sua própria língua, os discípulos falarem” (At 1, 6).  O termo “ouvir” aqui implica também “compreender”.  Três vezes o relato destaca o fato dos presentes poderem “ouvir” na sua própria língua (vv. 6.8.11).  Assim, Lucas quer enfatizar que o dom do Espírito Santo tem um objetivo missionário e profético – de fazer com que toda a humanidade possa ouvir e compreender a nova linguagem, que une todas as raças e culturas – ou seja, a do amor, da solidariedade, do projeto de Jesus, do Reino de Deus. A lista dos presentes tem um sentido especial – estão mencionadas raças, áreas geográficas, culturas e religiões.  Todos ouvem as maravilhas do Senhor.  Assim Lucas ensina que a aceitação do evangelho não exige deixar a identidade cultural. Contesta a dominação cultural, ou seja, a identificação do Evangelho com uma cultura específica.  Durante séculos este fato foi esquecido nas Igrejas, e identificava-se o Evangelho com a sua expressão cultural européia.  Nos últimos anos a Igreja tem insistido muito na necessidade da “inculturação”, de anunciar e vivenciar a mensagem de Jesus dentro das expressões culturais das diversas raças e etnias. O texto é uma releitura da Torre de Babel, onde a língua única era o instrumento dum projeto de dominação (uma torre até o céu) que foi destruído por Deus pela diversidade de línguas.  Nenhuma cultura ou etnia pode identificar o evangelho com a sua expressão cultural dele. Hoje é uma grande festa missionária.  Marca a transformação da Igreja duma seita judaica à uma comunidade universal, missionária mas não proselitista, comprometida com a construção do Reino de Deus “até os confins da terra”. Lucas  insiste que a experiência de Pentecostes não se limita a um evento – é uma experiência contínua – por isso relata novas descidas do Espírito Santo: numa comunidade em oração numa casa (At 4, 31), sobre os samaritanos (At 8, 17), e, para o espanto dos judeu-cristãos ortodoxos, sobre os pagãos na casa do Cornélio (At 10, 4).  Pois o Espírito Santo sopra onde quer, sobre quem quer, em favor do Reino de Deus.  Aprendamos do texto de Atos, e celebremos a nossa vocação missionária, não a de falar em línguas, mas de falar a língua única do amor e do compromisso com o Reino, para que a mensagem do Evangelho penetre todos os povos, culturas, raças e etnias.

 

“RECEBEI O ESPÍRITO SANTO!”
Por Gabriel Frade, professor de Liturgia e Sacramentos
Domingo de Pentecostes
(Leituras da Missa da Vigília: 1ª Leitura: Gn 11, 1-9; Sl 32, 10-11.12-13.14-15; 2ª Leitura: Ex 19, 3-8.16-20; Cântico de Daniel 3, 52-56; 3ª Leitura: Ez 37, 1-14; Sl 106, 2-9; 4ª Leitura: Jl 3, 1-5; Sl 103, 1, 2ª.24 e 35c.27-28.29bc-30).
Leituras da missa: 1ª (5ª) At2, 1-11; Sl 103 (104) 1 ab. 24ac. 29bc-30.31.34; 2ª (6ª)1 Cor 12, 3b-7.12-13; Evangelho: Jo 20, 19-23

Veni Creator Spiritus (Hino do século IX)
Antes de ser uma festa cristã, Pentecostes era uma celebração judaica particularmente sentida dentro do antigo calendário religioso judeu. Sete semanas depois da festa dos pães ázimos, isto é, da Páscoa, ocorria em Israel a festa das Semanas ou a festa das Primícias (em hebraico, respectivamente, Shabuot e Bikurim). Essa festa tinha como objeto a ação de graças do povo em virtude da colheita do trigo e, para marcar esse momento, fazia-se no Templo a oferta das primícias a Deus, isto é, os primeiros frutos da terra, simbolizados na entrega de um primeiro feixe colhido no campo. Era, portanto, uma festa inicialmente de caráter agrícola (cf. Ex, 23, 14; Nm 28, 26) onde se agradecia a generosidade de Deus pelos dons da colheita. Por ser o qüinquagésimo dia – na antiguidade o primeiro e o último dia de um tempo festivo eram contados como um único dia – a festa foi chamada de pentecostes, isto é, do grego qüinquagésimo (dia). Era uma festa alegre e que posteriormente foi associada à recordação da conclusão da Aliança no Sinai e à entrega da Lei, oferta generosa de Deus, por meio de Moisés ao Povo eleito (cf. 2 Cr 15, 10-13). Juntamente com a Páscoa, era uma das grandes festas de peregrinação para Israel (cf. At 20, 16) e à qual todo judeu piedoso era chamado a participar: “Achavam-se então em Jerusalém judeus piedosos, vindos de todas as nações que há debaixo do céu” (At 2, 5). Além do sentido de gratidão pelas primícias e pela entrega da Lei, havia outros aspectos muito interessantes dentro dessa festa do Antigo Testamento. Fílon de Alexandria, por exemplo, nos faz saber que o número cinquenta tinha um significado especial para os judeus, pois remetia diretamente ao fato do jubileu, isto é, à remissão que a cada cinqüenta anos os judeus deveriam fazer em relação às dívidas e à libertação dos escravos (Lv 25, 10). De fato, um pouco mais tarde, os Padres da Igreja também tirariam proveito desse simbolismo, ao associarem o número cinqüenta ao perdão dos pecados: “Alguns dizem que este número cinqüenta é símbolo da esperança e da remissão que ocorre em Pentecostes” – dizia Clemente de Alexandria (Stromata, VI, 11). “Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados” – Evangelho: Jo 20, 22s. Fazer a experiência do perdão é experimentar a misericórdia de Deus. A palavra “misericórdia” vem do latim e faz uma referência ao coração (cordis), um órgão que, segundo a cultura greco-romana, quer designar o centro da pessoa, o seu íntimo; mas este termo possui também conotações relativas à mutabilidade: ora o coração está alegre, ora está irritado… Já na língua hebraica o termo usado para dizer a atitude de misericórdia de Deus para com o homem é rahamim, isto é, o ventre, mais precisamente o útero materno. Experimentar o perdão de Deus é fazer uma experiência profunda de regeneração: “Por ventura tornarão a viver estes ossos? […] Profetiza a esses ossos: Eis que vou fazer com que sejais penetrados pelo espírito e vivereis”. (Ez 36, 3s). De fato, é com o dom do Espírito Santo que “os mistérios pascais são levados à plenitude” (cf. Prefácio do Domingo de Pentecostes). Entendemos então porque na missa se pede ao Pai que o Espírito seja derramado para que as oferendas se tornem o corpo e o sangue de Cristo […] sangue derramado por nós e por todos para a remissão dos pecados (cf. Missal Romano, Oração Eucarística II). A liturgia, por força do Espírito, nos faz experimentar no hoje da nossa história a efusão do Espírito Santo, nos faz experimentar o mesmo dia de Pentecostes vivido pelos Apóstolos nos primórdios da história do cristianismo: “No dia de Pentecostes (no termo das sete semanas pascais), a Páscoa de Cristo completou-se com a efusão do Espírito Santo que Se manifestou, Se deu e Se comunicou como Pessoa divina: da sua plenitude, Cristo Senhor derrama em profusão o Espírito” (Catecismo da Igreja Católica n. 731). Eis porque a Igreja insiste para que seja feita a Vigília da forma mais longa – se possível também com a celebração das Vésperas (Liturgia das Horas) – com a proclamação das leituras do Antigo Testamento, as quais retomam a história da salvação: “Irmãs e irmãos caríssimos, a exemplo dos Apóstolos e discípulos que, com Maria, a Mãe de Jesus, perseveraram em oração, aguardando o Espírito prometido pelo Senhor, ouçamos, de ânimo sereno, a Palavra de Deus”. (Missal Romano, Apêndice, 1). É através da efusão do Espírito em nossos corações que temos a certeza que Deus nos ama e nos perdoa; que Ele nos oferece a possibilidade de reencontrarmos a unidade perdida; a nós, que vivemos fragmentados dentro de um mundo fragmentário (Gn 11, 1ss – a torre de Babel); justamente a nós foi dada a possibilidade da unidade: “com efeito o corpo é um e, não obstante, tem muitos membros, mas todos os membros do corpo, apesar de serem muitos, formam um só corpo. Assim também acontece com Cristo” (1 Cor 12, 12). E essa unidade só é possível em Cristo, o homem por excelência, por meio do Espírito. É o que nos diz Santo Irineu neste belíssimo texto quando equipara o Espírito à água: “Assim como a farinha seca não pode, sem água, tornar-se uma só massa nem um só pão, nós também, que somos muitos, não poderíamos transformar-nos num só corpo, em Cristo Jesus, sem a água que vem do céu. E assim como a terra árida não produz fruto se não for regada, também nós, que éramos antes como uma árvore ressequida, jamais daríamos frutos de vida, sem a chuva da graça enviada do alto”. (Santo Irineu, Tratado contra as Heresias, lib. 3, 17, 1-3) A ação do Espírito contempla sem dúvida alguma também a dimensão do sujeito individual. Isso fica patente ao longo da celebração litúrgica quando, por exemplo, a voz do salmista, ao cantar na Sequência de Pentecostes, se expressa nestes termos: Sem a tua luz/nada o homem pode/nenhum bem há nele/lava o que é sujo/rega o que é árido/cura o que está doente/Dobra o que é duro/aquece o que é frio/abre caminho nas trevas Mas há que se dizer que esta não é, por certo, a dimensão maior. Pentecostes é algo que nos contempla enquanto pessoas, indivíduos, mas é também algo que nos supera e em muito. O Espírito sopra onde quer (Jo 3, 8) e o Pai santifica a sua Igreja, una, em meio às diversidades humanas, e derrama por toda a extensão do mundo os dons do Espírito para que se realize agora no coração dos fiéis as maravilhas que ele operou (cf. Oração do Dia). Receber o Espírito de Deus significa estar aberto não só a Deus, mas também ao próximo; significa concretamente abrir mão da própria individualidade para ir em direção ao outro, significa “anunciar as maravilhas de Deus” (At 2, 11), o Evangelho eterno (cf. Ap 14, 6), feito não só de palavras, mas de gestos concretos; significa saber discernir os tempos e os momentos; significa saber escutar a voz delicada e interior desse Espírito que geme dentro de nós e nos faz proclamar que “Jesus é o Senhor!” (1 Cor 12, 3).

 

O EDUCADOR DAS ALMAS
Cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho, Professor no Seminário de Mariana – MG

A solenidade de Pentecostes vem lembrar que o Espírito Santo é o educador das almas. Como ensina São Basílio, Ele, “origem da santidade, luz inteligível, oferece de Si mesmo esclarecimentos a todas as forças racionais, na investigação da verdade, presente como o sol, em cada um que tenha capacidade, derramando em todos quantos dele participam, na medida em que sua natureza necessita, não na que Ele pode dar. Por Ele os corações são levados, pela mão são conduzidos os fracos, os que se adiantam chegam à perfeição. Brilhando nos purificados de toda a mancha, torna-os espirituais pela comunhão com Ele”. Eis por que é necessário conhecê-Lo e apreciar o tesouro que oferece a quem O ama. Os discípulos de Éfeso surpreenderam São Paulo pela ignorância ao afirmarem: “Nós nem sequer ouvimos dizer que há Espírito Santo” (Atos 19, 12). O Apóstolo então lhes impôs as mãos e as doze pessoas com que se encontrara receberam a efusão da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade. Como resultado imediato da união com o Santificador se dá uma mais profunda compreensão do mistério de Cristo. Este afirmou: “O Consolador que Eu vos hei de enviar, o Espírito da verdade, que do Pai procede, Ele dará testemunho de mim” (Jo 15,26). Martinez com propriedade asseverou: “O cântico que o Espírito Santo inspira às almas é esse poema de luz e de amor que é Jesus, o cântico de Deus”. É o que Santo Hilário também ensina, mostrando que “o dom do Espírito Santo vem, pela intercessão prometida, iluminar nossa fé em dificuldades acerca da encarnação de Deus”. São Paulo lembrava aos coríntios outro aspecto importante: “Não sabíeis… que o espírito de Deus mora em vós?” (1Cor 3, 16). Se assim é, o convívio com este Hóspede divino é um dever elementar de cortesia. Ele vem àquele que O ama, infundindo virtudes e dons que frutificam na medida da correspondência de cada um. O Concílio Ecumênico Vaticano II patenteia esta excelsa realidade: “O Espírito habita na Igreja e nos corações dos fiéis como em um templo. Neles ora e dá testemunho da adoção de filhos. Conduz a Igreja a toda a verdade, unifica-a na comunhão e nos ministérios, enriquece-a com variados dons carismáticos e hierárquicos e a ornamenta com seus frutos”. Disponibilidade e generosidade são disposições básicas para a ação divina, pois além de consolidarem um comportamento moral compatível com a vontade do Criador, dão aquela necessária disposição interior para seguir as inspirações celestes. A presença do Espírito Santo é atuante e supõe assim adesão que significa não colocar óbices às suas operações salutares. Ele quer dialogar com cada batizado e mister se faz saber escutá-Lo e com Ele conversar. Diz o autor da Imitação de Cristo: “Bem-aventurada a alma que escuta o Senhor que nela fala”. Ele é exigente. Como observa Boegner, “jamais deixa tranqüilo aquele que Ele toca…”. De fato, a caminhada pelas veredas da perfeição é árdua. Cristo, aliás, não deixou dúvidas a este respeito: “Se alguém quiser vier após Mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me. Porque o que quiser salvar a sua alma, perdê-la-á: o que perder a sua alma por amor de Mim, achá-la-á” (Lc 9, 23-24). É o Espírito Santo que através de seus Dons possibilita esta entrega amável a uma abnegação sem limites que supõe fortaleza interior, temor reverencial de perder Cristo, no Qual piedosamente se contempla o Redentor, Cuja companhia é degustada com sabedoria. O peso da cruz é visto via ciência como meio precioso rumo à identificação com o Mestre. É o Paráclito que mostra os caminhos do Filho, aconselhando, através de suas místicas inspirações, quando há o risco de se apartar Dele. O Apóstolo das Gentes faz esta advertência: “Não entristeçais o Espírito Santo de Deus, pelo Qual fostes marcados com um selo para o dia da redenção” (Ef 4, 30). Felizes os que se entregam a este Artista divino. Ele opera então uma obra prima, digna da Jerusalém do Alto.

 

SEM O ESPÍRITO SANTO, O CRISTO PERMANECE NO PASSADO
Pentecostes é a coroação da Páscoa de Cristo

Pentecostes, do grego “pentekosté”, é o qüinquagésimo dia após a Páscoa. Comemora-se o envio do Espírito Santo à Igreja. A partir da Ascensão de Cristo, os discípulos e a comunidade não tinham mais a presença física do Mestre. Em cumprimento à promessa de Jesus, o Espírito foi enviado sobre os apóstolos. Dessa forma, Cristo continua presente na Igreja, que é continuadora da sua missão. A origem do Pentecostes vem do Antigo Testamento, a qual era uma celebração da colheita (cf. Êxodo 23, 14), dia de alegria e ação de graças, portanto, uma festa agrária. Nela, o povo oferecia a Deus os primeiros frutos que a terra tinha produzido. Mais tarde, tornou-se também a festa da renovação da Aliança do Sinai (cf. Ex 19, 1-16). No Novo Testamento, o Pentecostes está relatado no livro dos Atos dos Apóstolos 2, 1-13. Como era costume, os discípulos, juntamente com Maria, Mãe de Jesus, estavam reunidos para a celebração do Pentecostes judaico. De acordo com o relato, durante a celebração, ouviu-se um ruído: “Como se soprasse um vento impetuoso”. “Línguas de fogo” pousaram sobre os apóstolos e todos ficaram repletos do Espírito Santo e começaram a falar em diversas línguas. Pentecostes é a coroação da Páscoa de Cristo. Nele, acontece a plenificação da Páscoa, pois a vinda do Espírito sobre os discípulos manifesta a riqueza da vida nova do Ressuscitado no coração, na vida e na missão dos discípulos. Podemos notar a importância de Pentecostes nas palavras do Patriarca Atenágoras (1948-1972): “Sem o Espírito Santo, Deus está distante, o Cristo permanece no passado, o Evangelho uma letra morta, a Igreja uma simples organização, a autoridade um poder, a missão uma propaganda, o culto um arcaísmo, e a ação moral uma ação de escravos”. O Espírito traz presente o Ressuscitado à sua Igreja e garante a ela a vida e a eficácia da missão. Dada sua importância, a celebração do Domingo de Pentecostes inicia-se com uma vigília, no sábado. É a preparação para a vinda do Espírito Santo, que comunica seus dons à Igreja nascente. O Pentecostes é, portanto, a celebração da efusão do Espírito Santo. Os sinais externos, descritos no livro dos Atos dos Apóstolos, são uma confirmação da descida do Espírito: ruídos vindos do céu, vento forte e chamas de fogo. Para os cristãos, o Pentecostes marca o nascimento da Igreja e sua vocação para a missão universal.

Fonte: Comunidade Shalom

Nenhum comentário ainda

Comentários desativados

Desenvolvido por Origy Networks – Criação de sites e propaganda