Solenidade da Ascensão do Senhor – Ano A

Por Mons. Inácio José Schuster

Hoje, com a Igreja no Brasil, celebramos a solenidade da Ascensão de Jesus. Ressurreição e Ascensão formam as duas faces de uma mesma medalha. Com a Ressurreição, contemplamos Jesus vitorioso do pecado e da morte. Com a Ascensão, contemplamos Deus, que realizou em Jesus um ato escatológico último, fazendo-O sentar-Se no mais alto dos Céus, à Sua direita. Com a Ascensão contemplamos Jesus, em Sua humanidade, entrando na realidade primíssima e ultimíssima de Deus. Hoje nesta solenidade nós nos perguntamos: o que é o céu para onde foi ou aonde esteve Jesus? Onde ele se encontra? Antigamente era fácil falar no céu; olhava-se o firmamento. Bastava levantar a cabeça e estávamos em contato com o céu. Hoje, com o avanço das ciências modernas, esta concepção afastou-se. O céu a que nos referimos, não é mais o firmamento. Quando se iniciou o movimento das espaçonaves em nosso espaço sideral, houve um astronauta soviético que afirmou o seguinte: “Eu girei pelo espaço do céu e não me encontrei com Deus.” Na verdade, quando nos referimos ao céu de Deus, não queremos falar do firmamento sideral. Quando nos referimos ao céu de Deus e afirmamos que Deus está no céu, queremos simplesmente dizer que Ele não está a nosso alcance de mãos, Ele habita em luz inacessível. E quando dizemos que Jesus, com Sua ascensão, corporalmente subiu aos céus, queremos dizer que, corporalmente, Jesus com a ascensão entrou nessa luz inacessível que é Deus. No início do Evangelho de Mateus, ele nos apresentava Jesus como Emanuel; Deus conosco. Agora que Jesus Se vai, nós não lemos o início do Evangelho, lemos sim hoje e proclamamos o seu epílogo. No alto de uma montanha, Jesus ressuscitado despede-Se dos Seus. “Todo poder foi Me dado no céu e na Terra”. Satanás, durante as tentações, quis antecipar esta dádiva, porém só na terra. Agora todo o poder Lhe é dado por Deus, no céu e na terra, após o serviço da Paixão e de Sua morte. “Fazei discípulos Meus em todo o mundo, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, e eis que estarei convosco todos os dias até o fim dos séculos.” Mesmo após a ascensão, e com a ascensão, Jesus não nos abandona. Jesus é Emanuel, Jesus é Deus conosco. Ocorre apenas que, após Sua ascensão e durante todo o tempo da Igreja, Sua presença será no interior da Igreja, será no coração da Igreja, será no interior de cada um de nós, e quem trará esta nova presença do ressuscitado para o interior de cada um, é o Espírito Santo. Ele vai e Ele volta a nós no Espírito Santo, porque é Emanuel, é Deus conosco e continua invisível, mas real e presente a acompanhar-nos rumo à eternidade.

 

SOMOS ENVIADOS A COOPERAR NA REALIZAÇÃO DO PROPÓSITO DE DEUS
Padre Bantu Mendonça

Jesus nos envia hoje ao mundo inteiro – assim como fora enviado pelo Pai – dizendo: “Ide portanto, e fazei que todas as nações se tornem discípulos, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-as a observar tudo quanto vos ordenei. E eis que eu estou convosco todos os dias até à consumação dos séculos” (Mt 28,18-20). Fiel ao objetivo de apresentar Jesus como sendo o novo Moisés, porém, Mestre de um novo ensinamento, o evangelista Mateus observa que os Onze discípulos se encaminham para a montanha que o próprio Cristo lhes determinara. A única aparição do Ressuscitado aos Onze – segundo Mateus – passa a ser, então, um encontro marcado no monte ao qual fala de Sua autoridade sobre o céu e a terra e transmite o poder de ensinar a todos e de batizar. O contexto se assemelha, pois, à promulgação de uma norma: “Fazei que todas as nações se tornem discípulos, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e ensinando-as a observar tudo quanto vos ordenei”. Na verdade, temos um mandato ou uma ordem explícita de missão, calcada no senhorio universal de Cristo. Tal senhorio é recebido do Pai, manifesta-se no mandato e é reconhecido pelos discípulos que se prostraram. A Igreja recebe o poder de estender e dilatar a obra de Cristo em todo o mundo pelo ensinamento e o batismo no nome das pessoas divinas. Além disso, conta com a presença de seu Senhor até a consumação dos séculos. Jesus veio até nós para abrir o caminho que nos leva ao nosso destino, que é o Pai. Se nos unirmos a Jesus, n’Ele já estamos caminhando para o mesmo Pai. Hoje celebremos este Pai que nos cria e envia em missão de vida ao mundo e nos espera de volta para a plenitude da vida. Anunciemos a toda humanidade este caminho de vida. Mateus fala-nos hoje de onze discípulos. Complete você este grupo. Seja o “décimo-segundo” enviado a testemunhar Jesus, o Caminho de toda a humanidade ao Pai! Voltando para junto do Pai, Jesus conclui o caminho de vida que nos veio abrir. Este caminho precisa ser conhecido de todos: “Ide e fazei discípulos meus todos os povos. ensinado-os a observar tudo o que vos ordenei”. Para testemunhar este caminho, precisamos da Sua presença. O Espírito Santo impele-nos a cooperar na realização do propósito de Deus, que estabeleceu Cristo como princípio de Salvação para o mundo inteiro.

 

O SENHOR PRECISA SER O CENTRO
Pe. Paulinho

Estamos num tempo propício que a Igreja nos oferece. Ainda estamos com o círio pascal em meio a nós. Vivamos muito bem este tempo e esta semana onde nos preparamos para festa de Pentecostes. Nós como Igreja somos chamados a sermos cristãos cheios do Espírito Santo. Precisamos viver Pentecostes todos os dias de nossas vidas. Hoje é tempo da volta de Jesus ao Pai. Se Ele não voltasse nós não iríamos. Sabemos o caminho de volta para o Pai porque Jesus foi antes que nós. Hoje a liturgia nos aponta a despedida de Jesus aos seus. Jesus após a ressurreição ainda permaneceu por um tempo aqui, mas logo subiu ao Céu. Jesus é a cabeça da Igreja, ou seja, Ele da a ordem ao resto do corpo que somos nós. O Senhor precisa ser o centro de tudo. O caminho é Jesus, a meta. Você que escolhe esta pessoa para ficar com você precisa entender que o Senhor tem que estar no centro, em cima do relacionamento de vocês para que do Cristo venha as direções. O seu cônjuge não pode estar em primeiro lugar, pois o primeiro lugar é de Deus, é Ele quem da as direções. Um casamento para ser para sempre começa de encontro a encontro. É preciso construir o relacionamento de dentro para fora, conhecer o coração do outro, as verdades e fraquezas. Quando começa de dentro para fora não tem como não dar certo. Vocês começam daquilo que tem de melhor, aquilo que Deus lhe deu. É a experiência de construir a história com o Senhor, pois sozinho não é possível chegar a lugar algum. A cada um é dada uma missão daqui para frente. Você também é comunicador do Evangelho, chamado a trazer nos lábios a Boa Nova. Você volta pra casa diferente hoje. Não queira voltar a vida velha que você tinha, mas fecha a porta e aceite o novo que Deus plantou em você. Foi o Senhor primeiro que nos escolheu, que cuida de nós e nos envia. É um presente para todos nós viver a serviço do Evangelho. Não há barreiras para ter uma família. O que falta para que daqui pra frente comece tudo novo? Uma família que quer viver de maneira correta diante do Senhor sempre terá dificuldades e será preciso passar pelo caminho da unidade. Se não houver reconciliação o relacionamento não perdura. Que o Senhor nos dê um espírito de sabedoria e unidade. Se a unidade do casal é estabelecida pode vir qualquer problema que ele agüentará. Nossas dificuldades devem servir como um trampolim de amadurecimento em nossas vidas. Sua vida não pode mais ser a mesma, pois você não é mais o mesmo. Uma vida nova começa quando você voltar pra casa. Se por ventura vir a cair novamente a Igreja estará de braços abertos para te receber de volta. O que importa é caminhar junto, pois assim é muito mais fácil. Queira construir a unidade com o pai e a mãe que já passaram por muitas coisas. Um passo errado pode custar o futuro, então deixe o tempo resolver as coisas. Viva as claras e na transparência com o seu companheiro. Tenha coragem que se preciso for dar um ponto final, não deixe reticências. Deus vai te instruir e dar sabedoria.

 

DOMINGO DA ASCENSÃO DO SENHOR
Mt 28, 16-20
“Eu estarei com vocês todos os dias até o fim do mundo”    

Chegamos ao último trecho do Evangelho de Mateus. Podemos dizer que o evangelho todo culmina na postura dos discípulos, descrita no versículo 17: “Ajoelharam-se diante dele” – uma postura de adoração, de reconhecimento da sua natureza divina. Porém o trecho nos adverte que muitas vezes a nossa fé em Jesus também pode ser vacilante, quando fala “ainda assim, alguns duvidaram”.  Depois dum longo escrito de vinte e oito capítulos, o Evangelho termina duma forma muito resumida, neste texto de hoje.  É um texto tão denso em conteúdo que dificilmente a gente pode imaginar como dizer mais coisas em tão poucas palavras.  Como gênero literário, reúne elementos das “entronizações” do Antigo Testamento, com a comissão apostólica.  Em primeiro lugar, vale notar a localização do acontecimento, em Mateus – na Galiléia.  Seguindo o mandamento dado pelo anjo do Senhor na manhã da Ressurreição (Mt 28, 7), os discípulos voltam para a Galiléia para encontrar-se com o Senhor Ressuscitado.  Aqui “Galiléia” significa mais do que um local geográfico!  A Galiléia era lugar da missão de Jesus, onde ele serviu os pobres e marginalizados da sociedade e a religião.  Voltar para a Galiléia significava voltar para a prática de Jesus, um afastamento de Jerusalém, simboliza distância da sede de poder e dominação. Mateus nos ensina que quem quiser encontrar-se na sua vida com o Jesus Ressuscitado, deve assumir o seguimento de Jesus, na prática das suas opções, aplicadas às condições e desafios da sociedade de hoje.  O que significa assumir as opções práticas de Jesus no nosso mundo de consumismo e exclusão?  Embora haja uma referência à visão que os apóstolos tiveram de Jesus, a ênfase cai sobre as suas palavras.  Não há nenhum relato duma ascensão, pois para Mateus, já tinha acontecido junto com a ressurreição.  As últimas palavras de Jesus poderão ser divididas em três partes, referentes ao passado, ao presente e ao futuro.  Jesus declara que toda autoridade foi dada a Ele no céu e sobre a terra – o verbo está no passado e ensina que Deus deu a Jesus a autoridade como Filho do Homem.  Essa autoridade é a do Reino de Deus (cf. Dn 7, 14; 2 Cr 36, 23; Mt 6, 10).  O mandamento missionário se refere ao presente dos discípulos – a sua missão universal e permanente de alastrar o Reino de Deus, para que todas as culturas, raças, etnias e religiões cheguem a ter o conhecimento da verdadeira face de Deus.  Assim, Mateus mostra que a Igreja é missionária pela sua natureza, e uma Igreja que não a é, está traindo a sua natureza e identidade.  Missão não é proselitismo, não é angariar novos adeptos para a Igreja – mas é continuar a missão de Jesus, cuja mensagem foi centrada na chegada do Reino de Deus.  Assim somos chamados a sairmos dos limites visíveis das nossas comunidades, para que, em diálogo profético com todas as pessoas da boa vontade, colaboremos para que o Reino de Deus – a vivência da vontade do Pai- se torne realidade no nosso mundo.  Mas Mateus não ignorava as dificuldades inerentes nessa missão.  Cinqüenta anos depois da Ascensão, a sua comunidade, perseguida e fraca, experimentava a tentação do desânimo.  Por isso insiste no elemento do futuro, que Jesus está e sempre estará com a comunidade dos discípulos. Por isso, não há porque desanimar diante das inevitáveis incompreensões e dificuldades.  Pois, como Paulo dizia, a partir da sua experiência prática de missionário “quando Deus está conosco, nada estará contra nós” (Rom 8, 11).  A festa da Ascensão não celebra o afastamento de Jesus da sua comunidade, mas o contrário, a sua presença duma nova forma – na comunidade missionária dos discípulos.  Domingo próximo, celebraremos essa nova presença, na Festa de Pentecostes.

 

Ainda em Tempo Pascal, este domingo coloca diante de nós um acontecimento da vida de Jesus: a sua ascensão ao céu. Como nos diz o livro dos Atos dos Apóstolos (1ª leitura), Jesus, quarenta dias depois da sua ressurreição, subiu ao céu. Durante muito tempo na Igreja, esta solenidade foi celebrada na quinta-feira passada, respeitando a exatidão cronológica. Atualmente, foi transferida para o domingo para que todos os cristãos pudessem celebrar este mistério da vida de Cristo que, dada a sua importância, é referenciada no Credo. É bom não esquecer que não se trata de um acontecimento isolado, mas intimamente ligado à Páscoa. Na liturgia deste domingo, é-nos recordado também este momento da vida de Jesus na Oração Eucarística e no Prefácio próprio. Seria oportuno proclamar a Oração Eucarística I ou III, porque ambas fazem referência na “anamnese” à ascensão do Senhor. O mistério da ascensão do Senhor (Jesus sobe ao céu e senta-se à direita do Pai) coloca-nos diante da glorificação de Cristo. A glória velada (escondida) de Jesus Cristo na sua humanidade durante as suas aparições depois da ressurreição, entra no domínio celeste, manifestando toda a sua potencialidade. Jesus foi constituído Senhor, participando no poder e na autoridade de Deus. São Paulo diz na segunda leitura: “colocou (Jesus) à sua direita nos Céus, acima de todo o Principado, Poder, Virtude e Soberania, acima de todo o nome que é pronunciado, não só neste mundo, mas também no mundo que há-de vir”. O Prefácio da Ascensão I explica resumidamente esta idéia: “Jesus Cristo, Rei da glória, vencedor da morte e do pecado, subiu hoje ao mais alto dos céus, ante a admiração dos Anjos, e foi constituído mediador entre Deus e os homens, juiz do mundo e Senhor dos senhores”; como também o “Memento” das orações eucarísticas I e III: “Jesus Cristo, vosso Filho Unigênito, colocou à direita da vossa glória a nossa frágil natureza humana unida à sua divindade”. O mistério da ascensão do Senhor coloca-nos também diante da glorificação da humanidade. Em Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, foi exaltada a natureza humana assumida pelo Verbo de Deus. Assim, a ascensão faz-nos compreender “a esperança a que fostes chamados, os tesouros de glória da sua herança entre os santos e a incomensurável grandeza do seu poder para nós os crentes” (2ª leitura). Também na eucologia deste domingo encontramos esta ideia: “onde já se encontra convosco, em Cristo, a nossa natureza humana” (oração depois da comunhão), “subiu aos céus, para nos tornar participantes da sua divindade” (Prefácio da Ascensão II), “colocou à direita da vossa glória a nossa frágil natureza humana unida à sua divindade” (“Memento” do Cânon Romano). A glorificação da humanidade é expressa, metaforicamente, na imagem paulina do corpo no qual Cristo é a cabeça: “tendo-nos precedido na glória como nossa Cabeça, para aí nos chama como membros do seu Corpo” (oração coleta); “subindo aos céus, como nossa cabeça e primogênito, deu-nos a esperança de irmos um dia ao seu encontro, como membros do seu Corpo, para nos unir à sua glória imortal” (Prefácio da Ascensão I). Antes de subir ao céu, Jesus envia os seus discípulos a evangelizar por todo o mundo: “Ide e ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a cumprir tudo o que vos mandei” (evangelho). A missão é fundamental e essencial na vida do cristão. Nós somos testemunhas do Ressuscitado e devemos anunciá-Lo a todos os povos. É isto que Jesus nos pede: “recebereis a força do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém e em toda a Judeia e na Samaria e até aos confins da terra” (1ª leitura). No dia da ascensão, os anjos disseram aos discípulos: “Homens da Galileia, porque estais a olhar para o Céu?”. Ser cristão não é somente ter uma grande amizade com Jesus, mas também ser enviado.

 

“EU ESTOU CONVOSCO TODOS OS DIAS”
Por Gabriel Frade, professor de Liturgia e Sacramentos
Domingo da Ascensão do Senhor
At 1, 1-11; Salmo: 46 (47) 2-3.6-7.8-9; Ef 1, 17-23; Mt 28, 16-20

“E eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos!” (Mt 28, 20)
Estamos nos aproximando da grande Solenidade de Pentecostes. A Igreja, através da liturgia, quarenta dias após a Páscoa nos prepara e nos encaminha para entrarmos no Mistério Pascal do Senhor e, de modo particular neste tempo, para recebermos o grande fruto desse Mistério: o Espírito Santo. A primeira leitura apresenta o início do livro dos Atos dos Apóstolos, onde o evangelista Lucas narra os fatos que se deram após a ressurreição de Jesus. Nesse relato o autor frisa as inúmeras “provas incontestáveis” que Jesus – descrito como o vivente (v. 3); cf. Ap 1, 18 – dera aos seus discípulos ao longo de quarenta dias para mostra-lhes que era ele mesmo, que não se tratava de um fantasma (cf. Lc 24, 36ss). A menção ao número de quarenta dias, mais do que uma alusão histórica é provavelmente um número simbólico: recorda os quarenta dias de Moisés na montanha (Ex 24, 18; 34, 28; Dt 9,9) e os quarenta dias de Elias peregrino (1 Rs 19, 8). Apesar dos apóstolos terem presenciado tantas maravilhas feitas por Jesus durante seu ministério e de Jesus agora apresentar-se Ressuscitado diante deles, os discípulos ainda não entendiam: raciocinavam apenas de modo humano: “Senhor é agora o tempo em que irás restaurar a realeza em Israel?” (v. 6). De modo análogo, o povo de Israel havia passado por processo semelhante: apesar de ver os portentos de um Deus que o livrou da morte, ao atravessar o Mar a pé enxuto e ao destruir os carros do faraó (cf. Ex 14, 1ss) ainda não compreende o plano de Deus. Diante do atraso de Moisés na montanha, o povo se desvia e vai prestar culto ao bezerro de ouro (cf. Ex 32, 1ss), pensa ainda no Egito e procura meios humanos para elevar-se até um deus mais afeito aos raciocínios humanos. No lugar alto, isto é na montanha, lugar privilegiado de encontro com Deus, Moisés conversa com o Deus das alturas, o Deus inacessível, Transcendente, que na sua condescendência, ao invés, ‘desceu’ ao encontro de seu povo para libertá-lo, para fazê-lo subir da terra do Egito: “Vai [Moisés] desce [da montanha], porque o teu povo, que fizeste subir da terra do Egito, perverteu-se…” (Ex 32, 7). O homem mais uma vez se distancia da lógica de Deus e “desce” às planícies da idolatria e da descrença. Está impossibilitado de subir até Deus. É preciso esperar – “Não compete a vós conhecer os tempos e os momentos que o Pai fixou […]” (v. 7) – que o homem-Deus Jesus reabra os caminhos: “Os onze discípulos caminharam para a Galiléia, à montanha que Jesus lhes determinara. Ao vê-lo, prostraram-se diante dele. Alguns, porém, duvidaram…”. (Evangelho. vv. 16-17) Apesar das fraquezas humanas dos discípulos do relato evangélico, mas também dos discípulos de todos os tempos que, aliás, Deus em sua onisciência já conhece, o Senhor não volta atrás: “Mas recebereis uma força, a do Espírito Santo que descerá sobre vós […]” (Primeira leitura, v. 7). Subir, descer. São categorias humanas, imagens que revelam mais do que a primeira vista parecem: quem nunca esteve ‘no fundo do poço’ ou, ‘para baixo’? E ainda: quem não tem algum conhecido que ‘subiu na vida’? Mais do que a realidade concreta, isto é, a ação material do descer ou subir, essas palavras assim colocadas querem expressar situações amplas e, nem por isso, menos concretas! Falar então da Ascensão de Jesus – e o falamos todos os domingos quando pronunciamos no Credo, isto é, na profissão de fé, as palavras “subiu aos céus e está sentado à direita de Deus Pai todo poderoso” – terá qual significado para nossa vida? A liturgia deste domingo nos impele a fazer alguma breve reflexão. Na Igreja antiga, o Credo, muito mais do que uma “fórmula mágica”, ou um mero “conjunto de dogmas”, ao qual devemos dar satisfação – temos que “sabê-lo a memória”, mas não sabemos ao certo porque o dizemos na missa dominical! – era considerado o compêndio de toda a Palavra de Deus. Embora tenhamos excelentes instrumentos disponíveis para conhecer melhor o fato objetivo do nosso crer, expresso em nosso Credo[1], corremos um sério risco de não compreendermos mais certas realidades de nossa fé[2]. Há o risco de um nominalismo, isto é, há a possibilidade muito séria de a Palavra por excelência tornar-se apenas, como diria o poeta William Shakespeare “palavras, palavras, palavras”[3], algo completamente desprovido de sentido. Certamente não é o caso da liturgia como um todo, e muito menos da liturgia da Palavra: essas têm um sentido muito profundo. Porém, assim como a imagem do livro fechado descrita em Apocalipse (cf. Ap 5, 1-5) – segundo alguns exegetas, o Apocalipse é um livro que contém uma linguagem litúrgica –, a liturgia na sua totalidade é “um livro”, que é preciso que alguém possa abri-lo para nós, para o nosso entendimento e vivência. Era o que a primeira geração de cristãos procurava fazer nos primeiros séculos da Igreja. São Justino – celebrado recentemente no calendário litúrgico – era um destes cristãos da primeira geração. Ele, que era um simples leigo, procurava – partindo do dom gratuito do Espírito – compreender e viver a sua fé: “para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos dê o espírito de sabedoria e de revelação […] que ele ilumine os olhos de vossos corações, para saberdes qual é a esperança que o seu chamado encerra […]” (Segunda leitura: Ef 1, 17.18;). Felizmente, a história nos legou alguns escritos de S. Justino. Para o que nos interessa de modo particular, há uma bela passagem na qual S. Justino procura interpretar o salmo 24 (23) à luz da Ascensão do Senhor “Levantai, príncipes, vossas portas; levantai, portas eternas, e entrará o rei da glória. Quanto Cristo ressuscitou de entre os mortos e subiu ao céu, os príncipes estabelecidos por Deus nos céus, receberam ordem de abrir as portas dos céus, para que ele que é o rei da glória entrasse e subisse para sentar-se a direita do Pai, até pôr seus inimigos como escabelo de seus pés. Porém, quando os príncipes dos céus o viram sem beleza, sem honra e sem glória na sua figura, não o reconheceram e exclamaram: ‘Quem é este rei da glória?’.”. São Justino com esse escrito singelo nos oferece uma possibilidade de compreensão da gratuidade extraordinária da liturgia deste domingo. De fato, a Oração Eucarística, mais precisamente o prefácio da Ascensão, nos mostra essa enorme gratuidade divina: “Vencendo o pecado e a morte, vosso Filho Jesus, Rei da Glória, subiu (hoje) ante os anjos maravilhados ao mais alto dos céus. E tornou-se o mediador entre vós, Deus, nosso Pai, e a humanidade redimida, Juiz do mundo e Senhor do universo. Ele, nossa cabeça e princípio, subiu aos céus, não para afastar-se de nossa humanidade, mas para dar-nos a certeza de que nos conduzirá à glória da imortalidade Jesus cumpre na sua Pessoa as profecias do Antigo Testamento (cf. Dn 7, 13). Ele, que ao assumir nossa condição humana, reduziu-se, esvaziou-se a ponto de perder toda formosura (cf. Is 53, 2; Fp 2, 7), oferecendo-se em sacrifício pelos pecados da humanidade. Deus o exaltou grandemente, fazendo-o sentar-se à sua direita no santuário (cf. Hb 10, 11ss). Curiosamente, não é um acaso que na igreja construção quase sempre existam degraus para se subir ao altar: assim como Jesus subiu ao Pai, toda a Igreja na celebração ritual litúrgica, no seu hoje, sobe realmente com o seu Senhor até o Pai: “Por Cristo, com Cristo, em Cristo, a vós, Deus Pai todo-poderoso, na unidade do Espírito Santo, toda a honra e toda a glória, agora e para sempre. Amem” (Doxologia). De fato, o Senhor subiu aos céus, não para se distanciar de nós, mas justamente para estar conosco: “E eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos!” (Mt 28, 20). E essa presença é particularmente sentida em sua Palavra proclamada na liturgia e na Santa Eucaristia, pão e vinho eucaristizados. Em Jesus, Cabeça da Igreja, nossa humanidade já está no seio da Santíssima Trindade. Em Jesus – como diria Santo Irineu – o homem é divinizado. Nós cristãos, somos chamados no nosso hoje, a reconhecer de fato o grande chamado ao qual Deus nos destinou: não só “ver” o rosto do Pai, mas viver em plena comunhão com ele no nosso hoje.
[1] O Catecismo da Igreja Católica (CIC) nos ajuda muito nisso. Sobre a subida do Senhor aos céus, veja-se, por exemplo, o CIC nn. 659-663.
[2] Mais do que nunca, o ciclo Pascal nos leva a crer que é urgente uma iniciação cristã séria, mesmo para aqueles que já receberam os sacramentos da iniciação cristã, mas que, por motivos vários, afastaram-se de uma fé adulta. Nesse sentido, o conhecimento e a aplicação concreta do RICA (Ritual de Iniciação Cristã de Adultos) nas paróquias poderá preencher várias lacunas.
[3] Hamlet. Ato II, Cena II, 190.

 

PAPA EXPLICA MISTÉRIO DA ASCENSÃO DE JESUS AO CÉU
Quinta-feira, 02 de junho de 2011

Ascensão é a indicação de uma direção, a trajetória na qual todos são chamados

A Ascensão de Jesus ao Céu, explica o Papa emérito Bento XVI, é um mistério da fé cristã. Jesus sai da terra em direção ao Céu diante dos olhos dos discípulos, este é seu último ato terreno depois da Ressurreição. Jesus sai fisicamente da história humana para entrar fisicamente no Reino de Seu Pai.

“Na Ascensão de Cristo ao Céu, o ser humano entra numa nova intimidade com Deus, sem precedentes. O homem encontra agora, e para sempre, espaço em Deus. O ‘Céu’ não é um lugar sobre as estrelas, mais uma coisa muito mais ousada e sublime: é o próprio Cristo, a Pessoa divina que acolhe plenamente e para sempre a humanidade, Aquele no qual Deus e o homem estão inseparavelmente unidos para sempre”.

O dinamismo da Ascensão não pode se opor ao dinamismo da Encarnação, quando o Filho de Deus abriu pela primeira vez – com sua vinda para o meio dos homens – a comunicação entre o Céu e a terra.

Cristo, de fato, veio ao mundo para levar o homem a Deus, não sob o plano ideal – como um filósofo ou um mestre da sabedoria – mas realmente, como um pastor que quer reconduzir as ovelhas ao aprisco.

“Este ‘êxodo’ para a Pátria Celeste, que Jesus viveu em primeira pessoa, foi totalmente dirigido para nós. É porque Ele desceu dos Céus e, por nós, ascendeu, depois de se fazer em tudo semelhante aos homens, humilhado até a morte na cruz e depois de tocar o abismo do máximo afastamento de Deus”.

A Ascensão é, assim, a estrada oposta ao afastamento de Deus. Por ela, Jesus se coloca ao lado do Pai. Todavia, a Ascensão não é uma “temporária ausência do mundo”, pois Jesus prometeu que ficaria ao lado da humanidade para sempre. Assim, a Ascensão é a indicação de uma direção, a trajetória na qual todos são chamados.

“O Senhor dirige o olhar dos apóstolos para o Céu para indicar a eles como percorrer a estrada do bem durante a vida terrena. Ele, entretanto, permanece na trama da história humana, está próximo a cada um de nós e guia nosso caminho cristão: é companheiro dos perseguidos por causa da fé, está no coração daqueles que são marginalizados, está presente junto aqueles aos quais foi negado o direito à vida”.

Mas a Ascensão coloca em destaque outra realidade: a transcendência da Igreja. Enquanto constrói o Reino de Deus sob a terra, a Igreja marcha para o seu destino.

“A Igreja não nasceu e não vive para suprir a ausência do Senhor ‘desaparecido’, mas ao contrário, encontra razão ao seu ser e a sua missão na permanente, mesmo que invisível, presença de Jesus – uma presença operante, mediante a potência do seu Espírito”.

Em outros termos, pode-se dizer que a Igreja não desenvolve a função de preparar o retorno de Jesus ‘ausente’, mas ao contrário, vive e opera para proclamar a ‘presença gloriosa’ de  maneira histórica e existencial.

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