Crise política e econômica decorre da crise moral

Sexta-feira, 18 de março de 2016, Padre Mário Marcelo Coelho,scj
Frente à crise política, doutor em Teologia Moral diz que a solução passa pela recusa de toda forma de corrupção

Cenário político brasileiro
Estamos acompanhando uma profunda crise política, econômica e institucional que gera instabilidade e insegurança na vida do povo. Esta crise tem como pano de fundo a ausência de referenciais éticos e morais, colunas para a vida e organização de toda sociedade que presa pela vida dos seus membros.
Não é minha intenção aqui descrever a crise e os fatores nela envolvidos. Acompanhamos com atenção e apreensão todo o decorrer dos fatos. Meu interesse é refletir um pouco nossas ações com o desejo de iluminar o leitor para uma viva esperança.
Cada vez mais se torna necessário estar atento aos fatos, procurando informar-se a partir de fontes seguras. Acredito que a solução para esta crise será encontrada quando houver interesse de todos pelo bem estar da nossa sociedade. A busca de respostas, de solução pede reflexão, discernimento, com serenidade e responsabilidade ética, visando sempre o bem do povo, especialmente dos mais pobres, sem desviar do caminho da justiça.
A crise política e econômica é grave, mas entendo que tudo decorre de uma crise moral. A falta de princípios éticos de justiça, respeito, honestidade, etc., leva consequentemente a comportamentos que prejudicam a nação. A superação da crise que está aí e que nos atinge, passa pela recusa radical de toda e qualquer ato de corrupção, pela capacidade de governar com honestidade, pelo desejo de promover o crescimento justo que favoreça, sobretudo, os mais pobres.
É preciso promover a formação de pessoas honestas, íntegras que tenham a capacidade de assumir o país com seriedade e responsabilidade. Lutar pelo aumento do desenvolvimento sustentável e pelo diálogo que resulte num compromisso entre os responsáveis pela administração dos poderes do Estado e a sociedade. É inadmissível governar um país e não preservar pelos valores éticos e morais. O Governo, o Congresso Nacional e os partidos políticos têm o dever ético de favorecer e fortificar um governo ético e justo.
O cristão comprometido com a vida do povo sabe, sente e compreende o que significa a fé para a luta pela libertação. Salvação e libertação de toda e qualquer opressão, dominação e exploração humana, seja em qualquer tipo de regime político ou condição. Muita gente ainda tenta separar a fé da política, a vida da realidade.
Os cristãos não querem uma vida fora do mundo concreto, fora dos fatos sociais. Os cristãos querem o céu na terra e a terra no céu, sempre. O cristão deve ser fermento, sal, caminho e luz. Deve lutar pelos princípios básicos da mensagem cristã, como defesa da ética, da vida desde a concepção, da família, da democracia, da participação social e da liberdade, assumindo responsabilidade social e política.
Nossa fé precisa capacitar-se para criticar, avaliar, comparar e intervir na realidade à luz do Evangelho, fazendo uma política com ética, compromisso, reforma, transformação e realização de justiça social. A fé e a política devem ajudar os cristãos a decidir, optar e assumir os compromissos que nos são dados viver e transformar, historicamente.
Precisamos resgatar o interesse do povo, eu diria até o encantamento, pela boa política. Resgatar a esperança através de políticos comprometidos com o povo. Promover a paz e a justiça. É preciso restaurar, respeitar a dignidade de cada pessoa, construir a justiça e promover a cultura do diálogo, do respeito e da honestidade. Hoje se torna necessário organizar ações e práticas sociais como instrumentos de concretização para construção de uma sociedade solidária conforme a proposta cristã.

 

Jurista e cientista política analisam crise política no Brasil
Sexta-feira, 18 de março de 2016, Jéssica Marçal / Da Redação
Jurista Ives Gandra acredita que nomeação de Lula fere princípio da moralidade; cientista política atenta sobre necessidade de mudar estrutura da corrupção

Os brasileiros têm acompanhado com atenção, receio e incerteza o momento político do país. Nesta quinta-feira, 17, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva assumiu o cargo de ministro-chefe da Casa Civil, logo depois essa posse foi suspensa com liminar, o governo conseguiu derrubá-la, mas já surgiram outras. Uma “dança das cadeiras” que está repercutindo no Brasil e na imprensa internacional.
As discussões sobre o rumo dado ao governo da presidente Dilma Rousseff aumentaram quando ela decidiu nomear Lula como ministro da Casa Civil. Para o jurista Ives Gandra, essa nomeação feriu o princípio da moralidade, pois ele está sendo investigado por suspeita de corrupção na Operação Lava Jato, conduzida pela Polícia Federal e sob jurisdição do juiz federal Sérgio Moro. Além disso, feriu o princípio da impessoalidade, segundo o qual deve-se nomear alguém por interesse público, não pessoal.
Moro divulgou na quarta-feira, 16, o áudio de uma conversa telefônica entre Lula e Dilma. Essa ação do juiz também dividiu opiniões. “A meu ver, deu vazão ao princípio da publicidade. Tomou conhecimento de um fato grave que ainda estava na sua jurisdição (…) e ele gravou baseado em outro princípio constitucional: fatos de extrema relevância e gravidade como esse poderiam ser dado a público porque são do interesse público”.
A cientista política Dora Soares avalia que a hierarquia estabelecida no país deve ser respeitada, o que não aconteceu. “Ela (Dilma) é o maior cargo e isso tem que ser respeitado, se não você não tem instituição no país (…) Não é em nome de denunciar e combater a corrupção que eu não respeito as instituições. Você tem que pensar na estabilidade política do país, na estabilidade econômica, porque isso tudo tem decorrência”.

E as investigações sobre Lula, como ficam?
A grande questão que fica em aberto é que rumo vão tomar as investigações sobre o ex-presidente Lula. Se ele não fosse ministro, seria investigado normalmente dentro da Operação Lava Jato, como qualquer cidadão comum.
Caso o governo consiga revogar a suspensão e ter Lula como ministro, ele passa a ter foro privilegiado. Gandra explica que o processo segue, então, para o Supremo Tribunal Federal (STF). As investigações continuam, o que muda é a instância em que será realizada. Todo o material avaliado até então pelo ministério público do Estado de São Paulo tem validade, mas a análise e o possível julgamento ficam a cargo do STF, não mais de Moro.

Impeachment de Dilma e reflexos da crise
A nomeação de Lula para a Casa Civil foi um dos elementos que impactou ainda mais a crise política no país e o processo de impeachment em estudo contra a presidente Dilma Rousseff. Ainda na quinta-feira, 17, a Câmara dos Deputados aprovou a comissão especial que analisará o pedido de impeachment da presidente.  O jurista Ives explica que essa comissão vai seguir as determinações do STF e examinar os argumentos para decidir se propõe ou não o impeachment.
Essas ações e decisões impactam também a população, que em várias regiões do país saiu às ruas em protesto. “Eu tenho a impressão de que a pressão popular é evidentemente um elemento político, porque ela (Dilma) foi eleita pelo povo e agora o povo está querendo que ela saia. A pressão popular faz com que ela não tenha confiança e nem tenha condições de governabilidade”, afirma Gandra.
E se o cenário não está favorável para a política, tão pouco está para outros setores da vida do brasileiro. “Os investidores não investem porque não sabem o que vai acontecer. O povo não acredita e tirou toda confiança dela (Dilma), só ver as manifestações espontâneas de ontem. O desemprego está aumentando, porque não havendo investimento, o desemprego é maior. O PIB está caindo assustadoramente. O Brasil está entrando numa crise monumental. Cada vez que há notícia de que ela (Dilma) vai cair o dólar cai e a bolsa sobe, cada vez que ela se recupera, a bolsa cai e o dólar sobe”.
Gandra acredita que as manifestações populares exercem grande pressão nesse processo de impeachment. “Se elas continuarem, duvido que os deputados que vão ter seu nome promulgado votarão nela (Dilma). Se elas diminuírem, os deputados ganharão coragem de aceitar as benesses do poder”.

Necessidade de mudança verdadeira
Em meio a manifestações contrárias e favoráveis ao governo, pedindo ou não a saída de Dilma, Dora Soares chama a atenção para a falta de um propósito para combater a corrupção. Segundo ela, há nas manifestações um ódio pessoal por um partido e por indivíduos.
“Se a presidência renuncia, seremos governados pelo que, por quem, se o vice-presidente está sim denunciado, se o presidente do Senado está no meio das denúncias, se o presidente da Câmara Federal está no meio das denúncias?”, questiona Dora.
Para a cientista política, cabe a todos os brasileiros pensar em mecanismos que garantam a permanência da democracia e o combate à estrutura da corrupção, já que, para ela, não há hoje no país um nome a quem o povo possa recorrer.
“Nós já tiramos um presidente. Retirar outro não significa mudar a possibilidade da corrupção. É a estrutura que nós temos que pensar (…) Nós precisamos pensar que são grupos que governam, e não um grupo que assumiu e que é corrupto em si (…) Trocando os indivíduos, a estrutura continuará a mesma, então nós temos que pensar qual a mudança necessária na estrutura para que sejam garantidos o combate à corrupção e o bem-estar social”.

 

Um olhar sobre a realidade
18/03/2016
Cidade do Vaticano (RV*) – O Brasil atravessa um difícil momento de crise política, institucional e ética, que não deixa indiferente ninguém de nós. Ao contrário, pede-nos oração e reflexão. Se de um lado há um despertar das pessoas para agir na sociedade, de outro há também situações de conflitos preocupantes. Ao querer o bem do país, devemos procurar fazê-lo bem também.
Em tempos de tantas situações anômalas e tensas, ao mesmo tempo em que nos cabe manifestar nossas opiniões, somos chamados também a encontrar caminhos de solução. Eis o grande desafio que se impõe nesse momento à nossa pátria!
Em tempos como estes, os homens da Igreja são chamados a dar uma palavra de apoio e incentivo a todos os filhos e filhas desta amada nação que – queiramos ou não – nasceu sob o signo da Cruz do único e divino Redentor do gênero humano. Ele, sem deixar de ser Deus, se fez homem igual a nós em tudo, menos no pecado, na plenitude dos tempos (cf. Gl 4,4). A história é inexorável. Pode ser reinterpretada, nunca, porém, negada por quem quer que seja.

Unidade Nacional
Essas raízes religiosas dão base à unidade nacional de Norte a Sul, de Leste a Oeste, sempre dentro do respeito às diferentes denominações religiosas ou mesmo às pessoas ou grupos que afirmam não ter religião. É a unidade nacional na pluralidade de pensamentos. Isso constitui um Estado que se confessa laico no sentido exato do termo, mas não laicista, ou seja, aquela Nação que, sob a aparência de laicidade, persegue as instituições não concordes com o seu modo de pensar ou, pior, com a linha ideológica do seu governo. Isso caracterizaria um tipo de intolerância que o próprio povo jamais toleraria.
É certo, como a Igreja entende desde o distante pontificado do Papa Leão XIII (1878-1903), que a chamada questão social jamais será resolvida se nos esquecermos dos valores humanos e evangélicos, pois ela é uma questão do homem e da mulher dos nossos tempos com fome e sede do Absoluto ou de Deus, sem o qual tudo o mais parece sem sentido. Daí dizer aquele Papa o seguinte: “Alguns professam a opinião, assaz vulgarizada, de que a questão social, como se diz, é somente econômica; ao contrário, porém, a verdade é que ela é principalmente moral e religiosa e, por este motivo, deve ser resolvida em conformidade com as leis da moral e da religião” (Encíclica Graves de communi, 18/01/1901).

Reforma vazia
Em outras palavras, seguindo a sabedoria bimilenar da Igreja, não se pode fazer verdadeira reforma social sem, antes de tudo, transformar o coração humano em um coração que ama o próximo antes de amar a si. Mais: faz isso por amor de Deus e não por mera filantropia. Qualquer reforma social que não parta da própria reforma interior de cada um de nós está sujeita aos mais vergonhosos fracassos, como já ficou comprovado em diversos países que tentaram destronar Deus para colocar em Seu lugar qualquer outra coisa ou pessoa no campo social e político.
Um dos princípios básicos de todo povo civilizado, que se preze de ter esse adjetivo, tem de ser o respeito à vida desde a sua concepção até o seu natural ocaso. Afinal, que credibilidade teria quem dissesse defender os mais fragilizados, mas advogasse – inclusive oficialmente em um programa político ou legislativo – a morte dos mais inermes e indefesos, como são os nascituros no ventre de suas mães? Ainda: como poderia ser chamado de civilizado um país no qual é roubada a dignidade de viver dos idosos a cambalearem pelas filas de alguns órgãos públicos de saúde ou mesmo em hospitais ou instituições semelhantes?

Bases sólidas
Como poderia ser tida por avançada uma sociedade que, por meio de suas autoridades maiores e contra o sentimento do povo, investisse pesadamente contra a família, célula mãe da vida social e cultural? É na família que se aprendem os primeiros passos da fé, da honestidade, da partilha (e não do tirar vantagem, especialmente com o que é do outro), do amor, enfim, dos valores humanos e cristãos necessários para a vida saudável em comunidade. Tentar quebrar essa instituição querida por Deus é desejar destruir a sociedade a partir de seus alicerces.
Ora, sem o respeito à religião, à vida e à família não se pode, de modo algum, construir uma sociedade verdadeiramente próspera e respeitável. Todos os artifícios de progresso serão uma quimera, que cedo ou tarde acabarão por ruir. Seu alicerce está sobre a areia movediça e não sobre a Rocha firme que é Deus, criador de tudo e desejoso do bem dos seus filhos e filhas. Os caminhos que não respeitam a fé do povo e seus valores acabam por desencadear em situações irrespiráveis.
A falta de ética na vida pública, especialmente no exercício de um mandato público eletivo, neste caso, é mera consequência. É triste, mas não assusta a quem reflita um pouco. Sim, se não se respeita a fé alheia, a vida, a família etc., que se pode mais esperar? O triunfo ou o fracasso? Esperemos que não seja necessário cantar como a ópera Nabucco de Verdi: “Ó minha pátria, tão bela e perdida”, que foi o hino patriótico dos italianos no final do século XIX. Mas o Salmo a que isso se refere (137) coloca sua confiança no Senhor: “Lembra-te, Senhor!”

Ética
Ausente de Deus, na prática a pessoa se julga um deus acima de tudo e de todos, e exige para si prerrogativas especiais acima dos demais seres humanos comuns. É a loucura de alguns governantes que, ao longo da história, atribuíram a si mesmos, inclusive, poderes divinos, ou se faziam adorar pelo povo.
Haverá espaço para a ética aí, a não ser aquela “ética” que leva a tirar vantagens de tudo em nome dos que mais necessitam e, pior, à custa deles? A lei, no caso, será igual para todos, menos para alguns privilegiados? Teríamos dois pesos e duas medidas: na hora que convém, invocar-se-ia a Constituição do País, quando não convém, se fariam críticas ferrenhas a essa mesma Lei Maior? Lembremo-nos, porém, de que o comum não é o normal na vida das pessoas. O sonho desmedido e perpetuado de poder não combina com democracia e com progresso em nenhuma parte do mundo.
Um Estado que se pretendesse totalitário, sufocador e abocanhador das demais instituições, não conseguiria prosperar a não ser pelo império do medo e das ameaças, ou jogos sujos de atirar uns contra os outros e enquanto esses menos avisados brigassem aqui embaixo, os poderosos continuariam imunes lá em cima, usufruindo dos benefícios lícitos que o cargo lhes dá ou dos ilícitos tirados especialmente dos mais necessitados. Necessitados que esses homens e mulheres públicos tanto diriam defender.

“Não” à corrupção
Passando ao Brasil, em especial, devemos dizer que o momento é grave e requer o despertar e o aliar-se de todas as forças vivas da Nação, a fim de, juntos, dizermos um forte e rotundo “Não” à corrupção, venha ela de quem vier e de que esfera ou natureza for. Não se podem sacrificar os valores éticos e morais, nem se podem espezinhar os benefícios ao povo sofrido como saúde, moradia, educação, saneamento básico. Afinal, sempre é o povo humilde o mais atingido em meio a esse turbilhão de coisas, que desde algum tempo vem se abatendo sobre o Brasil.
Essas mesmas forças vivas da Nação precisam dizem “Sim” à união de todos os homens e mulheres, independentemente de seu time de futebol, da sua cor de pele, da sua condição social ou de quaisquer outras pequenas diferenças acidentais, a fim de que o mal seja combatido com seriedade, dentro da lei e da ordem e, sobretudo, sem ódio ou revolta contra quem quer que seja, nem luta entre classes. Somos todos irmãos em Cristo Jesus!
É hora de mantermos a unidade nacional, a fim de, unidos, vermos o triunfo do bem nesta Terra de Santa Cruz. Portanto, irmãos e irmãs, que todos nós – católicos, cristãos ou homens e mulheres de boa vontade em geral – apoiemos a melhoria desta grande Nação brasileira de modo firme, mas, ao mesmo tempo, cordato e pacífico, sem ódio ou incitações a revoltas. Já temos violência demais! E, assim, Deus nos abençoará com as mais copiosas graças celestiais.
Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, mãe de Jesus, o príncipe da Paz, e também nossa mãe (cf. Jo 19, 25-27), dado que somos filhos no Filho (cf. Gl 4, 5), intercederá sempre por nós, sobretudo nesta hora decisiva ao povo brasileiro. Amém!
*Orani João, Cardeal Tempesta, O.Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

 

A política partidária no Brasil instalou o caos na sociedade
Sexta-feira, 18 de março de 2016
A política partidária no Brasil configura-se como um devastador desastre humano

“A terra estava deserta e vazia, as trevas cobriam o abismo…”. Assim começa a narração do Livro do Gênesis, permitindo uma analogia com o atual momento político do Brasil. A política partidária instalou incontestavelmente o caos na sociedade. Está perdida a capacidade para o diálogo que gera consensos e entendimentos. Não paira, absolutamente, o Espírito de Deus no mundo da política. É uma escuridão que fomenta o caos – um “salve-se quem puder” que passa por cima do bem comum como um trator. Não há esperança de que a política partidária consiga, rapidamente, oferecer contribuições para os rumos da nação. A lista de desmandos, escolhas absurdas, interesseiras e manipulações é interminável. Comenta-se, em muitas esferas da sociedade, sobre a expectativa do surgimento de um líder político capaz de gerar agregação e apontar novas direções. Isso parece ser difícil de ocorrer, justamente pelo atual cenário vivido pela política partidária. Quem seria capaz, agora, de reverter essa difícil situação? O mundo da política partidária no Brasil configura-se como um devastador desastre humano à semelhança das incidências horrendas que ferem o meio ambiente.
A deterioração da esfera política e o tratamento inadequado das questões ambientais se desenvolvem a partir da mesma raiz. Aqui vale relembrar as palavras do Papa Francisco, na sua Exortação Apostólica Alegria do Evangelho, quando se refere à nova idolatria do dinheiro. O caos vem dessa idolatria. É inexistente a nobreza de fazer política pelo bem comum, com o objetivo de ajudar a nação a alcançar patamares de civilidade e de funcionamentos que promovam, sem populismos, os seus cidadãos. A falta dessa nobreza é resultado de carência na formação humanística que ilumina intuições, capacita para o bem, muito acima do interesse de enriquecimentos ilícitos. O Papa Francisco afirma que “uma das causas desta situação está na relação estabelecida com o dinheiro porque aceitamos pacificamente o seu domínio sobre nós e nossas sociedades”. Essa verdade explica os desajustes no tecido da cultura, que delineia a identidade da sociedade e influencia suas direções.

Onde está a base do caos instalado na sociedade?
O Papa Francisco oferece a chave de interpretação desse caos instalado que produz, por exemplo, a crise financeira que pesa sobre os ombros de todos. A base da desordem é a negação da primazia do ser humano. Esse colapso antropológico tem muitas feições. Descompassa relações, articulações de grupos e segmentos na sustentação de uma sociedade que deve se mover no horizonte da justiça e da solidariedade. É triste constatar o que ocorre na política partidária. O desejo de ocupar cargos públicos não vem acompanhado do sentido cidadão mais profundo de ajudar decisivamente na construção de uma sociedade solidária e justa. Trata-se de interesse doentio pelo dinheiro, para alimentar ilusórias sensações de poder e segurança. Uma ambição que produz essa economia sem rosto e sem um objetivo verdadeiramente humano.
Ora, a idolatria do dinheiro é perigosa, gera ilusões e desgasta o mais nobre sentido da política, que é promover o bem comum. Essa idolatria é tão terrível que faz crescer, de modo generalizado, a sensação de que não há mais tempo para fazer o que é necessário. Isto fica explícito nas muitas lamentações e ladainhas exaustivamente propaladas. O interesse mesmo é ganhar sempre mais, produzir menos. Nada de sacrifícios e esforços para alcançar o bem de todos. Uma luz precisa brilhar para iluminar essas trevas. E de onde ela pode vir? Em primeiro lugar, da corresponsabilidade e seriedade cidadã de cada indivíduo. Sistemicamente, essa luz pode e precisa brilhar com o fortalecimento, em seriedade e audácia, dos diferentes segmentos da sociedade – empresarial, religioso, judiciário, acadêmico e intelectual, artístico e outros mais. Cada setor, pela seriedade e honestidade, tem o dever de dissipar as trevas que preenchem o abismo onde está inserida a sociedade brasileira. Que venha de todas as pessoas e grupos, pelo compromisso com o bem, a justiça e a verdade, essa a luz que tem a força para resgatar o país do caos.
Dom Walmor Oliveira de Azevedo, Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, é doutor em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana (Roma, Itália) e mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico (Roma, Itália). http://www.arquidiocesebh.org.br

 

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