VI Domingo da Páscoa – Ano A

Por Mons. Inácio José Schuster

“Se me amais – diz Jesus – observais meus mandamentos. Eu rezarei ao Pai e Ele vos enviará outro Consolador, para que permaneça convosco.” Nós estamos nos preparando para o final do tempo Pascal e a celebração do Pentecostes. Este outro Consolador a que se refere o evangelista e Jesus é, evidentemente, o Seu Espírito Santo. Continua: “não vos deixarei órfãos, vou e volto a vós.” Em que sentido Jesus vai e volta? Há diversos níveis de intelecção deste versículo, que não se excluem, mas se justapõe. Num primeiro momento, sendo este o discurso de despedida ou adeus, pode o texto referir-se à Paixão; dentro em breve Jesus irá embora com a Sua Paixão, e mais um pouco voltará com a Ressurreição. Eis o primeiro nível de intelecção. Um segundo nível de intelecção: Ele vai embora com a Paixão e Ressurreição, e voltará no final dos tempos. Terceiro nível de intelecção: Ele vai embora com Sua Paixão, morte e Ressurreição e voltará no ato da morte de cada um. Mas eu acredito que exista um quarto nível: Ele Se vai e Ele volta no Paráclito, ou seja, no Espírito Santo Consolador. Os quatro níveis não se excluem, mas para mim, diretamente visado pelo evangelista, é, no contexto imediato, a volta de Jesus, misteriosa, porém real, no Espírito Santo. É uma volta esta distinta de Sua presença terrestre no meio de nós. E por quê? Porque o Espírito Santo, após a Paixão e morte, trará Jesus para o coração da Igreja; trará Jesus para o interior de cada um de nós, e isto é imensamente preferível. É muito melhor ter Jesus dentro do que ter Jesus fora; é muito melhor tê-Lo dentro, com a potência da Ressurreição, do que tê-Lo fora, na limitação de Sua existência terrestre. E por isto mesmo Jesus agora, para o Qual não existem mais os limites do tempo e do espaço, pode habitar o coração de cada um de nós. Ele está aonde Ele quer estar, e cada vez que o invocamos, cada vez que nos colocamos em Sua presença, Ele verdadeiramente Se encontra conosco e vai, pouco a pouco, preparando-nos e capacitando-nos para a outra visão, para a outra comunhão que se dará na Vida Eterna.

 

CONDUZIDOS PELO ESPÍRITO DA VERDADE
Padre Bantu Mendonça

Jesus despede-se dos Seus discípulos e inaugura uma missão especialíssima para mim e para você. Ele sobe para o Pai a fim de ser o mediador – junto ao Pai – e a fim de nos comunicar o Espírito Santo. É a mediação futura, porque feita após a Sua ressurreição, através da nova condição que terá diante de Deus (Jo 14,16-17). O Espírito será, então, enviado pelo Pai em nome de Jesus (Jo 14,26). Logo, você e eu receberemos de Deus o Espírito Santo somente através de Cristo. Dada a necessidade salvífica deste gesto e sua relevância para a existência da Igreja, reafirma-se, novamente, a importância capital da mediação de Jesus nas relações do homem com Deus. Ninguém vai ao Pai senão por Ele. Com a Sua subida para o Céu, Jesus nos faz ver as várias funções do Espírito Santo. Ele é o nosso Advogado ou Protetor e Mestre da Verdade (Jo 14,16-17.25-26). Na ausência de Cristo, o Espírito há de proteger e defender, em quaisquer circunstâncias, os discípulos de Jesus no mundo, guiando-os e dando-lhes segurança. Manterão viva a mensagem de Jesus, recordando-a e interpretando-a no tempo, de sorte que os discípulos penetrem o seu sentido. Além disso, o Espírito é Santo e santificador, consagrando os discípulos, ou seja, separando-os para serem semelhantes a Jesus, o consagrado por excelência. A mediação de Jesus Ressuscitado, em ordem à vinda do Espírito, faz-nos viver a espiritualidade das Solenidades que se aproximam: Ascensão e Pentecostes. A temática serve, pois, de preparação para o encerramento do tempo pascal, revelando a relação existente entre a Páscoa e Pentecostes ou entre a ação do Ressuscitado, entronizado em sua glória, e a vinda do Espírito. Além disso, demonstra o modo do agir trinitário de Deus em ordem à Salvação dos homens. Deus enquanto Pai é criador, enquanto Filho é Salvador e enquanto Espírito Santo é Vivificador, Consolador, Fortalecedor, Advogado. O Espírito prometido nos revela a presença de Jesus entre nós. É a presença na comunidade em que se vive o amor. Este amor é a união com Jesus e com o Pai. Quem assim ama reconhece a presença de Jesus. Amar Jesus é amar-nos uns aos outros. É urgente crer em Deus e em Jesus, Caminho, Verdade e Vida. Quem ama passa a conhecer Jesus e quem o conhece conhecerá também o Pai, porque Ele o dá a conhecer a todos os que permanecem no Seu amor. Este amor é o dom do Espírito de amor e o dom da vida eterna na comunhão com Jesus e o Pai, no Espírito. Pai, concede-me o dom do Vosso Espírito que – como luz – dissipa as dúvidas e as trevas do meu coração e me faça caminhar seguro pelos caminhos do Vosso Filho Jesus – que é o Caminho, a Verdade e a Vida – que me conduz a Vós.

 

A Liturgia é consciente da fraqueza da natureza humana. Sabendo que é difícil manter o ritmo e o clima festivos do Domingo de Páscoa, celebrado há um mês, pede a Deus neste domingo que nos conceda “a graça de viver dignamente estes dias de alegria em honra de Cristo Ressuscitado” (oração coleta). A Solenidade de Pentecostes ajudar-nos-á a recuperar esta alegria pascal. Recordemos, mais uma vez, que a liturgia contém uma série de elementos para salientar a Páscoa, de tal modo que os sinais exteriores ajudam à vivência interior: flores, iluminação, o rito da aspersão com a água benta, o canto do Glória, a terceira fórmula da aclamação depois da consagração (se possível, cantada), a bênção solene sobre o povo… O Tempo Pascal encerra-se com a Solenidade do Pentecostes, a qual celebramos a descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos. Para celebrar bem esta Solenidade, é necessária uma preparação prévia que podemos iniciar neste domingo com a ajuda do texto evangélico. O evangelho deste domingo é um extrato do discurso de despedida de Jesus na Última Ceia, onde promete o Espírito Santo aos seus discípulos: “Eu pedirei ao Pai, que vos dará outro Paráclito (Defensor), para estar sempre convosco: o Espírito da verdade”. Assim como Jesus foi preparando os discípulos para o grande acontecimento do Pentecostes, assim também a liturgia convida-nos a preparar esta Solenidade, cume do Tempo Pascal. Para isso, podemos utilizar as expressões que se encontram no evangelho deste domingo relacionadas com o Espírito Santo. 1) Ele é o Paráclito (Defensor). Ao longo da história, os cristãos serão criticados, desprezados e humilhados. Perante estas dificuldades, teremos sempre o Espírito Santo que nos animará. 2) Ele é o Espírito da Verdade, ou seja, está intimamente relacionado com a revelação de Jesus. É o Espírito que nos ajudará a aprofundar a sua mensagem salvífica e a vivê-la na vida. 3) Finalmente, Jesus promete a presença permanente do Espírito: “Eu pedirei ao Pai, que vos dará outro Paráclito (Defensor), para estar sempre convosco”. Regressando ao Céu, Jesus não deixa órfãos os seus discípulos (“Não vos deixarei órfãos”). O Espírito Santo estará sempre conosco, animando a Igreja. Jesus faz referência à importância do seguinte binômio: unidade da fé – vida: “Se Me amardes guardareis os meus mandamentos”. Acreditar supõe um modo concreto de agir. Seguir Cristo não se esgota em aceitar um conjunto de idéias e de princípios, mas supõe um determinado estilo de vida. A oração coleta afirma: “de modo que a nossa vida corresponda sempre aos mistérios que celebramos”. Na oração depois da comunhão pedimos: “multiplicai em nós os frutos do sacramento pascal e infundi em nossos corações a força do alimento que nos salva”. Para se revelar a alguém, Jesus exige uma “implicação moral da fé”: “Se alguém aceita os meus mandamentos e os cumpre, esse realmente Me ama. E quem Me ama, será amado por meu Pai e Eu amá-lo-ei e manifestar-Me-ei a ele”.  O Espírito Santo, prometido por Jesus no evangelho, tem uma grande relação com o sacramento da confirmação. A primeira leitura é um dos textos do Novo Testamento que fundamentam este sacramento. Poder-se-ia reservar um pouco da homilia para uma reflexão sobre este sacramento (como também no dia de Pentecostes).  No diálogo com Nicodemos, Jesus dizia que era necessário nascer da água e do Espírito para entrar no reino de Deus (Jo 3, 5). Este nascimento acontece no batismo, onde também recebemos o Espírito Santo. Pela Confirmação, receberemos, a plenitude do Espírito Santo que fortalece a nossa fé, convertendo-nos em testemunhas de Cristo Ressuscitado.

 

6º DOMINGO DO TEMPO PASCAL, A
Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Diocese da Campanha(MG)

“Anunciai com gritos de alegria, proclamai até os extremos da terra: o Senhor libertou o seu ovo, aleluia!”(cf. Is. 48,20).

Meus queridos irmãos, A liturgia de hoje nos apresenta um discurso de despedido de Jesus. Poderíamos dizer que Jesus pronunciou este discurso em forma de testamento. Foi pronunciado na última Ceia. O conteúdo é repleto de emoção, teologicamente mais profundo, onde se misturam certeza e esperança, amor e fé, vida terrena e vida eterna, destino humano e destino divino. A exegese do texto de hoje(cf. Jo 14,15-21) nos mostra a glorificação de Jesus e anuncia a vinda de um outro Paráclito, isto é, de alguém da parte de Deus para fazer os apóstolos compreenderem os passos e os ensinamentos do Messias, testemunhá-los diante das comunidades, distinguirem entre verdade e erro, e vencerem todas as dificuldades que são apresentadas. E Jesus dá um grande presente aos seus convidados e a todos nós: promete continuar presente entre os apóstolos, amá-los como o Pai o ama e, um dia, fazê-los participantes da mesma glorificação, da vida eterna. Estimados amigos, E o que Jesus pede em contrapartida de tudo isso que nos oferece? Nos pede a sua fidelidade aos seus mandamentos. Fidelidade ao amor que pode ser sintetizado em uma única frase: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a mim mesmo!”. E quem vai caminhar conosco para velar por esta fidelidade é o Paráclito, o Santo Espírito. Assim, os homens e as mulheres, que são possuídos por Deus, que tem o Espírito Santo que vem ao seu socorro, devem testemunhar que o Cristo é o Filho de Deus vindo a este mundo para nos salvar, para nos justificar, para nos santificar. Jesus está vivo no meio dos seus, porque os homens são templo e morada de Deus. Irmãos e Irmãs, Amar a Deus e guardar os seus mandamentos é a mesma coisa! E Jesus hoje ressalta exatamente isso: amar e ser amado. Isso porque quem ama a Deus “guarda a sua palavra” e o Pai vai amar esta pessoa. Assim a história de cada batizado é uma história de amor. Amor que vem de Deus. Por isso não se ama a Deus se não se observa os mandamentos. Assim por amor Cristo anuncia que Deus vai nos conceder um advogado. Mas um advogado? Para que? Para nos defender dos inimigos e do mal. O fruto desse amor de Deus aos apóstolos fiéis é o Espírito Santo, que ele Enviará, a pedido de Jesus, para ser o Paráclito dos crentes, dos discípulos fiéis. Paráclito significa ADVOGADO, PROTETOR, DEFENSOR. Mais do que isso o Paráclito pode ser a TESTEMUNHA,o garante, aquele que ajuda, que protege, que defende, que inspira, que testemunha a favor. O mundo estava prestes a julgar Jesus. Era preciso de que os apóstolos ficassem firmes na sua fé ao verem levar o Mestre do Tribunal para a Morte. O Paráclito não virá para defender Jesus, mas para fazer com que os apóstolos compreendam os passos de Jesus e não se escandalizem com a sua paixão e morte. É preciso que os apóstolos tenham a serena coragem de enfrentar todas as tribulações em nome e na força do Cristo. Jesus, também, é nosso Paráclito, porque Ele nos defende, lavando-nos com seu sangue redentor. Por isso Jesus diz que não nos deixará órfãos. Mas Jesus nos anuncia que Ele ficará conosco todos os dias até a consumação dos tempos. Estimados Irmãos, Jesus chama pelo Paráclito que ele anuncia que é o Espírito da Verdade. A Verdade irrenunciável como anuncia Bento XVI. A Verdade que é o próprio Cristo. A Verdade se que sobrepõe ao erro e ao pecado, na luta quotidiana contra o mal e o erro. A Verdade que é esperança cristã. A Verdade que só pode ser assimilada, vivida e festejada com o auxílio do Santo Espírito. Assim, a Segunda Leitura(1Pd 3,15-18) nos conscientiza de que estamos em processo com o mundo. O mundo pede contas de nós, mas é a Deus que devemos prestar contas. O mundo pode matar, como matou Jesus. Mas no Espírito que fez viver o Cristo viveremos. Assim vive e reza a esperança cristã. O cristão difere do pagão por sua esperança, diz São Pedro. Em Cristo, ele enxergou a força da vida e do amor. Por isso, ele pode responder por sua fé, com segurança, diante de Deus e dos homens. E não receia o sofrimento: também Cristo o conheceu. A esperança cristã que foi confirmada na primeira leitura(cf. At 8,5-8.14-17) quando o diácono Filipe batizou novos cristãos na Samaria. Depois, vieram os Apóstolos Pedro e João de Jerusalém para confirmar os batizados, impondo-lhes as mãos, para que recebessem o Espírito Santo. Assim, os apóstolos, predecessores dos Bispos, completaram e confirmaram o batismo. A perseguição a Estevão  torna-se instrumento da expansão da fé cristã. Filipe, do grupo de Estevão, torna-se apóstolo da Samaria. A sua pregação é confirmada por milagres e traz grande alegria. Os apóstolos Pedro e João vêem de Jerusalém para invocar pó Espírito Santo sobre os recém-convertidos da Samaria, sinal da unidade das Igrejas. Caros irmãos, O que pede o mundo hoje ao cristão? O mundo nos exige que devemos responder hoje não com divisões, com ódios ou com disputas. Devemos ser movidos pelo amor de Deus em favor do homem. O motor de todo verdadeiro progresso é o amor e somente o amor. Sem amor o próprio progresso pode ser voltar contra o homem e destruí-lo ou aliená-lo. Procura-se um amor que salve o homem todo: a sua dignidade, a sua liberdade, a sua necessidade de Deus, seu destino ultraterreno. Um amor concreto, que se interesse pelos que estão perto e a quem se pode prestar algum auxílio. Um amor que vai até onde nenhum outro pode ir. Vivamos, pois, com grande entusiasmo a nossa vocação de batizados e de crismados. Jesus que nos chama a santidade caminha conosco. Não nos deixa órfãos! Envia o Santo Espírito para permanecer e nos velar para que nunca traiamos a verdade que é sintetizada no amor e no perdão, na acolhida e na misericórdia. Amém!

 

“E ROGAREI AO PAI E ELE VOS DARÁ OUTRO PARÁCLITO”
Por Gabriel Frade, professor de Liturgia e Sacramentos
6º Domingo da Páscoa
Leituras: At 8, 5-8.14-17; Sl 65 (66) 1-3a.4-5.6-7ª.16.20; 1Pd 3, 15-18; Jo 14, 15-21.

“Vinde, Pai dos pobres, vem doador dos dons, vem, luz do coração; grande consolador, doce hóspede da alma, doce consolo.” (Veni Sancte Spiritus – Sequência de Pentecostes. Séc. XIII). E a Palavra de Deus crescia (At 6, 7). Assim terminava a leitura de Atos dos Apóstolos, proposta pela Liturgia da Palavra do Domingo anterior. A primeira leitura hoje nos apresenta a continuação e a explicitação desse crescimento da Palavra de Deus. Filipe – que com toda probabilidade não se trata de Filipe, o apóstolo do grupo dos Doze, mas um daqueles Sete eleitos do grupo dos “helenistas” (At 6, 1-7) – é descrito em movimento: ele sai de Jerusalém e desce a uma cidade da Samaria, vai para a região dos samaritanos. Os samaritanos, como se sabe, não eram estimados em Israel. O autor do livro do Eclesiástico, por exemplo, dirá com palavras fortes que os samaritanos são “povo estúpido que habita em Siquém” (Eclo 50, 26. Trad. Bíblia de Jerusalém, ver a respectiva nota explicativa no texto). O evangelho de João, no episódio da cura do cego de nascença, nos faz saber que chamar alguém de “samaritano” em Israel, era o equivalente a uma ofensa ou xingamento (Jo 8, 48). Por outro lado, os samaritanos também não facilitavam a vida dos judeus. O evangelista Lucas (Lc 9, 52s) nos dá a conhecer a má vontade e o despeito com os quais os samaritanos tratavam os peregrinos judeus que iam em direção a Jerusalém, para as grandes festas do calendário religioso judaico: simplesmente lhes negavam hospitalidade. Apesar desses “antecedentes” provocados por divergências em relação à Torá – os judeus sempre consideraram os samaritanos hereges – Jesus, embora sendo igualmente judeu, demonstra uma grande benevolência para com os samaritanos. São Lucas, de modo particular através de seu evangelho, nos narra essa simpatia de Jesus, oferecendo-nos algumas ocasiões onde os samaritanos aparecem em situações favoráveis perante a benevolência divina (Lc 10, 33; 17, 16); de fato, é famosa aquela passagem Lucana que a tradição chamou de o “Bom Samaritano” (Lc 10, 29-37). Mas, ao olhar para esses antecedentes de inimizade recíproca, bem poderíamos nos perguntar se poderia existir de fato para um judeu algum “bom samaritano”. De modo análogo, muitos hoje se perguntam – dentro de uma ótica apenas humana – se haveria de fato, algum “bom ladrão” (Lc 23, 39 – curiosidade: a Catedral de São José dos Campos – São Paulo – é dedicada a São Dimas, o bom ladrão)… Sem querer aprofundar aqui estes argumentos, basta afirmar que a lógica de Deus não é lógica humana: Filipe, um cristão vindo do judaísmo helênico, vai para a Samaria, e a Boa Nova começa a se expandir justamente por onde, num primeiro momento, pareceria pouco provável. Mais uma vez, Deus dá uma atenção maior aqueles que são desprezados e mais fracos. Vale a pena destacar ainda, o fato de Filipe realizar as obras que Jesus mesmo fez (cf. Jo 14, 12) ao chegar nessa cidade samaritana; quase a dizer que é o próprio Jesus que permanece na pessoa de Filipe (At 8, 6). O fruto mais evidente dessa presença maior e misteriosa na pessoa de Filipe (“ouviam falar nos sinais que operava ou viam-nos pessoalmente” v. 6) é a “grande alegria” (v. 7), quase que inexplicável, que surge naqueles samaritanos que acolheram a Boa Nova: eles que são a prefiguração do anúncio do evangelho a toda a humanidade. “Aclamai a Deus, terra inteira, cantai glória ao seu nome…” (Salmo Responsorial). Essa alegria é ratificada com o dom do Espírito Santo, comunicado pelos apóstolos (v. 15.17), eles que haviam recebido por sua vez o Espírito Paráclito do próprio Senhor e que com eles permaneceu sempre (cf. Evangelho: Jo 14, 16). Em virtude desse mesmo Espírito atuante na liturgia (Catecismo da Igreja Católica, CIC, 1076), o anúncio que fez Filipe aos samaritanos é o mesmo ao qual somos chamados a acolher no nosso hoje, na nossa história. Nesse sentido, é importante lembrar que o cristianismo é essencialmente uma experiência, é um encontro com o Cristo Ressuscitado e, para além de qualquer sentimentalismo tão em voga em nossos dias, é verdadeira alegria, é verdadeira beleza que tem o poder de transformar nossas vidas: “Transformou o mar em terra seca, atravessaram o rio a pé enxuto… Ali alegramo-nos com ele…” (Salmo Responsorial. Trad. Bíblia de Jerusalém). Essa experiência com o Senhor, por meio do Espírito, já a fizemos em nosso Batismo (Ritual da Iniciação Cristã de Adultos, RICA, 2 e CIC, 1213ss), mas é necessário aprofundá-la, vivê-la mais intensamente na liturgia (Concílio Vaticano II, Sacrosanctum Concilium, SC 2). O Concílio Vaticano II afirmou com muita força que a Igreja não pode fazer a menos que anunciar aquilo que ela mesma recebeu de seu Senhor, por meio do Espírito Santo (cf. Concílio Vaticano II, Decreto Ad Gentes, AG n.2). Ora, a Igreja não é uma entidade abstrata. São Pedro nos dizia no domingo anterior que nós somos “as pedras vivas desse edifício espiritual” (cf. 1Pd 2, 5) que é a Igreja (cf. Concílio Vaticano II, Lumen Gentium, LG 6 e 7); somos aqueles que, mesmo diante das adversidades da vida, ao fazermos em primeira pessoa a experiência do Mistério Pascal, devemos estar “sempre prontos a dar a razão de nossa esperança a todo aquele que no-la pede” (1Pd 3, 15. Segunda Leitura). Dar razão de nossa esperança, o transmitir da fé, é algo portanto que nos diz respeito diretamente (Lc 18, 8). A partir dessa constatação podemos pensar, por exemplo, em quantas crianças hoje, apesar de terem pais católicos, são “órfãs” na fé (cf. Evangelho Jo 14, 18)? Numa visão pouco católica, não são poucos hoje na Igreja aqueles que crêem ser função apenas do catequista ensinar os rudimentos da fé às crianças… O Diretório Nacional de Catequese – DNC (CNBB, Doc. 84) afirma com veemência a primazia dos pais na catequese de seus filhos (DNC n. 238), primazia esta que tem sua raiz no próprio Mistério Pascal vivenciado no sacramento do matrimônio. “Se me amais, observareis meus mandamentos” (Jo 14, 15. Evangelho). Jesus ao afirmar a observância dos mandamentos se apresenta como o novo Moisés, o grande líder vetero-testamentário que mediou a entrega da Lei divina, os mandamentos, ao povo: “São estes os mandamentos, os estatutos e as normas que o Senhor vosso Deus ordenou ensinar-vos… Ouve ó Israel: O Senhor nosso Deus é o único Senhor! Portanto, amarás ao Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua força…” (Dt 6, 1.4). Essa passagem da Escritura é muito cara a todo Israel. As mães e os pais judeus sempre se esmeraram em ensinar a seus filhos, desde pequeninos, a recitá-la diariamente nas horas prescritas ainda hoje pela liturgia judaica. Podemos apenas imaginar como terá ressoado aos ouvidos dos discípulos as palavras de Jesus sobre a observância de seus mandamentos e sobre o amor do Pai: “Quem tem meus mandamentos e os observa é que me ama; e quem me ama será amado por meu Pai” (v. 21). Jesus nos deixa claro que seus mandamentos não são preceitos jurídicos. Não se trata de legalismo, mas trata-se de amor. (“Dou-vos uma mandamento novo: que vos ameis uns aos outros…” Jo 13, 34.). Fora desta perspectiva o cristianismo poderá correr o risco de reduzir-se a apenas um conjunto de dogmas frios, de ritos, de “catequeses-aulas” a serem aprendidas à memória… Consideremos o cristianismo apenas a partir desta ótica e correremos o risco seríssimo de dizer muito pouco ao coração do homem contemporâneo, um coração sedento de amor verdadeiro, de um amor capaz de consolar a vida de todo homem e mulher. “E ele vos dará outro Paráclito, para que convosco permaneça para sempre” (Jo 14, 16b). A palavra Paráclito vem do grego (paraklêtos) e tem o sentido de “alguém chamado para que esteja ao lado, para que assista”. Em latim o termo será traduzido ora como “consolator” (consolador), ora como “advocatus” donde, o nosso termo português “advogado”, isto é, alguém contratado para fazer a defesa de alguém, falar por alguém, num processo jurídico. O termo enquanto tal possui também o sentido de “protetor, defensor”. Prescindindo de uma reflexão mais apurada ofertada pela ciência exegética, gostaríamos de considerar o aspecto do Espírito como aquele que pode de fato “consolar” o coração do homem, que pode ser o grande mestre interior capaz de levar o homem à Verdade, ao conhecimento de Deus, o Pai, pelo Filho que é “o Caminho a Verdade e a Vida” (Jo14, 6), no Espírito Santo, doador de todo dom. Deixar-se abrir a este dom e encontrar o sentido profundo da existência e afagar o rosto carinhoso do Pai bondoso que está nos céus.

 

NÃO UMA LEI, MAS SEGUIR A UMA PESSOA
Sexto domingo da Páscoa (João 14, 15-21)

Tantas vezes nos encontramos com uma compreensão da moral, da forma de entender um comportamento diante de tantas coisas da vida, como quem segue o ditado de uma normativa dada. Poderia parecer que isto é também a ética cristã: secundar nossas regras morais. Disto trata o evangelho deste domingo a propósito dos mandamentos. Também nos mete na ceia última de Jesus com seus discípulos, na qual Ele fará a grande síntese de sua revelação: o Pai amado, o Espírito prome¬tido, o amor até a entrega total como sua manifestação suprema. Jesus propõe um modo estranho de comprovar o amor verdadeiro para com sua Pessoa: guardar seus mandamentos, quer dizer, tudo o que sua Palavra e sua Pessoa foram desvelando de tantas formas. Não se trata de um “código de circulação” ética ou religiosa, mas um modo novo e integral de viver a existência ante Deus, ante os demais, ante um mesmo.
Não nasce da curiosidade pelo que Ele fez e disse. Muitos viram e escutaram ao Mestre em sua andança humana, e tantos deles não entenderam nada. Era necessário que este novo modo de viver a existência, nascesse do Alto, do Espírito, como explicará o mesmo Jesus em outra noite de confidências ao inquieto Nicodemos. Por isso o Senhor, depois de ter dito aos seus que amar-lhe e guardar seus mandamentos é a fidelidade cristã, lhes prometerá o envio desse Espírito. Não fazemos uma seleção de seus ensinamentos em um cristianismo “a la carte”, em um cômodo “sirva-se você mesmo – buffet” dentro do bazar religioso. Para entender a Jesus é necessário amá-lo, mas só ama quem não censura nenhum dos fatores que compõem a vida e a palavra da pessoa amada.        Dificilmente se podem contar como próprias as coisas que não experimentamos nem saboreamos. Quem faz assim, não só não contagia nada, mas semeia o cansaço. Não contar uma história alheia e emprestada, mas relatar o que supôs o passo de Deus por todos nossos segredos. E isto é anunciar a Cristo. E encher de alegria o ambiente que diariamente pisam nossos pés.
O cristão que anuncia a Jesus, mais de demonstrar ao seu Senhor, o que simplesmente faz é mostrar-Lhe. Porque a razão de nossa esperança não é um discurso teórico de fria apologética, mas um anúncio simples e forte do que nos sucedeu: a escuridão, a indiferença, a violência, o pecado e a morte, foram deslocadas e arrancadas em nós pelo passo libertador da Páscoa de Jesus em nossa vida. E essa libertação que nos sucedeu a nós desejamos que suceda também absolutamente a todos. Os mandamentos cristãos são viver a vida de Jesus Cristo pela força do Espírito da Verdade. Pregamos a Cristo sendo testemunhas da luz, da misericórdia, da paz, da graça e da vida que aconteceu e acontece em nós depois do encontro com Ele. Ele é nossa regra e nossa lei.

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