V Domingo da Páscoa – Ano A

Por Mons. Inácio José Schuster

Estamos à meio do Tempo Pascal. Celebramos há quase um mês o Domingo da Ressurreição. Nunca é demais recordar o tom festivo que devem ter as nossas celebrações dominicais, não esquecendo alguns elementos litúrgicos que nos ajudam a manter a alegria pascal: as flores, a iluminação, o rito da aspersão da água benta, o canto do Glória, o uso da terceira fórmula de aclamação depois da consagração (cantada, se possível), a bênção solene sobre o povo… Nos primeiros domingos da Páscoa, os textos evangélicos narravam-nos as aparições de Jesus Ressuscitado. No domingo passado, Jesus foi apresentado como o Bom Pastor e como a única Porta que dá acesso ao Pai. Nos próximos domingos (5º e 6º), teremos as palavras de despedida de Jesus, ditas na Última Ceia aos discípulos. Hoje, o texto evangélico recorda-nos que o centro da nossa fé é Jesus Cristo: “Se acreditais em Deus, acreditai também em Mim”. Também Jesus nos diz que Ele é o caminho, a verdade e a vida. 1) Perante os imensos caminhos que o mundo nos oferece para alcançar a felicidade que desejamos, Jesus é o caminho certo para a obter. Não é um caminho, mas o caminho, porque Jesus nos conduz para o Pai: “Ninguém vai ao Pai senão por Mim”. Quanto mais acolhermos Deus na nossa vida, tanto mais seremos repletos do seu amor, fonte da verdadeira felicidade. As coisas deste mundo somente geram uma felicidade passageira e superficial. Recordemos a célebre frase de Santo Agostinho: “Criastes-nos para Vós, Senhor, e o nosso coração não descansa enquanto não repousar em Vós” (Confissões 1,1). 2) Jesus diz que é a verdade. Jesus concede a verdade ao ser humano, porque “o mistério do homem só se esclarece verdadeiramente no mistério do Verbo Encarnado” (GS 22). Jesus, Homem Perfeito, diz-nos como o homem (humanidade) deve ser. Ele é o modelo para todos aqueles que desejam a plenitude humana. 3) Jesus diz-nos que é a vida. Ele dá-nos a verdadeira vida. Quem se configura a Jesus, vivendo à sua maneira e ao seu jeito, é consciente do que vive, perante uma humanidade que se limita a sobreviver. Além disso, por Cristo a vida divina brota do coração humano, alcançando assim a nossa vocação mais sublime: a divinização. Cristo oferece-nos a plenitude da vida: a imortalidade, como nos diz o evangelho: “virei novamente para vos levar comigo, para que, onde Eu estou, estejais vós também”. Cristo faz-nos participar da sua ressurreição. Tendo em conta a segunda leitura, este domingo é um dia propício para uma reflexão sobre o sacramento do Batismo, tão vinculado está à Páscoa. Nos domingos anteriores, foi feita uma reflexão sobre a Eucaristia. No próximo domingo e no domingo de Pentecostes, poder-se dedicar um pouco da homilia para refletir sobre o sacramento da Confirmação. Assim, os três sacramentos da iniciação cristã, o grande sacramento que nos une à Páscoa de Cristo, não perdem o seu protagonismo neste Tempo Pascal. São Pedro, na segunda leitura, diz-nos que somos “uma geração eleita, sacerdócio real, nação santa”. 1) Por um lado, é o batismo que nos introduz nesse “povo adquirido por Deus”, que é a Igreja, aberta a todos os homens e mulheres. Por isso, Pedro convida todos os batizados a proclamarem “os louvores d’ Aquele que vos chamou das trevas para a sua luz admirável”. Assim, atrairemos outros a fazer parte, como “pedras vivas, na construção deste templo espiritual”. 2) Por outro lado, é o batismo que nos “enxerta” em Cristo, participando do seu sacerdócio (o sacerdócio batismal). Assim, todos os batizados são convidados a “oferecer os seus corpos como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus”, mas o melhor sacrifício é a oferta de nós próprios como “hóstia viva”, imitando Jesus Cristo.

 

O “VERDADEIRO JESUS” NÃO É AQUELE QUE CADA UM SE CONSTRÓI
Há muitas imagens distorcidas e fantasiadas…
“EU SOU O CAMINHO, A VERDADE E A VIDA”, diz Jesus.

Convido os católicos a não se contentaram com qualquer imagem de Jesus Cristo. Não devemos nos contentar com as imagens de Jesus que só prometem milagres e não pedem a conversão do coração, ou escondem o caminho da cruz. São tantas as imagens distorcidas e fantasiadas sobre Jesus, ao longo da história e também hoje. A Igreja, comunidade dos discípulos de Jesus Cristo, sofreu muito no seu início para afirmar e preservar a imagem fidedigna de Jesus Cristo e para transmiti-la, de modo fiel, através dos séculos. Ela nunca assumiu interpretações discordantes com o testemunho dos apóstolos, aqueles que ‘viram’ Jesus, estiveram com ele e o encontraram depois de sua morte e ressurreição – ‘não podemos deixar de falar do que vimos e ouvimos’ (At 4, 20). As celebrações da Semana Santa e da Páscoa suscitaram algumas perguntas para as quais se devemos buscar respostas sinceras. Afinal, quem é Jesus Cristo? Quais foram seus ensinamentos? Por que foi condenado à morte de cruz? O que dizem os testemunhos do Novo Testamento sobre os fatos recordados na celebração da Páscoa? Que significado tem sua vida, paixão e morte para a humanidade e para cada um de nós? Qual é minha relação pessoal com Jesus Cristo? Recentemente foi publicada a tradução portuguesa da 2ª parte do livro do papa Bento 16 – Jesus de Nazaré – que se ocupa, justamente, da entrada de Jesus em Jerusalém até a ressurreição. Seria ótimo ler esse livro no tempo pascal. Uma das preocupações do Papa é a de proporcionar aos leitores o acesso ao ‘verdadeiro Jesus’ e o encontro com ele, como nos é dado a conhecer pela Escritura e pela fé da Igreja. É isso mesmo: o ‘verdadeiro Jesus’ não é aquele que cada um se constrói, conforme suas conveniências, sentimentos ou preconceitos, mas aquele que nos é dado a conhecer por aqueles que estiveram com ele e deixaram isso relatado no Novo Testamento. E também pela fé da comunidade dos fiéis, na Igreja, que persevera ‘no ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações’ (cf. At 2,42); ali, o próprio Ressuscitado continua presente e se manifesta aos seus, como fez após a ressurreição.

 

5º DOMINGO DA PÁSCOA, A
Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Diocese da Campanha(MG)

“Cantai ao Senhor um canto novo,  porque ele fez maravilhas; e revelou sua justiça diante das nações, aleluia!”(cf. Sl. 97, 1s)

Meus queridos Irmãos, Depois de termos contemplado no domingo passado Jesus como a porta que dá acesso ao Reino dos Céus à liturgia deste domingo nos convida a ver em Jesus como o CAMINHO, A VERDADE E A VIDA. O acesso ao Pai passa por Jesus. Assim, o sentido destes três termos que constituem a unidade – o Caminho da Verdade e da Vida – é apresentado através de uma pequena encenação. Jesus inicia sua despedida dizendo que é uma viagem necessária, para lhes preparar um lugar, e que eles conhecem o caminho. Tomé responde que não. Jesus explica que ele mesmo é o caminho da Verdade e da Vida, o caminho pelo qual se chega ao Pai. Toda pessoa piedosa sonha ou deseja, ou melhor, quer ver e conhecer a Deus. Mas, nos anuncia João no prólogo de seu Evangelho, que ninguém jamais o viu…(cf. Jo 1,18). Agora, Jesus explica a Filipe, que lhe pede para mostrar-lhe o Pai, e a resposta de Jesus é a seguinte: “Quem me vê, vê o Pai!”. Em outras palavras: em Jesus, o Cristo contemplamos Deus. Nosso perguntar encontra Nele resposta, nosso espírito, verdade; nossa angústia, a fonte da vida. Neste sentido, ele mesmo é o caminho que nos conduz ao Pai e, ao mesmo tempo, a Verdade e a Vida que se tornam acessíveis para nós. Estimados Irmãos, Jesus hoje nos ensina que Ele e o Pai são um só. Jesus nos ensina que Ele voltará para junto do Pai; que as criatura humanas têm um destino eterno; Jesus nos ensina que Ele é o único caminho de acesso a Deus, e que os apóstolos, em conhecendo esse caminho, deviam encher-se de fé e de confiança na sua misericórdia. O homem e a mulher vive sempre apreensivo. A apreensão faz parte da natureza humana e não poderia ser diferente com os apóstolos. Todos nós queremos ver ao Pai, sentindo um desejo, menor ou mais intenso, de ver o rosto de Deus. E na procura de Deus, precisamos de pontos de referência para não nos perder. Jesus se coloca como ponto de referência, seja para vencer a angústia pelo que pode acontecer, seja para encontrar a Casa do Pai e fazer comunhão com Ele. Amados e amadas, O Evangelho de hoje(cf. Jo 14,1-12) é o Testamento de Jesus. Por isso os ensinamentos são repletos de emoção, conselho e de encantamento espiritual. E o testamento de Jesus nos deixa verdades acerca de nossa fé: Jesus é igual ao Pai; toda a obra de Jesus é divina e salvadora; a criatura humana tem um destino e um horizonte eterno; esse horizonte e destino é garantido por Jesus aos que tiverem fé nele; Jesus é o caminho que une a terra ao Céu e por esse caminho a criatura humana pode chegar a Deus; por Jesus conhecemos toda a verdade em torno de Deus; a vida não se esgota aqui na terra e Jesus reparte com o homem o poder de salvar. Estas são as verdades fundamentais do cristianismo, por isso não podemos deixar o nosso coração se perturbar por coisas pequenas diante da normalidade da vida. Jesus confia no homem e na mulher e o cobre com seu manto protetor!  Por isso o próprio Cristo anunciou aos seus: “Eu estarei convosco todos os dias até a consumação dos tempos”(cf. Mt 28,20). Jesus não só assumiu a condição humana nos anos de sua vida terrena, mas para todo o sempre.  Jesus é o nosso companheiro de caminhada, de trajetória e por isso nos encoraja. Irmãos e Irmãs, Jesus no Evangelho de hoje anima e consola os seus discípulos. Por isso nada deve perturbar o coração do discípulo fiel. Isso porque na hora de nossa morte, Jesus virá ao nosso encontro pessoalmente. Vê-lo-emos face a face. Será pela mão de Jesus que entraremos no céu. Ele virá para nos julgar com misericórdia e justiça, conforme professamos em nosso Credo. A misericórdia de Cristo é a misericórdia que vem ao nosso socorro e que em cada sacrifício Eucarístico repetidos com fé: “ajudados pela Vossa Misericórdia, sejamos protegidos de todos os perigos, enquanto aguardamos a vinda do Cristo Salvador”, depois da recitação da Oração que o Senhor nos ensinou. Caríssimos amigos, A Primeira Leitura de hoje(cf. At 6,1-7) nos fala dos diáconos no contexto da expansão da Igreja entre os helenistas. Continua os Atos dos Apóstolos a narração dos primórdios da Igreja. O seu vertiginoso crescimento traz problemas. Além dos convertidos do judaísmo tradicional, ascendem a Igreja também os convertidos do judaísmo helênico, ou seja, daqueles que vêem das cidades comerciais da Grécia, da Armênia, da Síria, etc, ou pagãos convertidos anteriormente ao judaísmo, como os prosélitos. A organização da assistência às viúvas deste grupo provocou um novo serviço na comunidade: os diáconos, os que são servidores da caridade e que assumem o ministério da caridade entre os mais pobres da comunidade. Prezados irmãos, A Segunda leitura hodierna(cf. 1Pd 2,4-9) apresenta a Igreja – como templo de pedras vivas, da qual Jesus Cristo é a pedra angular. A presente leitura é rica de imagens, que se determinam mutuamente. Cristo é a pedra viva, rejeitada pelos sumos sacerdotes e pelos mestres da lei; pedra morta, mas ressuscitada por Deus. Quem a Jesus se une na construção do Seu Reino é pedra viva também. Cristo é o sacrifício espiritual; quem adora a ele, o é também. Por isso somos santificados com ele pelo sacerdócio real que recebemos pelo batismo. Irmãos caríssimos, Cristo é a verdade, na confusão ruidosa das mil “verdades”que só duram um dia. Jesus permanece como o termo último de todas as verdades. Cristo é a vida: todos os esforços do homem para vencer as barreiras da morte só conseguem retardar de um momento o terrível encontro. Só Cristo destrói essa barreira e nos abre as portas para um vida sem fim, em plenitude total. Jesus ao se proclamar como o Caminho único de se chegar ao Pai lembra que é possível chegar ao Pai somente por meio dele. Assim a segunda leitura, continuação da Carta de Pedro canta a dignidade do povo constituído em Cristo, construído com pedras vivas sobre a pedra rejeitada pelos construtores, que se tornou à pedra angular. Nem mesmo os conflitos da comunidade iniciante dos Atos pode nos abalar. Devemos dar louvor ao Deus bom e fiel, ou seja, a providência de Deus para todos os seus. Ele vem em nosso auxílio e em nosso refúgio. Com Jesus estamos no Pai, somos conduzidos ao Pai, participando de sua vida e do seu amor. Que Deus nos ajude e nos conduza todos ao único caminho, sempre lembrando do chamado da Igreja que peregrina no  Brasil  – pelos nossos Pastores – aonde somos convidados a Ver Jesus, único Caminho, Verdade e Vida. Amém!

 

BENTO XVI: JESUS, ROSTO VISÍVEL DO PAI
Palavras ao rezar o Regina Coeli
CIDADE DO VATICANO, domingo, 22 de maio de 2011

Queridos irmãos e irmãs! O Evangelho do domingo de hoje, Quinto de Páscoa, propõe um duplo mandamento da fé: crer em Deus e crer em Jesus. O Senhor, de fato, diz a seus discípulos: “Credes em Deus, crede também em mim” (Jo 14,1). Não são dados separados, mas um único ato de fé, a plena adesão à salvação realizada por Deus Pai mediante seu Filho Unigênito. O Novo Testamento pôs fim à invisibilidade do Pai. Deus mostrou seu rosto, como confirma a resposta de Jesus ao apóstolo Felipe: “Aquele que me viu, viu também o Pai (Jo 14, 9). O Filho de Deus, com sua encarnação, morte e ressurreição, libertou-nos da escravidão do pecado, para nos dar a liberdade de filhos de Deus, e nos revelou o rosto de Deus, que é amor: Deus pode ser visto, é visível em Cristo. Santa Teresa d’Ávila escreve que “não devemos nos afastar do que constitui todo nosso bem e nosso remédio, quer dizer, da santíssima humanidade de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Castello interiore, 7, 6: Opere Complete, Milano 1998, 1001). Portanto, só crendo em Cristo, permanecendo unidos a Ele, os discípulos, entre os quais estamos nós, podem continuar sua ação permanente na história: “Em verdade, em verdade vos digo: aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço (Jo 14, 12). A fé em Jesus implica segui-lo cotidianamente, nas simples ações que compõem nossa jornada. “É próprio do mistério de Deus atuar de modo oculto. Só pouco a pouco Ele constrói na grande história da humanidade sua história. Faz-se homem mas de maneira que possa ser ignorado por seus contemporâneos, pelas forças que contam na história. Sofre e morre e, como Ressuscitado, quer chegar à humanidade só através da fé dos seus, a quem se manifesta. Continuamente Ele bate às portas do nosso coração e, se abrimos, lentamente nos torna capazes de ‘ver’” (Jesus de Nazaré II, 2011). Santo Agostinho afirma: “era necessário que Jesus dissesse: ‘eu sou o caminho, a verdade e a vida’ (Jo 14, 6), porque uma vez conhecido o caminho, faltava conhecer a meta” (Tractatus in Ioh., 69, 2: CCL 36, 500), e a meta é o Pai. Para os cristãos, para cada um de nós, portanto, o Caminho para o Pai é se deixar guiar por Jesus, por sua palavra de Verdade, e acolher o dom de sua Vida. Façamos nosso o convite de São Boaventura: “Abre portanto os olhos, tende um ouvido espiritual, abre teus lábios e dispõe ter coração, para que possas em todas as criaturas ver, escutar, louvar, amar, venerar, glorificar, honrar teu Deus” (Itinerarium mentis in Deum, I, 15). Queridos amigos, o compromisso de anunciar Jesus Cristo, “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 6), constitui a tarefa principal da Igreja. Invoquemos a Virgem Maria, para que auxilie sempre os Pastores e todos que nos diversos ministérios anunciam a alegre Mensagem de salvação, para que a Palavra de Deus se difunda e o número dos discípulos se multiplique (cf. At 6, 7).
[Traduzido por ZENIT ©Libreria Editrice Vaticana]

 

“QUEM ME VÊ, VÊ O PAI”
Por Gabriel Frade, professor de Liturgia e Sacramentos
5º Domingo da Páscoa
Leituras: At 6, 1-7; Sl 32 (33) 1-2.4-5.18-19; 1Pd 2, 4-9; Jo 14 1-12

“Os cinqüenta dias entre a Ressurreição e o Domingo de Pentecostes sejam celebrados com alegria e exultação, como se fossem um só dia de festa, ou melhor, ‘como um grande domingo’.” (Normas Universais sobre o Ano litúrgico e o Calendário, n. 22). Ainda marcada pela alegria pascal, a liturgia da Palavra deste V Domingo da Páscoa nos apresenta uma grande riqueza de conteúdos. A leitura semi-contínua do livro dos Atos dos Apóstolos nos oferece uma imagem da Igreja nascente na qual a comunidade, impelida pelo Espírito do seu Senhor Ressuscitado e à semelhança de sua Pessoa (cf. Lc 2, 40), é descrita como um organismo que cresce de modo progressivo, encontrando graça aos olhos do Pai. Apesar disso, dentro da comunidade cristã aparentemente nem tudo é dom, nem tudo é bondade. Ao contrário daquela imagem idealizada pelo autor dos Atos no capítulo segundo, onde todos eram unânimes na partilha dos bens e nas orações (cf. At 2, 42ss), a passagem apresentada neste sexto capítulo nos mostra uma comunidade onde há murmurações e divisões. No centro da contenda, algo escandaloso: no momento de distribuir os bens da comunidade às viúvas dos chamados “helenistas” – provavelmente judeus advindos da diáspora e falantes da língua grega – ocorre um “esquecimento”, por parte dos “hebreus”. Diante do problema, os Doze não hesitam em pedir a participação da comunidade – identificada possivelmente com a “multidão dos discípulos” mencionada no v. 2: esta deve escolher de seu meio “sete homens de boa reputação, repletos do Espírito e de sabedoria” (v. 3) para proverem às necessidades da igreja. O papel da comunidade nesse processo, ou seja, na eleição madura daqueles membros que deverão exercer um ministério – escolha esta a ser confirmada pelos Apóstolos –, encontra um paralelismo muito belo e profundo na segunda leitura. São Pedro, ao dirigir-se a toda comunidade, lembra com palavras fortes o seu protagonismo, através de uma referência à dignidade sacerdotal que todo fiel possui: “Mas vós sois uma raça eleita, um sacerdócio real, uma nação santa, o povo de sua particular propriedade […] Vós que outrora não éreis povo, mas agora sois o Povo de Deus, que não tínheis alcançado misericórdia, mas agora alcançastes misericórdia” (vv. 9-10). Diante da eleição feita pela comunidade e a julgar pelo nome dos escolhidos – todos nomes oriundos da língua grega –, é possível intuir que tenham sido eleitos apenas membros do grupo dos helenistas para exercer a diakonia, isto é, o serviço dentro da comunidade. Se assim foi, é interessante notar que a escolha recaiu sobre aqueles que estariam de certo modo “contaminados” pelo paganismo da cultura helênica e, por isso mesmo, possivelmente discriminados por aqueles membros da comunidade cristã, chamados no texto de “hebreus” (v. 1). Estes eram assim denominados porque eram provavelmente cristãos ligados ao judaísmo hierosolimitano, talvez considerado mais puro, mais tradicional em relação ao elemento estrangeiro. Nesse sentido, sabe-se, por exemplo, que naquela época os judeus de língua grega tinham sinagogas separadas daqueles que falavam o aramaico: para além de uma questão apenas lingüística, há a possibilidade de uma separação dessas comunidades judaicas em função de outros elementos de caráter discriminatório. O mais curioso é que não obstante o fato de ter sido justamente no grupo dos helenistas o local onde surgiram as “murmurações” contra a injustiça perpetrada pelos hebreus, o autor dos Atos não hesita em nomear um desses escolhidos para servir a comunidade como “homem cheio de fé e do Espírito Santo” (v. 5). Ao que parece, este episódio contém algum elemento de uma escolha inusual e que nos remete a uma mesma lógica já delineada pelas escolhas divinas no Antigo Testamento. De fato, existem várias passagens onde Deus expressa uma predileção pelos mais fracos. Por exemplo, as grandes figuras bíblicas sobre as quais recaiu a escolha de Deus não seriam, segundo uma lógica puramente humana, os modelos mais indicados, já que se apresentam cheios de falhas: Moisés, por exemplo, cometera um assassinato (Ex 2, 12); o Patriarca Jacó havia roubado a bênção de seu irmão Esaú (Gn 27, 1ss); Davi, além de adúltero, tramou a morte de Urias (2 Sam 11), um homem inocente… Obviamente há que se dizer que Moisés, Jacó e Davi se sobressaíram não propriamente por esses pecados, mas justamente pelo fato que, não obstante suas fraquezas humanas, não se fecharam para a ação de Deus, mas antes, voltaram-se para Deus com todas as suas forças. Outro elemento que exprime a predileção divina no AT pelos pobres e fracos é a tríplice categoria que sintetiza de modo emblemático a situação de todo pobre em Israel: além dos órfãos, compunham essa categoria os estrangeiros e as viúvas (ver, por exemplo, Dt 24, 17ss e 1 Re 17, 9ss). De fato, na pregação de Jesus, recorre com certa freqüência a figura da viúva, especialmente no evangelho de S. Lucas, autor também dos Atos dos Apóstolos (Lc, 2, 37; Lc 4, 26; Lc 7, 12; Lc 18, 3; Lc 20, 28; Lc 21,2). Por esse motivo, o “esquecimento” narrado em Atos, nos parece na verdade um forte indício de algo ainda mais grave: um fechamento ao amor mútuo entre irmãos. Um dobrar-se às tradições humanas em detrimento à correspondência do amor ao próximo (“Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros”. Jo 13, 34). Deus não fica indiferente a isso: “Eis que o olho do Senhor está sobre os que o temem, sobre aqueles que esperam seu amor, para da morte libertar a sua vida e no tempo da fome fazê-los viver”. (Salmo Responsorial. Trad. Bíblia de Jerusalém) Apesar dessas incongruências, a comunidade cristã é animada pela força do Espírito, fruto do Mistério Pascal de seu Senhor que supera toda dificuldade humana. Aliás, esse é o modo misterioso do agir de Deus: sua ação se coloca muitas vezes contra a lógica meramente humana (1 Cor 1, 27): “A pedra que os edificadores rejeitaram, essa tornou-se a pedra angular” (1Pd 2, 7. Segunda Leitura). Diante das fraquezas humanas, do medo da solidão e do abandono, Deus se revela como um Deus condescendente, um Deus que quer a salvação de todos os homens (cf. 1Tm 2, 3-4) e oferece paz ao nosso coração irrequieto, muitas vezes tomado pelas preocupações humanas: “Cesse de perturbar-se o vosso coração” (Evangelho, v. 1). Deus conhece nossas limitações e se nos faz próximo, nos oferece um ambiente familiar, um lar onde possamos encontrá-lo e fazer comunhão com ele: “Na casa de meu Pai há muitas moradas” (Evangelho, v. 2). Mas muitas vezes nos encontramos tão céticos que não conseguimos enxergar – assim como os discípulos de Emaús (Lc 24) – a predileção de Deus por nós e sua presença em nossas vidas. Perante nossa freqüente incapacidade de perceber como seja possível encontrar Deus, Cristo se nos apresenta como “Caminho, verdade e vida” (v. 6): Ele é, de certo modo, o “método” por excelência que o Pai nos doa para que possamos realizar o desejo mais profundo de toda a humanidade, que é aquele de contemplar o rosto do Pai, de viver em comunhão com Deus. Jesus, Mestre Divino, inspirou um grande número de fiéis na Igreja a buscarem no rosto do Filho a contemplação do Pai – dentre estes fiéis, lembramos do Beato Pe. Tiago Alberione e a irmã Tecla Merlo, fundadores da família paulina e que tinham particular veneração por Cristo Caminho, Verdade e Vida. Cristo inspira ainda hoje sua amada esposa, a Igreja, a ter o mesmo carinho e solicitude, para que todos os homens possam ter a vida e a vida em abundância, pois para isso Cristo nossa Páscoa foi imolado, com sua morte venceu a corrupção do pecado destruiu nossa morte e nos garantiu a vida em plenitude (cf. Prefácio IV da Páscoa). Essa inspiração está particularmente presente na América Latina e no Caribe, onde a Igreja está atenta a ouvir o Cristo Mestre, como bem o afirmaram os bispos reunidos na Conferência de Aparecida: Com a luz do Senhor ressuscitado e com a força do Espírito Santo, nós os bispos da América nos reunimos em Aparecida, Brasil, para celebrar a V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. Fizemos isso como pastores que querem seguir estimulando a ação evangelizadora da Igreja, chamada a fazer de todos os seus membros discípulos e missionários de Cristo, Caminho, Verdade e Vida, para que nossos povos tenham vida n’Ele. (Documento de Aparecida, n. 1) “Quem me vê, vê o Pai” (v. 9). Essa percepção da presença do Senhor na Igreja (“Cristo está sempre presente na sua Igreja, especialmente nas ações litúrgicas” – SC 7), se traduz em grande alegria pascal, que da celebração litúrgica deve reverberar ao longo da vida concreta do cristão, no seu dia a dia, pois o “O gesto litúrgico não é autêntico se não implica um compromisso de caridade, um esforço sempre renovado para ter os sentimentos de Jesus Cristo e uma continua conversão” – Documento de Medellin, 9,3. A Igreja é de fato esse “edifício espiritual” do qual cada um de nós é chamado a ser “pedra viva” para oferecer “sacrifícios espirituais agradáveis a Deus”. Em sendo assim, ao nos tornarmos templos do Espírito Santo (cf. 1 Cor 6, 19) fazemos presente o rosto de Cristo no hoje de nossa história: na medida em que seguimos Cristo Caminho, Verdade e Vida, fazemos as mesmas obras que Jesus faz (Evangelho, v. 12), fazemos a Palavra de Deus Crescer [1] (Primeira leitura v. 7), finalmente, fazemos presente no mundo o rosto do Filho, nos tornamos para o outro um “alter Christus” (outro Cristo) onde é possível contemplar o rosto do Filho e bendizer as obras do Pai: “Vede como se amam! [2]”.
Notas: 1. É o princípio formulado por São Gregório Magno: Scriptura crescit cum legente, isto é, a Escritura cresce com quem a lê. O Espírito que repousa nas Escrituras está presente também em nós.
2. Essa expressão é do cristianismo antigo e nos foi conservada por Tertuliano. Tratava-se da exclamação que os pagãos emitiam ao ver o despojamento e amor dos cristãos, dispostos a dar a vida pelos irmãos.

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