IV Domingo da Páscoa – Ano A

Por Mons. Inácio José Schuster

Neste quarto domingo da Páscoa, Jesus ressuscitado apresenta-Se em Sua comunidade como o bom pastor. O Evangelista João nos diz que existe um método ou um modo adequado de aproximar-se das ovelhas, contraposto a um modo inadequado. Na verdade, à época de Jesus era comum usar a metáfora do pastor e das ovelhas. Os antecedentes bíblicos de Israel, os patriarcas Abrahão, Isaac e Jacó haviam sido pastores. David, antes de tornar-se rei, havia sido um pastor também. Os reis de Jerusalém, durante o período da Monarquia, recebiam o título de pastores de seu povo e deviam conduzi-los – não o fizeram as mais das vezes – ao direito e à justiça. Ezequiel, em seu capítulo 34°, traz, por parte de Deus, uma requisitória contra os maus pastores que se apascentam a si mesmos, que tosam a lã das ovelhas para agasalhar-se bem com ela, que arrancam o leite das ovelhas para alimentar-se dele, mas não tem nenhum amor, nenhum carinho, nenhuma delicadeza para com essas mesmas ovelhas, não curam a que está doente, não enfaixam a que está ferida, não vão atrás da que está desaparecida, não fazem crescer aquela que precisa de alimentação. Naquela ocasião Deus, sempre pela boca de Ezequiel, afirma que num futuro Ele mesmo cuidaria de Suas ovelhas. E, na plenitude dos tempos, os Cristãos viram que esta promessa de Deus, feita outrora pela boca de Ezequiel, cumpria-se literalmente através de Jesus. O Bom Pastor, Aquele que não buscou Seu próprio interesse, Aquele que ofereceu a Vida de Deus a essas ovelhas, Aquele que lhes anunciou o Reino de Deus, Aquele sobretudo que, por cada um de nós – deixando a metáfora – sofreu a morte acerba e dolorosa e ressuscitou para nossa justificação. É exatamente Este que Se põe em nosso meio hoje e apresenta-Se nas vestes de um Pastor. Ou seja, de um guia, de Alguém que conduz, de Alguém que oferece uma luz, de Alguém que vai à frente, de Alguém que liberta da escuridão, de Alguém que dá um sentido e aponta para um horizonte, não apenas nesta vida, mas um horizonte metafísico, um horizonte para além desta existência. Podemos não aceitar Jesus e não colocá-Lo no centro de nossa existência, mas é preciso uma bela crítica a cada um de nós neste quarto domingo da Páscoa. Quem é que nós estamos seguindo? Quem é o nosso modelo? Quem é aquela pessoa que gostaríamos de copiar? Muitas vezes não passa de pobre indigente como nós mesmos, sem nada a nos oferecer e o que é pior, muitas vezes em busca dos próprios interesses, que não são necessariamente iguais aos nossos.

 

A porta da Salvação está aberta e tem nome: Jesus Cristo!
Padre Bantu Mendonça

Em todos os Evangelhos, João é o único que nos apresenta Jesus como sendo a “porta das ovelhas”. E Cristo indica claramente que Ele é a única porta por onde devem entrar todos os pastores de Israel, ou seja, os reis ou dirigentes messiânicos de Israel devem se ajustar ao único verdadeiro Pastor, que é Jesus. Quem não entrar, como os apóstolos o fizeram, pela Sua porta não pode ser verdadeiro pastor. Por isso, na continuação, Jesus explica Seu papel de supremo e verdadeiro Pastor. A afirmação do Senhor – segundo a qual Ele é a porta do aprisco – é de tal modo absoluta, que nos obriga a mantê-la como uma verdade de fé. Todo aquele que não se compromete com Jesus e Seus ensinamentos não pode ser verdadeiro pastor das ovelhas, que constituem os súditos do Reino de Deus. Essa porta é única, de modo que qualquer outra porta – moral ou dogmática – será o mesmo que entrar no aprisco por cima da cerca. E isso é roubalheira, é vandalismo, prática própria dos ladrões, que servem melhor a seus interesses do que ao bem das ovelhas a eles encomendadas. Quem são esses ladrões? Evidentemente, aqueles que buscam o dinheiro como proveito de seus serviços, ou a fama para serem louvados como líderes. Quando Jesus coloca Seu serviço como “dar a vida”, Ele escolheu a morte para que elas tenham vida (cf. Jo 10,15). O Senhor dirá como os chefes da terra a subjugam e dominam, mas aquele que quiser ser grande entre seus discípulos deve servir a todos como Ele mesmo o fez (cf. Mt 20,25-28). Não podemos esquecer que os primeiros pastores são os próprios pais. Neste mundo em que o bem-estar e o prazer substituem o amor e o serviço, é bom recordar as palavras de Jesus sobre como apascentar as ovelhas que, no caso, são os filhos. “Em verdade vos declaro: Eu sou a porta das ovelhas.” Jesus acaba de abrir a porta que nos tinha mostrado fechada. Ele mesmo é essa Porta. Reconheçamo-Lo, entremos e alegremo-nos por ter entrado. “Os que vieram antes são ladrões e salteadores”. É preciso compreender: “Os que vieram fora de mim”. Os profetas vieram antes d’Ele. Eram ladrões e salteadores? De forma alguma, porque não vieram fora de Cristo. Estavam com Ele. O Senhor os havia enviado como mensageiros. “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”, diz Jesus (cf. Jo 14,6) Se Ele é a Verdade, os que estavam na verdade estavam com Ele. Os que vieram fora d’Ele, pelo contrário, são ladrões e salteadores porque só vieram para pilhar e fazer morrer. “A esses, as ovelhas não escutaram”, afirma o Mestre. Os justos acreditaram que Ele viria tal como nós acreditamos que Ele já veio. Os tempos mudaram, a fé é a mesma. Uma mesma fé reúne os que acreditavam que Ele devia vir e os que acreditam que Ele já veio. Vemos entrar todos, em épocas diferentes, pela única porta da fé, quer dizer, Cristo. Sim, todos os que acreditaram no passado, no tempo de Abraão, de Isaac, de Jacó, de Moisés ou de outros patriarcas e profetas que, todos eles, anunciavam a Cristo, todos esses já eram Suas ovelhas. Neles se ouviu o próprio Cristo, não como uma voz estranha, mas com a própria voz d’Ele. Portanto, quem entrar por Jesus encontrará pastagem, isto é, alimento para a vida. E vida em abundância, a vida eterna. Pai, torna-me um discípulo dócil de Jesus, o verdadeiro Pastor, que arriscou a própria vida para me salvar. Somente Ele poderá conduzir-me para Ti, para ao Teu lado viver eternamente.

 

O SENHOR É MEU PASTOR E NADA ME FALTARÁ
Padre Paulinho

O Senhor é meu Pastor e nada me faltará. Não tenhas medo. Não te perturbes porque o Bom Pastor, Jesus Cristo está cuidando de ti. Estamos neste mundo por um tempo, isso preciso te dizer: Não tenhas medo! Jesus está com você. Veja que interessante, você sabia que o cuidado com as ovelhas é bem diferente do cuidado para com os outros animais? A ovelha precisa de um cuidado especial do pastor porque, além ser um animal bonitinho, ela é muito frágil, indefesa e tem uma visão limitada e, consequentemente, não enxerga muito longe. Uma das imagens do Bom Pastor que gosto muito: nela Jesus está com o cajado na mão puxando a ovelha pelo pescoço, para protegê-la do perigo. E em outra imagem do Bom Pastor, Jesus está com a ovelha no ombro, porque ela está ferida, e precisa de cuidados e Ele não quer perder nenhuma de suas ovelhas. Esse Bom Pastor é o nosso Deus, que dá a vida por nós e que mais uma vez se dá a nós hoje na Eucaristia para nos alimentar, para curar as feridas da nossa alma e do nosso coração, e essa ovelha somos cada um de nós, Jesus não mede esforços para ir atrás de nós, sim, Ele cuida de nós. Veja a leitura IPedro 2, 25: “Andáveis como ovelhas desgarradas, mas agora voltastes ao pastor e guarda de vossas vidas.” Com é bom se encontrar com o Bom Pastor, Ele sabe o nome de cada ovelha, Ele escuta a voz da sua ovelha. Sim, o Bom Pastor sabe de você, sabe das suas dificuldades. Sim, Ele te escuta, mesmo que a sua oração seja a lágrima que você derrama no travesseiro ou durante o banho, o Bom Pastor está assim: de coração aberto para acolher a sua dor e o seu sofrimento. O Bom Pastor colhe as lágrimas que derramamos. Ele vê quando você vai rezar diante d’Ele no Santíssimo Sacramento. Por isso, hoje somos chamados a voltar a esse Bom Pastor, para caminhar com Ele, “O Senhor é o pastor que me conduz, não me falta coisa alguma” (Salmo 22). E como foi bom ter acompanhado este Congresso Mariano, quantas graças foram derramadas sobre nós nestes dias. Sim, já estamos diferentes depois de tudo o que experimentamos. É a Virgem Maria que traz Jesus nos seus braços e é Nossa Senhora que nos dá de presente seu filho Jesus. Nós precisamos seguir o exemplo da Virgem Maria: que o nosso coração e a nossa mente possam estar voltados para o Pai. Muitas vezes desanimamos diante das situações. Deus está muito mais próximo de nós, do que imaginamos! “Deus está muito mais próximo de nós, do que imaginamos!”, afirma padre Paulinho Se nós rezamos uns pelos outros, quanto mais Maria! Ela reza e intercede por nós junto a Deus. Sim, é Maria que nos conduz a seu filho Jesus, é ela que abra as portas e nos conduz até Jesus. Que você possa ser um instrumento da benção de Deus, alguém que as pessoas possam olhar e dizer: “Essa pessoa realmente é diferente.” Aproveite o tempo que você tem para rezar o Terço. Ele é um instrumento eficaz em nossa vida. Não perca a oportunidade de trazê-lo nas mãos. A partir do momento em que você começar a rezar o Terço, você começará a criar gosto pela oração. Basta rezar com o coração. Quando você for fazer sua caminhada, vá rezando o seu Terço. Esta é uma oportunidade que você tem para se encontrar com o Senhor, a nossa oração tem força, ela tem o poder de transformar o nosso coração de ovelha desgarrada, e nos levar até o coração do Bom Pastor. Deus tem uma missão para todos nós. Ele confia uma missão para nós. Deus quer que assumamos a nossa missão, assim como fez São Pedro na primeira leitura de hoje. Ele se levanta e começa a pregar à uma multidão e muitos se convertem e são batizados em nome de Jesus. Deus nos envia e nos confia esta missão: a de sermos instrumentos do bem em nosso dia a dia, aonde quer que estejamos. Que o seu testemunho possa mostrar que você é diferente, que você é um homem de Deus. Precisamos mostrar para as pessoas que vale a pena ser cristão. Vale a pena ser de Deus e, se possível, convide as pessoas para rezar o Terço com você, leve Nossa Senhora às outras pessoas, não tenha medo, ensine e incentive as pessoas a rezar. Mãe, pai, ensine seus filhos a rezar, semeie o Céu no coração dos seus filhos. Peçamos juntos a graça de podermos confiar e sermos cuidados e conduzidos pelo Bom Pastor. Amém.

 

4º DOMINGO DA PÁSCOA, A
Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Diocese da Campanha(MG)

“A terra está repleta do amor de Deus; por sua Palavra foram feitos os céus. Aleluia!” (Cf. Sl. 35,5s).

Meus queridos irmãos, Celebramos neste domingo a festa do Bom Pastor. O Evangelho de hoje (Jo 10,1-10) apresenta a cena campestre do vaivém de pastores e ovelhas, mas também de assaltantes e ladrões, no redil comunitário das aldeias da antiga Palestina. As autoridades judaicas não entenderam essa parábola, pois só quem crê entende Cristo. Jesus Cristo é a porta. Conduzidas através dele, as ovelhas encontrarão vida. Antes dele vieram pessoas que entravam e saíam, não pela porta, mas por outro lugar: eram assaltantes, conduziram as ovelhas para a perdição e a maldade, para lhes tirar a vida.  Aqui pouco importa quem sejam os assaltantes. Jesus talvez poderia estar pensando que os assaltantes poderiam ser os mestres judeus de seu tempo e isto é uma pista que não se deveria seguir os mesmos. A mensagem principal é essa: só o caminho do Cristo é que conduz a salvação e que dá a vida eterna. Jesus Cristo é a Porta. E esta porta está situada na comunidade dos crentes, na comunidade dos fiéis. Na Comunidade que representa o Cristo, depois da ressurreição encontramos o que nos serve para sempre; teremos o mesmo acesso ao Pai que os apóstolos tiveram em Jesus. Jesus com a sua comunidade é a porta que dá acesso ao Pai. Estimados irmãos, A Festa do Bom Pastor é a festa da ternura e da misericórdia de Deus pela humanidade. Jesus de Nazaré “comprou” as ovelhas com o preço de seu sangue, as redimiu na cruz e lhes garantiu na Páscoa a vida eterna. Por isso a festa de hoje sintetiza a misericórdia, o amor e a doação integral. No tempo de Jesus três eram as profissões rurais dos judeus: os plantadores de trigo, os pescadores e os Pastores. Os Pastores estão presentes na noite de Natal. Jesus compara o povo a ovelhas sem pastor e, também, compara a Igreja como um rebanho. E, mais do que isso, Jesus se autoproclama o Bom Pastor. O Bom Pastor que conhece as suas ovelhas, as chama pelo nome, as abençoa e as envia para a missão. Jesus usa a alegoria da Porta para se denominar. Os pastores costumavam construir nos campos um abrigo para a noite. Era um cercado ou um curral, cercado por um pequeno muro de pedras, com uma única porta e esta propositadamente estreita. Durante a noite vários pastores levavam ao curral as suas ovelhas e um deles ficava como vigia a noite toda. Pela manhãzinha, o pastor chamava as ovelhas pelo nome, elas saiam uma a uma, sendo contadas depois de passar pela porta estreita e iam para o pasto se fartar do que a natureza oferece de alimento aos animais. Essa alegoria do curral se aplica também as cidades de então. Jerusalém era cercada, pelas famosas muralhas de Salomão e de Herodes. Entrava-se e saia-se da cidade somente pelo pórtico. A porta sempre significou proteção, segurança. Era na porta da cidade que se recebiam os que chegavam e se despediam os que partiam. A Porta sempre significou o acolhimento, mais do que isso o carinho. Era à porta da cidade que se faziam os negócios, que se comprava dos mascates e se vendia aos estrangeiros em viagem. A Porta era a manifestação da graça e da proximidade. Mas, porque Jesus se compara como a porta? Isso para dizer que Ele é a única porta. Somente por ele se entra na cidade de Deus, no Reino dos Céus. Somente na porta estreita que é o Cristo que encontramos segurança e proteção. O Cristo nos acolhe sempre que a Ele recorremos. No Cristo teremos a mais feliz e certa das possibilidades como dirá São Pedro posteriormente: “Nele encontraremos as mais preciosas e ricas promessas e nos tornamos participantes da natureza divina”(Cf. 2Pd 1,4). Jesus adverte aos fariseus e escribas chamando-os provavelmente de ladrões e assaltantes porque se haviam arrogado o direito de interpretar a lei divina, e a lei, em vez de ser um roteiro de santificação e vida, se tornara uma carga de escravidão e de morte. A lei, para os fariseus, já não significava segurança para ninguém, não tinha mais a força de consolar e abrigar os corações angustiados do povo e não dava a possibilidade de ver a Deus e buscar a verdade do Senhor. Amados e Amadas, Se o curral precisa de porta ou a cidade de pórtico é porque se precisa de defesa. Jesus se autodenomina a porta para demonstrar a todos os homens e mulheres de boa vontade que Ele é a Paz. Por isso nós rezamos na missa: “Senhor Jesus Cristo dissestes aos vossos Apóstolos: eu vos deixo a paz; eu vos dou a minha paz. Não olheis os nossos pecados, mas a fé que anima a vossa Igreja. Dai-nos segundo o Vosso desejo a paz e a unidade. Vós que sois Deus com o Pai e o Espírito Santo!”.  Jesus, com sua pessoa e sua doutrina, quis pacificar os homens, quis dar de beber no mesmo córrego ao lobo e ao cordeiro, porque ambos são criaturas de Deus; quis que as criaturas humanas experimentassem um novo modo de viver: na fraternidade e na justiça, na mansidão e na benquerença e, por conseguinte, na paz. O mundo é a prefiguração das alegrias eternas. Mas um mundo com paz, com harmonia, com concórdia, com misericórdia, com comunhão. O modo de ver o mundo de Jesus é diferente: Jesus anuncia a plenitude da vida no Evangelho de hoje. Por isso quem ouve a voz do pastor, reconhece em Jesus a autoridade de único Mestre, de único Guia e de único Senhor, e o segue, cumprindo Seus mandamentos e se faz com Ele, como Ele e o Pai do Céu são uma perfeita comunhão. Caros Irmãos, A Primeira Leitura(At 2,14a.36-41) nos apresenta o querigma e a conversão. Continuidade da pregação missionária de Pedro do domingo precedente nos ensina que no despojamento de Cristo cumpriram-se as profecias do Servo, mas também a ressurreição estava prefigurada na Sagrada Escritura. Os apóstolos testemunham que Deus ressuscitou Jesus: ele vive e é o Senhor, na glória. Quem ouve esta mensagem, deve optar – primeiro o povo de Israel – mas também os que o Senhor chamou de longe. Estimados Irmãos, A Segunda Leitura(1Pd 2,20b-25) termina em termos que evocam igualmente a figura de Jesus-Pastor. Devemos seguir o caminho da não violência, procurando enxergar o caminho da misericórdia e da justiça. O Servo Sofredor que é o Cristo nos chama a fidelidade ao seu mandato que nos leva a superar todas as formas de sofrimento e de perseguição. E se preciso for morreremos pelo causa do Reino. O servo é o justo que Pedro anuncia em Pentecostes. Pela aceitação do anúncio sobre o Cristo ressuscitado e pelo nosso batismo somos incorporados à Igreja, corpo místico de Cristo, e passamos a aderir ao círculo dos discípulos de Cristo. Todos nós somos chamados a trilhar os passos de Jesus Cristo, o Bom Pastor. Dirigido aos escravos o texto da presente leitura vale para todos os que são cristãos. A todos, Cristo deu no seu sofrer o exemplo da paciência, diz o texto, com as palavras que lembram o Servo Padecente de Is 53. A imagem das ovelhas perdidas evoca a do pastor, ao qual o rebanho se confia pelo batismo. O Bom Pastor, o Senhor, nos abre o caminho. Amados e Amadas, Cabe uma palavra acerca do rebanho que o Senhor Jesus nos confiou como seus pastores. A comunidade dos que crêem não devem unicamente ser exigentes somente com os seus pastores, com o Magistério, com a Igreja como instituição. Antes os fieis devem sentir e manifestar-lhes o seu profundo amor, impregnado de franqueza, caridade e obediência. Ao lado do Espírito de crítica e de rebelião, de muitas maledicências, que grassa mesmo no seio da Igreja, não faltam os testemunhos. O Beato Newman, convertido ao catolicismo, vê-se, em certo momento, impedido de trabalhar pela própria Igreja. Menosprezado pelos protestantes, mal interpretado por muitos católicos,  olhado com desconfiança por certos bispos, suspeito de heresia, carregou a sua cruz com paciência heróica, até o momento em que pode retornar a atividade apostólica que era o objetivo de sua vida. Ao rezarmos pelos nossos pastores devemos pedir pastores seguindo o Coração de Jesus. A festa do Bom Pastor nos propõe uma conversão sincera e absoluta como reconhecimento do errado e adesão a Cristo como escolha do caminho reto. Cantemos, pois, com fé, pedindo o auxilio do Bom Pastor ao nosso propósito: “O Senhor é o pastor que me conduz, para as águas repousantes me encaminha!” Amém!

 

O SENHOR É O PASTOR QUE ME CONDUZ
Por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração
IV DOMINGO DA PÁSCOA
Leituras: At 2, 14. 36-41; 1 Pd 2, 20b-25; Jo 10, 1-10

O Senhor é o pastor que me conduz; para águas repousantes me encaminha” (Sl 22 – Salmo Responsorial). Com a voz do salmista, a Igreja inteira – que continua celebrando a surpreendente vitória sobre as tribulações e a morte do seu Senhor, crucificado pelos homens mas ressuscitado pelo Pai, segundo o testemunho de Pedro (primeira leitura: At 2, 36) – proclama com alegria e gratidão, neste canto, o âmago da sua nova existência no Senhor. Descobre a si mesma como forte e vencedora dos desafios do mal e dos perseguidores, não por força própria, mas pela força do seu Senhor, que está presente junto dela, guiando-a, como o pastor que guarda e guia o seu rebanho. Quem poderia imaginar que aquele que iria realizar o papel deste pastor, capaz de infundir tamanha segurança e beatitude nas ovelhas do Senhor, seria um cordeiro, ou melhor, “O Cordeiro”? O bom pastor se fez cordeiro, dando a própria vida para que as ovelhas tenham a vida. Este é o paradoxo da Páscoa! Esta é a real perspectiva da história, que à luz da páscoa permite aos discípulos de Jesus vislumbrá-la presente até dentro da própria existência, dando-lhes a força de perseverar na esperança e de enfrentar com alegria as tribulações, suportadas por causa da fidelidade ao Senhor (segunda leitura: 1 Pd 2, 20-21). A visão profética do autor do Apocalipse contempla na sua plenitude a condição de fecundidade e de paz que a Igreja, e cada discípulo e discípula, pode antecipar na esperança. Seguir o caminho de Jesus, partilhar na fé a sorte dele, que por amor se deixou imolar como cordeiro inocente, a fim de resgatar o povo de Deus, disperso pelo pecado como ovelhas desgarradas, significa voltar ao redil do Senhor e encontrar nele segurança, pastagens abundantes e paz. Pedro descreve a mudança de condição da alienação ao encontro, com um novo centro da própria vida em Cristo: “Andáveis como ovelhas desgarradas, mas agora voltastes ao pastor e guarda da vossa fé” (1 Pd 2, 25). Foi o início de uma radical transformação, que João contempla na sua plena florescência: “Esses são os que saíram de uma grande tribulação, lavaram e alvejaram suas vestes no sangue do Cordeiro… Não passarão fome nem sede, o sol não os prejudicará nem o mormaço, porque o Cordeiro que está no trono os apascentará e os guiará a fontes de água viva. E Deus enxugará as lágrimas de seus olhos” (Ap 7, 13-17). Seria uma fuga nos sonhos de um futuro improvável, diante das insuportáveis falhas do presente tão opaco? Os mártires de ontem e de hoje atestam o contrário. Há alguns dias, entrevistado na TV sobre a escassez de missionários na Amazônia e sobre como enfrentar o desafio de um território tão imenso e de condições de vida bastante difíceis, um bispo daquela região, com uma grande serenidade no rosto e a luminosidade nos olhos de quem já viu muitas vezes as maravilhas operadas pelo Senhor, dentro da fragilidade humana e das estruturas, respondeu: “Vinde conosco, a partilhar este maravilhoso desafio da evangelização na Amazônia! Não tenhais medo! Experimentamos todos os dias como o Senhor tem cuidado de nós, nos sustenta, nos guia e nos dá sua paz e alegria!”. “O Senhor é o pastor que me conduz; para águas repousantes me encaminha… Mesmo que eu passe pelo vale tenebroso, nenhum mal eu temerei”. Este bispo humilde e este povo simples e corajoso compuseram seu próprio canto novo ao Senhor bom pastor. Eles nos convidam a nos unirmos a eles e a compormos, nós também, o nosso canto, que proclama a novidade que o Senhor está criando dentro de nós e para nós, acompanhando-nos com alegria e paz, do momento que nos colocamos no seguimento do caminho do Cordeiro que nos precede. Na Amazônia, assim como na paróquia ou na família, ou em qualquer outro lugar e condição de vida onde o Senhor nos coloca, Ele nos chama a segui-lo. Não podemos esquecer que o nome do Cordeiro e o do Pai estão gravados na nossa fronte, desde o dia do nosso batismo, e que por isso pertencemos a ele e a seu rebanho, de quem ele tem fiel cuidado (cf. Ap 14, 1). “Cantam um cântico novo diante do trono, diante dos quatro seres vivos e dos anjos. Ninguém podia aprender o cântico, exceto os cento e quarenta e quatro mil resgatados da terra… Eles acompanham o Cordeiro aonde for. Foram resgatados da humanidade como primícias para Deus e para o Cordeiro” (Ap 14, 3-4). No evangelho de hoje Jesus utiliza a imagem do pastor, bem conhecida na tradição do AT, sobretudo nos profetas (cf. Is 40,11; Jr 23; Ez 34) e nos salmos (cf. 23; 80), e familiar aos seus ouvintes. Com ela Jesus destaca sua tarefa de messias, enviado por Deus em favor de Israel e de todos os povos. Ao redor da imagem do pastor, está gravitando uma série de outras imagens conexas com a atuação do pastor e a vida das ovelhas: a porta do redil, o porteiro que a controla, o estranho que as ovelhas não conhecem, o ladrão que assalta para roubar e matar, o pastor que sai à frente do rebanho para guiá-lo a pastagens seguras, a relação pessoal estabelecida pelo pastor com cada uma das ovelhas. Outras imagens, sobretudo a do mercenário que foge diante da vinda do lobo, e a do pastor autêntico que, ao invés, luta para defender o rebanho até dar a própria vida por ele, são desenvolvidas na segunda parte do capítulo (10, 11-18). Esta parte será proclamada no quarto domingo da Páscoa do Ano B. No centro desta encruzilhada de imagens está a pessoa de Jesus – pastor legítimo e porta do redil –, a sua mediação única e a sua missão, caracterizada pela profunda relação existencial estabelecida por ele com cada uma das ovelhas. Nestas imagens está expressa a história da relação de Deus com o povo de Israel, a experiência pascal do próprio Jesus, e a missão por ele entregue à Igreja, missão a ser desenvolvida no mesmo estilo pascal, de doação de si mesmo e de serviço, doação esta vivenciada pelo próprio Jesus. Ele, o pastor autêntico, teve cuidado do povo que o Pai lhe entregou, até o ponto de doar a própria vida para defender as ovelhas e comunicar-lhes a sua própria vida e a comunhão com o Pai. A vida inteira de Jesus se apresenta como cumprimento da profecia que pré-anuncia o cuidado do povo por parte de Deus e, ao mesmo tempo, seu severo julgamento sobre os falsos pastores. Por isso os gestos e as palavras de Jesus provocam reações contrastantes: alegria nos simples de coração, que reconhecem a presença de Deus em Jesus, violência nos que se sentem questionados: “Estas palavras provocaram nova divisão entre os judeus. Muitos diziam: Está endemoninhado e louco. Porque o escutais? Outros diziam: Essas palavras não são de um endemoninhado; pode um endemoninhado abrir os olhos dos cegos?” (Jo 10, 19-21). “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10). Estas palavras abrem as mais profundas perspectivas do serviço de Jesus pastor. O pastor guia as ovelhas para pastagens que se encontram diante delas, Jesus dá a si mesmo como pão da vida: “Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não terá mais fome e quem crê em mim nunca mais terá sede” (Jo 6, 35). O pastor guia o rebanho para as águas da torrente, Jesus desperta naqueles que acreditam nele a fonte inesgotável de água viva, que é o próprio Espírito Santo: “‘Se alguém tem sede, venha a mim e beberá, aquele que crêem em mim!’; conforme a palavra da escritura, ‘De seu seio jorrarão rios de água viva’. Ele falava do Espírito que deviam receber aqueles que haviam crido nele” (Jo 7, 37-39). O caminho a seguir para entrar no redil – que é o Reino de Deus – não está fora, mas dentro de nós: a conversão ao Senhor e a conformação a ele. Ele é “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6 ). A relação com ele se torna dinâmica e criadora, um caminho sem fim. A Igreja exprime esta consciência nas três orações que acompanharam a celebração eucarística ao longo da semana, mas sobretudo na celebração deste domingo. Com a Oração do dia, a Igreja pede que o próprio Senhor conduza o rebanho até a experiência da comunhão divina, para que “possa atingir, apesar de sua fraqueza, a fortaleza do pastor”. No mesmo espírito, a Oração sobre as oferendas invoca a graça de saber apreciar o dinamismo dos mistérios pascais, “para que nos renovem continuamente e sejam fonte de eterna alegria”. Enquanto a Oração depois da comunhão solicita ao mesmo bom pastor que vele sobre o rebanho a caminho, para que possa chegar a gozar a vida plena, “nos prados eternos, as ovelhas remidas pelo seu sangue”. Nesta base, a relação entre pastor e ovelhas, entre o mestre e o discípulo, não é somente a do ensino iluminador, nem do exemplo divino a seguir, mas relação de recíproco conhecimento, relação íntima, pessoal, única, e transformadora. “Ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora… e caminha à sua frente, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz” (Jo 10, 3-4). Esta relação de intimidade com o Senhor, fruto do seu amor gratuito, é o cume da nova aliança prometida pelo profeta Jeremias (31,31-34), selada pela presença do mesmo Espírito que nos faz nos relacionarmos com Deus como Pai: “Porque sois filhos, enviou Deus aos nossos corações o Espírito do seu filho, que clama: Abba, Pai!” (Gl 4,6). “Procura saber como o homem pode amar a Deus; não encontrarás resposta, a não ser este: Deus o amou primeiro. Deu-se a si mesmo aquele que amamos, deu-nos a capacidade de amar…. pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Santo Agostinho, Sermão 34,1-3; LH, 3ª Semana da páscoa, terça-feira). Jesus, bom pastor, e “pastor supremo” do rebanho de Deus, com sua atitude de dedicação sem reserva e de serviço à vida das ovelhas até o dom de si próprio, é o modelo daqueles que, em seu nome, exercitam o pastoreio e o cuidado generoso e humilde em prol do rebanho do Senhor. É um confronto desafiador, e por isso também única verdadeira medida para individuar o verdadeiro sentido de todo serviço pastoral na Igreja, e para verificar a autenticidade do ministério na Igreja. São Pedro orienta os pastores nesta direção, no fim de sua carta: “Apascentai o rebanho de Deus que vos foi confiado, cuidando dele, não como por coação, mas de livre vontade, como Deus o quer…. Assim quando aparecer o supremo pastor recebereis a coroa imarcescível da glória” ( 1 Pd 5, 2-5). Nós vivemos desde sempre o pecado da divisão do rebanho do Senhor, em nome de chefes, tradições doutrinais, disciplinas eclesiásticas, que ao pretender possuir com exclusividade a verdade do evangelho acabaram por dividir o próprio Senhor (cf. 1 Cor 1, 10-13). O Senhor Jesus assumiu também este pecado dos discípulos de todo tempo, e fez a superação desta negação da sua cruz, a razão da sua intensa e eterna oração ao Pai, para que os discípulos ao fim “sejam um, como nós” (Jo 17, 11). A consciência deste pecado estrutural que nos acompanha e nos fere profundamente, e o empenho para voltar à unidade pela qual Jesus morreu e rezou ao Pai, desde o Concílio (cf. o documento Unitatis Redintegratio) faz parte da nossa identidade irrenunciável de cristãos do século XXI. É nossa maneira de caminhar seguindo o Bom Pastor que nos precede para a casa do Pai, para que esta se torne de verdade a casa comum para todos.

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