A Ressurreição de Cristo segundo São João Paulo II

O Túmulo vazio!

A Ressurreição como feito histórico que afirma a fé
S.S. João Paulo II, 25 de janeiro, 1989

1. Nesta catequese confrontamos a verdade culminante de nossa fé em Cristo, documentada pelo Novo Testamento, acreditada e vivida como verdade central pelas primeiras comunidades cristãs, transmitida como fundamental pela tradição, nunca esquecida pelos cristãos verdadeiros e hoje aprofundada, estudada e pregada como parte essencial do mistério pascal, junto com a cruz; quer dizer a ressurreição de Cristo. Dele, em efeito, diz o Símbolo dos Apóstolos que ‘ao terceiro dia ressuscitou dentre os mortos’; e o Símbolo niceno-constantinopolitano precisa: ‘Ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras’.

É um dogma da fé cristã, que se insere em um fato acontecido e constatado historicamente. Trataremos de investigar ‘com os joelhos da mente inclinados’ o mistério enunciado pelo dogma e encerrado no acontecimento, começando com o exame dos textos bíblicos que o testemunham.

2. O primeiro e mais antigo testemunho escrito sobre a ressurreição de Cristo se encontra na primeira Carta de São Paulo aos Coríntios. Nela o Apóstolo recorda aos destinatários da Carta (por volta da Páscoa do ano 57 d.C.): ‘Porque lhes transmiti, em primeiro lugar, o que por minha vez recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; que foi sepultado e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras; que se apareceu a Cefas e logo aos Doze; depois se apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma vez, dos quais ainda a maior parte vivem e outros morreram. Logo se apareceu a Tiago; mais tarde a todos os Apóstolos. E em último lugar a mim como a um abortivo’ (1 Cor 15, 3-8).

Como se vê, o Apóstolo fala aqui da tradição viva da ressurreição, da qual ele teve conhecimento após a sua conversão às portas de Damasco (Cfr. At 9, 3). Durante sua viagem a Jerusalém se encontrou com o Apóstolo Pedro, e também com o Tiago, como o precisa a Carta aos Gálatas (1,18 ss.), que o apóstolo aponta como as duas principais testemunhas de Cristo ressuscitado.

3. Deve também notar-se que, no texto chamado, São Paulo não fala só da ressurreição ocorrida o terceiro dia ‘segundo as Escrituras’ (referência bíblica que toca já a dimensão teológica do fato), mas que ao mesmo tempo recorre às testemunhas aos que Cristo se apareceu pessoalmente. É um sinal, entre outros, de que a fé da primeira comunidade de crentes, expressa por Paulo na Carta aos Coríntios, apóia-se no testemunho de homens concretos, conhecidos pelos cristãos e que em grande parte viviam ainda entre eles. Estes ‘testemunhas da ressurreição de Cristo’ (Cfr. At 1, 22), são principalmente os Doze Apóstolos, mas não só eles: Paulo fala da aparição de Jesus inclusive a mais de quinhentas pessoas de uma vez, além das aparições a Pedro, a Tiago e aos Apóstolos.

4. Diante deste texto paulino perdem toda admissibilidade as hipóteses com as que se tratou, em maneira diversa, de interpretar a ressurreição de Cristo abstraindo-a da ordem física, de modo que não se reconhecia como um fato histórico; por exemplo, a hipótese, segundo a qual a ressurreição não seria outra coisa que uma espécie de interpretação do estado no qual Cristo se encontra depois da morte (estado de vida, e não de morte), ou a outra hipótese que reduz a ressurreição ao influxo que Cristo, depois de sua morte, não deixou de exercer (e mais ainda recomeçou com novo e irresistível vigor) sobre seus discípulos. Estas hipótese parecem implicar um prejuízo de rechaço à realidade da ressurreição, considerada somente como ‘o produto’ do ambiente, ou seja, da comunidade de Jerusalém. Nem a interpretação nem o prejuízo acham comprovação nos fatos. São Paulo, pelo contrário, no texto citado recorre às testemunhas oculares do ‘fato’: sua convicção sobre a ressurreição de Cristo, tem então uma base experimental. Está vinculada a esse argumento ‘ex-factis’, que vemos escolhido e seguido pelos Apóstolos precisamente naquela primeira comunidade de Jerusalém. Efetivamente, quando se trata da eleição do Matias, um dos discípulos mais assíduos do Jesus, para completar o número dos ‘Doze’ que tinha ficado incompleto pela traição e morte do Judas Iscariote, os Apóstolos requerem como condição que quem for eleito não só tenha sido ‘companheiro’ deles no período em que Jesus ensinava e atuava, mas  sobre tudo possa ser ‘testemunha da sua ressurreição’ graças à experiência realizada nos dias anteriores ao momento no que Cristo (como dizem eles) ‘foi subido ao céu entre nós’ (At 1, 22).

5. Portanto não é possível apresentar a ressurreição, como faz certa crítica neotestamentaria pouco respeitosa dos dados históricos, como um ‘produto’ da primeira comunidade cristã, a de Jerusalém. A verdade sobre a ressurreição não é um produto da fé dos Apóstolos ou de outros discípulos pré ou pós-pascais. Dos textos resulta mas bem que a fé ‘pré-pascual’ dos seguidores de Cristo foi submetida à prova radical da paixão e da morte em cruz de seu Mestre. O mesmo tinha anunciado esta provação, especialmente com as palavras dirigidas ao Simão Pedro quando já estava às portas dos acontecimentos trágicos de Jerusalém; ‘Simão, Simão! Olhe que Satanás solicitou o poder  crivar-te como trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça’ (Lc 22, 31-32). A sacudida provocada pela paixão e morte de Cristo foi tão grande que os discípulos (ao menos alguns deles) inicialmente não acreditaram na notícia da ressurreição. Em todos os Evangelhos encontramos a prova disto. Lucas, em particular, faz-nos saber que quando as mulheres, ‘retornando do sepulcro, anunciaram todas estas coisas (ou seja, o sepulcro vazio) aos Onze e a todos outros…, todas estas palavras lhes pareceram como desatinos e não lhes acreditavam’ (Lc 24, 9. 11).

6. Pelo resto, a hipótese que quer ver na ressurreição um ‘produto’ da fé dos Apóstolos, cai também, por tudo quanto é referido quando o Ressuscitado ‘em pessoa se apareceu em meio deles e lhes disse: Paz a vós!’. Eles, de fato, ‘acreditavam ver um fantasma’. Nessa ocasião Jesus mesmo deveu vencer suas dúvidas e temores e convence-los de que ‘era Ele’: ‘Me apalpem e vejam, que um espírito não tem carne e ossos como vêem que eu tenho’. E posto que eles ‘não acabavam de acreditá-lo e estavam assombrados’ Jesus lhes disse que lhe dessem algo de comer e ‘comeu-o diante deles’ (Cfr. Lc 24,36-43).

7. Além disso, é muito conhecido o episódio de Tomé, que não se encontrava com os outros Apóstolos quando Jesus veio a eles pela primeira vez, entrando no Cenáculo apesar de que a porta estava fechada (Cfr. Jo 20, 19). Quando, a sua volta, outros discípulos lhe disseram: ‘Vimos ao Senhor’, Tomé manifestou maravilha e incredulidade, e respondeu: ‘Se não ver em suas mãos o sinal dos pregos e não coloco meu dedo no buraco dos pregos e não coloco minha mão em seu flanco não acreditarei. Oito dias depois, Jesus veio de novo ao Cenáculo, para satisfazer a petição de Tomé ‘o incrédulo’ e lhe disse: ‘Aproxima aqui teu dedo e olha minhas mãos; traz a tua mão e coloca-a em meu flanco, e não seja incrédulo mas sim crente’. E quando Tomé professou sua fé com as palavras ‘Meu senhor e meu Deus’, Jesus lhe disse: ‘Porque me viste acreditaste. Felizes os que não viram e acreditaram’ (Jo 20, 24-29).

A exortação a acreditar, sem pretender ver o que se esconde pelo mistério de Deus y de Cristo, permanece sempre válida; mas a dificuldade do Apóstolo Tomé para admitir a ressurreição sem ter experimentado pessoalmente a presença do Jesus vivo, e que depois acontece diante das provas que lhe subministrou o mesmo Jesus, confirmam o que resulta dos Evangelhos sobre a resistência dos Apóstolos e dos discípulos para admitir a ressurreição.

Por isso não tem consistência a hipótese de que a ressurreição tenha sido um ‘produto’ da fé (ou da credulidade) dos Apóstolos. Sua fé na ressurreição nasceu, pelo contrário (baixo a ação da graça divina), da experiência direta da realidade de Cristo ressuscitado.

8. É o mesmo Jesus o que, depois da ressurreição, fica em contato com os discípulos com o fim de lhes dar o sentido da realidade e dissipar a opinião (ou o medo) de que se tratasse de um ‘fantasma’ e portanto de que fossem vítimas de uma ilusão. Efetivamente, estabelece com eles relações diretas, precisamente mediante o tato. Assim é no caso de Tomam, que acabamos de recordar, mas também no encontro descrito no Evangelho do Lucas, quando Jesus diz aos discípulos assustados: ‘me apalpem e vejam que um espírito não tem carne e ossos como vêem que eu tenho’ (24, 39). Convida-lhes a constatar que o corpo ressuscitado, com o que se apresenta a eles, é o mesmo que foi martirizado e crucificado. Esse corpo possui entretanto ao mesmo tempo propriedades novas: há-se ‘feito espiritual’ (e ‘glorificado’ e portanto já não está submetido às limitações habituais aos seres materiais e por isso a um corpo humano. (Em efeito, Jesus entra no Cenáculo apesar de que as portas estivessem fechadas, aparece e desaparece, etc.) Mas ao mesmo tempo esse corpo é autêntico e real. Em sua identidade material está a demonstração da ressurreição de Cristo.

9. O encontro no caminho do Emaus, referido no Evangelho do Lucas, é um fato que faz visível de forma particularmente evidente como amadureceu na consciência dos discípulos a certeza da ressurreição precisamente mediante o contato com Cristo ressuscitado (Cfr. Lc 24, 15-21). Aqueles dois discípulos do Jesus, que ao início do caminho estavam ‘tristes e abatidos’ com a lembrança de tudo o que tinha acontecido ao Mestre o dia da crucificação e não escondiam a desilusão experimentada ao ver derrubá-la esperança posta no como Messias liberador (‘Esperávamos que seria O que ia liberar ao Israel’) experimentam depois uma transformação total, quando lhes fica claro que o Desconhecido, com o que falaram, é precisamente o mesmo Cristo de antes, e se dão conta de que Ele, portanto, ressuscitou. De toda a narração se deduz que a certeza da ressurreição de Jesus fazia deles quase homens novos. Não só tinham readquirido a fé em Cristo, mas também estavam preparados para dar testemunho da verdade sobre sua ressurreição.

Todos estes elementos do texto evangélico, convergentes entre si, provam o fato da ressurreição, que constitui o fundamento da fé dos Apóstolos e do testemunho que, como veremos nas próximas catequese, está no centro da sua pregação.

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O sepulcro vazio e o encontro com Cristo Ressuscitado
S.S. João Paulo II, em 1 de fevereiro, 1989

1. A profissão de fé que fazemos no Credo quando proclamamos que Jesus Cristo ‘ao terceiro dia ressuscitou de entre os mortos’, apóia-se nos textos evangélicos que, por sua vez, transmitem-nos e fazem conhecer a primeira pregação dos Apóstolos. Destas fontes resulta que a fé na ressurreição é, desde o começo, uma convicção apoiada em um fato, em um acontecimento real, e não um mito ou uma ‘concepção’, uma idéia inventada pelos Apóstolos ou produzida pela comunidade pós-pascal reunida em torno dos Apóstolos em Jerusalém, para superar junto com eles o sentido de desilusão conseguinte à morte de Cristo na cruz. Dos textos resulta justamente o contrário e por isso, como eu disse, tal hipótese é também crítica e historicamente insustentável. Os Apóstolos e os discípulos não inventaram a ressurreição (e é fácil compreender que eram totalmente incapazes de uma ação semelhante). Não há traços de uma exaltação pessoal sua ou de grupo, que lhes tenha levado a conjeturar um acontecimento desejado e esperado e a projetá-lo na opinião e na crença comum como real, quase por contraste e como compensação da desilusão padecida. Não há traços de um processo criativo de ordem psicológica, sociológica ou literária nem sequer na comunidade primitiva ou nos autores dos primeiros séculos. Os Apóstolos foram os primeiros que acreditaram, não sem fortes resistências, que Cristo tinha ressuscitado simplesmente porque viveram a ressurreição como um acontecimento real de qual puderam convencer-se pessoalmente ao encontrar-se várias vezes com Cristo novamente vivo, ao longo de quarenta dias. As sucessivas gerações cristãs aceitaram aquele testemunho, confiando-se nos Apóstolos e em outros discípulos como testemunhas acreditáveis. A fé cristã na ressurreição de Cristo está ligada, pois, a um fato, que tem uma dimensão histórica precisa.

2. E entretanto, a ressurreição é uma verdade que, em sua dimensão mais profunda, pertence à Revelação divina: em efeito, foi anunciada gradualmente de antemão por Cristo ao longo de sua atividade messiânica durante o período pré-pascual. Muitas vezes predisse Jesus explicitamente que, depois de ter sofrido muito e ser executado, ressuscitaria. Assim, no Evangelho do Marcos, diz-se que depois da proclamação do Pedro nas proximidades da Cesaréia do Filipe, Jesus ‘começou a lhes ensinar que o Filho do homem devia sofrer muito e ser reprovado pelos anciões, os sumos sacerdotes e os escribas, ser morto e ressuscitar aos três dias. Falava disto abertamente’ (Mc 8, 31-32). Também segundo Marcos, depois da transfiguração, ‘quando desciam do monte lhes ordenou que a ninguém contassem o que tinham visto até que o Filho do homem ressuscitasse de entre os mortos’ (Mc 9. 9). Os discípulos ficaram perplexos sobre o significado daquela ‘ressurreição’ e passaram à questão, e agitada no mundo judeu, do retorno do Elías (Mc 9, 11): mas Jesus reafirmou a idéia de que o Filho do homem deveria ‘sofrer muito e ser desprezado’ (Mc 9, 12). depois da cura do epilético endemoniado, no caminho da Galiléia percorrido quase clandestinamente, Jesus toma de novo a palavra para instrui-los: ‘O Filho do homem será entregue em mãos dos homens; o matarão e aos três dias de ter morrido ressuscitará’. ‘Mas eles não entendiam o que lhes dizia e temiam lhe perguntar’ (Mc 9, 31-32). É o segundo anúncio da paixão e ressurreição, ao que segue o terceiro, quando já se encontram em caminho para Jerusalém: ‘Olhem que subimos a Jerusalém, e o Filho do homem será entregue aos sumos sacerdotes e os escribas; a condenarão à morte e o entregarão aos gentis, e se burlarão dele, cuspirão nele, o açoitarão e o matarão, e aos três dias ressuscitará’ (Mc 10, 33-34).

3. Estamos aqui ante uma previsão profética dos acontecimentos, em que Jesus exercita sua função de revelador, pondo em relação a morte e a ressurreição unificadas na finalidade redentora, e referindo-se ao intuito divino segundo o qual tudo o que prevê e prediz ‘deve’ acontecer. Jesus, portanto, faz conhecer os discípulos estupefatos e inclusive assustados algo do mistério teológico que subjaz nos próximos acontecimentos, como o resto de toda a sua vida. Outros brilhos deste mistério se encontram na alusão ao ‘sinal do Jônas’ (Cfr. Mt 12, 40) que Jesus faz dele e aplica aos dias de sua morte e ressurreição, e no desafio aos judeus sobre ‘a reconstrução em três dias do templo que será destruído’ (Cfr. Jo 2, 19). Joãon anota que Jesus ‘falava do Santuário de seu corpo. Quando ressuscitou, pois, de entre os mortos, lembraram-se seus discípulos de que havia dito isso, e acreditaram na Escritura e nas palavras que havia dito Jesus’ (Jo 2 20-21). Uma vez mais nos encontramos diante da relação entre a ressurreição de Cristo e sua Palavra, diante de seus anúncios ligados ‘às Escrituras’.

4. Mas além das palavras do Jesus, também a atividade messiânica desenvolvida por Ele no período pré-pascual mostra o poder de que dispõe sobre a vida e sobre a morte, e a consciência deste poder, como a ressurreição da filha do Jairo (Mc 5, 39-42), a ressurreição do jovem de Naim (Lc 7, 12-15), e sobre tudo a ressurreição do Lázaro (Jo 11, 42-44) que se apresenta no quarto Evangelho como um anúncio e uma prefiguração da ressurreição de Jesus. Nas palavras dirigidas a Marta durante este último episódio se tem a clara manifestação da auto-consciência de Jesus respeito da sua identidade de Senhor da vida e da morte e de possuidor das chaves do mistério da ressurreição: ‘Eu sou a ressurreição. quem acredita em mim, embora morra, viverá; e tudo o que vive e acredita em mim, não morrerá jamais’ (Jo 11, 25-26).

Tudo são palavras e fatos que contêm de formas diversas a revelação da verdade sobre a ressurreição no período pré-pascual.

5. No âmbito dos acontecimentos pascais, o primeiro elemento diante do que nos encontramos é o ‘sepulcro vazio’. Sem dúvida não é por si mesmo uma prova direta. A Ausência do corpo de Cristo no sepulcro no qual tinha sido depositado poderia explicar-se de outra forma, como de fato pensou por um momento Maria Madalena quando, vendo o sepulcro vazio, supôs que alguém haveria roubado o corpo de Jesus (Cfr. Jo 20, 15). Mais ainda, o Sinédrio tentou fazer correr a voz de que, enquanto dormiam os soldados, o corpo tinha sido roubado pelos discípulos. ‘E se correu essa versão entre os judeus, (anota Mateus) até o dia de hoje’ (MT 28, 12-15).

Apesar disto o ‘sepulcro vazio’ constituiu para todos, amigos e inimigos, um sinal impressionante. Para as pessoas de boa vontade seu descobrimento foi o primeiro passo para o reconhecimento do ‘feito’ da ressurreição como uma verdade que não podia ser refutada.

6. Assim foi acima de tudo para as mulheres, que muito de cedo de manhã se aproximaram do sepulcro para ungir o corpo de Cristo. Foram as primeiras em acolher o anúncio: ‘ressuscitou, não está aqui… Mas ide dizer aos seus discípulos e ao Pedro…’ (Mc 16, 6-7). ‘Lembrem como lhes falou quando estava ainda na Galiléia, dizendo: ‘É necessário que o Filho do homem seja entregue em mãos dos pecadores e seja crucificado, e ao terceiro dia ressuscite!. E elas lembraram as suas palavras’ “(Lc 24, 6-8).

Certamente as mulheres estavam surpreendidas e assustadas (Cfr. Mc 24, 5). Nem sequer elas estavam dispostas a render-se muito facilmente a um fato que, até predito pelo Jesus, estava efetivamente por cima de toda possibilidade de imaginação e de invenção. Mas na sua sensibilidade e fineza intuitiva elas, e especialmente Maria Madalena, aferraram-se à realidade e correram aonde estavam os Apóstolos para lhes dar a alegre noticia.

O Evangelho do Mateo (28, 8-10) informa-nos que com o passar do caminho Jesus mesmo lhes saiu ao encontro as cumprimentou e lhes renovou o mandato de levar o anúncio aos irmãos (Mt 28, 10). Desta forma as mulheres foram as primeiras mensageiras da ressurreição de Cristo, e o foram para os mesmos Apóstolos (Lc 24, 10). Fato eloqüente sobre a importância da mulher já nos dias do acontecimento pascal!

7. Entre os que receberam o anúncio da María Madalena estavam Pedro e João (Cfr. Jo 20, 3-8). Eles se aproximaram do sepulcro não sem hesitações, quanto mais quanto que Maria lhes tinha falado de uma sustração do corpo de Jesus do sepulcro (Cfr. Jo 20, 2). Chegados ao sepulcro, também o encontraram vazio. Terminaram acreditando, depois de ter duvidado não pouco, porque, como diz João, ‘até então não tinham compreendido que segundo a Escritura Jesus devia ressuscitar de entre os mortos’ (Jo 20, 9).

Digamos a verdade: o fato era assombroso para aqueles homens que se encontravam ante coisas muito superiores a eles. A mesma dificuldade, que mostram as tradições do acontecimento, ao dar uma relação disso plenamente coerente, confirma seu caráter extraordinário e o impacto desconcertante que teve no ânimo das afortunadas testemunhas. A referência ‘à Escritura’ é a prova da escura percepção que tiveram ao encontrar-se diante de um mistério sobre o que só a Revelação podia dar luz.

8. Entretanto, eis aqui outro dado que se deve considerar bem: se o ‘sepulcro vazio’ deixava estupefatos a primeira vista e podia inclusive gerar acerta suspeita, o gradual conhecimento deste fato inicial, como o anotam os Evangelhos, terminou levando a descobrimento da verdade da ressurreição.

Em efeito, nos diz que as mulheres, e sucessivamente os Apóstolos, encontraram-se ante um ‘sinal’ particular: o sinal da vitória sobre a morte. Se o sepulcro mesmo fechado por uma pesada laje, testemunhava a morte, o sepulcro vazio e a pedra removida davam o primeiro anúncio de que ali tinha sido derrotada a morte.

Não pode deixar de impressionar a consideração do estado de ânimo das três mulheres, que dirigindo-se ao sepulcro à alvorada se diziam entre si: ‘Quem nos retirará a pedra da porta do sepulcro?’ (Mc 16, 3), e que depois, quando chegaram ao sepulcro, com grande maravilha constataram que ‘a pedra estava corrida embora era muito grande’ (Mc 16, 4). Segundo o Evangelho do Marcos encontraram no sepulcro a alguém que lhes deu o anúncio da ressurreição (Cfr. Mc 16, 5); mas elas tiveram medo e, apesar das afirmações do jovem vestido de branco, ‘saíram fugindo do sepulcro, pois um grande tremor e espanto se apoderou  delas’ (Mc 16, 8). Como não compreende-las? E entretanto a comparação com os textos paralelos de outros Evangelistas permite afirmar que, embora temerosas, as mulheres levaram o anúncio da ressurreição, da que o ‘sepulcro vazio’ com a pedra corrida foi o primeiro sinal.

9. Para as mulheres e para os Apóstolos o caminho aberto pelo ‘sinal’ conclui-se mediante o encontro com o Ressuscitado: então a percepção até tímida e incerta se converte em convicção e, mais ainda, em fé naquele que ‘ressuscitou verdadeiramente’. Assim aconteceu com as mulheres que ao ver o Jesus em seu caminho e escutar sua saudação, jogaram-se a seus pés e o adoraram (Cfr. MT 28, 9). Assim aconteceu especialmente a Maria Madalena, que ao escutar que Jesus lhe chamava por seu nome, dirigiu-lhe antes que nada o apelativo habitual: Rabbuni, Mestre! (Jo 20, 16) e quando Ele a iluminou sobre o mistério pascal correu radiante a levar o anúncio aos discípulos: ‘!Vi o Senhor!’ (Jo 20, 18). O mesmo ocorreu aos discípulos reunidos no Cenáculo que a tarde daquele ‘primeiro dia depois do sábado’, quando viram finalmente entre eles a Jesus, sentiram-se felizes pela nova certeza que tinha entrado em seu coração: ‘alegraram-se ao ver o Senhor’ (Cfr. Jo 20,19-20).

O contato direto com Cristo desencadeia a faísca que faz saltar a fé!

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As aparições do Jesus ressuscitado
S.S. João Paulo II, 22 de Fev 89

1. Conhecemos a passagem da Primeira Carta aos Coríntios, onde Paulo, o primeiro cronologicamente, anota a verdade sobre a ressurreição de Cristo: ‘Porque lhes transmiti… o que a minha vez recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras: que foi sepultado e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras; que se apareceu ao Cefas e em seguida aos Doze… ‘ (1 Cor 15,3-5). Trata-se, como se vê, de uma verdade transmitida, recebida, e novamente transmitida. Uma verdade que pertence ao ‘depósito da Revelação’ que o mesmo Jesus, mediante seus Apóstolos e Evangelistas, deixou a sua Igreja.

2. Jesus revelou gradualmente esta verdade em seu ensino pré-pascal. Posteriormente esta, encontrou sua realização concreta nos acontecimentos da páscoa de Cristo em Jerusalém, certificados historicamente, mas cheios de mistério.

Os anúncios e os fatos tiveram sua confirmação sobre tudo nos encontros de Cristo ressuscitado, que os Evangelhos e Paulo relatam. É necessário dizer que o texto paulino apresenta estes encontros (nos que se revela Cristo ressuscitado) de maneira global e sintética (acrescentando ao final o próprio encontro com o Ressuscitado às portas de Damasco: Cfr. At 9,3-6). Nos Evangelhos se encontram, a respeito, notas mas bem fragmentárias.

Não é difícil tomar e comparar algumas linhas características de cada uma destas aparições e de seu conjunto para nos aproximar ainda mais ao descobrimento do significado desta verdade revelada.

3. Podemos observar acima de tudo que, depois da ressurreição, Jesus se apresenta às mulheres e aos discípulos com seu corpo transformado, feito espiritual e partícipe da glória da alma: mas sem nenhuma característica triunfalista. Jesus se manifesta com uma grande simplicidade. Fala de amigo a amigo, com os que se encontra nas circunstâncias ordinárias da vida terrena. Não quis enfrentar-se a seus adversários, assumindo a atitude de vencedor, nem se preocupou por lhes mostrar seu ‘superioridade’, e ainda menos quis fulminá-los. Nem sequer consta que se apresentou a algum deles. Tudo o que nos diz o Evangelho nos leva a excluir que se apareceu, por exemplo, ao Pilato, que o tinha entregue aos sumos sacerdotes para que fosse crucificado (Cfr. Jo 19, 16), ou a Caifás, que se tinha rasgado as vestimentas pela afirmação de sua divindade (Cfr. MT 26, 63-66).

Aos privilegiados de suas aparições, Jesus se deixa conhecer em sua identidade física: aquele rosto, aquelas mãos, aquelestraços que conheciam muito bem, aquele flanco que tinham transpassado; aquela voz, que tinham escutado tantas vezes. Só no encontro com o Paulo nas cercanias de Damasco, a luz que rodeia ao Ressuscitado quase deixa cego ao ardente perseguidor dos cristãos e o joga pelo chão (Cfr. At 9, 3-8); mas é uma manifestação do poder daquele que, já subido ao céu, impressiona a um homem ao que quer fazer um ‘instrumento de eleição’ (At 9, 15), um missionário do Evangelho.

4. É de destacar também um fato significativo: Jesus Cristo se aparece em primeiro lugar às mulheres, seus fiéis seguidoras, e não aos discípulos, e nem sequer aos mesmos Apóstolos, apesar de que os tinha eleito como portadores de seu Evangelho ao mundo. É às mulheres a quem pela primeira vez confia o mistério de sua ressurreição, as fazendo as primeiras testemunhas desta verdade. Possivelmente queira premiar sua delicadeza, sua sensibilidade a sua mensagem, sua fortaleza, que as tinha impulsionado até o Calvário. Possivelmente quer manifestar um delicado rasgo de sua humanidade, que consiste na amabilidade e na gentileza com que se aproxima e beneficia às pessoas que menos contam no grande mundo de seu tempo. É o que parece que se pode concluir de um texto do Mateus: ‘Nisto, Jesus lhes saiu ao encontro (às mulheres que corriam para comunicar a mensagem aos discípulos) e lhes disse: !Deus lhes guarde!!. E elas, aproximando-se, agarraram-se de seus pés e lhe adoraram. Então lhes diz Jesus: !Não temam. Vão e avisem a meus irmãos que vão a Galiléia; lá me verão!’ (28, 9-10).

Também o episódio da aparição a María da Magdala (Jo 20, 11-18) é de extraordinária finura já seja por parte da mulher, que manifesta toda sua apaixonada e comedida entrega ao seguimento do Jesus, já seja por parte do Mestre, que a trata com deliciosa delicadeza e benevolência.

Nesta prioridade das mulheres nos acontecimentos pascais terão que inspirá-la Igreja, que ao longo dos séculos pôde contar enormemente com elas para sua vida de fé, de oração e de apostolado.

5. Algumas características destes encontros pós-pascais os fazem, em certo modo, paradigmáticos devido às situações espirituais, que tão freqüentemente se criam na relação do homem com Cristo, quando alguém se sente chamado ou ‘visitado’ por Ele.

Acima de tudo há uma dificuldade inicial em reconhecer a Cristo por parte daqueles aos que Ele sai ao encontro, como se pode apreciar no caso da mesma Madalena (Jo 20, 14-16) e dos discípulos do Emaús (Lc 24, 16). Não falta um certo sentimento de temor ante Ele. Ama-se Lhe, busca-se Lhe, mas, no momento em que se Lhe encontra, experimenta-se alguma vacilação…

Mas Jesus lhes leva gradualmente ao reconhecimento e à fé, tanto a María Madalena (Jo 20,16), como aos discípulos do Emaús (Lc 24, 26 ss.), e, analogamente, a outros discípulos (Cfr. Lc 24, 25)48). Sinal da pedagogia paciente de Cristo ao revelar-se ao homem, ao atrai-lo, ao convertê-lo, ao levá-lo a conhecimento das riquezas de seu coração e à salvação.

6. É interessante analisar o processo psicológico que os diversos encontros deixam entrever: os discípulos experimentam uma certa dificuldade em reconhecer não só a verdade da ressurreição, mas  também a identidade daquele que está ante eles, e aparece como o mesmo mas ao mesmo tempo como outro: um Cristo ‘transformado’. Não é nada fácil para eles fazer a imediata identificação. Intuem, sim, que é Jesus, mas ao mesmo tempo sentem que Ele já não se encontra na condição anterior, e diante d’Ele estão cheios de reverência e temor.

Quando, logo, dão-se conta, com sua ajuda, de que não se trata de outro, mas sim do mesmo transformado, aparece repentinamente neles uma nova capacidade de descobrimento, de inteligência, de caridade e de fé. É como um despertar de fé: ‘Não estava ardendo nosso coração dentro de quando nos falava no caminho e nos explicava as Escrituras?’ (Lc 24, 32). ‘Meu senhor e meu Deus’ (Jo 20, 28). ‘Vi ao Senhor’ (Jo 20, 18). Então uma luz absolutamente nova ilumina em seus olhos incluso o acontecimento da cruz; e dá o verdadeiro e pleno sentido do mistério da dor e da morte, que se conclui na glória da nova vida! Este será um dos elementos principais da mensagem de salvação que os Apóstolos levaram desde o começo ao povo hebreu e, aos poucos, a todas as pessoas.

7. Terá que sublinhar uma última característica das aparições de Cristo ressuscitado: nelas, especialmente nas últimas, Jesus realiza a definitiva entrega aos Apóstolos (e à Igreja) da missão de evangelizar o mundo para lhe levar a mensagem de sua Palavra e o dom de sua graça.

Recorde-se a aparição aos discípulos no Cenáculo na tarde de Páscoa: ‘Como o Pai me enviou, também eu vos envio…’ (Jo 20, 21); e lhes dá o poder de perdoar os pecados!

E na aparição no mar do Tiberíades, seguida da pesca milagrosa, que simboliza e anuncia a fecundidade da missão, é evidente que Jesus quer orientar seus espíritos para a obra que os espera (Cfr. Jo 21,1-23). Confirma-o a definitiva atribuição da missão particular ao Pedro (Jo 21, 15)18): ‘Amas-me?… Tus sabe que te quero… Apascenta meus cordeiros…Apascenta minhas ovelhas…’.

João indica que ‘esta foi já a terceira vez que Jesus se manifestou aos discípulos depois de ressuscitar de entre os mortos’ (Jo 21,14). Esta vez, eles, não só se deram conta de sua identidade: ‘É o Senhor’ (Jo 21, 7), mas sim tinham compreendido que, tudo que tinha acontecido e acontecia naqueles dias pascais, comprometia a cada um deles (e de modo muito particular ao Pedro) na construção da nova era da história, que tinha tido seu princípio naquela manhã de páscoa.

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A ressurreição cume da Revelação
S.S. João Paulo II, 8 de março, 1989

1. Na Carta de São Paulo aos Corintios, recordada já várias vezes ao longo destas catequese sobre a ressurreição de Cristo, lemos estas palavras do Apóstolo: ‘Se não ressuscitou Cristo, vazia é nossa pregação, vazia é também sua fé’ (1 Cor 15, 14). Evidentemente, São Paulo vê na ressurreição o fundamento da fé cristã e quase a chave de abóbada de todo o edifício de doutrina e de vida levantado sobre a revelação, assim que confirmação definitiva de todo o conjunto da verdade que Cristo trouxe. Por isso, toda a pregação da Igreja, dos tempos apostólicos, através dos séculos e de todas as gerações, até hoje, refere-se à ressurreição e saca dela a força impulsora e persuasiva, assim como seu vigor. É fácil compreender o porquê.

2. A ressurreição constituía em primeiro lugar a confirmação de tudo o que Cristo mesmo tinha feito e ensinado’. Era o selo divino posto sobre suas palavras e sobre a sua vida.Ele mesmo tinha indicado aos discípulos e adversários este sinal definitivo de sua verdade. O anjo do sepulcro o recordou às mulheres a manhã do ‘primeiro dia depois do sábado’: ‘ressuscitou, como o havia dito’ (MT 28, 6). Se esta palavra e promessa sua se revelou como verdade também todas suas demais palavras e promessas possuem a potência da verdade que não passa, como O mesmo tinha proclamado: ‘O céu e a terra passarão, mas minhas palavras não passará’ (MT 24, 35; Mc 13, 31; Lc 21, 33). Ninguém teria podido imaginar nem pretender uma prova mais autorizada, mais forte, mais decisiva que a ressurreição de entre os mortos. Todas as verdades, também as mais inacessíveis para a mente humana, encontram, entretanto, sua justificação, inclusive no âmbito da razão, se Cristo ressuscitado deu a prova definitiva, prometida por Ele, de sua autoridade divina.

3. Assim, a ressurreição confirma a verdade de sua mesma divindade. Jesus havia dito: ‘Quando tiverem levantado (sobre a cruz) ao Filho do homem, então saberão que Eu sou’ (Jo 8, 28). Os que escutaram estas palavras queriam lapidar ao Jesus, posto que ‘EU SOU’ era para os hebreus o equivalente do nome inefável de Deus. De fato, ao pedir ao Pilato sua condenação a morte apresentaram como acusação principal a de haver-se ‘feito Filho de Deus’ (Jo 19, 7). Por esta mesma razão o tinham condenado no Sinédrio como réu de blasfêmia depois de ter declarado que era o Cristo, o Filho de Deus, depois do interrogatório do sumo sacerdote (MT 26, 63-65; Mc 14, 62; Lc 22, 70): quer dizer, não só o Messias terreno como era concebido e esperado pela tradição judia, mas sim o Messias Senhor anunciado pelo Salmo 109/110 (Cfr. MT 22, 41 ss.), o personagem misterioso vislumbrado pelo Daniel (7, 13-14). Esta era a grande blasfêmia, a imputação para a condenação a morte: o haver-se proclamado Filho de Deus! E agora sua ressurreição confirmava a veracidade de sua identidade divina e legitimava a atribuição feita a Se mesmo, antes da Páscoa, do ‘nome’ de Deus: ‘Na verdade, na verdade lhes digo: antes de que Abraão existisse, Eu sou’ (Jo 8, 58). Para essa judeus era uma pretensão que merecia a lapidação (Cfr. Lv 24, 16), e, em efeito, ‘tomaram pedras para atirar-lhe mas Jesus se ocultou e saiu do templo’ (Jo 8, 59). Mas se então não puderam lapidá-lo, posteriormente obtiveram ‘levantá-lo’ sobre a cruz: a ressurreição do Crucificado demonstrava, entretanto, que O era verdadeiramente Eu sou, o Filho de Deus.

4. Em realidade, Jesus até chamando-se a Si mesmo Filho do homem, não só tinha confirmado ser o verdadeiro Filho de Deus, mas também no Cenáculo, antes da paixão, tinha pedido ao Pai que revelasse que o Cristo Filho do homem era seu Filho eterno: ‘Pai, chegou a hora; glorifica a seu Filho para que o Filho te glorifique’ (Jo 17, 1). ‘… Me glorifique você, junto a ti, com a glória que tinha a seu lado antes que o mundo fosse’ (Jo 17, 5). E o mistério pascal foi a escuta desta petição, a confirmação da filiação divina de Cristo, e mais ainda, sua glorificação com essa glória que ‘tinha junto ao Pai antes de que o mundo existisse’: a glória do Filho de Deus.

5. No período pré-pascal Jesus, segundo o Evangelho do João, aludiu várias vezes a esta glória futura, que se manifestaria na sua morte e ressurreição. Os discípulos compreenderam o significado dessas palavras suas só quando aconteceu o fato.

Assim, lemos que durante a primeira páscoa passada em Jerusalém, depois de ter arrojado do templo aos mercados e cambistas, Jesus respondeu aos judeus que lhe pediam um ‘sinal’ do poder pelo que obrava dessa forma: ‘Destruam este Santuário e em três dias o levantarei… O falava do Santuário de seu corpo. Quando ressuscitou, pois, de entre os mortos, lembraram-se seus discípulos de que havia dito isso, e acreditaram na Escritura e nas palavras que havia dito Jesus’ (Jo 2,19-22).

Também a resposta dada pelo Jesus aos mensageiros das irmãs do Lázaro, que lhe pediam que fora a visitar o irmão doente, fazia referência aos acontecimentos pascais: ‘Esta enfermidade não é de morte, é para a glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela’ (Jo 11 , 4).

Não era só a glória que podia lhe reportar o milagre, tão menos quanto que provocaria sua morte (Cfr. Jo 11, 46)54); mas sim sua verdadeira glorificação viria precisamente de sua elevação sobre a cruz (Cfr. Jo 12,32). Os discípulos compreenderam bem tudo isto depois da ressurreição.

6. Particularmente interessante é a doutrina de São Paulo sobre o valor da ressurreição como elemento determinante de sua concepção cristológica, vinculada também a sua experiência pessoal do Ressuscitado. Assim, ao começo da Carta aos Romanos se apresenta: ‘Paulo, servo de Cristo Jesus, apóstolo por vocação, escolhido para o Evangelho de Deus, que havia já prometido por meio de seus profetas nas Escrituras Sagradas, a respeito de seu Filho, nascido da linhagem do David segundo a carne, constituído Filho de Deus poderoso, segundo o Espírito de santidade, por sua ressurreição de entre os mortos; Jesus Cristo, Nosso senhor’ (Rom 1, 1-4).

Isto significa que desde o primeiro momento de sua concepção humana e de seu nascimento (da estirpe do David), Jesus era o Filho eterno de Deus, que se fez Filho do homem. Mas, na ressurreição, essa filiação divina se manifestou em toda sua plenitude com o poder de Deus que, por obra do Espírito Santo, devolveu a vida a Jesus (Cfr. Rom 8, 11) e o constituiu no estado glorioso de ‘Kyrios’ (Cfr. Flp 2, 9-11; Rom 14, 9; At 2, 36), de modo que Jesus merece por um novo titulo messiânico o reconhecimento, o culto, a glória do nome eterno de Filho de Deus (Cfr. At 13, 33; Hb 1,1-5; 5, 5).

7. Paulo tinha exposto esta mesma doutrina na sinagoga da Antioquia da Pisídia, em sábado, quando, convidado pelos responsáveis pela mesma, tomou a palavra para anunciar que no cume da economia da salvação realizada na história do Israel entre luzes e sombras, Deus tinha ressuscitado de entre os mortos a Jesus, o qual se apareceu durante muitos dias aos que tinham subido com Ele desde a Galiléia a Jerusalém, os quais eram agora suas testemunhas diante do povo. ‘Também nós (concluía o Apóstolo) anunciamo-lhes a Boa Nova de que a Promessa feita aos pais Deus a cumpriu em nós, os filhos, ao ressuscitar a Jesus, como está escrito nos salmos: meu filho és Tu; eu te gerei hoje’ (At 13, 32-33; Cfr. Sal 2, 7).

Para o Paulo há uma espécie de osmose conceitual entre a glória da ressurreição de Cristo e a eterna filiação divina de Cristo, que se revela plenamente nesta conclusão vitoriosa de sua missão messiânica.

8. Nesta glória do ‘Kyrios’ se manifesta esse poder do Ressuscitado (Homem-Deus), que Paulo conheceu por experiência no momento de sua conversão no caminho de Damasco ao sentir-se chamado a ser Apóstolo (embora não um dos Doze), por ser testemunha ocular do Cristo vivo, e recebeu do a força para confrontar todos os trabalhos e suportar todos os sofrimentos de sua missão. O espírito do Paulo ficou tão marcado por essa experiência, que em sua doutrina e em seu testemunho antepor a idéia do poder do Ressuscitado a de participação nos sofrimentos de Cristo, que também lhe era grata: O que se realizou em sua experiência pessoal também o propunha aos fiéis como uma regra de pensamento e uma norma de vida: ‘Julgo que tudo é perda ante a sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor… para ganhar em Cristo e ser achado nele… e lhe conhecer o poder de sua ressurreição e a comunhão em seus padecimentos até me fazer semelhante a ele em sua morte, tratando de chegar à ressurreição de entre os mortos’ (Flp 3, 8-11). E então seu pensamento se dirige à experiência do caminho de Damasco: ‘… Tendo sido eu mesmo alcançado por Cristo Jesus’ (Flp 3, 12).

9. Assim, os textos referidos deixam claro que a ressurreição de Cristo está estreitamente unida com o mistério da encarnação do Filho de Deus: é seu cumprimento, segundo o eterno desígnio de Deus. Mais ainda, é a coroação suprema de tudo o que Jesus manifestou e realizou em toda sua vida, do nascimento à paixão e morte, com suas obras, prodígios, magistério, exemplo de uma vida perfeita, e sobre tudo com sua transfiguração. Ele nunca revelou de modo direto a glória que tinha recebido do Pai ‘antes que o mundo fosse’ (Jo 17, 5), mas sim ocultava esta glorifica com sua humanidade, até que se despojou definitivamente (Cfr. Flp 2, 7-8) com a morte em cruz.

Na ressurreição se revelou o fato de que ‘em Cristo reside toda a plenitude da Divindade corporalmente’ (Couve 2, 9; cfr. 1, 19). Assim, a ressurreição ‘completa’ a manifestação do conteúdo da Encarnação. Por isso podemos dizer que é também a plenitude da Revelação. portanto, como havemos dito, ela está no centro da fé cristã e da pregação da Igreja

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O valor salvífico da ressurreição
S.S. João Paulo II. 15 de março de 1989

1. Se, como vimos em anteriores catequeses, a fé cristã e a pregação da Igreja têm seu fundamento na ressurreição de Cristo, por ser esta a confirmação definitiva e a plenitude da revelação, também terá que acrescentar que é fonte do poder salvífico do Evangelho e da Igreja assim que integração do mistério pascal. Em efeito, segundo São Paulo, Jesus Cristo se revelou como ‘Filho de Deus podendo, segundo o espírito de santidade, por sua ressurreição de entre os mortos’ (Rom 1, 4). E Ele transmite aos homens esta santidade porque ‘foi entregue por nossos pecados e foi ressuscitado para nossa justificação’ (Rom 4, 25). Há como um duplo aspecto no mistério pascal: a morte para liberar do pecado e a ressurreição para abrir o acesso à vida nova.

Certamente o mistério pascal, como toda a vida e a obra de Cristo, tem uma profunda unidade interna em sua função redentora e em sua eficácia, mas isso não impede que possam distinguir-se seus distintos aspectos com relação aos efeitos que derivam dele no homem. Desde aí a atribuição à ressurreição do efeito específico da ‘vida nova’, como afirma São Paulo.

2. Respeito a esta doutrina terá que fazer algumas indicações que, em contínua referência os textos do Novo Testamento, permitam-nos pôr de relevo toda sua verdade e beleza.

Acima de tudo, podemos dizer certamente que Cristo ressuscitado é princípio e fonte de uma vida nova para todos os homens. E isto aparece também na maravilhosa prece do Jesus, a véspera de sua paixão, que João nos refere com estas palavra: ‘Pai… glorifica a seu Filho para que seu Filho glorifique a ti. E que segundo o poder que lhe deste sobre toda carne, dê também vida eterna a todos os que você lhe deste’ (Jo 17, 1-2). Em sua prece Jesus olha e abraça sobre tudo a seus discípulos a quem advertiu da próxima e dolorosa separação que iria se verificar mediante a sua paixão e morte, mas aos quais prometeu do mesmo modo: ‘Eu vivo e também vós vivereis (Jo 14, 19). Quer dizer: terão parte em minha vida, a qual se revelará depois da ressurreição. Mas o olhar de Jesus se estende a um rádio de amplitude universal. Diz-lhes: ‘Não rogo por estes (meus discípulos), mas também por aqueles, que por meio de sua palavra, acreditarão em mim… (Jo 17, 20): todos devem formar uma só coisa ao participar da glória de Deus em Cristo.

A nova vida que se concede aos crentes em virtude da ressurreição de Cristo, consiste na vitória sobre a morte do pecado e na nova participação na graça. Afirma-o São Paulo de forma lapidária: ‘Deus, rico em misericórdia…, estando mortos por causa de nossos delitos nos vivificou junto com Cristo’ (Ef 2, 4-5). E de forma análoga São Pedro: ‘O Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo…, por sua grande misericórdia, mediante a ressurreição do Jesus Cristo de entre os mortos nos há gerado novamente para uma esperança viva’ (1 P 1, 3).

Esta verdade se reflete no ensino paulina sobre o batismo: ‘Fomos, pois, com Ele (Cristo) sepultados pelo batismo na morte, a fim de que, ao igual a Cristo foi ressuscitado de entre os mortos por meio da glória do Pai, assim também nós vivamos uma vida nova’ (Rom 6, 4).

3. Esta vida nova (a vida segundo o Espírito) manifesta a filiação adotiva: outro conceito paulino de fundamental importância. A este respeito, é ‘clássico’ a passagem da Carta aos Gálatas: ‘Enviou Deus a seu Filho… para resgatar aos que se achavam sob a lei e para que recebêssemos a filiação adotiva’ (Gal 4, 4-5). Esta adoção divina por obra do Espírito Santo, faz ao homem semelhante ao Filho unigénito: ‘…Todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, são filhos de Deus’ ‘m 8, 14). Na Carta aos Gálatas São Paulo apela à experiência que têm os crentes da nova condição em que se encontram: ‘A prova de que são filhos de Deus é que Deus enviou a nossos corações o Espírito de seu Filho que clama: Abbá, Pai! De modo que já não é escravo senão filho; e se filho, também herdeiro por vontade de Deus’ (Gal 4, 6)7). Há, pois, no homem novo um primeiro efeito da redenção: a liberação da escravidão; mas a aquisição da liberdade chega ao converter-se em filho adotivo, e isso nem tanto pelo acesso legal à herança, a não ser com o dom real da vida divina que infundem no homem as três Pessoas da Trindade (Cfr. Gal 4, 6; 2 Cor 13, 13). A fonte desta vida nova do homem em Deus é a ressurreição de Cristo.

A participação na vida nova faz também que os homens sejam ‘irmãos’ de Cristo, como o mesmo Jesus chama a seus discípulos depois da ressurreição: ‘ides anunciar a meus irmãos…’ (MT 28, 10; Jo 20, 17). Irmãos não por natureza mas sim por dom de graça, pois essa filiação adotiva dá uma verdadeira e real participação na vida do Filho unigênito, tal como se revelou plenamente em sua ressurreição.

4. A ressurreição de Cristo (e, mais ainda, o Cristo ressuscitado) é finalmente principio e fonte de nossa futura ressurreição. O mesmo Jesus falou disso ao anunciar a instituição da Eucaristia como sacramento da vida eterna, da ressurreição futura: ‘que come minha carne e bebe meu sangue tem vida eterna, e eu o ressuscitarei o último dia’ (Jo 6, 54). E ao ‘murmurar’ os que o ouviam, Jesus lhes respondeu: ‘Isto lhes escandaliza? E quando vejam o Filho do homem subir aonde estava antes…?’ (Jo 6, 61-62).Desse modo indicava indiretamente que sob as espécies sacramentais da Eucaristia se dá os que a recebem participação no Corpo e Sangue de Cristo glorificado.

Também São Paulo põe de relevo a vinculação entre a ressurreição de Cristo e a nossa, sobre tudo em sua Primeira Carta aos Corintios; pois escreve: ‘Cristo ressuscitou de entre os mortos como primícia dos que morreram… Pois do mesmo modo que no Adão morrem todos, assim também todos reviverão em Cristo’ (1 Cor 15, 20-22). ‘Em efeito, é necessário que este ser corruptível se revista de incorruptibilidade e que este ser mortal se revista de imortalidade. E quando este ser corruptível se revista de incorruptibilidade e este ser mortal se revista de imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: !A morte foi devorada na vitória!’ (1 Cor 15, 53-54). ‘Graças sejam dadas a Deus que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo’ (1 Cor 15, 57).

A vitória definitiva sobre a morte, que Cristo já obteve, Ele a participa à humanidade na medida em que esta recebe os frutos da redenção. É um processo de admissão à ‘vida nova’, à ‘vida eterna’, que dura até o final dos tempos. Graças a esse processo se vai formando ao longo dos séculos uma nova humanidade: o povo dos crentes reunidos na Igreja, verdadeira comunidade da ressurreição. À hora final da história, todos ressurgirão, e os que tenham sido de Cristo, terão a plenitude da vida na glória, na definitiva realização da comunidade dos redimidos por Cristo ‘para que Deus seja tudo em todos’ (1 Cor 15, 28).

5. O Apóstolo ensina também que o processo redentor, que culmina com a ressurreição dos mortos, acontece em uma esfera de espiritualidade inefável, que supera tudo o que se pode conceber e realizar humanamente. Em efeito, se por uma parte escreve que ‘a carne e o sangue não podem herdar o reino dos céus; nem a corrupção herda a incorrupção’ (1 Cor 15, 50) o qual é a constatação de nossa incapacidade natural para a nova vida), por outra, na Carta aos Romanos assegura aos que acreditam o seguinte: ‘Se o Espírito daquele que ressuscitou ao Jesus de entre os mortos habita em nós, Aquele que ressuscitou a Cristo de entre os mortos dará também a vida a seus corpos mortais por seu Espírito que habita em vós’ (Rom 8, 11). É um processo misterioso de espiritualização, que alcançará também aos corpos no momento da ressurreição pelo poder desse mesmo Espírito Santo que obrou a ressurreição de Cristo.

Trata-se, sem dúvida, de realidades que escapam a nossa capacidade de compreensão e de demonstração racional, e por isso são objeto de nossa fé fundada na Palavra de Deus, a qual, mediante São Paulo, faz-nos penetrar no mistério que supera todos os limites do espaço e do tempo: ‘Foi feito o primeiro homem, Adão, alma vivente; o último Adão, espírito que dá vida'(1 Cor 15, 45). ‘E do mesmo modo que levamos a imagem do homem terreno, levaremos também a imagem do celeste’ (1 Cor 15, 49).

6. Em espera dessa transcendente plenitude final, Cristo ressuscitado vive nos corações de seus discípulos e seguidores como fonte de santificação no Espírito Santo, fonte da vida divina e da filiação divina, fonte da futura ressurreição.

Essa certeza lhe faz dizer a São Paulo na Carta aos Gálatas: ‘Com Cristo estou crucificado; e não vivo eu, mas sim é Cristo quem vive em mim. A vida que vivo ao presente na carne, a vivo na fé do Filho de Deus que me amou e se entregou a si mesmo por mim’ (Gal 2, 20). Como o Apóstolo, também cada cristão, embora viva ainda na carne (Cfr. Rom 7, 5), vive uma vida já espiritualizada com a fé (Cfr. 2 Cor 10, 3), porque o Cristo vivo, o Cristo ressuscitado se converteu no sujeito de todas suas ações: Cristo vive em mim (Cfr. Rom 8, 2. 10)11;. Flp 1, 21; Couve 3, 3). E é a vida no Espírito Santo.

Esta certeza sustenta ao Apóstolo, como pode e deve sustentar a cada cristão nos trabalhos e os sofrimentos desta vida, tal como aconselhava Paulo ao discípulo Timóteo no fragmento de sua Carta com o que queremos fechar )para nosso conhecimento e consolo) nossa catequese sobre a ressurreição de Cristo: “Lembra-te de Jesus Cristo, ressuscitado de entre os mortos, descendente do David, segundo meu Evangelho… Por isso tudo suporto pelos eleitos, para que também eles alcancem a salvação que está em Cristo Jesus com a glória eterna. É certa esta afirmação: se temos morrido com Ele, também viveremos com Ele; se nos mantemos firmes, também reinaremos com Ele; se lhe negarmos, também Ele nos negará; se formos fiéis, Ele permanece fiel, pois não pode negar-se a si mesmo…’ (2 Tim 2, 8-13).

‘Lembra-te de Jesus Cristo, ressuscitado de entre os mortos’: esta afirmação do Apóstolo nos dá a chave da esperança na verdadeira vida no tempo e na eternidade.

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