Papa Francisco no Coliseu: O amor é mais forte do que o mal

Coliseu de Roma – REUTERS
10/04/2017

Cidade do Vaticano (RV) – Na noite desta Sexta-feira Santa, o Papa Francisco preside no Coliseu de Roma a Via Sacra, a partir das 21h15, hora local, 16h15, hora de Brasília. A Via Sacra escrita pela teóloga francesa Anne-Marie Pelletier para esta Sexta-feira Santa no Coliseu, poderia ser considerada como “não tradicional”. As Estações, de fato, espelham os momentos que a autora considerou como os mais significativos no caminho de Jesus ao Gólgota, como a negação de Pedro, o sofrimento de Cristo no qual são reconhecidos homens, mulheres e até mesmo “crianças violentadas, humilhadas, torturadas, assassinadas”, o silêncio do sábado.

Nas reflexões, Anne-Marie Pelletier quis dar um espaço particular às mulheres. Cita, por exemplo, Santa Catarina de Sena e Etty Hillesum e, entre as testemunhas de nosso tempo, recorda os monjes trapistas de Tibhirine, Argélia, assassinados em 1998. A Rádio Vaticano, que transmitirá ao vivo, com comentários em português, conversou com ela. Vamos ouvir o que disse:

“Eu diria que não pensei naquilo que gostaria de dizer ou que queria transmitir. A minha idéia foi, isto sim, a de colocar-me neste caminho, de tentar colocar-me nos passos de Jesus que sobe ao Gólgota. Trata-se de uma dimensão do pensamento de Deus e não do nosso, então procurei ter uma atitude de escuta e de silêncio, por mim mesma e pelos outros, ao extraordinário paradoxo que se realiza na hora da Paixão, aquele que as Escrituras definem como o inaudito da hora de Deus e que toca intensamente e profundamente todo o agir de nosso mundo contemporâneo”.

RV: As 14 Estações que você escreveu, não são aquela tradicionais. Por que esta escolha?

“Inspirei-me no fato de que a Via Sacra tem diversas referências e que não tem um esquema vinculante e escolhi aqueles momentos que me pareciam particularmente significativos. Assim, decidi inserir a negação de Pedro e a cena em que Pilatos, consultado pelas autoridades judaicas, declara também ele que Cristo deveria ser crucificado. Para mim era muito importante querer recordar, nesta circunstância, judeus e pagãos unidos na cumplicidade da condenação à morte de Jesus. Sabemos que no decorrer dos séculos os cristãos foram tentados a atribuir a responsabilidade pela morte de Jesus somente ao povo hebreu. Os textos, porém, na forma como foram escritos, nos ajudam a entender que, na realidade, nos encontramos diante de um enorme drama espiritual, no qual judeus e pagãos estão unidos na mesma rejeição de Cristo, na mesma violência que leva a sua condenação à morte”.

RV: Quais foram as fontes de sua inspiração para escrever as meditações?

“Eu diria, fundamentalmente, a minha experiência de crente, a experiência da luta da fé. Porque quando nos encontramos lá – como no caso da paixão de Jesus – diante deste extremo do pensamento de Deus, cada um de nós se sente perdido e tem dificuldades em entrar nesta lógica das Escrituras, do “devia ser assim””.

RV: Mas, existe uma mensagem que você gostaria de transmitir por meio de seus textos?

“Eu diria que fundamentalmente busquei sensibilizar sobre o fato de que os trágicos eventos da Paixão têm de humano: Cristo é condenado à morte, submetido à violência dos homens. Tais acontecimentos nos ensinam que devemos  conseguir alcançar aquilo que o Papa chama na Evangelii Gaudium, “a alegria do Evangelho”. Estamos diante de um grande paradoxo, porque aquilo que temos sob os olhos é a realidade de um fracasso, do sofrimento triunfante, do reino da morte. É muito importante tomar consciência do fato de que ser cristãos é o oposto desta chantagem da violência, da morte, e que o amor é mais forte. O amor que vem de Deus tem a vitória sobre tudo. Penso que seja tarefa dos cristãos de hoje ser testemunhas disto”.

RV: Na última estação você dá destaque à presença das mulheres…

“Eu quis que a XIV Estação fosse dedicada ao Sábado Santo. O Evangelho oferece poucas palavras a respeito de tal dia, e elas dizem respeito às mulheres. Somente as mulheres que, vindas do sepulcro após o sepultamento de Jesus, foram preparar os panos para poder envolver o corpo depois do Shabbat. Ainda que a nossa liturgia não reserve a ele uma grande ressonância, penso que o Sábado Santo seja um momento fundamental. É um momento de recolhimento, de silêncio; nos prepara para reconhecer a ressurreição. E é também um momento feminino, que nos mostra as mulheres colocadas à prova pela morte de Jesus, mas que ao mesmo tempo continuam a ter uma postura de vida: preparam os panos com os quais irão honrar o corpo de Cristo e têm um comportamento muito diferente daquele dos discípulos de Emaús. Estes estão desiludidos e desorientados, enquanto as mulheres não se mostram assim; simplesmente, sobriamente, preparam os panos e se dispõe assim a receber a grande surpresa do anúncio da Ressurreição”. (TC/JE)

 
 
Papa na Via-Sacra: vergonha pelo sangue inocente
Papa no Coliseu de Roma para a Via-Sacra – REUTERS
14/04/2017

Cidade do Vaticano (RV) – Vergonha e esperança foram as palavras usadas por Francisco ao final da Via-Sacra realizada no Coliseu de Roma na Sexta-feira Santa. Após as 14 estações, que recordaram o drama das guerras, dos migrantes, das famílias dilaceradas e das crianças violadas, o Papa fez uma oração em que denunciou os motivos para sentir vergonha e anunciou os motivos para ter esperança.

Os motivos da vergonha

“Vergonha por todas as imagens de devastação, destruição e naufrágio que se tornaram ordinárias na nossa vida. Vergonha pelo sangue inocente que diariamente é derramado de mulheres, crianças e migrantes, de pessoas perseguidas pela cor de sua pele ou pertença étnica e social e por sua fé no Senhor. Vergonha pelas muitas vezes que, como Judas e Pedro, O vendemos e traímos e O deixamos só a morrer pelos nossos pecados, fugindo como covardes da nossa responsabilidade. Vergonha pelo nosso silêncio diante da injustiça, pelas mãos preguiçosas em dar e ávidas em tirar e em conquistar, pelo nossa voz forte em defender os nossos interesses e tímida em falar dos interesses dos demais. Pelos nossos pés velozes no caminho do mal e paralisados no caminho do bem. Vergonha por todas as vezes que nós bispos, sacerdotes, consagrados e consagradas escandalizamos e ferimos o Seu corpo, a Igreja, e esquecemos o nosso primeiro amor, o primeiro entusiasmo e nossa total disponibilidade, deixando enferrujar o nosso coração e a nossa consagração.”

Os motivos da esperança

“Tanta vergonha, Senhor”, prosseguiu o Papa, mas também tanta esperança, confiante de que Jesus “não nos trata pelos nossos méritos, mas unicamente segundo a abundância da Sua misericórdia”.

“A esperança de que a sua cruz transforma nossos corações endurecidos em corações de carne, capaz de sonhar, de perdoar e de amar. Transforma essa noite tenebrosa de Sua cruz em alvorecer da Sua ressurreição. A esperança de que a Sua fidelidade não se baseia na nossa. A esperança de que a fileira de homens e mulheres fieis à Sua cruz continua e continuará a viver fiel como o fermento que dá sabor e como a luz que abre novos horizontes no corpo da nossa humanidade ferida. Esperança de que sua Igreja tentará ser a voz que grita no deserto da humanidade para preparar a estrada do Seu retorno triunfal quando virá julgar os vivos e os mortos. A esperança que o bem vencerá não obstante a sua aparente derrota.”

Não se envergonhar nem instrumentalizar a cruz

“Ó Senhor Jesus, filho de Deus, diante do Seu patíbulo nos ajoelhamos envergonhados e esperançosos e pedimos que perdoe os nossos pecados e nossas culpas. Pedimos que se lembre de nossos irmãos que sucumbiram pela violência, pela indiferença e pela guerra. Pedimos que rompa as correntes que nos mantêm presos no nosso egoísmo, na nossa cegueira voluntária e na vaidade dos nossos cálculos mundanos. Ó Cristo, nós Lhe pedimos que nos ensine a jamais nos envergonhar da Sua cruz, a não instrumentalizá-la, mas honrá-la e adorá-la, porque com ela nos manifestou a monstruosidade dos nossos pecados, a grandeza do seu amor, a injustiça dos nossos juízos e a potência da sua misericórdia. Amém.”

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