X Domingo do Tempo Comum – Ano C

Por Mons. Inácio José Schuster

Evangelho segundo São Lucas 7, 11-17
Em seguida, dirigiu-se a uma cidade chamada Naim, indo com Ele os seus discípulos e uma grande multidão. Quando estavam perto da porta da cidade, viram que levavam um defunto a sepultar, filho único de sua mãe, que era viúva; e, a acompanhá-la, vinha muita gente da cidade. Vendo-a, o Senhor compadeceu-se dela e disse-lhe: «Não chores.» Aproximando-se, tocou no caixão, e os que o transportavam pararam. Disse então: «Jovem, Eu te ordeno: Levanta-te!» O morto sentou-se e começou a falar. E Jesus entregou-o à sua mãe. O temor apoderou-se de todos, e davam glória a Deus, dizendo: «Surgiu entre nós um grande profeta e Deus visitou o seu povo!» E a fama deste milagre espalhou-se pela Judeia e por toda a região.

Existem três narrações de ressurreições de mortos nos nossos evangelhos canônicos. Nenhuma delas é transmitida com fins exclusivamente miraculosos. Hoje Jesus ressuscita o filho da viúva de Naim. Na verdade nós temos neste texto a vitória da vida sobre a morte. À entrada da pequena aldeia de Naim, dois cortejos se encontram casualmente; de um lado está Jesus, seguido de discípulos e acompanhantes – é um cortejo festivo – a seu encontro vem um cortejo fúnebre: um jovem morto, filho único de uma mãe viúva, é conduzido para a sepultura. Lucas, com maestria, mostra-nos o contato realizado às portas de Naim entre a vida e a morte. A catequese que o evangelista nos transmite é esta: Jesus veio a este mundo não apenas para ensinar-nos uma doutrina, como a do alto sermão da montanha. Jesus veio a este mundo não apenas para indicar-nos uma estrada a seguir – seria um Mestre, um Rabi, seria aquele que aponta um caminho a alguém – Ele realiza muito mais. Jesus veio transformar um velho mundo, que desgraçadamente caminha de maneira inexorável para a morte, num mundo novo, do qual a morte seja completamente banida. É verdade, estes três sujeitos que ressuscitaram, estas três pessoas ressuscitaram para trás, isto é, houve mais do que uma ressurreição, houve um ressuscitamento – voltaram a uma vida mortal e certamente tiveram que morrer novamente. Jesus, no entanto, com Sua ressurreição não ressuscitou para trás, ressuscitou para a frente. Sua ressurreição não é a de um cadáver para uma vida mortal. Sua ressurreição foi um ato escatológico que Deus Nele operou, levando-O ao final de todos os tempos. A ressurreição que Ele nos promete não é o ressuscitamento, não é ressurreição para trás, é, com Ele, uma ressurreição para a escatologia e para a Glória de Deus. Estas três ressurreições – melhor, estes três ressuscitamentos – são uma amostra distante, longínqua, de um Deus que não deseja a morte como vencedora e última palavra para nenhum de Seus filhos.

 

As lágrimas de uma mãe
Santo Ambrósio (cc 340-397), bispo de Milão e doutor da Igreja
Sobre o Evangelho de S. Lucas, V, 89 (trad. cf SC 45, p. 214)

A misericórdia divina deixa-se facilmente vergar pelos gemidos desta mãe. Ela é viúva; os sofrimentos ou a morte do seu único filho quebraram-na. […] Creio que esta viúva, rodeada da multidão do povo, é mais do que uma simples mulher que merece pelas suas lágrimas a ressurreição de um filho, jovem e único. Ela é a própria imagem da Santa Igreja que, com as suas lágrimas, no meio do cortejo fúnebre e até junto do túmulo, obtém que seja devolvido à vida o jovem povo deste mundo. […] Porque à palavra de Deus os mortos ressuscitam, reencontram a voz e a mãe recupera o seu filho; ele foi chamado do túmulo, foi arrancado ao sepulcro. Que túmulo é este para vós, senão o vosso mau comportamento? O vosso túmulo é a falta de fé. […] Desse sepulcro, Cristo vos liberta; saireis do túmulo se escutardes a Palavra de Deus. E, se o vosso pecado for demasiado grave para que o possam lavar as lágrimas da vossa penitência, que intervenham por vós as lágrimas da vossa mãe Igreja. […] Ela intercede por cada um dos seus filhos, como por outros tantos filhos únicos. Com efeito, ela é plena de compaixão e experimenta uma dor espiritual e materna sempre que vê os seus filhos arrastados para a morte pelo pecado.

 

Deus visita seu povo
Padre Pacheco

Em Israel, no tempo de Jesus, não havia situação pior que a da viúva. Tinha de se virar sozinha para se sustentar a si mesma e aos filhos. Estes, por sua vez, eram a esperança de sua velhice, pois, ainda crianças, já podiam ajudar um pouco e, mais tarde, cuidariam dela. A 1ª leitura e o Evangelho nos contam como, respectivamente, Elias e Jesus ressuscitam um filho de uma viúva: Elias, com muitos trabalhos; Jesus, com um toque de mão. Se Elias era um “homem de Deus”, um profeta, Jesus é o “Senhor”, e o povo exclama: “Um grande profeta nos visitou! Deus visitou o Seu povo!” Essa visita de Deus a Seu povo é muito peculiar. Quando um governador ou presidente visita uma cidade, dificilmente vai parar para se ocupar com um cortejo de enterro que casualmente cruzar seu caminho. Vai ver o prefeito, isso sim. Mas o Filho de Deus se torna presente à vida de uma pobre viúva que está levando seu filho – sua esperança – ao enterro. Deus visita os pobres e os pecadores: a viúva, Zaqueu… Aqueles que são abandonados pelos outros. Em Jesus, o Todo-Poderoso nos mostra o caminho que conduz aos marginalizados. Assim é o sistema de Deus, diferente do nosso. Enquanto nós gostamos de investir naqueles que já têm poder e influência; Jesus começa com aqueles que estão à margem da sociedade. O Reino de Deus começa onde existem irmãos que mais carecem de tudo! E revela-se um Reino da vida para os deserdados. A visita de Deus deixa Seu povo também com “responsabilidade da gratidão”. O povo espalhou a fama de Jesus por toda a região. Mostrou que soube dar valor à visita que recebeu. A Igreja terá de celebrar a mesma gratidão por Deus, que faz grandes coisas aos pequenos. Muitos ainda não são capazes disso. Não sabem se alegrar com a visita de Deus aos pequeninos, por isso lhes escapa a grandeza da visita. Mas, afinal, quando é que sentimos Deus mais verdadeiramente próximo de nós: ao se realizar uma grande solenidade ou quando um gesto de amor atinge uma pessoa carente?
*Cf. Konings, J. “Liturgia Dominical”, p.420-421. Ed. Vozes. Petrópolis RJ: 2004.

 

DÉCIMO DOMINGO COMUM
“Ao vê-la, o Senhor teve compaixão dela”
Lucas 7, 11-18

De novo, nos deparamos com um dos temas centrais de Lucas – a compaixão de Jesus, ou melhor, a compaixão de Deus manifestada em Jesus.  Em qualquer sociedade, em qualquer época, a morte do filho único de uma viúva seria trágica.
Mas na sociedade patriarcal do tempo de Jesus, mais ainda.
Pois uma mulher, sem marido e sem filho, seria totalmente desamparada, sem segurança qualquer. “Ao vê-la, o Senhor teve compaixão dela” (v. 13). Ele nem a conhecia, não sabia se era ‘gente boa”, “gente de fé”, ou não.
Bastava ver o seu sofrimento para que Jesus sentisse compaixão dela.
Lucas aqui desafia a todos nós para que superemos o moralismo e a mania de julgar, para simplesmente ver as pessoas com os seus sofrimentos como Jesus as vê; para termos “coração de carne e não coração de pedra” (cf. Ez 36, 26).
Peçamos este dom – pois realmente é uma graça de Deus! Jesus disse-lhe “Não chore!” Quantas vezes ouvimos estas palavras de “pano quente” dirigidas às pessoas sofridas, para que escondem o seu pranto e parem de nos incomodar.
Mas na boca de Jesus não são meras palavras paliativas – mas garantia de esperança!  Ele não conforta com palavras vazias, mas faz o que pode.
Tais palavras só têm sentido quando pronunciadas por pessoas solidárias, que tomam passos concretos para aliviar as dores alheias. “E Jesus o entregou à sua mãe” (v. 15b). Com esta frase, Lucas evoca a figura do Profeta Elias, que devolveu o filho único morto à viúva de Sarepta (cf. 1Rs 17, 23).
Neste gesto de Jesus, feito em solidariedade e com compaixão, a multidão vê a presença do Deus misericordioso e amoroso: “Glorificavam a Deus dizendo: “Um grande  profeta apareceu entre nós, e Deus veio  visitar o seu povo” (v. 16). É certo que nós não temos poder de ressuscitar fisicamente os defuntos – mas podemos lutar pela vida, pela saúde, contra a morte prematura, em favor de um sistema social adequado de saúde!
Podemos ressuscitar pessoas desanimadas, com palavras de coragem e ânimo: “O Senhor Javé me deu a capacidade de falar  como discípulo, para que eu saiba ajudar os desanimados com uma palavra de coragem.”(Is 50,4)
Podemos sentir e manifestar compaixão, ser solidários, ser sinal da presença do Deus de vida.  Lucas nos desafia mais uma vez, para que a nossa vivência cristã leve os sofridos a dizer: “Realmente Deus visitou o seu povo!”

 

Quem será mais carente e desamparado neste mundo do que uma mulher viúva que perde o seu único filho? A desolação é total. Por isso mesmo, a Bíblia apresenta os órfãos e as viúvas como expressão dos marginalizados e o amparo a eles deve ser expressão da verdadeira religião.
Neste domingo, temos o evangelho do jovem de Naim. Na 1ª leitura, temos a ressurreição do filho da viúva de Sarepta, realizada pelo profeta Elias. Jesus chega com os seus discípulos à cidade de Naim e encontra-se com uma viúva cujo filho era levado para o cemitério, fora da cidade. “Ao vê-la, o Senhor compadeceu-Se dela e disse-lhe: “Não chores”. Mas não ficou somente nas palavras: “Jesus aproximou-se e tocou no caixão; e os que o transportavam pararam. Disse Jesus: “Jovem, Eu te ordeno: levanta-te”. O morto sentou-se e começou a falar; e Jesus entregou-o à sua mãe”. Todos reconheceram que Deus visitou o seu povo.
Como é que estas leituras poderão exprimir a experiência pascal das nossas comunidades? A cena de Sarepta e de Naim repete-se tantas vezes na história. Não precisamos ir muito longe, porque ela está presente em cada comunidade. Ainda hoje, frequentemente, levam-se jovens, filhos únicos de mães viúvas, aos cemitérios. Isto acontece quando a vida gerada é tirada. Vê-se no abandono das pessoas, nas injustiças, nos oprimidos e perseguidos. A nossa sociedade está cheia de mães viúvas, que levam os seus filhos únicos para o cemitério. A última esperança de vida é “absorvida” pela morte.
Então, esta é a hora da comunidade entrar em ação. É importante que ela esteja a caminho, como Jesus e como Elias. Mas não pode passar longe dos problemas. Precisa parar, precisa entrar na casa, na cidade, para “visitar as viúvas”. Deverá fazer como Jesus: compadecer-se, consolar, agir, “ressuscitando o jovem” para que o povo glorifique a Deus.
Para que isso aconteça, temos que ser, como São Paulo, ministros convictos e zelosos do evangelho: deixar revelar-se em nós o Filho de Deus. Neste domingo, demos graças a Deus, sobretudo, por aqueles e por aquelas que, nesta sociedade injusta e violenta, se comprometem em defender e alimentar a vida dos irmãos necessitados.

Nenhum comentário ainda

Comentários desativados

Desenvolvido por Origy Networks – Criação de sites e propaganda