IV Domingo do Tempo Comum – Ano C

Por Mons. Inácio José Schuster

Se não tenho amor… 
Jr 1, 4-5.17-19; 1Cor 12, 31-13, 13; Lc 4, 21-30

Dedicamos nossa reflexão à segunda leitura, onde encontramos uma mensagem importantíssima. Trata-se do célebre hino à caridade, de São Paulo. Caridade é o termo religioso para dizer amor. Portanto, trata-se de um hino ao amor, talvez o mais célebre e sublime que se tenha escrito até hoje. Quando o cristianismo apareceu no âmbito do mundo, o amor havia tido já diversos cantores. O mais ilustre tinha sido Platão, que havia escrito sobre ele um tratado inteiro. O nome comum do amor era então Eros (daí os termos atuais erótico e erotismo). O cristianismo percebeu que esse amor passional de busca e de desejo não bastava para expressar a novidade do conceito bíblico. Por isso evitou completamente o termo Eros e o substituiu com o de ágape, que se deveria traduzir por dileção ou caridade, se este termo não tivesse sido adquirido já um sentido demasiado restringido (fazer caridade, obras de caridade). A diferença principal entre os dois amores é esta. O amor de desejo, o erótico, é exclusivo; ele se consuma entre duas pessoas; a intromissão de uma terceira pessoa significaria seu final, a traição. Às vezes, até a chegada de um filho pode pôr em crise esse tipo de amor. O amor de doação, o ágape, pelo contrário, abraça todos, não pode excluir ninguém, nem sequer o inimigo. A fórmula clássica do primeiro amor é a que ouvimos nos lábios de Violeta na Traviata de Verdi: «Ama-me Alfredo, ama-me quanto eu te amo». A fórmula clássica da caridade é aquela de Jesus, que diz: «Como eu vos amei, amai-vos uns aos outros». Esse é um amor feito para circular, para expandir-se. Outra diferença é esta. O amor erótico, na forma mais típica, que é o enamoramento, por sua natureza, não dura muito tempo, ou dura só mudando de objeto, isto é, enamorando-se sucessivamente de várias pessoas. Da caridade, São Paulo diz, ao contrário, que «permanece», ainda mais, é o único que permanece eternamente, inclusive depois de que tenham cessado a fé e a esperança. Entre os dois amores, contudo, – o de busca e o de doação – não existe separação clara nem contraposição, mas desenvolvimento, crescimento. O primeiro, o Eros, é para nós o ponto de partida; o segundo, a caridade, o ponto de chegada. Entre ambos existe todo o espaço para uma educação ao amor e um crescimento nele. Tomemos o caso mais comum, que é o amor de casal. No amor entre esposos, no princípio prevalecerá o Eros, a atração, o desejo recíproco, a conquista do outro e, portanto, um certo egoísmo. Se esse amor não se esforça por enriquecer-se, pouco a pouco, de uma dimensão nova, feita de gratidão, de ternura recíproca, de capacidade de esquecer-se pelo outro e de projetar-se nos filhos, todos sabemos como acabará. A mensagem de Paulo é de grande atualidade. O mundo do espetáculo e da publicidade parece hoje empenhado em incutir nos jovens que o amor se reduz ao Eros, e o eros ao sexo. Que a vida é um idílio contínuo em um mundo onde tudo é belo, jovem, saudável; onde não existe velhice, doença, e todos podem gastar o quanto quiserem. Mas esta é uma colossal falsidade que gera expectativas desproporcionadas, que desilude, provocando frustrações, rebelião contra a família e a sociedade, e abre com freqüência a porta ao delito. A Palavra de Deus nos ajuda a que não se apague totalmente nas pessoas o sentido crítico frente ao que diariamente lhe é proposto.

 

Evangelho segundo São Lucas 4, 21-30
Começou, então, a dizer-lhes: «Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabais de ouvir.» Todos davam testemunho em seu favor e se admiravam com as palavras repletas de graça que saíam da sua boca. Diziam: «Não é este o filho de José?» Disse-lhes, então: «Certamente, ides citar-me o provérbio: ‘Médico, cura-te a ti mesmo.’ Tudo o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaúm, fá-lo também aqui na tua terra.» Acrescentou, depois: «Em verdade vos digo: Nenhum profeta é bem recebido na sua pátria. Posso assegurar-vos, também, que havia muitas viúvas em Israel no tempo de Elias, quando o céu se fechou durante três anos e seis meses e houve uma grande fome em toda a terra; contudo, Elias não foi enviado a nenhuma delas, mas sim a uma viúva que vivia em Sarepta de Sídon. Havia muitos leprosos em Israel, no tempo do profeta Eliseu, mas nenhum deles foi purificado senão o sírio Naaman.» Ao ouvirem estas palavras, todos, na sinagoga, se encheram de furor. E, erguendo-se, lançaram-no fora da cidade e levaram-no ao cimo do monte sobre o qual a cidade estava edificada, a fim de o precipitarem dali abaixo. Mas, passando pelo meio deles, Jesus seguiu-o seu caminho.

No quarto domingo do tempo comum a Igreja nos faz refletir sobre o discurso inaugural Lucano de Jesus em Nazaré, sua pátria. Depois de um primeiro momento de admiração mostra-nos o evangelista o escândalo dos compatriotas de Jesus. “É este o filho do carpinteiro, o filho de Maria, nós o conhecemos há anos. Cresceu no nosso meio. Nunca foi diferente e agora se mostra repleto do espírito de Deus, profeta de boa nova e de Evangelho?” Escandalizaram-se. E aquele escândalo foi o primeiro de uma série de outros escândalos que se sucederiam, não apenas na vida de Jesus, mas na vida da Igreja também. Não é verdade que ainda hoje se escandaliza com a Igreja por ser demasiadamente humana? Não é verdade que ainda hoje se escandaliza com a Igreja por conter em seu seio sacerdotes que não a dignificam com a própria vida e conduta? Não é verdade que ainda hoje se escandaliza com a Igreja por causa de tantos católicos que dão mau exemplo dentro dela, e são espetáculo deprimente ao mundo? Sim, ainda hoje o que aconteceu em Nazaré repercute no meio da Igreja e no meio das nossas comunidades. Jesus, no entanto se defende com um provérbio: “Certamente me direis: médico cura-te a ti mesmo, o que fizeste em Cafarnaum faze-o aqui na tua terra”. É um pecado grande exigir de Deus milagres atuais. Quando Deus deliberadamente realiza um gesto miraculoso, não é que Ele queira chamar a atenção de todos sobre o extraordinário. Quando Jesus curou, por exemplo, um cego ou um paralítico, não era sobre o maravilhoso natural e material que Ele queria chamar atenção. Ele queria mostrar que é capaz de curar outras tantas cegueiras espirituais mais nefastas do que aquela, outras tantas paralisias espirituais mais dolorosas e de maiores conseqüências trágicas. Tornemos a Igreja tanto quanto depende de nós, menos sujeita a críticas. Em segundo lugar, não exijamos de Deus milagres na ordem natural, saibamos que os milagres realizados por Sua livre iniciativa, na ordem natural, são apenas sinais que apontam numa outra direção, na direção do espiritual e desta maneira nós continuamos a ser evangelizados por Lucas.

 

Assim «renovas a face da terra» (Sl 103, 30)
São Cirilo de Alexandria (380-444), Bispo e Doutor da Igreja
Sobre o Profeta Isaías, 5, 5; PG 70, 1352-1353 (a partir da trad. de Delhougne, Les Pères commentent, p. 394)

Cristo quis trazer a Si o mundo inteiro e conduzir a Deus Pai todos os habitantes da terra. Quis restabelecer todas as coisas num estado melhor e renovar, por assim dizer, a face da terra. Eis por que, mesmo sendo o Senhor do Universo, tomou «a condição de servo» (Fil 2, 7). Por isso, anunciou a Boa Nova aos pobres, afirmando que tinha sido enviado com esse objectivo (Lc 4, 18). Os pobres, ou antes, as pessoas que podemos considerar como pobres, são as que sofrem por se verem privadas de todo o bem, as «sem esperança e sem Deus no mundo» (Ef 2, 12), como diz a Escritura. São, parece-nos, as pessoas vindas do paganismo e que, enriquecidas pela fé em Cristo, beneficiaram deste tesouro divino: a proclamação que trouxe a Salvação. Por ela, tornaram-se participantes do Reino dos céus e concidadãos dos santos, herdeiros das realidades que o homem não pode compreender nem exprimir – daquilo que, segundo o apóstolo Paulo, «os olhos não viram, os ouvidos não ouviram, o coração do homem não pressentiu, isso Deus preparou para aqueles que O amam» (1Cor 2, 9). […] Também os descendentes de Israel tinham o coração ferido, eram pobres e como que prisioneiros, estavam cheios de trevas. […] Cristo veio anunciar os benefícios da Sua vinda precisamente aos descendentes de Israel, antes dos outros, e ao mesmo tempo proclamar o ano da graça do Senhor (Lc 4, 19) e o dia da recompensa.

 

Jesus rejeitado em sua própria terra
Padre Marcos Pacheco

Hoje encontramos a resposta de várias perguntas que ficaram abertas no domingo anterior. Será mesmo que Jesus veio para instaurar o ano da remissão das dívidas (cf. Lc 4, 19)?  O Senhor teria desejado realizar materialmente essa utopia? Parece que Lucas, o único evangelista que aborda este tema, quer dizer algo mais. Na sua descrição, ele reúne diversos elementos. A citação de Is 61, 1-3, na boca de Jesus (cf. Lc 4, 16-19), tem por quadro uma combinação de Mc 1, 21 (ensino na sinagoga) e 6, 1-6 (rejeição em Nazaré). Percebemos uma correspondência de teor teológico entre o versículo 19, “um ano agradável da parte do Senhor”, e o versículo 24 “nenhum profeta é agradável em sua terra”. A citação do “ano da graça” não é relacionada, por Lucas, com uma mera reforma social, mas com a pessoa de Jesus mesmo. Cristo anuncia o “ano agradável da parte do Senhor”, a encarnação dos dons de Deus para Seu povo, especialmente para os pobres e humildes (cf. Dt 15). Mas o povo de Nazaré não recebe com agrado o profeta que anuncia isso… Nazaré aplaude a mensagem do ano de remissão, mas rejeita aquilo que o profeta em pessoa representa: a salvação universal. A restauração dos empobrecidos é a porta de entrada da salvação universal, pois o que é para todos tem de começar com os últimos, os excluídos. A rejeição acontece mansamente e devemos admirar novamente a arte narrativa de Lucas. Primeiro, o povo admira Jesus e as palavras d’Ele. Mas sua admiração é a negação daquilo que o Messias quer. Desconhecendo o “Filho de Deus”, tropeçam na sua origem por demais comum: “Não é este o filho de José?” Jesus toma a dianteira prevendo que eles apenas quererão ver Suas façanhas, como as feitas em Cafarnaum. Por isso, o Senhor lança um desafio: Ele não é um médico para uso caseiro. Como nenhum profeta é agradável à sua própria gente, a missão de Cristo ultrapassa os morros de Nazaré. E insiste: Elias, expulso de Israel, ajudou a viúva de Sarepta, na Finícia, e Eliseu curou o sírio Naamã… Os nazarenses, ciosos, não aguentam essas palavras e querem jogá-Lo no precipício (uma variante do apedrejamento). Mas Jesus, com a autoridade do Espírito, que repousa sobre Ele, passa no meio deles e vai adiante… Nazaré perdeu sua oportunidade, prefigurando assim a sorte da “pátria” do judaísmo: “Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados, quantas vezes quis eu reunir teus filhos…” (Lc13, 34-35) – “ Ah, se nesse dia conhecesses a mensagem da paz… Não conheceste o dia em que forte visitado!” Trata-se da visita de Deus a Seu povo e a Seu santuário, que não foi “agradável”, “bem recebida”. Que a Palavra de Deus, neste quarto domingo do tempo comum – tempo de amadurecimento na fé – nos leve a acolher o Cristo na Sua totalidade. O grande sinal da presença do Altíssimo em nós é a vivência do amor concreto por cada um de nós, pois nada possui valor em nós se aí não existir a caridade. Caridade esta que não é sentimento – passa pelos sentimentos – mas acima de tudo é decisão.
*Cf. KONINGS J., Liturgia Dominical, p.405. Ed. Vozes, Petrópolis 2004.

 

Caridade e amor, frutos de Deus
Padre Eliano Gonçalves

São Lucas 4, 21-30: “Naquele tempo, estando Jesus na sinagoga, começou a dizer: ‘Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir’. Todos davam testemunho a seu respeito, admirados com as palavras cheias de encanto que saíam da sua boca. E diziam: ‘Não é este o filho de José?’ Jesus, porém, disse: ‘Sem dúvida, vós me repetireis o provérbio: Médico, cura-te a ti mesmo. Faze também aqui, em tua terra, tudo o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum’. E acrescentou: ‘Em verdade eu vos digo que nenhum profeta é bem recebido em sua pátria. De fato, eu vos digo: no tempo do profeta Elias, quando não choveu durante três anos e seis meses e houve grande fome em toda a região, havia muitas viúvas em Israel. No entanto, a nenhuma delas foi enviado Elias, senão a uma viúva que vivia em Sarepta, na Sidônia. E no tempo do profeta Eliseu, havia muitos leprosos em Israel. Contudo, nenhum deles foi curado, mas sim Naamã, o sírio’. Quando ouviram estas palavras de Jesus, todos na sinagoga ficaram furiosos. Levantaram-se e o expulsaram da cidade. Levaram-no até ao alto do monte sobre o qual a cidade estava construída, com a intenção de lançá-lo no precipício. Jesus, porém, passando pelo meio deles, continuou o seu caminho”.

Para quem tem ouvido para ouvir, esta profecia acontece. Por isso, é importante estar de ouvidos atentos. O gesto de Jesus marca um tempo único. O Senhor é aquele que dá sentido, é ungido por excelência. Veja como é bela essa expressão do Evangelho, porque chegou um tempo de graça. Mas o coração que está preso em seus limites não consegue perceber a salvação prometida por Deus. Esta salvação não se limita aos critérios pobres e estreitos dos seus conterrâneos. È necessário a pobreza do coração. Para aquilo que é o principal na minha vida eu sempre irei disponibilizar tempo, porque justamente esta dedicação vai determinando aquilo que vou me tornando. A profecia de amor sempre irá nos desafiar, uma palavra que vai realmente nos incomodar. Os conterrâneos de Jesus ficam com os seus preconceitos. Todas às vezes que nós tomamos a decisão de ficar fechados em nós, fazemos a mesma coisa que eles: negamos os dons do Senhor. Quem semeia na carne só pode colher corrupção. Quem semeia no Espírito só pode colher a graça. Este coração que só quer as provas extraordinárias é um coração que não irá crer nunca. Um amor seletivo é sempre pobre, estreito, restrito. Nós precisamos aprofundar e ampliar a nossa visão da vida porque Jesus oferece a oportunidade. Será que o seu coração se abre para amar de todo coração a Deus e se entregar com caridade? O coração que é preconceituoso sempre vai ficar revoltado e vai rejeitar a verdade do amor. Quantas vezes a verdade lhe foi dita e você a rejeitou? Entenda que quando nós rejeitamos o amor nunca conseguimos ser felizes. Não conseguimos abraçar aquilo que é mais belo e digno de uma pessoa. A reação perante os fatos verdadeiros não é uma escuta que se contenta; é uma escuta que se revolta porque justamente não quer uma mudança. Jesus sempre vai insistir conosco, como insiste na liturgia de hoje.

“Quem semeia na carne só pode colher corrupção. Quem semeia no Espírito só pode colher a graça”

Qual tem sido a sua reação perante a verdade que lhe é proclamada? Eles [na passagem bíblica acima] rejeitaram a Jesus por conhecerem sua origem humilde. E você como está reagindo a verdade? Se avalie. A sua capacidade de amar, de acolher está nula? Como está o seu coração? Faça um revisão de vida nesta tarde. Amar é ir ao encontro. A experiência do verdadeiro amor acontece quando nós damos o passo de fazer o que o samaritano fez. Chegar perto, parar a nossa viagem, derramar o azeite, o vinho, dar de nós mesmo… Quem não chega perto vai sempre rejeitar o ferido para amar simplesmente aquele que você acha que é são, mas que também tem deficiências. Quem não adora a Deus de todo o coração não consegue amar o próximo como a si mesmo. Ame a Deus de todo o coração! É preciso ouvir a Palavra de Deus e amá-la de uma forma que eu possa acolhê-la verdadeiramente. O amor sempre vai falar e vai incomodar. Um acolhimento que é interesseiro sempre deseja manipular a Deus. Lute para não ser este interesseiro, dentro da sua casa e com as pessoas que você convive. Porque a todo o momento esta opção egoísta nos é oferecida. É preciso ouvir a palavra de Deus com amor, assim você sempre contemplará as verdades do seu coração. Respire este ar puro do seu estado de vida, da sua consagração, da sua vocação… Quando nós perdemos o foco, ficamos endurecidos. Em tudo que você fizer, se não houver caridade, não vale de nada. Só existe sentido de caridade quando realizamos algo em Deus. Se Deus não for o primeiro na sua vida, você não irá saber aquilo que é belo e que é bom nela. Sem Deus nem aquilo que é belo saberemos administrar. Nós fomos feitos para seguir o caminho, cujo o modelo perfeito é Jesus.

“Eu só tenho condições de enfrentar o mundo lá fora, se tenho os elementos da fé para me amparar”

Você não pode tudo, é por isso que a palavra de Deus nos ensina o que é realidade. Sem caridade você não é nada. Você ama produzindo liberdade? O amor não vive para si mesmo. A caridade só pode guardar em si aquilo que é belo; aquilo que é santo. O perdão nos torna livres. A caridade não guarda rancor. Ela nunca estabelecerá união com as trevas, ela não quer modelar o outro. Está faltando amor verdadeiro em nosso meio. Despertem porque está faltando o essencial, uma vida sem o essencial deixa de ser profecia. Eu só tenho condições de enfrentar o mundo lá fora, se tenho os elementos da fé para me amparar. Somente o amor pode colocar em ordem e harmonizar o seu interno para que você seja capaz de enfrentar as coisas externas. Você precisa deixar-se amar para amar. Deus conhece você, Ele o escolheu. É preciso viver a entrega na promessa de Deus, se não vou viver tremendo diante dos combates da vida. É preciso acreditar. Não temas, pois Deus está contigo. Confie n’Ele. Deus não envia ninguém para a derrota e, sim, para vitória. Mas a forma como eu parto para guerra também influencia nesta vitória.

 

O texto do evangelho que lemos neste domingo é o complemento do texto evangélico do domingo passado. Jesus está ainda no início da sua vida pública, na sinagoga de Nazaré, imediatamente a seguir ao seu “discurso programático” e novamente repete: “Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir”. A pregação de Jesus causou uma certa reação entre os habitantes de Nazaré, porque estes conheciam-no muito bem, desde a sua infância. Mas, o que mais causou admiração foi o conteúdo da pregação de Jesus que não era uma nova doutrina forte e consiste, mas era a sua própria pessoa: Ele era a mensagem! Por isso, “se admiravam das palavras cheias de graça que saíam da sua boca”. Jesus pede, em nome de Deus, a conversão do coração. E este pedido é feito a todas as pessoas. A desculpa dos presentes para não converter o coração era exigir um testemunho de quem pregava. Por isso Jesus disse: “Por certo Me citareis o ditado: ‘Médico, cura-te a ti mesmo’. Aquele que disse “O Espírito do Senhor está sobre mim” não tem necessidade de se curar nem de se converter. Esta situação de recusa aconteceu sempre na história do povo eleito com os profetas: anulando-os, pensavam que anulavam o que diziam. A primeira leitura fala-nos disto mesmo. O profeta Jeremias foi escolhido “no seio de sua mãe”, consagrado e constituído “profeta entre as nações”; por isso, ele é “a cidade fortificada, a coluna de ferro e a muralha de bronze, diante de todo este país”. A sua palavra e a sua vida profética permanecerão para sempre, porque “eles combaterão contra ti, mas não poderão vencer-te, porque Eu estou contigo para te salvar”. Para o profeta Jeremias, Deus é o “seu refúgio seguro”, a sua esperança, o seu auxílio, como cantaremos no salmo responsorial deste domingo. É necessário continuar na Igreja esta missão profética, de pregação, de ensino, de desejar que seja feita não só com palavras, mas também com a vida de cada batizado que se converte em testemunho da Palavra de Deus. Perante a fragilidade do pregador e de cada fiel cristão, o que permanece sempre é a Palavra que tem de ser pregada. Não nos pregamos a nós próprios (a nossa vida é muito frágil, demasiado pecadora), pregamos a Palavra, pregamos Jesus, Palavra Encarnada do Pai, enquanto pedimos a conversão do coração para nós e para cristão. Imitando os profetas e perante a adversidade dos habitantes de Nazaré, Jesus proclama a universalidade da sua mensagem. Elias e Eliseu também foram enviados para além das fronteiras do povo de Israel ao encontro de pessoas com o coração disposto à conversão. É a sua missão: fazer chegar a Boa Nova a todos os pobres e oprimidos. A universalidade da mensagem de Jesus é o amor. Só o amor conta. O amor é o conteúdo da pregação de Jesus, a Boa Nova do amor de Deus por todos, para despertar na pessoa humana, através da fé, este amor. Na segunda leitura, encontraremos o belíssimo hino à caridade que São Paulo nos deixou: “Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e a caridade; mas a maior de todas é a caridade”. Este é o último objetivo da pregação e da celebração: poder viver plenamente o amor de Deus. A Eucaristia é a síntese do amor. Em cada Eucaristia, somos confrontados com a Palavra de Deus e com a sua explicação, somos convidados a reviver o amor de Deus que nos é dado sem medida e somos convidados a crescer na caridade na nossa vida, porque sem caridade, a vida não tem sentido. É esta a Boa Nova de Jesus.

 

O CORAÇÃO SEMPRE ABERTO… – IV Dom TC – Ano C

1. ÀS VEZES OS QUE MAIS NOS CONHECEM PODEM SER OS QUE MENOS NOS ACREDITAM…
Isto passa a todos, em maior ou menor medida, em todos os lugares onde mais nos conhecem. Como nos vêem todos os dias, e sabem como nos movemos e como nos comportamos em cada oportunidade,  não é fácil que possamos mudar uma imagem, que quem sabe se foi construindo ao longo de muitos anos, com um arranque do momento, ou com uma frase inspirada, ainda que seja guiada pelas melhores intenções, simplesmente porque nos decidimos a mudar em algo… Por isso, com os que mais nos conhecem, são mais eloqüentes os fatos que as palavras, e quando crescemos em nossa fé, quem sabe a partir de uma experiência forte ou especial, que nos marcou profundamente, se queremos que compreendam o que nos passou, não bastarão as palavras, que não alcançarão para mudar a imagem que com o tempo nos formamos, senão que teremos que armar-nos de paciência, para que nos acreditem, pelo que vêem nos fatos, dos quais as palavras poderão dar uma boa explicação, mas aos que não poderão substituir… Por esta razão, quem sabe, tenha nascido o refrão que Jesus hoje nos recorda, “nenhum profeta é bem recebido em sua terra”, ou como nós dizemos habitualmente, “ninguém é profeta em sua terra”. Entretanto, isso não nos dispensa de ser testemunhas de nossa fé, também, e quem sabe especialmente, entre os que mais nos conhecem, já que se a fé nos vai mudando a vida (e é lógico que assim seja, se a tomamos em sério), é justo e necessário que também eles o vejam… Jesus também passou por esta dificuldade. Em Cafarnaum, onde não o conheciam, começou sua pregação  reunindo os primeiros discípulos. Mas em Nazaré, onde havia crescido não lhes bastava com o que de Jesus se dizia, para aceitá-lo como profeta e como Filho de Deus, queriam “provas”…

2. A HUMANIDADE DE JESUS NOS MOSTRA A DEUS, MAS TAMBÉM NOS OCULTA…
Deus se fez Homem, para poder falar-nos com palavras humanas. Desta maneira, a Palavra de Deus se fez carne e começou a pronunciar-se humanamente. É lógico pensar que isto nos permitiu conhecer e compreender a Deus de uma maneira que nunca tivéssemos podido alcançar, se não fosse por esta grande inquietação de seu amor, que o aproximou de nós de uma maneira tão intensa… Mas, de todos os modos, à luz do que lhes passou aos que o conheciam “de toda a vida” em Nazaré, faz falta que estejamos atentos, para que não nos passe a nós o mesmo. A humanidade de Jesus, que o fazia próximo e compreensível para todos, ao mesmo tempo lhes ocultava sua mais verdadeira e profunda realidade, sua condição divina… No começo deste terceiro milênio da era cristã, e quem sabe tendo crescido muitos de nós rodeados do testemunho vivo de Jesus, que recebemos de nossas famílias e dos ambientes nos quais nos movemos habitualmente, é bom que nos perguntemos se Jesus não se converteu, em alguma medida, alguém tão familiar, que já não esperamos Dele nada que nos possa assombrar, e acostumados a ouvir sua Palavra (quantas vezes ouvimos a leitura dos fatos mais importantes de sua vida, como seu nascimento, sua morte na Cruz e sua Ressurreição, o das palavras mais importantes que pronunciou, como as parábolas ou as bem-aventuranças?), já não esperamos Dele nada que nos surpreenda ou nos comova. Se isto acontecesse, estaríamos nas mesmas condições que seus concidadãos de Nazaré, que de tanto vê-lo crescer entre eles, já não estavam dispostos a presta-lhe atenção enquanto não lhes mostrasse sinais especiais. Quando isto nos sucede, a humanidade de Jesus, que nos mostra a Deus, sua proximidade e familiaridade, pode ser também o que nos oculte seu mistério e a salvação, que Ele nos aproxima… Quem sabe por isso Jesus previu também que suas palavras nos cheguem através de ecos inesperados. Muitas vezes pensei que Deus se vale às vezes de instrumentos impensados. Alguns poetas, como Antonio Machado, ou cantores, como o mesmo Serrat, ou muitos outros, que é impossível recolher de maneira completa, definindo-se como céticos (quer dizer, afirmando que é inútil perguntar-se sobre Deus, porque, já que, se existe, é impossível conhecê-lo, e, portanto é colocar-se uma pergunta sem resposta), deixam ver em suas criações palavras que parecem postas pelo mesmo Jesus em suas bocas…

3. É PRECISO ESTAR COM O CORAÇÃO SEMPRE ABERTO, PARA RECEBER A DEUS QUE SE MOSTRA…
Por esta razão, me parece que os que estamos mais habituados a “tratar” com Jesus com freqüência, temos que estar muito atentos, para que no se nos feche o coração, de maneira que já nada nos chame a atenção Dele, e o que nos quer dizer se nos perca… Poderiam pensar-se outros modos, mas me parece que o que nos pode ajudar a estar sempre com o coração aberto, para receber a Deus que nos mostra através dos caminhos habituais, na pregação do Evangelho e na vida da Igreja, é manter aceso em nós o coração mesmo do Evangelho, que é o amor. Um amor como o que nos convida a viver o mesmo Jesus, com cada palavra do Evangelho, e que nos descreve com precisão São Paulo, ao dizer-nos que o amor que nos ensina Jesus como um caminho de vida é um amor paciente, serviçal; sem inveja, sem alarde, sem grandezas vãs (vazias), que não procede com baixeza, não busca seu próprio interesse, não se irrita, não tem em conta o mal recebido, não se alegra da injustiça, senão que se regozija com a verdade. Um amor, portanto, à medida de Deus, que tudo desculpa, tudo crê, tudo suporta, tudo espera…

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