III Domingo do Tempo Comum – Ano C

Por Mons. Inácio José Schuster

OS EVANGELHOS SÃO RELATOS HISTÓRICOS?
Neemias 8, 2-4ª.5-6.8-10; I Coríntios 12, 12-31a; Lucas 1, 1-4; 4, 14-21

Antes de começar o relato da vida de Jesus, o evangelista Lucas explica os critérios que o guiaram. Assegura que refere fatos transmitidos por testemunhas oculares, verificados pelo mesmo com «comprovações exatas» para que quem lê possa perceber a solidez dos ensinamentos contidos no Evangelho. Isso nos oferece a ocasião de nos ocuparmos do problema da historicidade dos Evangelhos. Até pouco tempo atrás, não se mostrava entre as pessoas o sentido crítico. Tomava-se por historicamente ocorrido tudo o que era referido. Nos últimos dois ou três séculos nasceu o sentido histórico, pelo qual, antes de crer em um fato do passado, ele é submetido a um atento exame crítico para comprovar sua veracidade. Esta exigência foi aplicada também aos Evangelhos. Resumamos as diversas etapas pelas que a vida e o ensinamento de Jesus atravessaram antes de chegar a nós.
Primeira fase: vida terrena de Jesus. Jesus não escreveu nada, mas em sua pregação utilizou alguns recursos comuns às culturas antigas, os quais facilitavam muito a retenção de um texto na memória: frases breves, paralelismo e antítese, repetições rítmicas, imagens, parábolas… Pensemos em frases do Evangelho como: «Os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos», «Larga é a entrada e espaçoso o caminho que leva à perdição…, estreita a entrada e o caminho que leva à Vida» (Mt 7, 13-14). Frases como estas, uma vez escutadas, até as pessoas de hoje dificilmente as esquecem. O fato, portanto, de que Jesus não tenha escrito Ele mesmo os Evangelhos não significa que as palavras neles referidas não sejam suas. Ao não poder imprimir as palavras no papel, os homens da antiguidade as fixavam na mente.
Segunda fase: pregação oral dos apóstolos. Depois da ressurreição, os apóstolos começaram imediatamente a anunciar a todos a vida e as palavras de Cristo, levando em conta as necessidades e as circunstâncias dos diversos ouvintes. Seu objetivo não era o de fazer história, mas de levar as pessoas à fé. Com a compreensão mais clara que agora temos disso, eles foram capazes de transmitir aos outros o que Jesus havia dito e feito, adaptando-o às necessidades daqueles a quem se dirigem.
Terceira fase: os Evangelhos escritos. Cerca de trinta anos após a morte de Jesus, alguns autores começaram a escrever esta pregação que lhes havia chegado por via oral. Nasceram assim os quatro Evangelhos que conhecemos. Das muitas coisas chegadas até eles, os evangelistas escolheram algumas, resumiram outras e explicaram finalmente outras, para adaptá-las às necessidades do momento das comunidades às quais escreviam. A necessidade de adaptar as palavras de Jesus a exigências novas e diferentes influiu na ordem com o que se relatam os fatos nos quatro Evangelhos, na diversa colocação e importância que revestem, mas não alterou a verdade fundamental deles. Que os evangelistas tenham tido, na medida do possível naquele tempo, uma preocupação histórica e não só edificante é demonstrado na precisão a que situam o acontecimento de Cristo no espaço e no tempo. Pouco mais adiante, Lucas nos proporciona todas as coordenadas políticas e geográficas do início do ministério público de Jesus (Lc 3, 1-2).
Em conclusão, os Evangelhos não são livros históricos no sentido moderno de um relato o mais neutro possível dos fatos ocorridos. Mas são históricos no sentido de que o que nos transmitem reflete em substância o acontecimento. Mas o argumento mais convincente a favor da fundamental verdade histórica dos Evangelhos é o que experimentamos dentro de nós cada vez que somos tocados em profundidade por uma palavra de Cristo. Que outra palavra, antiga ou nova, teve o mesmo poder?

 

Evangelho segundo São Lucas 1, 1-4.4, 14-21
Visto que muitos empreenderam compor uma narração dos factos que entre nós se consumaram, como no-los transmitiram os que desde o princípio foram testemunhas oculares e se tornaram Servidores da Palavra , resolvi eu também, depois de tudo ter investigado cuidadosamente desde a origem, expô-los a ti por escrito e pela sua ordem, caríssimo Teófilo, a fim de reconheceres a solidez da doutrina em que foste instruído. Impelido pelo Espírito, Jesus voltou para a Galileia e a sua fama propagou-se por toda a região. Ensinava nas sinagogas e todos o elogiavam. Veio a Nazaré, onde tinha sido criado. Segundo o seu costume, entrou em dia de sábado na sinagoga e levantou-se para ler. Entregaram-lhe o livro do profeta Isaías e, desenrolando-o, deparou com a passagem em que está escrito: «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres; enviou-me a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano favorável da parte do Senhor.» Depois, enrolou o livro, entregou-o ao responsável e sentou-se. Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele. Começou, então, a dizer-lhes: «Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabais de ouvir.»

Neste terceiro domingo do tempo comum, iniciamos a leitura que será constante do evangelista Lucas durante todo este ano chamado na liturgia ano C. Após o prólogo do Evangelho, excluindo os capítulos da infância já lidos e meditados no tempo do natal, iniciamos a vida pública de Jesus em seu capítulo quarto. De acordo com este evangelista, Jesus inicia a sua vida publica numa visita e num discurso inaugural na sinagoga de Nazaré, cidade onde se havia criado. “O Espírito do Senhor está sobre mim”. Esta é uma afirmação diante da qual nos detemos. Aquele filho do carpinteiro, até então conhecido como filho de Maria e de José, é alguém que surpreendentemente pode dizer: “Estou cheio, repleto do espírito de Deus”. E de fato Lucas se compraz em dizer-nos que é na força vivificante deste espírito de Deus que Jesus exercerá todo o seu ministério. O discurso de Nazaré é programático, na força do espírito de Deus, Ele é enviado a levar a boa nova aos pobres. Quem são esses pobres, que de acordo com o evangelista se transformaram em destinatários da boa nova de Jesus, ungido pelo Espírito Santo? Podemos hoje afirmar que são as pessoas que não contam com nada deste mundo. São pessoas humildes e simples que não podem fazer valer a sua força. São pessoas de pouca importância ou insignificantes aos olhos mundanos, mas buscam em Deus o seu sustentamento, a sua coragem, a sua esperança. Estes são sempre os destinatários primeiro da boa nova de Jesus. Onde quer que ela seja pregada são estas pessoas mais despojadas, mais humildes, que acorrem pressurosas a pregação do evangelho e tratam de colocá-lo em prática, louvando e bendizendo a Deus pelo bem que lhes fez. Ainda hoje o evangelho é bem mais recebido por este nível de pessoas do que por aqueles que tendo tantos bens materiais se sentem dispensados de Deus. Não sabem exatamente o que buscar em Deus, tão felizes estão com esta vida que vivem na terra. Jesus continua dizendo que irá libertar os cativos, os prisioneiros, e dar vista aos cegos. Tomemos estas afirmações nos dois sentidos: no sentido material e no sentido espiritual. No sentido espiritual é mais fácil de entender a libertação dos prisioneiros da alma e dos cegos do coração, mas do sentido material, Jesus para transformar este mundo num mundo melhor, pede a minha e a sua cooperação, a da sua comunidade e da sua Igreja também.

 

«Com o poder do Espírito»
Hugo de São-Victor (?-1141), cónego regular, teólogo
Tratado dos Sacramentos da fé cristã, II, 1-2; PL 176, 415 (a partir da trad. de Orval)

A Santa Igreja é o corpo de Cristo: um só Espírito a vivifica, a unifica na fé e a santifica. Este corpo tem por membros os crentes, de cujo conjunto se forma um só corpo, graças a um só Espírito e a uma só fé. […] Assim, portanto, aquilo que cada um tem como próprio não é apenas para si; porque Aquele que nos concede tão generosamente os Seus bens e os reparte com tanta sabedoria quer que cada coisa seja de todos e todas de cada um. Se alguém tem a felicidade de receber um dom por graça de Deus, deve então saber que ele não lhe pertence apenas a si, mesmo que seja o único a possui-lo. É por analogia com o corpo humano que a Santa Igreja, quer dizer, o conjunto dos crentes, é chamada corpo de Cristo, uma vez que recebeu o Espírito de Cristo, cuja presença num homem é indicada pelo nome «cristão» que Cristo lhe dá. Com efeito, este nome designa os membros de Cristo, os que participam do Espírito de Cristo, aqueles que recebem a unção d’Aquele que é ungido; porque é de Cristo que vem o nome de Cristão, e «Cristo» quer dizer «ungido»; ungido com este óleo da alegria que, preferido entre todos os companheiros (Sl 44, 8), recebeu em plenitude para partilhar com todos os seus amigos, como a cabeça o faz com os membros do corpo. «É como óleo perfumado derramado sobre a cabeça, a escorrer pela barba […], a escorrer até à orla das suas vestes» (Sl 132, 2) para se espalhar por todo o lado e tudo vivificar. Portanto, quanto te tornas cristão, tornas-te membro de Cristo, membro do corpo de Cristo, participante do Espírito de Cristo.

 

Rescontruir os muros da Igreja
Padre Paulo Ricardo

Meus queridos irmãos e irmãs a liturgia da Palavra de hoje nos propõe algo sobre nossa missão de paz na família, paz na Igreja. Vou tentar explicar como tirar as lições destas leituras. Na primeira leitura do livro de Neemias acontece algo muito importante. O povo de Israel ficou algum tempo exilado na Babilônia e lá eles foram perdendo sua identidade como povo. O povo de Israel estava perdendo sua identidade nestes 70 anos que ficaram exilados. Os netos daqueles que foram exilados foram os que voltaram para Jerusalém. Neemias, que ficou perplexo quando viu a cidade que estava completamente desolada e destruída. A primeira preocupação de Neemias era reerguer as muralhas, pois eram elas que defendiam as cidades dos inimigos. Depois que Neemias reergue as muralhas, Esdras aparece na história e traz o Livro da Lei, a Palavra de Deus, e ele lê a Palavra em hebraico e alguém traduz para aramaico para que o povo compreenda e o povo reencontra a sua identidade. Nos podemos tirar desta primeira leitura uma grande lição a respeito da nossa Igreja. A Igreja no Brasil se encontra como a situação de Jerusalém, pois nossos muros foram derrubados. Há alguns anos atrás nos tivemos o Concilio Vaticano II, onde foram feitos muitos documentos preciosíssimos, documentos que deram um novo impulso para a Igreja. O Papa João XXIII quando convocou o Concílio Vaticano II pedia que se abrisse uma janela para o mundo, pois a Igreja não podia ficar fechada e o Papa quis que se abrisse esta janela para o mundo moderno. Isto foi bom, mas aconteceu algumas coisas erradas.
“Há uma escolha racional no amor”
Teve gente que pegou a desculpa da abertura da janela e pôs abaixo as muralhas da Igreja, entenderam errado. Não foi uma Igreja nova que começou a 50 anos atrás, é a mesma Igreja de sempre, a mesma Igreja de Cristo de dois mil anos atrás. E o Papa Bento XVI nos diz que precisamos ler o Concilio Vaticano II em sintonia com a mesma tradição de dois mil anos atrás. E aconteceu que uma enxurrada de pessoas trazendo filosofias mundanas para dentro da Igreja. Nós abrimos uma grande brecha, de tal forma que o Papa na década de 70 disse: “A fumaça de satanás entrou dentro da Igreja.” Nós precisamos ter clareza do que é ser católico, ter clareza da nossa identidade, pois o povo que não tem clareza de sua identidade se perde. Certa vez lá em Cuiabá, quando eu ainda era padre jovem, eu era conservador, cabeça quadrada e eu cresci vendo foto do meu de batina, pois ele foi seminarista. Graças a Deus fui educado em uma família cristã. Chegando em Cuiabá, na porta da catedral um rapaz me pediu para que eu o atendesse em confissão e me disse que era amigo de uma padre que andava de moto pela cidade, bebia cerveja com ele e eu lhe disse porque você não se confessa com ele e ele me respondeu: “Não padre eu quero um padre para me confessar”. Quando o padre é padre com a identidade de padre ele faz um bem maior, assim também você quando você é católico, você também estará fazendo um bem maior para o mundo. Quando você se veste de forma comportada, quando você não tem medo de defender a sua fé, não tem medo de crer em Deus, mesmo sendo minoria onde você estiver você estará fazendo um bem ao mundo, pois a luz de Cristo brilhará em você. Você não precisa ser igual ao mundo, você precisa ser diferente, não tenha medo! Desta forma estaremos reconstruindo os muros da Igreja, como fez Neemias, a porta se abre, mas também se fecha para que não entre o inimigo. A função do sacerdote é recordar ao povo a sua identidade, a identidade de nossos pais, a identidade que temos. O povo católico quer que seus padres se identifiquem como padres, que não percam sua identidade. Um dia perguntaram para o padre se ele não sentia calor com aquela batina e ele respondeu, eu não tenho problema nenhum com a batina, pois sempre eu quis ser padre. Quem foram nossos heróis? O mundo foi diminuindo todos os nossos heróis e depois como o povo brasileiro vai amar a sua pátria? Nós precisamos como povo nos orgulhar de nossos heróis, pois assim também um povo mantém a sua identidade. Estão destruindo a nossa língua, o português está sendo destruído.
“Há uma escolha racional no amor”
Outro ponto que faz um povo ser povo é a religião. Nossa história está ligada a evangelização, de homens como padre Anchieta, padre Manoel da Nóbrega e os nossos professores estão ensinando que estes evangelizadores da nossa história oprimiam os índios. Nós precisamos ter a nossa identidade e não podemos ter medo de conservar a nossa identidade católica, nós precisamos ter veneração pela história de nosso país por aquilo que tem de bom, claro que o que há de ruim precisamos denunciar, mas precisamos ter amor a nossa língua, amor a pátria, a nossa religião. Por isso neste acampamento para as famílias deixo a mensagem que vem da primeira leitura, precisamos transmitir aos nossos filhos o amor a nossa pátria, o amor a nossa língua e a nossa religião.

 

Vários acontecimentos da História recente podem servir para ilustrar a situação descrita na primeira leitura da Liturgia deste Domingo. Depois do regresso do exílio e de reconstruída a cidade de Jerusalém, o povo reúne-se agora para iniciar a sua nova vida. É exatamente na Lei do Senhor que Israel encontra a “norma” e o sentido da vida. Tem lugar então a grande Assembléia de escuta da Palavra de Deus: durante toda a manhã, o povo escutou atentamente as Palavras do Livro da Lei de Deus, e muitos emocionaram-se e choravam. De tarde, teve lugar o convívio, a festa. Esta vivência do Povo de Israel tem a sua ressonância noutras vivências de outros povos ao longo da História. Israel experimentou as amarguras do cativeiro, mas finalmente soou a hora da liberdade e a reconstrução nacional apresenta-se agora como objetivo. Israel só pode reconstruir a sua vida com Deus, em quem teve a origem como povo. Deus é verdadeiramente o grande companheiro na marcha da libertação e da liberdade. O Evangelho de São Lucas, ao relatar a primeira visita de Jesus a Nazaré, terra onde cresceu, apresenta-o a proclamar este trecho de Isaías: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu. Enviou-me para anunciar a Boa Nova aos pobres, a proclamar a libertação aos cativos e a vista aos cegos, a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano favorável do Senhor”. A missão de Jesus é libertadora e a história da Cristandade está recheada de gestos libertadores. São Paulo diz que todos somos chamados para constituirmos um só corpo, judeus ou gregos, escravos ou homens livres (2ª leitura). Liberdade e Deus parecem ser, nesta Liturgia, duas realidades inseparáveis: Deus é quem liberta e é com Deus que se encontrará a vida livre. Mas, a liberdade, o que é? Na raiz etimológica grega, ser livre significa ser membro do povo, cidadão com plenos direitos. Esta liberdade concretiza-se no direito de exprimir o próprio parecer na assembléia, poder dispor livremente de si. Em Israel, a liberdade, a vida, o matrimônio, a honra, a propriedade são direitos fundamentais do homem, que Deus dá e garante ao Seu povo. Olhar para a liberdade só no sentido exterior ou político é empobrecê-la; assim a viam muitos contemporâneos de Jesus. O Cristianismo trouxe um novo sentido de liberdade: a autêntica liberdade do homem não consiste na possibilidade de dispor livremente de si mesmo, mas na vida com Deus, uma vida em conformidade com o projeto de Deus, uma liberdade que se conquista renegando-se a si mesmo. Quem é livre não pertence a si mesmo, mas Àquele que o libertou, afirma São Paulo.

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