II Domingo do Tempo Comum – Ano C

Por Mons. Inácio José Schuster

Convidaram a Jesus às bodas
Isaías 62, 1-5; I Coríntios 12, 4-11; João 2, 1-11

O Evangelho do II Domingo do Tempo Comum é o episódio das bodas de Caná. O que Jesus quis nos dizer ao aceitar participar de uma festa nupcial? Sobretudo, desta maneira honrou, de fato, o casamento entre o homem e a mulher, afirmando, implicitamente, que é algo belo, querido pelo Criador e por Ele abençoado. Mas quis ensinar-nos também outra coisa. Com sua vinda, se realizava no mundo esse noivado místico entre Deus e a humanidade que havia sido prometido através dos profetas, sob o nome de «nova e eterna aliança». Em Caná, símbolo e realidade se encontram: as bodas humanas de dois jovens são a ocasião para falar-nos de outro noivado, aquele entre Cristo e a Igreja, que se cumprirá em «sua hora», na cruz. Se desejarmos descobrir como deveriam ser, segundo a Bíblia, as relações entre o homem e a mulher no matrimônio, devemos olhar como são entre Cristo e a Igreja. Tentemos fazê-lo, seguindo o pensamento de São Paulo sobre o tema, como está expressado em Efésios 5, 25-33. Na origem e centro de todo matrimônio, seguindo esta perspectiva, deve estar o amor: «Maridos, amai vossas mulheres como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela». Esta afirmação — que o matrimônio se funda no amor — parece hoje ser algo óbvio. No entanto, só há pouco mais de um século se chegou o reconhecimento disso, e ainda não em todas os lugares. Durante séculos e milênios, o matrimônio era uma transação entre famílias, um modo de promover a conservação do patrimônio ou a mão de obra para o trabalho dos chefes, ou uma obrigação social. Os pais e as famílias eram os protagonistas, não os esposos, que freqüentemente se conheciam só no dia do casamento. Jesus, continua dizendo Paulo no texto dos Efésios, se entregou «a fim de apresentar a si mesmo sua Igreja resplandecente, sem que tenha mancha nem ruga nem coisa parecida». É possível, para um marido humano, imitar, também neste aspecto, o esposo Cristo? Pode tirar as rugas de sua própria esposa? Claro que pode! Há rugas produzidas pelo desamor, por terem sido deixados na solidão. Quem se sente ainda importante para o cônjuge não tem rugas, ou se as tem, são rugas diferentes, que acrescentam, mas diminuem a beleza. E as esposas, o que podem aprender de seu modelo, que é a Igreja? A Igreja se embeleza unicamente para seu esposo, não por agradar os outros. Está orgulhosa e é entusiasta de seu esposo Cristo e não se cansa de fazer-lhe louvores. Traduzido ao plano humano, isso recorda às noivas e às esposas que sua estima e admiração é algo importantíssimo para o noivo ou o marido. Às vezes, para eles é o que mais conta no mundo. Seria grave que lhes faltasse receber jamais uma palavra de elogio por seu trabalho, por sua capacidade organizativa, por seu valor, pela dedicação à família; pelo que diz, se é um homem político; pelo que escreve, se é um escritor; pelo que cria, se é um artista. O amor se alimenta de estima e morre sem ela. Mas existe uma coisa que o modelo divino recorda sobretudo aos esposos: a fidelidade. Deus é fiel, sempre, apesar de tudo. Hoje, esse assunto da fidelidade se converteu em um discurso escabroso que ninguém se atreve a fazer. Contudo, o fator principal da ruptura de muitos casamentos está precisamente aqui, na infidelidade. Há quem o nega, dizendo que o adultério é o efeito, não a causa, das crises matrimoniais. A traição acontece, em outras palavras, porque já não existe nada com o próprio cônjuge. Às vezes isso será inclusive certo; mas muito freqüentemente se trata de um círculo vicioso. Trai-se porque o matrimônio está morto, mas o matrimônio está morto precisamente porque se começou a trair, talvez em um primeiro momento só com o coração. O pior é que com freqüência, quem trai faz recair no outro a culpa de tudo e se coloca no papel de vítima. Mas voltemos ao episódio do Evangelho, porque contém uma esperança para todos os matrimônios humanos, até os melhores. Sucede em todo matrimônio o que ocorreu nas bodas de Caná. Começa no entusiasmo e na alegria (disso o vinho é símbolo); mas este entusiasmo inicial, como o vinho em Caná, com o passar do tempo se consome e chega a faltar. Então se fazem as coisas já não por amor e com alegria, mas por costume. Cai sobre a família, se não se presta atenção, como uma nuvem de monotonia e de tédio. Também destes esposos se deve dizer: «Eles não têm mais vinho!». O relato do Evangelho indica aos cônjuges um caminho para não cair nesta situação ou sair dela se já se está dentro: convidar Jesus para o próprio casamento! Se Ele está presente, sempre se pode pedir que repita o milagre de Caná: transformar a água em vinho. A água do costume, da rotina, da frieza, no vinho de um amor e de uma alegria melhor que a inicial, como era o vinho multiplicado em Caná. «Convidar Jesus para o próprio casamento» significa honrar o Evangelho na própria casa, orar juntos, aproximar-se dos sacramentos, tomar parte na vida da Igreja. Nem sempre os dois cônjuges estão, em sentido religioso, na mesma linha. Talvez um dos dois é crente e o outro não, ou ao menos não com mesma forma. Neste caso, que convide Jesus às bodas aquele dos dois que o conheça, e o faça de maneira — com sua gentileza, o respeito pelo outro, o amor e a coerência de vida — que se converta logo no amigo de ambos. Um «amigo da família»!

 

Evangelho segundo São João 2, 1-11
Ao terceiro dia, celebrava-se uma boda em Caná da Galileia e a mãe de Jesus estava lá. Jesus e os seus discípulos também foram convidados para a boda. Como viesse a faltar o vinho, a mãe de Jesus disse-lhe: «Não têm vinho!» Jesus respondeu-lhe: «Mulher, que tem isso a ver contigo e comigo? Ainda não chegou a minha hora.» Sua mãe disse aos serventes: «Fazei o que Ele vos disser!» Ora, havia ali seis vasilhas de pedra preparadas para os ritos de purificação dos judeus, com capacidade de duas ou três medidas cada uma. Disse-lhes Jesus: «Enchei as vasilhas de água.» Eles encheram-nas até cima. Então ordenou-lhes: «Tirai agora e levai ao chefe de mesa.» E eles assim fizeram. O chefe de mesa provou a água transformada em vinho, sem saber de onde era se bem que o soubessem os serventes que tinham tirado a água; chamou o noivo e disse-lhe: «Toda a gente serve primeiro o vinho melhor e, depois de terem bebido bem, é que serve o pior. Tu, porém, guardaste o melhor vinho até agora!» Assim, em Caná da Galileia, Jesus realizou o primeiro dos seus sinais miraculosos, com o qual manifestou a sua glória, e os discípulos creram nele.

Celebramos hoje o segundo domingo do tempo comum. O evangelho é do quarto Evangelista João e nos apresenta o famoso episódio das Bodas de Caná. Como foi diversa a reação dos primeiros leitores deste texto e nós que o lemos na Tradição da Igreja dois mil anos depois. Na verdade a nossa tentação é buscar reconstruir com precisão o que realmente pode ter acontecido num vilarejo desconhecido chamado Caná, na baixa Galiléia, e não é esta a mensagem que o Evangelista nos quis transmitir, pelo contrário, ele foi mais profundo, ele estava acostumado com o Antigo Testamento. Quando inesperado, surpreendentemente, surgiu, no cenário da história, Jesus. Como Jesus modificou a história! Até então, o Antigo Testamento todo inteiro era simbolizado na água das continuadas purificações dos Judeus. Inexplicavelmente, na plenitude dos tempos ao enviar Deus Seu Filho à terra, trouxe para nós uma grande festividade. Esta festa constante que durante toda a vida celebramos com o Filho de Deus, Jesus Cristo no meio de nós, vem aqui simbolizada pelo vinho, generoso, gostoso, vinho de qualidade excelente que chegou depois de um longo período de água ou de Antigo Testamento. A única pergunta que faço é esta: Jesus representa para você uma festa? Jesus representa para você um marco na sua história e na sua vida? Jesus modificou o andamento da sua própria existência? Jesus trouxe verdadeiramente alegria para o seu coração e terá trazido também alegria para o coração de sua comunidade, como trouxe alegria para aqueles convivas naquela festa de casamento? Você tem a experiência, ou faz a experiência diária da presença alegre, profunda, satisfatória de Jesus em sua existência? Existência que preenche e supera todos os seus desejos. Jesus realmente é isto para você? Se a resposta for afirmativa, você compreendeu o texto de Caná da Galiléia e você o vive no íntimo do seu coração, porque aquilo que lá se deu continua a se passar com você.

 

«Tu, porém, guardaste o melhor vinho até agora!»
São Romano, o Melodista (? – c. 560), compositor de hinos
Hino n°18, As Bodas de Caná (a partir da trad. de SC 110, pp. 307ss. rev.)

Enquanto Cristo participava na boda e a multidão dos convivas festejava, faltou-lhes o vinho e a alegria transformou-se em decepção. […] Vendo isso, a puríssima Maria vem imediatamente dizer ao Filho: «Já não têm mais vinho. Por isso, peço-Te, Meu Filho, mostra que podes tudo, Tu que tudo criaste com sabedoria». Por favor, Virgem venerável, na sequência de que milagres soubeste Tu que o Teu Filho, sem ter vindimado a uva, podia conceder o vinho, se Ele não tinha anteriormente feito milagres? Ensina-nos […] como disseste a Teu Filho: «Dá-lhes vinho, Tu que tudo criaste com sabedoria». «Eu mesma vi Isabel chamar-me Mãe de Deus antes do parto: depois do parto, Simeão cantou-me e Ana celebrou-me; os magos acorreram ao presépio vindos da Pérsia porque uma estrela anunciava antecipadamente o nascimento; os pastores, com os anjos, faziam-se arautos da alegria e a criação rejubilava com eles. Poderia eu ir procurar maiores milagres do que estes para crer, com base na fé deles, que o meu Filho é Aquele que tudo criou com sabedoria?» […] Quando Cristo, pelo Seu poder, mudou manifestamente a água em vinho, toda a multidão rejubilou, achando admirável o seu sabor. Hoje, é no banquete da Igreja que todos nós tomamos lugar, porque o vinho é transformado em sangue de Cristo e nós bebemo-lo todos com uma alegria santa, glorificando o grande Esposo. Porque o Esposo verdadeiro e filho de Maria, o Verbo que é deste toda a eternidade, tomou a forma dum escravo e tudo criou com sabedoria. Altíssimo, Santo, Salvador de todos, visto que a tudo presides, guarda sem alteração o vinho que está em nós. Expulsa de nós toda a perversidade, todos os maus pensamentos que tornam aguado o Teu vinho santíssimo. […] Pelas orações da Santa Virgem Mãe de Deus, liberta-nos da angústia dos pecados que nos oprimem, Deus misericordioso, Tu que tudo criaste com sabedoria.

 

Fazei tudo o que Ele vos disser
Dom Alberto Taveira Corrêa

Queridos irmãos e irmãs nós estamos ainda vivendo o mistério do Natal e hoje vemos na liturgia o primeiro milagre de Jesus que Ele faz em um casamento e o Evangelho termina dizendo que Ele manifestou a sua glória e todos creram N’Ele. A Palavra que ouvimos foi Palavra de Salvação e nós nos aproximaremos da eucaristia que é a fonte de onde bebemos tudo para nossa vida cristã, que hoje aconteça esta manifestação da presença de Deus. O profeta Isaías faz uma grande declaração de amor de Deus pelo seu povo, em um tempo em que muitos se sentem desprezados e o Senhor vem dizer que não precisamos mais nos sentir como um povo abandonado. E como precisamos ouvir de Deus isso em um tempo tão difícil em que nesta semana vimos tudo aquilo que aconteceu no Haiti. Deus seja louvado por toda a solidariedade que acontece em meio a tudo isso. Deus está presente onde nós somos capazes de transformar a dor em amor, muitas vezes nós enxergamos somente um quadro na nossa vida, mas Deus quer nos fazer compreender que sua presença é como um fio de ouro que nos leva a uma história de Salvação. Façamos hoje uma profissão de fé neste amor misericordioso de Deus. Talvez alguém pense que o milagre das bodas de Caná fosse inútil porque o Senhor deu bebida àqueles que estavam lá, mas pensemos no gesto de Jesus como um sinal desta união de Deus com a humanidade, neste amor de Deus que desce a terra e vai ao encontro dos homens em auxilio de todas as suas necessidades. Maria também aparece como aquela que pede o auxilio de Deus para nós, pois quantas vezes nossa humanidade perdeu o sabor e Deus sempre tem algo melhor a nós oferecer. Faz-se necessário também a nossa participação para que aconteça, faça-se esta hora de Jesus em nossas vidas. Maria fez uma experiência de fé nesta hora de Deus. Mas qual é a nossa participação? A receita do milagre de Jesus hoje é esta: “Fazei tudo o que Ele vos disser”. Como entender este mundo, os desastres da vida? Fazei tudo o que Ele vos disser! Quem vive a Palavra de Jesus entende o sentido da vida, das coisas boas ou das tristezas. Quando fazemos tudo o que Ele diz, a vida vai ganhar gosto, sentido, valor e você encontrará a estrada da alegria. Para acontecer o milagre do Evangelho de hoje haviam alguns servos, alguns que encheram as talhas de água, na Igreja existem muitos ministérios e a manifestação de Deus acontece assim também, quando usamos os dons que Deus nos deu. Todos tem o seu lugar e ninguém é obrigado a ficar de fora. Hoje nossos seminaristas recebem o Ministérios Sagrados, e eles servirão à Palavra, o Altar, para viverem no seu lugar, a suas vocações no coração da Igreja. Encham as talhas com a água que estiver a disposição de vocês e façam tudo o que Jesus lhes disser e serão felizes. Que Deus vos conceda esta graça de serem fiéis nesta caminhada. Quantas coisas aconteceram na vida de vocês e hoje tudo isso vem a tona e louvo a Deus por vocês estarem aqui hoje. Façam tudo o que eles vos disser!

 

Depois da Festa do Batismo do Senhor, tem início o Tempo Comum. Estamos no 2º Domingo do Tempo Comum. Apesar do ciclo C ser o do Evangelista Lucas, neste domingo ainda não o iremos ler, porque neste início do ciclo do tempo comum ainda ressoa a epifania dos últimos domingos e em cada ciclo lê-se alguns extratos do início do evangelho de João. Insiste-se na ideia de que todo o evangelho é a manifestação de Deus aos homens e que terá de ser lido neste contexto. Como segunda leitura que, como sabemos, segue uma ordem independente, antes de chegarmos à Quaresma leremos extratos da segunda parte da 1ª Carta de São Paulo aos Coríntios. O Espírito, a Igreja, a Caridade, a Ressurreição … serão os temas que irão ser apresentados. Nas nossas celebrações, seria bom notar-se que não estamos num tempo litúrgico forte, mas é necessário “visibilizar” muito bem que o que nos reúne em cada domingo é a ressurreição do Senhor que nos dá uma vida nova. “Foi assim que, em Caná da Galileia, Jesus deu início aos seus milagres. Manifestou a sua glória e os discípulos acreditaram n’Ele”. Assim termina o evangelho deste domingo. Estamos na primeira manifestação da glória de Deus em Jesus para despertar a fé dos discípulos. No relato deste domingo, teremos todos os elementos simbólicos que darão significado a tudo o irá acontecer na sua vida. Vejamos alguns desses simbolismos. A imagem do casamento era uma das prediletas dos profetas. A primeira leitura de Isaías destaca-a: “tal como o jovem desposa uma virgem, o teu Construtor te desposará; e como a esposa é a alegria do marido, tu serás a alegria do teu Deus”. A Sagrada Escritura tem como início o “casamento” no paraíso terrestre e encaminha-se para as bodas definitivas entre Deus e o seu povo. Neste contexto simbólico, cheio de ecos da História da Salvação, há que inserir a presença de Jesus nas bodas de Caná e também o fato do vinho se ter acabado. A História da Salvação está a chegar a Jesus, ou seja, ao fim e ao seu cume. Com Jesus, atinge a sua plenitude. Só fica um pequeno resto, do qual Maria é uma imagem insigne que apesar de tudo acredita e confia plenamente na ação salvadora de Deus: “Fazei tudo o que Ele vos disser”, porque Deus nunca abandona o povo que tanto ama. Com elementos simbólicos, como bem se explica a passagem ao Reino que Jesus traz! A água da purificação antiga, com a ação de Jesus, converte-se em vinho para o banquete messiânico. É o melhor vinho, vindo não só da colheita humana, mas também da ação de Deus; por isso, o chefe de mesa não sabe de onde ele vem. Assim, para os convidados ao banquete do Reino a água salvadora do batismo faz com que a vida humana destile o vinho da vida nova. Que belo é o vínculo entre o batismo e o seu fruto vital que só é possível a partir da mesa eucarística! A “hora” ainda não chegou, diz Jesus à sua Mãe, porque só será definitiva na Páscoa. Na vida e na história, a celebração eucarística da Páscoa do Senhor é a hora, onde se antecipa e se prova a salvação definitiva, como em Caná. São Paulo reforça a ideia de que o Espírito de Deus, que torna possível esta ação maravilhosa de Deus e que cria a comunidade eclesial continuamente convidada às bodas messiânicas, é um só, mesmo que se manifeste numa grande e diversa multiplicidade de dons distribuídos “a cada um conforme Lhe agrada”. Esta é a grande riqueza da Igreja e das nossas comunidades: o desafio a fazer a todos é colocar os dons ao serviço da comunidade, pondo-os a render. Que o Espírito nos leve a escutar a Palavra de Deus. Que Maria continuamente interceda por nós diante do Seu Filho. Em cada Eucaristia, colocamo-nos diante do melhor vinho que Deus nos oferece para que o provemos e, assim, vejamos, como o Senhor é bom. É o Espírito de Deus que sempre nos convida.

 

SEGUNDO DOMINGO DO TEMPO COMUM
Jo 2,1-12 “Façam tudo o que ele lhes disser”

A primeira parte do Quarto Evangelho é comumente chamada “O Livro dos Sinais”, pois o evangelista relata uma série de sete sinais que, passo por passo, revelam quem é Jesus, e qual é a sua missão. Embora algumas bíblias traduzem o termo grego que João usa por “milagre”, a tradução mais acertada é “Sinal”. O primeiro desses sinais aconteceu no contexto das bodas de Caná, o evangelho de hoje. Como todo o Evangelho de João, o relato está carregado de simbolismo, onde pessoas, números e eventos funcionam simbolicamente, para nos levar além da aparência das coisas, numa caminhada de descoberta sobre a pessoa de Jesus. Um dos temas centrais do quarto evangelho é o da “hora” de Jesus. A “hora” não se refere à cronometria, mas a hora de glorificação de Jesus, por sua morte e ressurreição. Em resposta ao pedido feito por Maria (João nunca se refere a ela pelo nome, mas pelo título “mulher”), usando de uma maneira até estranha este termo para a sua mãe, João quer indicar que Jesus rejeita uma esfera meramente humana de ação para Maria, para reservar para ela um papel muito mais rico, ou seja, o da mãe dos seus discípulos. Maria somente vai aparecer mais uma vez neste evangelho – a pé da cruz, onde ela e o Discípulo Amado assumem um relacionamento de Filho e Mãe. Devemos lembrar que o Discípulo Amado simboliza a comunidade dos discípulos do Senhor, ou seja, nós hoje. Apesar da nossa tradição piedosa mariana, é importante não reduzir a ação da Maria no texto à de uma incomparável intercessora. Embora seja comum esta interpretação na devoção popular, não se sustenta do ponto de vista exegético. É melhor ver Maria aqui como discípula exemplar, pois embora a resposta de Jesus indique um distanciamento entre a sua expectativa e a visão d’Ele, ela continua com confiança n’Ele e leva outros a acreditar n’Ele. O simbolismo da água tornada vinho é também importante. Não era qualquer água – era a água da purificação dos judeus. Com esta história, João quer mostrar que doravante os ritos judaicos de purificação estão superados, pois a verdadeira purificação vem através de Jesus. Podemos entender isso como a mudança de uma prática religiosa baseada no medo do pecado, uma prática que excluía muita gente, para uma nova relação entre Deus e a humanidade, a partir de Jesus. Assim, em Cana, Jesus começa a substituir as práticas do judaísmo do Templo, que vai continuar ao longo do Evangelho de João. A quantia do vinho chama a atenção – 600 litros! O vinho em abundância era símbolo dos tempos messiânicos, e, na tradição rabínica, a chegada do Messias seria marcada por uma colheita abundante de uvas. Assim João quer dizer que a expectativa messiânica se realiza em Jesus. As talhas transbordantes simbolizam a graça abundante que Jesus traz. A figura do mestre-sala é também simbólica, bem como os serventes. Aquele, que devia saber a origem do vinho da festa, não sabia, enquanto estes sim. Assim, o mestre-sala representa os chefes do Templo que não sabiam a origem de Jesus enquanto os servos representam os discípulos que acreditaram n’Ele. Fazendo comparação entre o vinho antigo e o novo, João quer reconhecer que a Antiga Aliança era boa, mas a Nova a superou. Os ritos e práticas judaicos, ligados à purificação e ao sacrifício, não têm mais sentido, pois uma nova era de relacionamento entre a humanidade e Deus começou em Jesus. O ponto culminante do relato está em v. 11: “Foi em Caná que Jesus começou os seus sinais, e os seus discípulos acreditaram n’Ele”. A fé deles não é intelectual ou teórica, mas o seguimento concreto do Mestre, na formação de novos relacionamentos de amor. Passo por passo, o autor vai revelando Jesus através de sinais para que nós, os leitores, possamos “acreditar que Jesus é o Messias, o Filho de Deus. E para que, acreditando, tenhamos a vida em seu nome” (Jo 20, 31).

Nenhum comentário ainda

Comentários desativados

Desenvolvido por Origy Networks – Criação de sites e propaganda