Festa do Batismo do Senhor

Por Mons. Inácio José Schuster

Evangelho segundo São Lucas 3, 15-16.21-22
Estando o povo na expectativa e pensando intimamente se ele não seria o Messias, João disse a todos: «Eu batizo-vos em água, mas vai chegar alguém mais forte do que eu, a quem não sou digno de desatar a correia das sandálias. Ele há-de batizar-vos no Espírito Santo e no fogo. Todo o povo tinha sido batizado; tendo Jesus sido batizado também, e estando em oração, o Céu rasgou-se e o Espírito Santo desceu sobre Ele em forma corpórea, como uma pomba. E do Céu veio uma voz: «Tu és o meu Filho muito amado; em ti pus todo o meu agrado.»

Celebra hoje a Igreja a festa do Batismo do Senhor. Com esta celebração encerra o ciclo natalício. É uma celebração importante porque marcou o final de uma etapa da vida de Jesus. Nove décimos transcorridos em Nazaré, a respeito dos quais nada sabemos, e inaugura Ele o último décimo de vida pública que se encerará com a morte e a ressurreição. A respeito das razões psicológicas que levaram Jesus ao batismo de João nunca teremos conhecimento de coisa alguma. No entanto hoje nós vemos a figura de Jesus misturada com a figura de outros pecadores penitentes, que em fila e em ordem, esperava sua vez de ser por João mergulhado naquelas águas. Jesus desta maneira vivia o que seria este último décimo de sua vida e sobre tudo o seu final. Uma solidariedade total que somos, embora inocente pessoalmente quis carregar-se de nossas faltas e não quis se diferenciar de nenhum de nós junto de Deus. O evangelista Lucas nos diz que tendo saído das águas e estando em oração recebeu uma visão de Deus: os céus se abriram. O evangelista tem o cuidado de mostrar um primeiro ato da vida pública de Jesus como sendo um ato de oração. Jesus inicia a vida pública rezando e a Igreja iniciará a sua vida no dia de Pentecostes rezando também, e este é o ensinamento próprio de Lucas. A oração deve anteceder todos os momentos importantes da nossa existência, mas ela deve anteceder as ações de cada dia. Deveríamos entregar a Deus as primícias do nosso dia na oração matutina, como Jesus entregou a Deus as primícias de sua pregação do reino de Deus na oração após o batismo, e então os céus que se encontravam fechados por causa de um curto circuito ávido entre Deus e os homens, o pecado que toda liturgia sacrifical do tempo de Jerusalém era impotente para destruir, agora com Jesus no meio dos pecadores se abre. A comunicação interrompida entre o Céu e a terra, entre Deus e os homens pode novamente se realizar. Mais tarde este mesmo espírito inundará a Igreja, e inundará a vida de todos os batizados que somos nós. Louvemos e bendigamos a Deus por este gesto que Jesus quis fazer conosco, descendo através do batismo que antecipa a sua cruz até as nossas misérias mais profundas, até as nossas chagas mais purulentas, nos recuperar para Deus.

 

«Então o céu rasgou-se»
São Gregório de Nazianzo (330-390), bispo e Doutor da Igreja
Homilia 39, para a festa das Luzes; PG 36, 349 (a partir da trad. bréviaire)

Cristo é iluminado pelo baptismo, resplandeçamos com Ele; Ele é mergulhado na água, desçamos com Ele para emergir com Ele. […] João está a baptizar e Jesus aproxima-Se: talvez para santificar aquele que O vai baptizar; certamente para sepultar o velho Adão no fundo da água. Mas, antes disso e com vista a isso, Ele santifica o Jordão. E, como Ele é espírito e carne, quer poder iniciar pela água e pelo Espírito. […] Eis Jesus que emerge da água. Com efeito, Ele carrega o mundo; fá-lo subir conSigo. «Ele vê os céus rasgarem-se e abrirem-se» (Mc 1,10), ao passo que Adão os tinha fechado, para si e para a sua descendência, quando foi expulso do paraíso que a espada de fogo defendia. Então o Espírito revela a Sua divindade, pois dirige-Se para Aquele que tem a mesma natureza. Uma voz desce do céu para dar testemunho Daquele que do céu vinha; e, sob a aparência de uma pomba, honra o corpo, pois Deus, ao mostrar-Se sob uma aparência corpórea, diviniza igualmente o corpo. Foi assim que, muitos séculos antes, uma pomba veio anunciar a boa nova do fim do Dilúvio (Gn 8,11). […] Quanto a nós, honremos hoje o baptismo de Cristo e celebremos esta festa de um modo irrepreensível. […] Sede inteiramente purificados e purificai-vos sempre. Pois nada dá tanta alegria a Deus como a recuperação e a salvação do homem: é para isso que tendem todas estas palavras e todo este mistério. Sede «como fontes de luz no mundo» (Fil 2,15), uma força vital para os outros homens. Como luzes perfeitas secundando a grande Luz, iniciai-vos na vida de luz que está no céu; sede iluminados com mais claridade e brilho pela Santíssima Trindade.

 

Com a Festa do Batismo do Senhor, encerramos o ciclo Natal – Epifania. Todo o Evangelho, toda a vida de Jesus, é a grande epifania, ou seja, a grande manifestação de Deus aos homens. Todavia, no evangelho, encontramos alguns momentos característicos de epifania, nos quais Deus se revela com sinais celestiais em Jesus Cristo, “o Filho muito amado” do Pai. Todo o tempo de Natal é uma epifania, como também é a festa de hoje, o Batismo do Senhor, na qual os sinais revelam-nos a identidade de Jesus. Será também uma epifania o primeiro milagre de Jesus em Caná, revelando a sua identidade divina. É também uma epifania a Festa da Transfiguração do Senhor. Muitos momentos da vida de Jesus são momentos epifânicos, especialmente conservados no evangelho de São João. Hoje, somos convidados a centrar a nossa atenção no momento do batismo para, de seguida, compreender o nosso próprio batismo, o que nos abre o caminho para a Eucaristia que celebramos. Hoje, é um dia propício para celebrar batizados dentro da Eucaristia. É uma boa ocasião para falar do sentido do batismo cristão, no horizonte do qual há que entender a teofania do Jordão; ali se declara solenemente que Ele é o Filho predileto do Pai, o Messias esperado, cheio do Espírito de Deus. É a investidura pública e messiânica de Jesus, para iniciar, na história dos homens, a Sua missão salvadora.
A 1ª Leitura faz parte do primeiro dos quatro poemas do Dêutero-Isaías sobre o Servo de Javé. Isaías traça-nos como que um retrato profético deste Servo, que a Comunidade Cristã aplicou a Jesus de Nazaré: “Eis o Meu servo, o Meu eleito, enlevo da Minha alma”. No Evangelho este Servo recebe o nome de Filho: “Tu és o Meu Filho muito amado, em Ti pus o meu enlevo”. Isaías diz: “Sobre Ele fiz pousar o meu Espírito”. E São Lucas escreve: “O Espírito Santo desceu sobre Ele”. Isaías descreve também o modo como, no futuro, irá atuar este Servo: trabalhará a favor da justiça e do direito, mas sem violentar nem agredir ninguém. A Sua missão consistirá em abrir os olhos aos cegos e libertar os cativos. Na 2ª leitura, São Pedro dirá que Jesus “passou (por este mundo) fazendo o bem e curando a todos os que eram dominados pelo Demônio”. Jesus é, pois, este Servo de Javé, humilde e manso. Houve, primeiro, uma declaração pública de que Jesus é o Messias de Deus e houve, depois, a declaração oficial de que este Messias é o Filho de Deus. O nome de Servo foi mudado pelo de Filho. Assim como Javé apresenta o Seu Servo, “enlevo da Sua alma”, também no Batismo do Jordão o Pai apresenta oficialmente ao mundo o Seu “Filho muito amado”, no qual pôs “todo o Seu enlevo”.
O evangelho fala de dois batismos: o Batismo que Jesus recebeu e o Batismo que prometeu: “Eu batizo-vos em água, Ele batizar-vos-á no Espírito Santo e no fogo”. O Batismo de água de João é fundamentalmente uma expressão penitencial em ordem à conversão do coração, tendo em vista a chegada do Reino; é um Batismo para a remissão dos pecados; um Batismo que anuncia outro Batismo. São Lucas descobre nas palavras de João uma dimensão mais profunda, à luz dos acontecimentos pascais. O Espírito, que no Seu Batismo tomou posse de Jesus e o guia, é o dom que Ele dá aos que O acolhem com fé; o Batismo no “fogo” é a manifestação e efusão desse mesmo Espírito no dia de Pentecostes. No Livro dos Atos dos Apóstolos, Jesus Ressuscitado fala de um Batismo distinto do de João: “João batizava em água, mas dentro de pouco tempo, vós sereis batizados no Espírito Santo” (At 1, 5). O Batismo de Jesus e a “teofania” do céu que se abre, da descida do Espírito em forma corporal e da voz celeste, que dá testemunho d’Ele, marca o início da Sua missão profética. Também o nosso Batismo, com a Confirmação e a Eucaristia, sacramentos da iniciação cristã, nos incorpora a Cristo e nos confia a missão de fazer triunfar os valores de Deus no mundo. De ser testemunhas do Seu Evangelho: “Inseridos pelo Batismo no Corpo Místico de Cristo, é pelo Senhor mesmo que os cristãos são destinados ao apostolado” (AA, 3).
A 2ª leitura é um extrato do discurso de São Pedro em casa do centurião Cornélio sobre a proclamação da Boa Notícia da Salvação aos gentios e a sua conversão à fé. Pedro é o primeiro dos Apóstolos a dar um passo em frente para que a comunidade crista acolha no seu seio judeus e não judeus. Não é uma questão pessoal, mas vontade de Deus, “que não à qualidade das pessoas”. Para Deus não há discriminação de qualquer gênero, pois todos são chamados a incorporarem-se em Cristo pelo Batismo integrando-se na grande família dos filhos de Deus. Cornélio é o primeiro pagão a fazer parte desta família – a comunidade cristã. A leitura conclui com um fragmento que resume a vida de Jesus, referindo o Seu Batismo, a unção do Espírito Santo e a Sua atividade libertadora dos males que oprimem o homem e tornam indigno o seu viver humano.

 

No Jordão, Jesus se revela ao mundo e inicia sua missão, diz Papa
Rádio Vaticano

O Papa Bento XVI presidiu na manhã desde domingo, 10, na Capela Sistina, no Vaticano, a Celebração Eucarística da Festa do Batismo do Senhor. Durante a cerimônia foram batizados alguns recém-nascidos. “Demos graças a Deus, que hoje chama estas crianças a se tornarem seus filhos em Cristo. Nós as envolvemos com a oração e com o afeto e as acolhemos com alegria na comunidade cristã, que a partir de hoje se torna também a sua família” – frisou o Papa em sua homilia. O Pontífice disse ainda que com a Festa do Batismo de Jesus continua o ciclo das manifestações do Senhor, que teve início no Natal com o nascimento em Belém do Verbo encarnado e uma etapa importante na Epifania, quando o Messias se manifestou aos povos. “Hoje Jesus se revela, às margens do Jordão, a João e ao povo de Israel. É a primeira ocasião em que ele, como homem adulto, entra na vida pública, após ter deixado Nazaré”, ressaltou Bento XVI. O batismo do Precursor, João Batista, é um batismo de penitência, um sinal que convida à conversão, a mudar de vida, porque se aproxima Aquele que batizará com o Espírito Santo e com o fogo. Quando João Batista vê aproximar-se dele o Messias, entende que aquele Homem é o misterioso Outro que ele esperava e para o qual toda a sua vida estava orientada. O precursor está diante de Alguém maior que ele e não se sente digno sequer de desatar as correias de suas sandálias. “No Jordão, Jesus se manifesta com uma extraordinária humildade, que evoca a pobreza e a simplicidade do Menino colocado na manjedoura, e antecipa os sentimentos com os quais, ao término de seus dias terrenos, chegará a lavar os pés dos discípulos e sofrerá a humilhação terrível da cruz. O Filho de Deus, Aquele que não tem pecado, coloca-se entre os pecadores, mostra a proximidade de Deus no caminho de conversão do homem. Jesus assume sobre si o peso da culpa de toda a humanidade, inicia a sua missão colocando-se no lugar dos pecadores, na perspectiva da cruz”, disse o Papa. O Evangelho de Lucas narra que quando Jesus foi batizado o “céu se abriu e desceu sobre ele o Espírito Santo (3, 21-22)” e uma voz disse: “Tu és o meu filho, eu, hoje, te gerei”. “Naquele momento o Pai, o Filho e o Espírito Santo descem entre os homens e nos revelam o seu amor que salva. Se são os anjos a levar aos pastores o anúncio do nascimento do Salvador, e a estrela aos Reis Magos do Oriente, agora é a voz de Deus que indica aos homens a presença no mundo de seu Filho e convida a olhar para a ressurreição, para a vitória de Cristo sobre o pecado e sobre a morte”, disse Bento XVI. “Podemos dizer que também para estas crianças hoje se abrem os céus. Elas receberão como dom a graça do Batismo e o Espírito Santo habitará nelas como num templo, transformando profundamente seus corações. A partir desse momento, a voz do Pai chamará também elas para serem seus filhos em Cristo e, na sua família que é a Igreja, doará a cada uma delas o dom sublime da fé”, destacou o Pontífice. O Papa sublinhou que com o Batismo estas crianças participam da morte e ressurreição de Cristo, iniciam com ele a aventura alegre e enaltecedora do discípulo. “Os pais, padrinhos e madrinhas assumem o compromisso de educá-las na fé a fim de que possam caminhar na luz de Cristo e resplandecer neste mundo, levando a luz do Evangelho que é vida e esperança”, frisou Bento XVI. O Santo Padre concluiu sua homilia, desejando que com a celebração do Batismo o Senhor conceda a cada um de nós viver a beleza e a alegria de ser cristãos e pediu para as crianças a materna intercessão da Virgem Maria, para que sejam durante toda a vida discípulos de Cristo e corajosas testemunhas do Evangelho.

 

Batismo administrado pelo Papa: bênção dupla
Conversa com o casal Luca Grilone e Samantha Barreca

CIDADE DO VATICANO, domingo, 10 de janeiro de 2010 (ZENIT.org).- Este domingo pela manhã, a Capela Sistina contava com 14 convidados especiais. Tratava-se dos recém-nascidos – a mais nova do grupo nasceu no dia 3 de dezembro –, que receberam o primeiro sacramento da vida cristã das mãos de Bento XVI, com motivo da festa do Batismo do Senhor. Os afrescos de Michelangelo, assim como “O batismo de Cristo”, de Pietro Perugino e Pinturicchio, que também engrandece a Capela Sistina, testemunharam o início da vida cristã dos pequenos. Escutavam-se na cerimônia choros e sussurros com perguntas que os irmãozinhos mais velhos dos recém-nascidos faziam aos pais. Os batizados são todos filhos de empregados do Vaticano. Estavam acompanhados pelos pais, padrinhos e madrinhas, assim como por um pequenos grupo de familiares. Nesta ocasião, os irmãozinhos mais velhos dos recém-batizados tiveram um papel especial: foram os encarregados de levar as ofertas ao altar. O pontífice saudou cada um dos pequenos e lhes dirigiu algumas palavras. Privilégio e responsabilidade Entre os bebês estava Gabrile, que nasceu dia 1 de dezembro. Seu nome completo é Gabriele Maria Andrea Karol. É o primogênito do casal Luca Grilone, funcionários dos Museus Vaticanos, Samantha Barreca. Eles se casaram em julho de 2008. Em conversa com ZENIT depois da cerimônia, Luca assegurou que o batismo de seu filho é um fato duplamente sagrado: “em primeiro lugar, pelo próprio fato do batismo, e depois porque foi batizado pelo Papa, justo no lugar onde ele foi eleito”. Para o pai do recém-batizado não é uma novidade receber um sacramento pelas mãos do Sumo Pontífice, já que foi o próprio João Paulo II quem lhe deu a primeira comunhão em 1986. Ademais, Luca durante vários anos serviu como acólito em algumas cerimônias papais. “Ao ver os coroinhas, recordava-me que há 20 anos estava em seu lugar. Agora me casei e sou pai”, recorda. Samantha por sua parte, confessa a ZENIT que antes da cerimônia estava preocupada de que seu filho chorasse durante a missa, mas o pequeno Gabriele esteve muito silencioso todo o tempo. O rito do batismo realizou-se na pia de bronze elaborada pelo escultor Mario Toffetti. Os pais do recém-nascido receberam a comunhão das mãos do Santo Padre. (Carmen Elena Villa)

 

Bento XVI apresenta modelo batismal de sociedade: a fraternidade
Nos reconhecemos irmãos ao reconhecermos que há um único Pai

CIDADE DO VATICANO, domingo, 10 de janeiro de 2010 (ZENIT.org).– A fraternidade, explicou o Papa neste domingo, constitui um modelo de sociedade fundamentado na consciência de que “todos somos filhos de um único Pai”. “Nossa condição de filhos de Deus”, explicou o Papa, se faz realidade pelo sacramento do Batismo, pelo qual “o homem se converte verdadeiramente em filho, filho de Deus”, acrescentando que “do Batismo se deriva um modelo de sociedade: o de irmãos”. Falando da janela de seus aposentos aos fiéis e peregrinos presentes na Praça São Pedro, explicou: “A Fraternidade não pode ser estabelecida por uma ideologia, nem muito menos por decreto de qualquer poder constituído. Nós nos reconhecemos irmãos pela consciência humilde, mas profunda, de sermos filhos de um único Pai Celestial”. E explicou que, com o Batismo, “o propósito da existência do homem passa a ser atingir, de modo livre e consciente, aquele que é, desde o início, o destino do homem”. O sucessor de Pedro sintetizou o programa de vida inaugurado pelo Batismo com a fórmula: “Torna-te aquilo que és” – “este é princípio básico de educação da pessoa humana redimida pela graça”.

 

O mundo necessita redescobrir a alegria da fé, afirma Papa
Ao batizar 14 recém-nascidos

CIDADE DO VATICANO, domingo, 10 de janeiro de 2010 (ZENIT.org) .- O mundo “que com freqüência caminha tateando pelas trevas da dúvida”, necessita redescobrir a alegria da fé, disse Bento XVI neste domingo, ao batizar sete meninas e sete meninos na Capela Sistina. Este “é um grande dia para estes recém-nascidos”, disse o Papa na homilia, interrompida algumas vezes pelo choro dos bebês. “Com o Batismo” – afirmou – “participando da morte e ressurreição de Cristo, iniciam com Ele a alegre e emocionante aventura do discipulado”, acrescentando ainda que “Também em nossos dias, a fé é um dom que deve ser redescoberto, cultivado e testemunhado”. Dirigindo-se aos presentes, em especial aos pais e padrinhos, o Papa expressou seu desejo de que “o Senhor conceda a cada um de nós a graça de viver a beleza e a alegria de sermos cristãos”. Assim, segundo ele, é possível introduzir os demais “na plenitude do compromisso com Cristo.” “O Batismo ilumina com a luz de Cristo, abre nossos olhos para Seu esplendor e nos introduz no mistério de Deus por meio da luz divina da fé”, acrescentou. Referindo-se ao papel dos pais e padrinhos, disse: “devem comprometer-se a alimentar, com palavras e o testemunho de suas vidas, a chama de fé destas crianças, para que esta possa iluminar o mundo”, concluiu.

 

Bento XVI: “Deus nasceu para que pudéssemos renascer”
Discurso de abertura à oração do Angelus

ROMA, domingo, 10 de janeiro de 2010 (ZENIT.org). – Publicamos o discurso que Bento XVI proferiu neste domingo por ocasião da oração mariana do Angelus, recitada em conjunto com os fiéis e peregrinos presentes na Praça de São Pedro. *** Caros irmãos e irmãs! Nesta manhã, durante a Santa Missa celebrada na Capela Sistina, administrei o sacramento do Batismo a alguns recém-nascidos. Este costume está ligado à festa do Batismo do Senhor, com o qual se conclui o tempo litúrgico do Natal. O batismo sugere muito bem o significado global da celebração do Natal, em que o tema de nos tornarmos filhos de Deus por meio da vinda de Seu Filho unigênito em nossa humanidade constitui um elemento dominante. Ele se fez homem para que possamos nos tornar filhos de Deus. Deus nasceu para que nós pudéssemos renascer. Estes conceitos são constantemente retomados nos textos litúrgicos natalinos e constituem um tema entusiasmante para a reflexão e a esperança. Pensemos no que escreve São Paulo aos Gálatas: “Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sujeito à Lei, para resgatar os que eram sujeitos à Lei, e todos recebermos a dignidade de filhos.” (Gálatas 4, 4-5), ou mesmo São João, no prólogo de seu Evangelho: “A quantos, porém, a acolheram, deu-lhes poder de se tornarem filhos de Deus: são os que crêem no seu nome” (Jo 1:12). É este mistério maravilhoso que constitui nosso “segundo nascimento” – o renascimento de um ser humano a partir do “alto”, de Deus (cf. Jo 3, 1-8) – é realizado no signo sacramental do batismo. Por este Sacramento, o homem se torna realmente filho, filho de Deus. A partir de então, o propósito da sua existência passa a ser atingir, de modo livre e consciente, aquele que é, desde o início, o destino do homem. “Torna-te aquilo que és” – é o princípio básico de educação da pessoa humana redimida pela graça. Tal princípio apresenta muitas analogias com o crescimento humano, no qual a relação dos pais com as crianças, passando, através de crises e desencontros, da total dependência à plena consciência da condição de filho, à gratidão pelo dom da vida recebida, até a maturidade com a capacidade de conferir o dom da vida. Gerado pelo batismo para uma nova vida, também o cristão inicia sua jornada de crescimento na fé que o levará a invocar conscientemente Deus como “Abbá – Pai”, voltando-se a Ele com gratidão e vivendo a alegria de ser seu filho. Do batismo também é derivado um modelo de sociedade: o de irmãos. A Fraternidade não pode ser estabelecida por uma ideologia, nem muito menos por decreto de qualquer poder constituído. Nós nos reconhecemos irmãos pela consciência humilde, mas profunda, de sermos filhos de um único Pai Celestial. Como cristãos, graças ao Espírito Santo que recebemos no Batismo, temos a graça de viver como filhos de Deus e como irmãos, para assim sermos o “fermento” de uma nova humanidade, solidária e rica de paz e de esperança. Para isto, nos ajuda ter consciência de que, além de termos um Pai no céu, temos também uma mãe, a Igreja, para a qual a Virgem Maria será um modelo para sempre. A ela confiamos as crianças recém-nascidas e suas famílias, e pedimos para todos a alegria de renascer a cada dia “do alto”, do amor de Deus, que faz de nós seus filhos e irmãos.

 

FESTA DO BATISMO DO SENHOR
Lc 3, 15-16. 21-22 “Este é o meu Filho amado, que muito me agrada”

Hoje, no Domingo seguinte à Epifania, celebra-se a Festa do Batismo do Senhor. O batismo de Jesus por João Batista no Rio Jordão é tão importante teologicamente que é tratado por cada um dos quatro evangelistas, cada qual da sua maneira, dependendo da situação da sua comunidade e dos seus interesses teológicos. A história logo se tornou um problema para os primeiros cristãos, pois levantava a questão de como Jesus, sem pecado, podia ter sido batizado num ritual de purificação dos pecados. Por isso, Mateus deixa fora a referência de Mc 1, 4 ao perdão dos pecados, a adiciona os vv. 14 e 15. Para João, o batismo era tão difícil de ser harmonizado com a sua cristologia, que omite qualquer referência ao atual evento, e no seu lugar, faz com que João Batista indica Jesus como o “Cordeiro de Deus” (Jo 1, 29-34). O texto já nos apresenta o programa da vida e missão de Jesus. Lucas se destaca pela insistência em situar Jesus como membro do seu povo – identificando-se com aquela camada do povo marginalizada e menosprezada como “impuro” pela teologia oficial, atrelada ao poder político das elites. Como disse o saudoso Padre Alfredinho, fundador da Fraternidade do Servo Sofredor: “No dia do seu batismo, Jesus entrou na fileira dos excluídos para nunca mais sair dela!” Com o seu batismo, Jesus assume a fidelidade radical à vontade de Deus. O significado disso será mostrado ao longo do Evangelho. Também Jesus, unindo-se aos pecadores, já está, desde o começo, rejeitando a visão de um Messianismo triunfalista. Os sinóticos ressaltam o fato que “o céu se abriu”. Marcos é o mais contundente quando enfatiza que “os céus se rasgaram”. É uma maneira simbólica de expressar que em Jesus acontece a união definitiva entre o céu e a terra (At 7, 56; 10, 11-16; Jo 1, 51) e uma revelação celeste (Is 63, 19; Ez 1, 1; Ap 4, 1; 19, 11). A revelação maior é a confirmação da identidade de Jesus como o Servo de Javé. Mateus, escrevendo num ambiente de polêmica contra o judaísmo formativo do fim do primeiro século, muda a tradição original (Mc 1, 9-11), mantida por Lucas, onde as palavras do Pai se dirigiam a Jesus, para dirigi-las aos ouvintes: “Este é o meu Filho muito amado, aquele que me aprouve escolher” (v 17). Em ambas as tradições, essas palavras associam a terminologia de Sl 2, 7, que repete a profecia de Natã em 2Sm 7, 14 (tu és meu filho…) a Is 42, 1 (meu bem amado que me aprouve escolher). A passagem de Isaías apresenta o Servo que não levanta a voz (42, 2), nem vacila, nem é quebrantado (42, 4). (A tradução grega da Septuaginta usou uma palavra que podia expressar tanto os termos hebraicos para “filho” e para “servo”). Fazendo fusão desses textos do Antigo Testamento, o texto une em Jesus duas figuras proféticas – a do Filho da descendência real davídica e do Servo de Javé. Assim, prevê que o messianismo de Jesus implica a vocação do Servo Sofredor, e rejeita pretensões messiânicas triunfalistas. Podemos dizer que o Batismo é para Jesus o assumir público da sua missão como Servo de Javé. A voz do céu confirma a sua opção de vida. O Pai confirma que Ele reconhece Jesus, desde o início do seu ministério público, como seu Filho (Sl 2, 7), seu bem-amado, objeto da sua predileção. Um dos sentidos mais importantes do nosso batismo também é o nosso compromisso público com a vontade do Pai. Todos nós podemos sentir a veracidade da mesma frase usada pelo Pai diante de Jesus – cada um de nós também é verdadeiramente filho(a) do Pai celeste (1Jo 3, 1), a quem aprouve escolher-nos. Nada pode fazer com que o Pai abandone esse amor incondicional e gratuito – nem a nossa fraqueza, nem o pecado (Rm 8, 39). Importante é reconhecer que Deus nos amou primeiro, incondicionalmente, e cabe a nós responder a este amor gratuito por uma vida digna de filhos e filhas do Pai, no seguimento de Jesus (cf. 1Jo 4, 10-11). Jesus não achou privilégio ser o amado do Pai, mas assumiu as conseqüências – uma vida de fidelidade, que o levava até a Cruz – e a Ressurreição (Fl 2, 6-11). Celebrando essa festa litúrgica, renovemos o compromisso do nosso batismo, comprometendo-nos com o seguimento do Mestre, no esforço de contribuir à criação do mundo que Deus quer, um mundo onde reinam o amor, a justiça e a verdadeira paz. O nosso batismo confirma que somos parceiros de Deus no ato permanente de criação, fazendo crescer o Reino dele, que “já está no meio de nós” (Mc 1, 14).

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