I Domingo da Quaresma – Ano A

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Por Mons. Inácio José Schuster

As famosas tentações de Jesus, que são nossas tentações também, e que com Sua graça, queremos vencer, ao longo desta quaresma. Três foram as tentações de Jesus, logo após o Batismo de João, induzido pelo Espírito Santo ao deserto, a realizar uma espécie de retiro preparador de Sua vida Apostólica, de Sua pregação do Reino de Deus, Seu Pai. Três tentações de Cristo e nossas também. A primeira tentação de Cristo, a do prazer fácil. Ele não podia multiplicar pães? Ele não faria esse milagre no decorrer de Sua vida terrestre, ou vida pública? Ele não poderia saciar a si mesmo, pois seria capaz de saciar a fome de cinco mil pessoas? “Ordeneis que estas pedras se transformem em pães”. Existe para nós a tentação do prazer fácil, a de Jesus foi servir da própria divindade para satisfazer o prazer da comida, seu estomago estava vazio. “Nem só de pão vive o homem, mas de toda Palavra que vem de Deus”. Nós também corremos o risco de buscar um sem número de prazeres na existência. Não que os prazeres sejam errados, ou ofendam a Deus, mas eles são fáceis demais e podem ser considerados a meta da própria existência, e é fácil a criança passar de uma montanha de brinquedos ao sexo, sem nenhum controle. O prazer quando é desenfreado, quando não conhece limites, é um empecilho para se chegar a Deus. Existem pessoas que vivem literalmente à busca de prazeres. Ele se transforma num ídolo, num pequeno, ou substituto deus. A segunda tentação de Jesus foi a tentação da fé fácil. Nós também somos tentados assim. Não gostamos que Deus fique silencioso, durante o nosso peregrinar terrestre. Não gostamos que Ele se intrometa em nossas vidas. Que Deus deixe as pedras em nossos caminhos a ferir os nossos pés. Deus nos deixa, a primeira vista, Ele nos abandona, a ver até onde vai a nossa perseverança. Esta tentação nos traz algo de bom no seu bojo: para vermos até onde confiamos Nele, e até que ponto nos entregamos a Ele. A última tentação de Jesus, que é também nossa, foi a tentação do poder. O tentador, grotescamente, lhe ofereceu todos os reinos deste mundo, com uma condição: que o adorasse. Quantos não são aqueles que lutam para se parafusarem à uma cadeira de deputado, de governador ou de presidente de alguma associação, qualquer que seja, contanto que se mande, e esteja acima de outros, que tenha “o cetro do poder”. Três tentações, de Cristo e nossa também. Ele nos oferece a Sua graça, para que, nesta quaresma e ao longo de nossas existências, não cedamos à tentação do prazer fácil, da fé fácil e do poder sem limites.

 

Sobre a tentação escreve São Gregório Magno: “Sabemos que na tentação, há três graus ou fases: a sugestão, a atração, o consentimento. E nós, quando somos tentados, nós vamos geralmente até a atração, ou mesmo até o consentimento. Pois, nascidos da carne do pecado, trazemos em nós mesmos o combate que devemos manter. Mas Deus que, encarnado no seio da Virgem, veio ao mundo isento de pecado, não trazia em si nenhuma contradição. Ele pode ser tentado até à sugestão, mas a atração maldosa não teve nenhum lugar em seu espírito. Por isso toda esta tentação diabólica se passa no exterior, não no interior”. Jesus foi conduzido pelo Espírito Santo a dedicar quarenta dias e quarenta noites à oração e ao jejum no deserto. Por que é que Jesus foi compelido a buscar a solidão? Era, simplesmente, o desejo de se preparar para a sua missão ou era por que o diabo queria atraí-lo para tentá-lo? A palavra “tentar” significa na Bíblia, não só atrair para o pecado, mas também purificar e provar para ver se alguém já está pronto para sua missão. Abraão, por exemplo, é tentado para provar sua fé.  O diabo, que aponta para aquele que divide, que desune, quer provar Jesus. Jesus o vence porque está em total comunhão com o Pai e Nele coloca toda sua confiança. A obediência de Jesus ao Pai e a liberdade com a qual abraça a cruz invertem o curso da desobediência de Adão. Sua vitória sobre o pecado e a morte concede-nos não só o perdão para nossos pecados, mas nossa adoção como filhos e filhas de Deus. Jesus está pronto para derramar o Espírito, que nos dará força e coragem para resistir ao pecado e rejeitar as mentiras e atrações do Inimigo. É a atração do poder, do prazer e da glória, que é vencida. Tal poder será manifestado pelo Filho ao longo de sua missão, não unicamente pelos milagres, mas particularmente pela poder da Palavra que converte os corações e renova a vida dos que acolhem Jesus.

 

ESCOLHE, POIS, A VIDA

Estamos refletindo o quanto Deus nos ama, e o que Ele fez para nos salvar. Foi Deus quem realizou a criação, a natureza tão linda. Toda a obra saída das mãos de Deus canta a glória de Deus. Olhar para a natureza e não ver sinais da bondade e ternura de Deus é quase impossível. Deus criou o paraíso terrestre para nele habitar com o homem. Nós somos criaturas, pessoas limitadas, a todo momento estamos verificando nosso limite. Nem sempre conseguimos levar a frente o nosso propósito. Todos nós somos criaturas e somos limitados, mas nós não gostamos de nos reconhecer limitados. Todos nós sem exceção somos limitados porque somos criaturas, nós saímos das mãos de Deus, das mãos do criador. Muitos de nós reclamamos que Deus não nos ajuda, isso é mentira, é uma injustiça contra Deus. Pois Deus nos criou para viver no paraíso. Todos nós temos duas opções na vida, a árvore da vida e a árvore do bem e do mal. E qual foi a sedução do maligno? Seduziu a mulher da árvore da vida e os arrastou para a árvore do mal. A grande tentação é o homem não aceitar ser criatura, mas ser como Deus. Ainda hoje o homem sofre essa tentação de querer ser como Deus, e isso produz uma cultura de morte. Apesar do homem ter querido viver sua vida sem Deus, Deus não desistiu, o Senhor foi atrás do ser humano, deu a vida e nos salvou. Nós hoje podemos resistir, não precisamos fazer o caminho que Adão e Eva fizeram. Nós podemos fazer um caminho diferente, podemos tomar uma decisão de estar com Deus. ‘A oração é o oxigênio da alma para vencermos as tentações diabólicas’. A oração é o oxigênio da alma para vencermos as tentações diabólicas. Nossos primeiros pais no paraíso optaram pela morte, eu e você, todas as vezes, que não nos deixamos ser conduzidos pelo Senhor optamos pela morte. E dentro de nós há um grito pela vida. Hoje é domingo da “tentação”, pois Jesus foi tentado pelo demônio. A Igreja nos ensina que Jesus conduzido pelo Espírito Santo deixou-se ser tentado pelo demônio para dizer que assim como nosso Senhor venceu o inimigo, também nós, cheios do Espírito Santo com Jesus, venceremos as tentações. O demônio veio tentar Jesus quando Jesus sentiu fome. A tentação de nós nos acomodarmos. Muitas vezes estamos desanimados e corremos a tentação de cruzar os braços, e aí vem a tentação e vamos desanimando da vida. Não podemos ficar parados, quem fica parado, aceita qualquer coisa que aparece por aí. Na segunda tentação o demônio levou Jesus no templo mais alto para que ele pulasse dali de cima. Quantos de nós estamos provando a Deus e colocando Deus na parede. Não temos direito de colocar Jesus na parede. Deus não nos cura porque a gente merece, Deus nos cura porque nos ama. A terceira tentação o demônio disse para Jesus o adorar que ele daria o reino a Jesus. Não podemos nos colocar no lugar de Deus. E nem podemos adorar a não ser a Deus. Tudo que eu coloco no lugar de Deus me escraviza. As tentações que o Senhor passou e venceu, se estivermos com Ele também passaremos e venceremos.

 

I Domingo da Quaresma
Gênesis 2, 7-9; 3.1-7; Romanos 5, 12-19; Mateus 4, 1-11

O demônio, o satanismo e outros fenômenos relacionados são de grande atualidade e inquietam frequentemente a nossa sociedade. Nosso mundo tecnológico e industrializado está repletos de magos, bruxos urbanos, ocultismo, espiritismo, escrutinadores de horóscopos, vendedores de feitiços, de amuletos, assim como de autênticas seitas satânicas. Expulso pela porta, o diabo entrou pela janela. Ou seja, expulso pela fé, voltou a entrar com a superstição.
O episódio das tentações de Jesus no deserto, que se lê no primeiro domingo da Quaresma, ajuda-nos a oferecer um pouco de clareza a este tema. Antes de tudo, existe demônio? Isto é, a palavra “demônio” indica de verdade alguma realidade pessoal, dotada de inteligência e vontade, ou é simplesmente um símbolo, um modo de falar que indica a soma do mal moral do mundo, o inconsciente coletivo, a alienação coletiva e coisas pelo estilo? Muitos, entre os intelectuais, não crêem no demônio segundo o primeiro sentido. Mas se deve observar que grandes escritores e pensadores, como Goethe ou Dostoievski, levaram muito a sério a existência de satanás. Baudelaire, que não era certamente trigo limpo, disse que «a maior astúcia do demônio é fazer crer ele que não existe».
A principal prova da existência do demônio nos evangelhos não está nos numerosos episódios de libertação de possessos, porque na interpretação destes fatos pode haver influência de crenças antigas sobre a origem de certas doenças. Jesus tentado no deserto pelo demônio: esta é a prova. Provas são também os muitos santos que lutaram em vida contra o príncipe das trevas. Não são Quixotes que brigam contra moinhos de vento. Ao contrário: foram homens e mulheres concretos e de psicologia saudável.
Se muitos acham absurdo crer no demônio, é porque se baseiam em livros, passam a vida em bibliotecas ou no escritório, enquanto o demônio não se interessa por literatura, mas pelas pessoas, especialmente os santos. O que pode saber sobre satanás quem jamais teve nada a ver com sua realidade, mas só com sua idéia, isto é, com as tradições culturais, religiosas, etnológicas sobre satanás? Esses tratam habitualmente deste tema com grande segurança e superioridade, liquidando tudo como «obscurantismo medieval». Mas trata-se de uma falsa segurança. Como se alguém deixasse de temer o leão aduzindo como prova o fato de que viu muitas vezes sua imagem e jamais lhe deu medo. Por outro lado, é totalmente normal e coerente que não creia no diabo quem não crê em Deus. Seria até trágico se alguém que não crê em Deus acreditasse no diabo!
O mais importante que a fé cristã tem a dizer-nos não é, no entanto, que o demônio existe, mas que Cristo venceu o demônio. Cristo e o demônio não são para os cristãos dois princípios iguais e contrários, como em certas religiões dualistas. Jesus é o único Senhor; satanás não é senão uma criatura que «se perdeu». Se lhe concede poder sobre os homens, é para que estes tenham a possibilidade de fazer livremente uma escolha e também para que «não se ensoberbeçam» (2Cor 12, 7), crendo-se auto-suficientes e sem necessidade de redentor algum. «Que loucura a do velho satanás – diz um canto espiritual negro. Atirou para destruir minha alma, mas errou o tiro e destruiu por outro lado o meu pecado.»
Com Cristo não temos nada a temer. Nada nem ninguém pode fazer-nos dano se nós não quisermos. Satanás – dizia um antigo padre da Igreja –, após a vinda de Cristo, é como um cão atado na árvore; pode latir e balançar quanto quiser; se não nos aproximamos, não pode morder. Jesus no deserto se libertou de satanás para libertar-nos de satanás! É a gozosa notícia com a qual iniciamos nosso caminho quaresmal para a Páscoa.

 

Há realidades que devem entrar “pelos olhos adentro”, como costumamos dizer. Neste domingo, os fiéis deverão perceber-se de que a igreja se “vestiu” de Quaresma. A cor litúrgica é o roxo. No altar e no presbitério, está somente aquilo que deve estar. Nem flores. Os instrumentos musicais irão tocar, somente para acompanhar o canto da assembléia. De tal maneira, que haja o sentimento de que até ao edifício (igreja) foram impostas as cinzas.
Para muitos fiéis, somente neste domingo iniciam o seu itinerário quaresmal, porque não tiveram possibilidade de participar na celebração de quarta-feira de Cinzas. Com expressões litúrgicas, poderemos explicar, brevemente, o que é a Quaresma e como celebrá-la e vivê-la. A Quaresma é um tempo da vida cristã que supõe um certo esforço espiritual. É um caminho e um tempo de purificação que têm como finalidade à purificação dos pecados: “para que, fiéis à observância quaresmal, (os fiéis) mereçam chegar, de coração purificado, à celebração do mistério pascal do vosso Filho”; para que reconhecendo que somos pó da terra e a terra havemos de voltar, alcancemos, pelo fervor da observância quaresmal, o perdão dos pecados e uma vida nova à imagem do vosso Filho ressuscitado” (Bênção das cinzas). A observância quaresmal concretiza-se em obras de “penitência” e em “obras de caridade”; com o jejum: Jesus, “jejuando quarenta dias, santificou a observância quaresmal” (Prefácio do 1º domingo); seguindo o exemplo de Cristo e uma vida sacramental mais intensa, porque “é este o verdadeiro jejum agradável a vossos olhos” (Oração depois da Comunhão, quarta-feira de cinzas).  Resumindo, tudo aquilo que nos ajude a “alcançar maior compreensão do mistério de Cristo” (Oração Coleta do 1º domingo). Neste domingo, é importante fazer uma pequena Catequese sobre o que é a Quaresma e sobre o modo de viver a penitência (jejum), a oração (não esquecendo a leitura da Sagrada Escritura) e a prática da caridade. Seria bom fazer um programa paroquial para ajudar os fiéis a viver este tempo de graça.
“As leituras do Antigo Testamento referem-se à história da salvação, que é um tema fundamental da catequese quaresmal”. Assim, é apresentada “uma série de textos que nos fornecem os elementos principais desta história, desde o seu início até à promessa da nova aliança” (n. 97). Neste domingo, as leituras começam pelo Livro do Gênesis, que nos recorda a obra admirável da criação e também a infidelidade do homem a Deus Criador, quase desde o início. A 1ª leitura é completada pela 2ª leitura, da Carta aos Romanos, onde São Paulo faz uma catequese sobre a obra do 1º Adão e as graças de Cristo, o 2º Adão.
Jesus encontra-se no deserto, jejuando quarenta dias e quarenta noites. Pelas suas palavras e pelo seu testemunho, sentimos que, em comunhão com Ele, venceremos toda a tentação de infidelidade ao nosso Deus. Jesus vence as mesmas tentações do Povo de Israel, quando atravessou o deserto: teve fome e foi necessário recordar que nem só de pão vive o homem; adorou outros deuses e foi necessário recordar que só a Deus se deve prestar culto; por fim, pôs Deus à prova em Massa. Jesus venceu estas tentações, para que, com Ele e com a Sua Palavra, possamos “vencer as tentações do pecado” e as “insídias da antiga serpente” (Prefácio do 1º domingo). É bom não perder de vista a mensagem que nos é dada a Oração depois da Comunhão deste domingo: “Saciados com o pão do céu, que alimenta a fé, confirma a esperança e fortalece a caridade”, “ensinai-nos a ter fome de Cristo… e a alimentar-nos de toda a palavra que da vossa boca nos vem”.

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