Por que não há Missa na Sexta-feira Santa?

cruz

Por Mons. Inácio José Schuster

Na Sexta-feira Santa não há Missa, porque é um dia antilitúrgico. O altar é desnudado para se refletir sobre a Morte de Cristo, sobre Sua passagem na cruz.
Nesse dia há apenas a celebração da Paixão de Cristo, na qual vai haver um momento da celebração da Palavra, da adoração da cruz e da comunhão, a qual já é consagrada um dia antes (na Sexta-feira não há o ato da consagração).
A comunhão é dada somente nessa celebração; fora dela, apenas para as pessoas que se encontram em limitação por doença e não podem participar dela [celebração] é que podem recebê-la.

SEXTA-FEIRA SANTA
Como é a sexta-feira santa?

Na sexta-feira santa, celebramos a morte de Jesus como passagem necessária para a ressurreição; é uma lembrança cheia de esperança e de certeza da vitória. É um dia centrado na cruz, não com ar de tristeza, mas de comemoração, uma vez que Cristo Jesus, como Sumo Sacerdote, em nome de toda a humanidade, se entregou voluntariamente à morte para salvar a todos nós.
Neste dia, não há missa em nenhuma igreja. O ato litúrgico principal da sexta-feira santa é a celebração da paixão do Senhor, à tarde. É uma cerimônia simples e silenciosa, durante a qual se propõe à meditação dos fiéis a paixão do Senhor, proclamada com solenidade toda particular.
As leituras desse dia mostram a coragem com que Cristo enfrenta a dor e a morte. No fim, faz-se a oração pelas necessidades materiais e espirituais de toda a humanidade. Após a oração universal, o sacerdote convida para a veneração à santa cruz, que simboliza a paixão de Cristo e seu amor infinito por nós. Terminada a adoração da cruz, reza-se o pai-nosso como preparação para a comunhão.
Como nesse dia não há propriamente missa, as sagradas partículas distribuídas no momento da comunhão são trazidas do altar da reposição ou altar do Santíssimo, onde foram consagradas durante a missa da quinta-feira santa. Após a comunhão, termina a cerimônia desse dia, cada um tem a oportunidade de se unir intimamente ao Senhor que deu a vida por nós. Ao término da celebração, a cruz fica exposta à veneração dos fiéis. Em meio ao clima de tristeza desse dia, começa a despontar a esperança e a aurora da ressurreição.
O exercício da via-sacra, na sexta-feira santa, constitui uma tradição arraigada no povo cristão, desde os primórdios da Igreja. Cabe às paróquias e comunidades prepará-la com antecedência e participar dessa cerimônia com muito espírito de fé. Em geral, o exercício da via-sacra termina com o sermão das sete palavras, que ajuda os cristãos a compreender o sentido da morte do Senhor para si próprios e para o mundo inteiro. São um estímulo à conversão e ao compromisso.
O sermão das sete palavras relembra as últimas palavras de Jesus, pronunciadas do alto da cruz, sendo que cada uma delas nos revela um aspecto peculiar do mistério da paixão. São estas:

1. “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34).
2. “Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23,43).
3. “Mulher, eis aí teu filho. Filho, eis aí tua mãe” (Jo 19,26-27).
4. “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mc 15,34).
5. “Tenho sede” (Jo 19,28).
6. “Tudo está consumado” (Jo 19,30).
7. “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46).

Na noite da sexta-feira santa, muitas pessoas ficam em oração diante da imagem de Cristo no sepulcro, como meio de manifestar e alimentar sua fé na ressurreição, que é onde encontramos o verdadeiro sentido da morte.

Como viver a sexta-feira santa?
Enquanto nos vemos mergulhados na lembrança da morte do Senhor, observamos à nossa volta como Jesus continua, hoje, morrendo em tantos irmãos, vítimas de nosso egoísmo e das estruturas injustas que maltratam ou destroem a vida. No entanto, alimentamos a certeza de que a ressurreição e a vida triunfarão sobre a violência e sobre a morte.
Enquanto Jesus verte até a última gota de seu sangue para se solidarizar com nossa condição de fragilidade e de pecado, nós, membros de seu Corpo Místico (que é a Igreja), continuadores de seu projeto, não podemos permanecer indiferentes, tranquilos. A morte do Senhor tira-nos do individualismo e nos faz passar de um coração carnal para um coração sensível, humano e solidário.
Como poderemos passar esse dia, tão grande no significado, desinteressados pelos sofrimentos de nossos familiares, vizinhos, amigos ou pessoas que necessitam até do mínimo para viver?
A Igreja convida-nos ao jejum como expressão de penitência e solidariedade em relação à morte do Senhor. Para que nosso jejum também seja expressão de solidariedade em relação aos nossos irmãos, em cujas pessoas Cristo continua morrendo, saiamos a seu encontro oferecendo-lhes nossa ajuda, nossa dedicação.
Seria conveniente convidarmos à nossa mesa algumas pessoas ou famílias necessitadas, ou alguém com quem pretendamos reatar nossa amizade.
Nos grupos ou movimentos paroquiais, pode-se organizar uma coleta de gêneros em favor das famílias mais necessitadas. Nossa participação na tradicional via-sacra, nesse dia, não representa uma procissão qualquer, ou a participação numa peça teatral religiosa.
Vamos à via-sacra para acompanhar Jesus -revivendo com gratidão e amor sua paixão, descobrindo o sentido verdadeiro da cruz, se sabemos carregá-la com amor – e ajudar o próximo, dando um pouco de “vida” aos que estão à nossa volta.
Na celebração vespertina da paixão, renunciemos por amor ao Senhor, a todas as sementes de morte que existem em nosso coração, em nossa família, na comunidade e em nosso povo e peçamos a ele que transforme tudo isso em semente de vida e de esperança.
Quando chegar o momento da adoração da cruz, tenhamos presente que não estamos diante de um simples madeiro, mas sim que osculamos e nos curvamos diante da cruz banhada com o sangue do Redentor, o que constitui uma só realidade, pois, sendo ele quem deu a vida por nós, é a ele que adoramos e agradecemos.
Ao comungar, unamo-nos a Jesus, que dá a vida por nós, comprometendo-nos a renunciar a nosso egoísmo e ao mesmo tempo nos mostrando solidários em relação às pessoas nas quais Cristo continua morrendo em nossos dias: enfermos, pobres, esquecidos da sociedade.

FONTE: Como viver a semana santa – o sentido de cada dia – Equipe paulina – São Paulo – Editora Ave Maria – 1999.

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